segunda-feira, 26 de agosto de 2013

De uma viagem

  E, de repente, em um carro apertado em uma viagem curta, com a paisagem de fora, as risadas de dentro, o sol na estrada, a súbita companhia de uma doce revelação, de que para conhecer alguém não é necessário tempo, convivência ou muitos momentos compartilhados. Para conhecermos, de maneira mais profunda, alguém, dependemos muito mais da nossa disposição, do que da receptividade alheia. Vale muito mais pensar que felizmente as pessoas são mais do que elas fazem, nos fazem, falam, escrevem. Dentro de cada um de nós, personagem inventado ou real, moram  tantos outros que eleger um único é matar, depois de tanto sufocar, todos os outros. Seja por influência de uma praticidade que a vida ao redor requisita, seja pelo próprio desconhecimento de outros caminhos, vez ou outra, nós nos perdemos em cruéis generalizações. Cada pessoa com quem nos relacionamos, não é um sujeito definido, pronto, mas é também fruto do nosso olhar sobre ela. As pessoas são também, o que escolhemos enxergar nelas e isto, tenho achado cada vez mais, que nunca são invenções nossas, ilusões perdidas, expectativas demasiadas, mas uma escolha nossa, um olhar pessoal sob uma perspectiva específica. O outro é também você. O outro é o seu olhar.

  Cada uma das pessoas no carro e as outras, depois fora dele, em alguma medida, me complementam e também me irritam. E isto faz parte do gostar. Quando o padre, na cerimônia, objetivo inicial da viagem, diz que o amor é paciente e generoso, eu compreendo-o, aceito e, finalmente, concordo. A amiga que agora casa, a outra que não quer casar nunca e aquela outra que sonha desesperadamente em fazê-lo; as três discordam em um aspecto, mas são todas um pouco do que eu também sou. Sentadas, enfileiradas todas em um mesmo banco, choramos porque alguém a quem queremos bem se compromete, se realiza e se disponibiliza a amar, mas, por outro lado, todas também choramos um pouco por cada uma de nós que todos os dias reafirmamos o nosso compromisso de paciência e generosidade com nós mesmas.

  A viagem de fora é a menos cansativa, extenuante, é a mais alegre e festiva, mas a de dentro, aquela que coloca-me em contato mais direto com cada uma das minhas frustrações, vitórias, experiências vividas e perspectiva do outro é a mais dura e também, sempre, a mais recompensadora. É ela quem possibilita um pouco de ar fresco e liberdade para os outros tantos personagens apertados aqui dentro e dentro dos outros. Só quem se dispõe a amar com todos os riscos  e desafios que o amor impõe pode ser feliz, só quem se lança em uma estrada, mesmo sem a certeza da trajetória, pode ver além.

  Triste é ver alguém por uma só perspectiva, triste é quem só se relaciona com o seu igual ou com uma parte apenas daquele que lhe parece igual. Triste e covarde. Nenhum personagem cabe em um só livro, somos mais que isso, todos nós. As possibilidades são infinitas, definir alguém em um perfil, palavra, texto ou comentário, é matar em si todas essas possibilidades. Para a riqueza do espírito e vida próspera, o melhor é sempre, como naquela música "ver além, do que se vê". O essencial das pessoas pode mesmo não mudar, mas a nossa percepção quanto essa essência pode sim ser outra. Que bom isto, de nunca ser um só.





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Do extraordinário

   Os olhos parados da mulher madura denunciam a longa espera, dessas esperas tão arrastadas, que  de repente, se esquece o motivo da expectativa. Dois mares profundos, sem a beleza da ondulação. Nada é mais triste. Queria eu ter o poder de tirá-la dali, daquela quietude enferma, uma doença sem nome e sem remédio e que de sintoma só a calmaria constante das suas águas. É segunda e seu cansaço já é de quinta. E essa sua espera que parece ser mais antiga que a própria vida. Primeiro precisava esperar pela felicidade de ir à escola; depois da escola primária, a verdadeira realização da adolescência, porque nada deveria ser mais alegre que a juventude; mais tarde, a expectativa pela vida adulta, trabalho, casamento, dois filhos saudáveis, até  parecer completa; até entender que entre parecer e ser, havia o obscuro túnel da expectativa.

  Os olhos parados da mulher esperavam por qualquer coisa que os atraíssem, que os surpreendessem, que respondesse as suas perguntas tão remotas, que justificasse uma espera tão dolorosa. Que, finalmente, a recompensasse por tamanha teimosia. Enquanto todos já tinham ido para cama, apagado as luzes, ela impassível, dura, forte esperava pelo sinal. Os olhos desgastados pela expectativa, pouco respondiam aos estímulos mais próximos, estavam voltados para o vazio do corredor distante, para a porta fechada, para as grades cerradas e muros quase intransponíveis. Olhos acostumados com o impossível que recusavam  as facilidades das aberturas.

  A mulher de olhos parados repetira, sem se dar conta, a leitura da "Mulher desiludida" de Beauvoir. Na terceira vez em que o leu achou que aquilo fosse um sinal. Lembrou da mãe já morta, da irmã distante, da filhinha que saíra de casa com uma imitação tosca de uma tiara de princesa e até da vendedora de cosméticos de qual há pouco se despedira. Todas esperavam como ela ou ela era a única que permanecia nessa espera? E se a mulher desiludida fosse ela?

  Os olhos daquela que um dia pretendera ser Capitu, na peça da escola, e desistira do papel, em favor da irmã mais nova, essa sim que desejava desde pequena ser atriz, agora olhavam para o que não fora. Arrependida pela concessão que fizera, pelo brilho do qual abriu mão, pelo desejo que nunca soube reconhecer. Livre do passado, continuava perseverante, embora sem tanta paixão, pelo que viria, pelo que de extraodinário a vida lhe devia. A mulher de olhos pacientes, boa filha, aluna esforçada, esposa leal e mãe afetuosa, mulher ajuízada e irmã generosa merecia que a sua espera tivesse algum sentido. 

  Noite de segunda-feira e o extraordinário que não chega, que não a liberta de si, nada para apascentar sua alma intranquila, nada que a salve da dureza de esperar. Atrás dos olhos parados, a inquietude da interrogação: - E se nunca acontecer? E se for só isto? Ofereço-lhe um copo de água, ela aceita, bebe e agradece, sem me retribuir sequer com um olhar, ocupado demais com o futuro. Naqueles mares, só a expectativa por dias melhores. Hoje é segunda e o tempo não me pareceu mudar. O extraordinário pulsa a sua frente, naquela mesma sala e ela nem vê.




sábado, 17 de agosto de 2013

Quando venta

   Eu ensaio diálogos que nunca chegarão a acontecer; imagino uma nova rotina que, no final, não chega. Preparo embates para um inimigo imaginário, compartilho a vida com o amigo idealizado. As linhas da folha nunca dão conta de um pensamento meu, quase sempre falta espaço e quando estão em abundância a ideia é que é pouca. A vida pensada é muito diferente, mesmo quando segue os passos ensaiados, quando chega a acontecer, o sentimento é outro. A vida que acontece fora tem um tempo diferente, ora é rápida, quando a gente deseja espera, ora é lenta, quando precisamos que passe rápido. Fazemos planos alimentares, contratos privados de aposentadoria, seguro de carro e casa, registramos testamento antes da morte, porque lutamos pela sensação de segurança; de que a vida em algum plano poderá ser controlada. Mas, no que realmente importa ela corre solta. Animal indomável, selvagem e indócil, a vida parece fugir desaforada para longe do seu dono; mentira que você a detém, mentira que ela segue suas vontades, ela é a única soberana.

  Já vi gente ser tão ferido, que um dia encontrou uma armadura e nunca mais a largou, depois a vida toda foi só se defender até do que era bom. Se não sabe o que é bom ou ruim, melhor é sempre partir do príncipio que é bom; desacreditar é presumir que é ruim. Ela pergunta como eu fui parar ali e eu digo que sei, mas minto para ela, eu não sei; ela também não sabe o porquê está, mas mente que sabe. Envergonhada conto do recomeço, a última frase  tem o tom do orgulho é quando paro de mentir. Não saber não é exclusividade minha, mas assumir, naquela sala, sou a única. Eu ainda me escondo dos outros, mas deixei de me esconder de mim; já não minto o que sou. Tenho aprendido a conviver com cada defeito, tenho assumido, sem falsa modéstia, as qualidades. Vez ou outra ainda falho, o aprendizado é longo e diário.

  Não sei como fui parar ali diante dela, eu fraca, pequena, quase humilhada. Pensei em inventar uma desculpa qualquer, sempre fui boa em criar estórias, mas faço meu exercício de humildade. Eu quase nunca fui humilde, mas desejo tanto ser, que eu poderia beijar-lhe os pés, mas não o faço; o exercício só está no início. Despeço sorridente, simpática e humilde. Humilde. Viu só? Eu disse que podia. Lá fora o vento cortante que enverga palmeiras, arranca folhas e eu sinto-me reconfortada, aquecida por me livrar de uma vergonha. A ventania leva minha humildade passageira, a rua é desconhecida para mim. Sozinha eu me recuso a perguntar, a revelar que estou perdida. Eu acho o caminho, eu sempre achei o caminho.

  Diferente da personagem de Tennessee Williams eu nunca dependi da bondade de estranhos. Porque sempre me faltou a humildade para um pedido. Acho o caminho de casa, o único que eu nunca perdi. De resto sou folha arrancada pelo vento, não sei definitivamente aonde vou parar, às vezes luto, vezenquando canso e deito ao vento,esperando que ele escolha por mim o caminho que eu não tenho conseguido encontrar. Tem dias que nesta cidade o vento é implacável, ontem foi um desses dias, amanhã talvez só venha brisa. Folha solta não espero nenhum dos dois. O que vier aceito, sem a humildade, que eu não pude ainda conquistar, mas aceito e isto já é um grande feito.





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Foi-se. E isto já é a resposta

  E esta velha mania de querer entender o porquê das coisas, vai matar-lhe, sabe? Mentira, não mata. Mas vai lhe fazer perder preciosas horas do seu dia, só tentando entender algo para o qual nunca cabe explicação possível. Não, eu definitivamente, não entendo nada da vida ou quase nada, mas tenho comigo o trato íntimo, que quase nunca quebro, de somente  perguntar o motivo de um só término: quando sou dispensada de um emprego. Só para isto, eu acredito, é que a pergunta cabe. Quem sabe é algo que eu possa melhorar, seja tecnicamente ou mesmo no trato pessoal, torço sempre para ser a primeira alternativa já que para esta o aprendizado rápido, antes do próximo emprego, é menos sofrido; se não para isto, com a pergunta já tenho a mínima noção se posso ou não colocar como referência à consulta, o emprego perdido. Para nenhuma outra despedida eu pergunto o motivo. Se disse adeus, eu respondo um melancólico e derradeiro adeus, sem mais.

  Não é por etiqueta social, tampouco medo de descobrir uma verdade cruel, mas se alguém decide que não deseja mais minha companhia eu respeito sua decisão. Discordar eu posso, lamentar, chorar, sofrer e até praguejar, mas querer entender o motivo é em vão; é empenhar sentimento e filosofia, para algo que já partiu. Tentar entender porquê alguém deixou de me amar ou mesmo deixou de querer estar comigo é tentar fazer a autópsia em algo demasiado imaterial; é querer abrir a alma de um outro sujeito à força.

  Nunca tem um porquê. Amar não nasce de uma explicação, não necessita de justificativa, nem metas, é só e simplesmente amar; deixar de amar também é feita desta mesma matéria-prima. Se era amigo e não é mais, se era amor e não é mais: paciência. Dói, mas passa. Destrói o que, mais tarde, volta a ser construído. No mundo dos sentimentos falar, explicar, analisar são verbos que já nascem falidos, todos morrem, nenhum sobrevive ao fim. E o fim acontece antes mesmo de qualquer despedida, antes de ir; quando alguém decide se despedir é porque já acabou e ninguém viu, nem aquele que se despede sabe quando, de fato, acabou; só mesmo se deu conta de que o amor  não mais existe. Não adianta culpá-lo, culpar-se, desacreditar no que foi; o que foi talvez tenha sido sim sincero, tenha desejado ser infinito e eterno, mas sentimento não tem dono, nem patrão. Sentimento não bate ponto, só faz hora extra quando quer, não se preocupa com metas, com colegas, nem com o bem comum; sentimento não reconhece contrato, nem carteira assinada; quem assina é o compromisso. Sentimento é livre, é substância gasosa, incolor, ninguém nunca esta preparado para a sua chegada, tampouco para sua partida; a primeira é quase sempre recebida com festa e a outra é funeral, mas ambas são uma coisa só, um sentimento que fez "folia em minha vida" e foi-se.

  Então, não peça explicações a quem foi, a quem um dia acordou de uma noite ainda feliz e disse adeus; não chame-o de mentiroso, não desacredite naquele amor, não o julgue desonesto ou egoísta.  Se dizerem adeus, aprenda: só retribua. Com ou sem explicações o amor já partiu. Deseje-lhe sorte e siga vivendo e não aprendendo, porque a última coisa que um amor em fuga faz é ensinar; com o novo aprenderá também e errará de novo. A vida dos sentimentos é mais complicada do que emprego novo, mas quem é que deixa de espalhar seu currículo pela cidade?



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A foto da primeira carta

  O rádio da cozinha era ligado assim que a mãe despertava; do quarto, da cama, eu ouvia de longe todos os dias a mesma música de abertura de um programa que nos fez companhia, no mínimo, por uma década. Fingia dormir, porque não gostava de levantar cedo, porque não me animava muito seguir para a escola. Com o som do rádio ao fundo, escovava os dentes, tomava banho, vestia roupa e sem dizer uma palavra tomava o café. A mãe ficava, o rádio também e, quase dormindo, eu ia para escola.

  Mais tarde, antes da mãe, a voz do rádio também me recebia. Depois de muitos anos, quando o silêncio se demora, ainda sinto falta de algo, de algum som familiar e logo lembro do rádio. É provável que a mãe sinta mais essa ausência do que eu. Dos programas que acompanhava durante a semana tinha um favorito, não lembro o nome, mas era uma espécie de classificados amorosos. Começava no final da tarde, início de noite. O ouvinte enviava uma carta ao programa, enumerava suas características, na maioria das cartas, uma coleção de predicados muito positivos e delimitava o perfil procurado. As mulheres procuravam, à época, "homens trabalhadores, honestos e com estabilidade financeira", elas tinham uma faixa etária pretendida mais ampla e quase nunca estabeleciam um padrão estético específico, para o anúncio podiam usar, ainda, um pseudônimo, que frequentemente variava em uma repetida combinação de  "A Apaixonada de..."; "A romântica de..."; "A solitária de...". Os homens eram menos genéricos, eram bem mais específicos, "mulher sem filhos e não-fumante", por exemplo; a maioria também não tinha pudor em descrever o seu biotipo ideal e delimitar uma faixa etária bem menos elástica. 

  Analisava cada anúncio, combinava possíveis pares, apontava os mais criativos, os perfis que atrairíam mais atenção. No caso das mulheres, julgava que os mais românticos e sensíveis teriam maior número de interessadas; no caso dos homens, as mulheres que fossem mais pragmáticas e específicas, poderiam agradar ao público masculino. Eventualmente, o locutor anunciava algum casamento, de algum casal formado com a mediação do programa. Os happy ends deviam dar alguma esperança aos solitários da cidade que anunciavam seus corações no programa de rádio. Mas de todos os anúncios, o que eu mais odiava era aquele, que ao fim da descrição detalhada do ouvinte e ao término do perfil pretendido traçado, trazia a observação infeliz do "Peço foto na primeira carta". Para essas cartas, torcia não haver sequer um ouvinte interessado.

  Entendia, naquela época, que alguma afinidade de gostos era possível estabelecer maiores chances dos relacionamentos se efetuarem de maneira mais harmoniosa, mas o grau de exigência, delimitação e, principalmente,  uma foto, já na primeira carta, poderia ceifar a possibilidade de um afeto nascer, em função de um detalhe, algo de menor importância. 

  Hoje, no corredor do prédio, enquanto esperava o elevador, uma mulher conversava com alguém ao celular e pedia para desmarcar um encontro em que seria apresentada a alguém pela amiga. E pedia, porque tinha visto o perfil do pretendente em uma rede social e achado o rapaz "baixinho". Lembrei do rádio ligado, dos anúncios e de cada perfil para o qual torci, na infância. Senti pela moça do celular o mesmo que sentia por cada ouvinte que pedia uma foto na primeira carta, a impossibilidade de ver além das suas próprias idealizações. A indisponibilidade para construir uma relação que ultrapasse o universo do imaginário. Pessoas reais surpreendem, mais do que desiludem. Pessoas reais ensinam novos gostos, possibilitam a nossa entrada ao mundo da descoberta, onde existem  músicas, filmes, valores, experiências diferentes das nossas, mas talvez tão boas quanto aquelas a que nos apegamos.

  Pedir foto na primeira carta, deixava claro as intenções do ouvinte: ele não queria amor; queria alguém pronto, perfeito, dentro dos limites de um padrão estético, para, somente a partir daí, caber nos seus sonhos. O programa de rádio acabou, a prática parece jurássica, mas as pessoas ainda exigem "foto na primeira carta", como alguém que faz compra pela internet. Pedir foto na primeira carta aborta afetos e limita o que deveria ser ilimitado. A foto da primeira carta assassina a possibilidade de uma sintonia bem mais importante do que costumamos imaginar. Bem, é o que eu acho.



domingo, 4 de agosto de 2013

Daquele jardim

  Eu sempre morei em apartamentos, eu nunca tive um jardim. Eu ainda moro em um apartamento e quase me contento com o modesto jardim do prédio, cuidado por um jardineiro profissional. Da minha janela, acompanho seu trabalho semanal, invejo o único homem que toca as rosas, que poda os pequenos arbustos e  mantém as bromélias afastadas da umidade demasiada. Queria eu, sobretudo neste ambiente urbano, ter como trabalho o trato com a terra, água e as flores. Não sou a única que contempla o trabalho do homem, dia desses um vizinho atravessou o túnel dos suspiros guardados e confessou ao jardineiro invejar o seu trabalho. O pequeno homem, do meu jardim, não se envaideceu minimamente e respondeu com total desprezo que entregaria tal trabalho a quem quisesse fazê-lo. Ofendidas eu e as rosas perdemos um pouco da cor.

Eu moro em um apartamento, mas sempre encontrei algum jardim em que eu pudesse me refugiar. Do primeiro deles ainda lembro exatamente a disposição das hortênsias, das pedras brancas que ornamentavam a terra escura, das rosas amarelas, dos gerânios alaranjados; da sua população invisível a tantos olhos, as lagartas no casulo, as breves borboletas, joaninhas, minhocas e caramujos; sinto ainda nas mãos a terra úmida, os arranhões de cada espinho, o cheiro das rosas e o toque macio das minhas flores favoritas - hortênsias.

  A vida em um jardim, de longe, é só bonita, mas por dentro é bonita e também difícil. A sinceridade do jardineiro me contrariou, mas só quem viveu junto das flores coloridas, sabe o quão duro é mantê-las bonitas. É preciso superar cada erva daninha, obstáculo que cresce e se espalha mais rápido que qualquer outro vegetal; é necessário que se conheça a quantidade de água que cada planta requista, porque é bastante variável; com a terra é preciso algum conhecimento científico, química, física, biologia e matemática; o trabalho em um jardim requisita habilidade com tesouras e enxadas, delicadeza e força precisam se equilibrar.

  Longe do jardim tradicional, absorvida por um outra paixão e também refúgio; enquanto preparava uma massa caseira o telefone toca, do outro lado, a voz que sempre é capaz de iluminar o meu olhar e que esteve tão sumida. Falamos sobre amenidades, passado, histórias hilárias, até que a erva daninha do jardim dele se manifesta: - Meu pai está com câncer terminal. As mãos sujas de farinha, os olhos cheios de água e um coração sobressaltado, que é confortado, justamente por quem deveria ser consolado. "A vida dá voltas, não é?", ele diz, eu seguro o choro, mas a voz dele não se altera, nenhum nó na garganta, nenhum peso visível na revelação. Ele e o jardineiro sabem do trabalho que a beleza exige. E por isso não se curva, não desiste, não se deslumbra com o que parece, nem se abala com o que realmente é.

  Eu o amo exatamente por aquilo você é, e pelo que faz com sua própria vida, nada é mais bonito que assistir e fazer parte de uma coragem doce de resistir. Você, querido, é roseira que entorta, mas se recusa a quebrar e é por isso que eu gosto tanto de frequentar o seu jardim. Obrigada. Muito obrigada por resistir tão leve, tão pleno e tão florido. Eu nunca tive um jardim em casa, mas conheço gente que parece flor. Tenho um amigo tão determinado a fazer florir qualquer jardim, por mais difícil que a missão pareça. Eu moro em um apartamento e tenho o jardim mais bonito que alguém poderia ter, vejo amigos nascerem, sentimentos perdurarem e gente desabrochar, mesmo quando perdem um galho. Admirável é quem, mesmo a custa de muito esforço, mantém a beleza de seu próprio jardim.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Acabou a vodca e a ressaca foi de amor

  Encontrava-os com frequência, via-os pelo bairro quase sempre à noite, boêmios ambos. Eventualmente, dividíamos a mesma fila no supermercado, no carrinho deles a vodca costumeira sempre chamava minha atenção. Sem ao menos se aperceberem, derrubaram o clichê do vinho como bebida dos amantes e inauguraram a vodca, bastou-me essa subversão e eu os amaria para sempre. Como se não bastasse a bebida os dois formavam um casal atípico esteticamente; ambos de preto sempre, o único item previsível era a cor, inventavam uma divertida mistura de gêneros e uma moda bastante específica. 

  A moça mignon de pele claríssima, chamava atenção pelo cabelo platinado, batom preto ou vermelho, maquiagem sempre muito carregada, vestia calças ou decotados vestidos em couro, sempre calçada com botas de cano altíssimos; o rapaz macérrimo, de cabelos abaixo dos ombros e pele quase translúcida, desfilava pelas ruas e comércio local com uma saia mínima, sempre acompanhada de meias calças arrastões. Em um país tropical, é verdade que em uma cidade com temperaturas bem amenas, o casal destoava, nas cores, nas roupas, no estilo e na bebida. Não havia lugar pelo qual passassem que não despertassem pares de olhos curiosos pelo estilo, depois pela vodca e mais tarde, pela própria conexão entre ambos. Era um casal inusitado, sem dúvida e, é claro, que tinham pelo menos uma mínima consciência da comoção que causavam em um simples passeio. No entanto, não pareciam se incomodar, tampouco se aproveitavam da relativa atenção despertada, eram espontâneos, apaixonados e em uma sintonia amorosa daquelas arrebatadoras, admiráveis, quase invejáveis. Depois de anos encontrando o casal, me perdi deles; frequento os mesmos lugares, mas não os vejo. Soube que não são mais namorados; que não formam mais o meu casal favorito.

  Ontem vi a moça em um bar, tão diferente. A cor do cabelo é ainda a mesma, mas não veste mais preto, nem usava maquiagem carregada, vestia um moletom colorido, bebia cerveja e flertava com um outro moço. Moço comum, ela também banal. Sabia do final do romance, mas vê-la assim em uma vida tão ordinária deixou-me decepcionada, triste, como uma fã que encontra seu ídolo, após o término da fama, tão humano, tão falível. Li algum dia desses, não lembro o autor da ideia, que a gente se apaixona é pelo personagem que ganhamos quando nos relacionamos, que a gente se apega mesmo ao nosso próprio personagem, construído com o auxílio do olhar do nosso par. E por isso mesmo nos apaixonamos tanto, porque gostamos de viver outras vidas, de experimentar sermos outros.

   A sensação é que talvez as personagens tenham durado tempo demais, tenham pesado muito, tenham sido mais dramáticos e maiores, que os seus próprios criadores. Sintonia como aquela ainda tenho procurado em outros casais na fila do supermercado, indiscreta procuro em outros carrinhos uma vodca, um sinal de amor que não existe mais.

  Nem os amantes russos-punk resistiram ao tempo; meu Romeu e Julieta particular sucumbiram também ao melancólico fim de um romance. Meu casal favorito não existe mais, meu amor preferido acabou, despediram-se as personagens e quase levaram além da vodca, a minha esperança. Mas eu disse quase; somente quase. Em algum lugar um homem de minissaia e meia calça ama outra moça; e a loira que não veste mais preto também amará e há de ser amada, sem tanto alarde, sem chamarem tanto a atenção, mas em outro lugar o amor ainda resiste; brindo a ambos com o meu copo de vodca imaginário. A vodca acabou,  o amor pediu um tempo para se recuperar da bebedeira, amanhã, só a ressaca e novos personagens. A vida segue, mesmo quando a gente deseja que a fotografia permaneça.