sábado, 21 de janeiro de 2012

É só um quadro pendurado na parede

  Quando adolescente tinha uma amiga inseparável (tá, tinha algumas, mas uma mais que as outras). Porque a gente estudava na mesma sala, tinha a mesma idade, éramos muito parecidas (tinha gente que achava que até fisicamente), na escola só ficávamos juntas, quando uma faltava a outra é quem tinha que dar "satisfações", tirávamos inclusive as mesmas notas (mesmo quando a gente fazia a prova sozinha de verdade!), dormíamos uma na casa da outra, matávamos aulas juntas, éramos convidadas para as mesmas festas...só saíamos juntas. Enfim, amizade bem típica de adolescente.

  Até que um ano minha amiga mudou de escola, nesse período uma amiga até então "nossa", foi promovida a "minha nova" amiga inseparável , porque eu e a "antiga" amiga já não nos víamos mais com frequência (escolas diferentes, amigos diferentes, horários diferentes) ela se mudou de casa, eu não tinha o novo telefone (numa época jurássica, sem internet), enfim...até não vê-la mais. Eventualmente eu encontrava com alguém da família dela (mãe, irmã, avó), perguntava por ela, mandava "lembranças", mas  porque não a via e não era procurada por ela (já que ela tinha meu telefone e endereço) passei a também não procurá-la mais. 

  Mas, volta e meia eu estava lá "frequentando" as minhas memórias, lembrava do dia do aniversário dela (17 de outubro, lembro até hoje!), lembrava de como ela era mais crítica do que eu (verdade. Existe alguém no mundo assim!), lembrava que também era mais tímida (perto dela eu era um ícone da popularidade e desinibição), das suas indicações de shampoo (já falei que nosso cabelo era igual?), de creme para acne (a pele também...), do professor que ela odiava, das nossas "piadas internas"...e por  lembrar de tanta coisa e ter saudades, um dia recomecei uma procura pela amiga de adolescência. Dia após dia, desbravando o google em busca dela, "joguei" seu nome uma centena de vezes, com diferentes versões e nada! O fato de não estar em nenhuma rede social não me surpreendeu, mas frustrou as minhas buscas... algum tempo depois,  achei tê-la visto na rua, mas estava de carro e vi muito rapidamente, podia não ser ela. Meses depois enquanto jantava com duas amigas (uma delas, aquela que foi "promovida", quando a , até então, inseparável deixou o cargo) ela passou na rua e essa amiga a reconheceu; saí louca, desesperada, correndo em busca da "amiga perdida"...

  Sim. Definitivamente era ela. Mas, de algum modo não era quem eu procurava...passados os primeiros segundos de "oi, lembra de mim?", ela até se lembrava, mas a euforia toda era só minha, a surpresa e a vontade de revê-la provavelmente também eram...até que a pergunta fatal desmascarou a farsa: - Então, já casou? ( Nunca, nunca uma "clone" minha, inseparável, amiga de dividir shampoo e exercícios de matemática me faria pergunta mais "nonsense"...entende que o problema não está na pergunta, mas no grau de intimidade que tínhamos para ela fazer tal pergunta? Não era um conceito nosso, entende? Esse tipo de pergunta só escuto de tia distante e ex-colega de escola. Então minha "amiga inseparável" foi para a sessão "ex-colega de classe", assim em segundos...) . E tudo aquilo que éramos e tínhamos? Bom, tinha, definitivamente, se tornado um belo quadro na parede e nada mais...

  Trocamos telefones, endereços (moramos em bairros bem próximos) e depois? Depois ficou, o que era pra ser: não nos telefonamos, não nos encontramos. Acho que por medo de descobrirmos e, fatalmente, isso ocorreria, que a fantasia que eu atribuía a ela e a que ela me atribuía não nos caberia mais. A "super melhor amiga" daqui e a de lá cresceram...e isso também é vida. Deixa o quadro lá intacto (ou quase), na parede tem alguma beleza...

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