quarta-feira, 12 de junho de 2013

Quando a razão é dos outros

  E então eu me lembro do diálogo que ouvia no ônibus ainda ontem, são mulheres, falam alto e no ônibus vazio é  quase impossível não ouví-las, mesmo que eu não quisesse; mas a verdade é que eu sempre quero. Duas mulheres, possivelmente ambas mães, uma delas às voltas com as desobediências do herdeiro. A ouvinte, vez ou outra, interrompia a chorosa mãe com regulares pílulas de senso comum, entre elas, certamente a mais repetida desde Adão e Eva: - Não se preocupe é fase, logo passa. 
  Crianças mimadas têm disto; de cismarem, teimarem muito com algo que todos discordam até conseguirem. Poucos são os adolescentes que fogem do padrão da desobediência transitória somente para testar; testar pais, professores e a si mesmos. Porém há desobediência que não passa, que não se limita a fase específica do sujeito. As duas mulheres continuavam no exercício coletivo de pensarem na criação da prole, enquanto eu lá, do meu banco, completava mentalmente: - Nem sempre passa, se não passar, acostuma-se.

  Não. Eu não entendo de filhos, mas tenho total empatia pelos desobedientes, porque sofrem. Os pobres precisam lutar muito contra todas as opiniões discordantes, superar  os conselhos mais racionais, estatísticas, exemplos de insucesso e até um passado mal sucedido. E depois da escolha, se vão bem, ninguém mais se lembra do esforço de se manter uma ideia fixa, mas se vão mal, escutarão por muito tempo "eu te avisei".

  É manhã, ainda antes das nove, passo pela casa antiga, agora alugada por um centro médico de psiquiatria, passar ali todos os dias já deixou-me a impressão feliz de participar de uma obra surrealista, já fui pedida em casamento, já pediram cigarro, dinheiro e até carta de alforria (esta última foi das mais dolorosas piadas que já ouvi), já vi pacientes em uma tentativa frustrada de fuga em um carrinho de supermercado, já vi gente chorando, ouvi gargalhadas, músicas e até gritos. A casa no final da rua é evitada, desviada e frequentemente ignorada pelos transeuntes. Passo ali todos os dias e suspeito que a casa ganhou muito mais vida depois da sua nova função e a rua parece-me muito mais humana. 

  Hoje em frente a casa, um carro, e fora dele um jovem, quando me aproximo percebo a presença de uma mulher chorando e o jovem adulto gritando, se negando, com toda a potência de pulmão e garganta, a entrar no centro médico. Ela pequena, inconsolável, desesperada tentava levá-lo à força e quanto maior era o esforço da frágil mulher, que imagino ser a mãe do homem, mais altos eram os gritos dele. A casa que também acolhe dependentes químicos, era a personificação do inferno para ele e a possibilidade de ver a redenção de um filho para a mãe, que a cada grito parecia menor, mais fragilizada. Continuei minha caminhada e não vi o desfecho, ainda o vi entrando no carro, mas a mãe permanecia na dura batalha do lado de fora.

  Claro que este era um caso extremo em que a "razão dos outros" era infinitamente superior e evidente, mas frequentemente eles, os outros, tem mesmo razão. Redenção maior que a razão vinda de fora é a humildade e a aceitação de que nem sempre sabemos o que é o melhor para nós. Segui a rua e não olhei para trás, aquela era uma vida na qual eu não poderia intervir, mas uma sutil mudança se operou internamente. Agora, também tenho empatia por aqueles que insistem em tentar mudar as escolhas irracionais de seus amados. Não deve ser fácil ver alguém se perder e não fazer absolutamente nada.

  Antes de chegar em casa confiro o cronômetro, não marcou nem uma hora de caminhada, mas há uma outra em que empenhei ao menos uma década de vida, somente para voltar ao começo e tomar o outro rumo, àquele que achei que pertencia aos outros e, por isso, permaneci negando. Enquanto abro o portão admito sozinha em um desabafo confidencial: - Eles tinham razão. Admitida a culpa, alongo o corpo, estendo a alma, preparo-me para o recomeço.  Para mim, felizmente, ainda há tempo.



4 comentários:

Cristina disse...

Ahhhh!... Você e sua sensibilidade!... Adorei! Beijos

Ana disse...

Eu fui uma criança muito irrequieta, como costumo dizer, não era má educação, era personalidade forte!:)
beijo

Amanda M. disse...

Oh Cristina! Que bom que gostou...beijão!

Amanda M. disse...

Bem sei como são essas personalidades fortes...;)
Beijo