sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Na casa, no coração, na vida...

  Das lembranças mais remotas que eu tenho (e das mais deliciosas) são as do meus finais de semana na infância. Todos eles em Chapéu (lugar em que minha mãe nasceu, meus avós, tios e primos moravam). Finais de semana bastante lúdicos (ficava exausta com tantas brincadeiras) e muito bucólicos (cheiro de orvalho da manhã, som do galo e passarinhos cantando, leite "direto da vaca"...).

  Mas dos meus passeios exploratórios  por Chapéu D'Uvas (nome e lugar lindos - permanentes na minha memória), lembro-me especialmente de uma casa meio suspensa, cozinha com fogão de lenha, telhado sem laje (sabe quando se vê as estruturas de madeira e as telhas? Bem casa de antigamente...), as paredes com algumas rachaduras (já estavam meio velhas talvez) e um quintal imenso (imagino que só na minha infância ele era realmente imenso), com árvores frutíferas (lembro das laranjas, mas acredito que ali também nasciam outras frutas...), lembro de uns bebedouros para pássaros (aqueles com flores artificiais, que eram abastecidos com água adocicada) nas árvores e as constantes visitas dos beija-flores. Lembro, principalmente de dois meninos, moradores da casa que eu acreditava ser mágica (era tão hospitaleira, tão aconchegante, tão cheia de surpresas. Eu gostava do seu aspecto, cheiro e sons...), eram dois irmãos bem diferentes, personalidades e aparências bastante individuais. 

  O menor era loiro, calado, bastante ágil e sempre estava às voltas com alguma descoberta da pequena fauna que se abrigava no seu quintal: o modo como os gatos fugiam de sua casa para a casa da avó vizinha; os beija-flores que vinham beber da água que eles distribuíam nos bebedouros;os cachorros recém -nascidos; enfim, era muito "ocupado", nossa comunicação ocorria basicamente nas suas explicações monossilábicas a respeito dos bichanos.

  O maior era moreno, tinha uns olhos pretos bem brilhantes e andava pela casa, pelo quintal, pelo lugarejo com bastante segurança e um certo ar "blasè" (mas ao contrário da primeira impressão, o garoto era bastante simpático com as visitas) era mais desinibido e tinha respostas muito rápidas e convincentes (sua agilidade era mais com as "palavras").Também me lembro dos seus dentes da frente "quebradinhos" (teria sido algum "incidente" no seu pequeno bosque particular?).

  Os meninos vestiam-se de maneira semelhante (entre eles e outros meninos - shorts, camisa de malha e um chinelinho de borracha), mas o mais velho, o moreno, imprimia um jeito singular em sua vestimenta (era mais engomado, mais arrumado, mais "alinhado"). Minha comunicação com ele era basicamente "coletiva" e "pública", não parecia que tínhamos muito em comum naquela época (talvez só os "laços genéticos").

  O lugar me encantava (a casa, o quintal), os meninos me encantavam (meninos felizes e sempre muito dispostos, especialmente aquele com quem eu  tinha "menos" afinidade). Tudo era encantado, naquela época: eu, a casa e o menino.

  O menino (o moreno), mais tarde se aproximou, ou teria sido eu a me aproximar do agora "quase rapaz"? Não sei exatamente como começou, mas lembro como se "fortaleceu". Foi em uma pequena viagem, para visitarmos uma tia, uma viagem divertidíssima de carnaval. Entre as "descobertas" da viagem, a mais incrível - o menino encantado era um adolescente "encantador". Nunca mais fomos distantes. A casa encantada, agora só permanecia na memória, mas o menino não. O menino passou a "frequentar" meu presente e mais tarde meu cotidiano.

  Os olhos brilhantes, sonhadores e a agilidade de pensamento permaneceu. O menino crescido veio nos fazer companhia durante sua árdua semana (entre trabalho e faculdade), minhas noites passaram a ter mais confidências, mais risadas e muito mais cumplicidade. Meu "novo irmão" se instalaria na minha casa e para sempre na minha vida e no meu coração. Nós demos quarto, cama e acolhida e ele nos deu orgulho, carinho e gratidão.

  Durante algum tempo o menino iluminou minha rotina, que já tinha sofrido com o pequeno afastamento da irmã mais velha (que foi para uma faculdade em uma cidade vizinha) e com a partida do irmão (que seguiria na busca pelo seu sonho para outras distantes cidades). A despedida fatalmente ocorreria, o menino não se contentou com os limites do seu quintal, com o do seu bairro; o rapaz não se contentou com os limites da escola do bairro vizinho; o homem  certamente não se contentaria com  os limites de um emprego, graduação e a cidadezinha (agora pequena para ele).

  Quando ele partiu, lembro de ter chorado (não sei se muito ou pouco), logo nos mudamos de apartamento  e recebia cartas dele diariamente, ainda pouco inserido no cotidiano da grande cidade que escolhera para conquistar. Acho que no ínicio foi sofrido para ele, mesmo sempre tão corajoso, e para nós já acostumados com a sua personalidade  única que "completava" a família. 

  Mas o sonho, as conquistas, a vitórias cotidianas do menino foram muito comemoradas por nós, especialmente por mim,  sempre tão encantada, pelo menino desde sempre encantador, aos meus olhos. Hoje o menino faz aniversário (já conta com mais de 30 anos.). Mas, é possível que eu lembre desta história todos os dias por bem mais de  três décadas, sem ao menos ser aniversário dele.  O menino até cresceu, mas para o meu coração e para a minha memória ele continua como o Peter Pan,  voando cada vez mais alto...menino encantado, irmão postiço e amigo para a vida inteira. Felicidade é pouco para quem já experimentou coisa parecida...





6 comentários:

Anônimo disse...

Eu só não vou te ligar agora pq minha voz se foi junto com todas as lágrimas q chorei! Foram lágrimas de saudade, emoção, alegria e nem sei q outros sentimentos. Mas chorei mesmo pq vc me fez lembrar de quem eu realmente sou: um menino engomadinho e conversado que tem uma família maravilhosa! Te amo prima amiga irmã!!!
Obrigado por transformar o meu dia em orgulho e alegria.

Amanda M. disse...

Ahhh lindinho...vc merece bem mais! Mas, às vezes é bom quando alguém nos lembra de quem a gente é, né? No coração, na casa, na vida no blog...ever!

Carla Machado disse...

Adoro o que ela escreve.... adorei o que ela escreveu do meu lindo priminho... lembro dele todos os dia, pois além de meu primo, é meu amigo, meu irmão, pessoa que eu posso ligar quando estou de porre e um orgulho para nós que o amamos tanto. Beijo para os dois: priminho e Didica.

Amanda M. disse...

Lindo ele, linda você. Gracias Mana! You are my sunshine...

Isabel Gomes disse...

Que lindo! Consegui visualizar a casa direitinho. Deu vontade de voltar a ser criança e brincar com vocês! ass: Bel

Amanda M. disse...

A casa já não tem mais. Mas brinca com a gente agora, Bel! rs