quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

E se o normal do ser humano é ser ridículo?

  Tanto trabalho por nada! Seguindo modas, consultando "dicas" de comportamento, escutando os últimos sucessos das paradas, se não para seguir, pelo menos para recusar e fazer a linha "descolado"... e de que valeu? Sentiu-se realmente confortável, natural e, principalmente, feliz? Foi eleito o mais popular, o mais bem vestido, educado e descolado e pra quê? Era mesmo você?

  Descendo a rua em que moro ouço mais uma vez (acho que pelo menos uma vez na semana isso se repete) uma música do Abba (a minha favorita "Dancing Queen"), mas não interpretada pelo Abba, aqui numa voz bem fanhosa, desafinada em último grau, numa língua irretocável de tão coerente com a interpretação, não pode ser inglês, mas acho que a tentativa era essa...ou não. Talvez a moça desafinada só estava lá sendo ela, para mim era péssimo, mas ela...ela só poderia estar muito confortável, senão não cantaria o resto do seu repertório. Hoje a voz é feminina, mas geralmente é masculina e igualmente desafinada. É que um vizinho é cantor de banda, dessas de formatura, então é bem eclético (tem Rosana de "Como uma deusa", sabe? "Emoções" do rei; Jota Quest..) tem de tudo um pouco, menos preocupação com o talento para música.

  Daí, eu penso mais uma vez (como todas, enquanto avalio o meu vizinho "showman"): - Ninguém nunca disse para ele que ele não canta nada bem? Esse cara não tem amigos? Amigos sinceros? Quem paga pra esse cara se apresentar no seu evento, estabelecimento ou o que for? Porque alguém paga, ou ele não ensaiaria tanto. Enfim...

  Mas quer saber, não se pode negar, animado ele é. Feliz(?) e por isso nenhum amigo sincero poderia "quebrar" o encanto do intérprete eclético...claro que já foi vaiado, claro que já debocharam, criticaram. O cara deve ter sofrido mais bullying que qualquer outro morador da rua, mas tá lá..não desistindo e ainda "agregando" outros cantores tão sem talento musical quanto ele, e daí? Tá fazendo o que gosta (ou melhor, ama) e não dá sinais de que qualquer tipo de reprovação algum dia o pertubou, porque na altura que chega os seus agudos (imitando Zezé di Camargo) dá para alcançar o Pasquistão. Depois do solo da vocalista, agora eles fazem um dueto do clássico "Total eclipse of the heart" e aí acontece a magia: inglês nenhum, afinação nenhuma, mas muita, muita naturalidade e afinidade.

  Olha, nem conheço tanta gente assim, mas qualquer um fora dos padrões (de beleza, comportamento, inteligência) me parecem mais felizes. Não sei se a alegria é consequência da ausência do "peso" que certos padrões estabelecem ou se em função de serem tão satisfeitos, desprezam certos limites, uma espécie de "licença" concedida a quem "se encontrou". Sou feliz, posso ser ridículo...talvez o "natural" seja mesmo ser ridículo. A gente é que vai seguindo a manada de antinaturais.

  O "showzinho" acabou com um grande sucesso do Roxette. Semana que vem tem mais. Acabou cedo, porque a escola de samba vizinha tem ensaio hoje. Mais uma "leva de felizes" cantando até altas horas...abençoados sejam esses "artistas (quase) ocultos".

"Total Eclipse of the Heart"

2 comentários:

Carla Machado disse...

Nossa... depois dessa vou passar a respeitar mais nosso vizinho... aliás... ele é a única pessoa que conheço que canta Roberto Carlos pior que Roberto Carlos... ah!!!! Vou continuar usando meu blush... é meu lado ridículo... melhor que sair cantando em inglês por aí sem nunca ter frequentado nem a turma da Val kkkk....

Amanda M. disse...

Pois é...acho que ele merece mesmo nosso respeito. Como cantor é difícil, mas como "gente" ele é admirável...