terça-feira, 19 de setembro de 2017

Existem mulheres que não sabem o que sentem

   Existem mulheres profanas, na bíblia. Que tramam com serpentes, que seduzem todos os homens, que se casam com o amor da irmã, que preferem limpar a casa a serem catequizadas.
  Existem mulheres que  têm medo de cães, na rua. Mulheres que têm medo de relâmpagos. Mulheres que têm medo de amar e também de não amarem. Existem mulheres que têm medo de terem medo, mulheres que tomam remédios para os seus medos, mulheres que escondem seus medos, mulheres que falam dos medos, mulheres que os enfrentam, mesmo trêmulas de pavor. Existem mulheres que têm medo do desconhecido, mulheres que têm medo de se conhecerem. Todas as mulheres têm medo de serem violadas

  Existem mulheres que dão as mãos a mulheres. Mulheres que apoiam os passos de outras mulheres, instáveis nos seus saltos altos. Existem mulheres que costuram os rasgos dos vestidos de desconhecidas nos banheiros das festas. Mulheres que amam outras mulheres; que desafiam preceitos, com seus afetos. Mulheres que  protegem, defendem, ensinam, desafiam outras mulheres. Existem mulheres que admiram outras mulheres, que se inspiram, que pintam, fazem música e escrevem sobre essas mulheres. Mulheres que se espantam com a possibilidade de serem muitas.
  Existem mulheres que são mães e não sabem o que fazer com os filhos; mulheres que não são mães e sabem o que fazer com os filhos de outras; mulheres que não são mães e nem sabem de filho algum. Todas as mulheres geram alguma existência, mesmo que seja a própria.

  Existem mulheres que choram nos pontos de ônibus, nas filas do supermercado e no escritório, quando ninguém está olhando. Mulheres que choram nos cinemas, nos velórios, nos términos, nas separações em frente ao juiz. Existem mulheres que choram na rua, em público, no meio de um discurso; desatam o nó na garganta e desabam em choro; depois se levantam vermelhas ainda.            
  Existem mulheres que choram enquanto tomam banho, mergulham ou tomam chuva, aproveitam as águas de fora para fazerem escoar as suas. Existem mulheres que fazem chorar, que não amam mais, que não querem mais, que não podem mais, que escolhem não mais. Todas as mulheres choram algum dia nem todas fazem chorar todos os dias.

  Existem mulheres que menstruam, mulheres que não menstruaram ainda e aquelas que não menstruam mais. Existem mulheres que nunca menstruaram, nunca irão menstruar e mulheres que não esperam menstruar.
  Existem mulheres que carregam pedras, algumas transportam penas e somente elas sabem o peso de cada carga. Existem mulheres que abraçam uma causa, um homem, um velho, uma criança, um trauma, uma lembrança alegre, um arrependimento ou um sonho remoto, azul, esperançoso de vida. Todas as mulheres são mulheres.

  Existem mulheres que dirigem caminhões, que administram empresas, que pilotam carrinhos de compra, que conduzem filhos, que guiam seus afetos, quando eles estão no escuro. Existem mulheres que não sabem nadar e que se lançam em águas geladas e turvas, para resgatarem a quem amam ou só por ouvirem um grito. Existem mulheres que voam sem asas; mulheres que têm asas e nunca voam e mulheres que impulsionam os voos de muitos outros.
  Existem mulheres que atravessam ruas, que atravessam outras pessoas até o outro lado da rua e mulheres que atravessam pessoas, quando falam. Existem mulheres que dormem na rua, mulheres que só usam roupas de cama muito limpas e mulheres que dormem na rua e lavam os lençóis das mulheres limpas. Todas as mulheres se cansam muito algum dia.

   Existem mulheres que usam batom e guirlanda de flores no dia do seu casamento e fazem promessa de união até à morte. Algumas morrem muito cedo, outras envelhecem com os noivos e algumas não cumprem a promessa, porque é um juramento muito longe. Existem mulheres que não se casam e não prometem eternidade, mas nunca vão embora; mulheres que se despedem, mas deixam seus cheiros, suas cartas, suas fotos de quando eram pequenas. Existem mulheres que não sabem amar e aprendem, mulheres que não aprendem, mas não desistem e mulheres que não se preocupam com um jeito certo; só amam. Todas as mulheres tentam, algum dia.

  Existem mulheres que não interrogam o espelho, mas estranham as suas vozes gravadas. Existem mulheres que não gostam de falar ao telefone, mas escrevem cartas de quatro páginas; mulheres que não escrevem um bilhete, mas conversam por duas horas sem perderem o fôlego. Existem mulheres que compram um apartamento e pagam suas prestações durante vinte anos; mulheres que pagam o aluguel de um quarto sem janela para a rua e mulheres com a casa muito grande, que têm insônia, mas não olham a lua.
  Existem mulheres que saem da aula mais cedo, porque estão tristes. Existem mulheres que não sabem o que sentem, só sentem. Tenho sentimentos por essas mulheres.



sábado, 16 de setembro de 2017

O Amor que recusa as suas chamadas

  Nós ficamos a menos de meio metro de distância uma da outra, mesmo que eu não quisesse saber
nada dela, não poderia evitar. Sentada no primeiro banco, um fio de cabelo grisalho sobressaindo-se na franja espessa castanha, um sinal marrom no queixo, quase imperceptível sob uma camada fina de base, a pedra brilhante nas unhas dos dois dedos médios, uma aliança prateada grossa no anelar esquerdo e um corpo inquieto, muito. Nunca a tinha visto antes, não que eu me lembrasse, mas o ônibus demasiado cheio nos colocava assim, muito próximas,  em uma intimidade compulsória. Muito mais minha do que dela, já que eu podia ver seus tons, seus pelos, testemunhar sua respiração entrecortada. Ela não me viu, não tirou os olhos da tela do seu celular, desde a minha entrada. Ela era minha possibilidade de visão muito limitada, eu não tive escolha; meus pés presos a outras permanências, ninguém consegue se mexer muito. Todos bailarinos de uma coreografia muda, no ônibus da noite.
  Sem uma posição confortável para leitura, sem nenhum diálogo iniciado no ponto de ônibus, segui espectadora dela, com a trilha aleatória que tocava nos meus fones. Nina Simone toca pela terceira vez esta noite.

  Olho pela primeira vez na tela que a mulher segura, leio as tentativas malsucedidas que ela faz e não desprendo mais os olhos - é ele. Salvo na agenda do telefone dela, não é um nome, um sujeito, mas um conceito-sentimento;  sob a alcunha de Amor, uma personificação. Não é João, Joãzinho, Jô, é Amor. Com inicial maiúscula, como orienta a gramática para os nomes próprios. Queria ter eu a segurança dela e numa só pessoa depositar o Amor maiúsculo. Ela ligava para o Amor e a pedra na unha dela refletia, no teto do ônibus, um brilho de expectativa, mas aquele amor não atendia.Três, quatro, dez vezes e o Amor não a ouvia. Quem era o Amor maiúsculo dela? Não consegui evitar a intimidade, antes, nem a curiosidade, agora. O que faz o Amor? Trabalha na cidade? É um homem ou uma mulher? O Amor é delicado, corajoso, robusto ou frágil? Tem pedras brilhantes nas unhas dos dedos médios, é disponível à entrega ou é esse assustado que não atende, que recusa, que emudece?

  O ônibus para em mais um ponto, os passageiros reclamam, porque já está cheio para além da capacidade máxima, ao menos da que gostariam. Uma senhora entra, os pés, dentro do coletivo se movimentam tão lentamente quanto se estivessem numa performance em câmera lenta, mas a mulher entra; a incrível flexibilidade dos corpos, que recebem outra passageira. O motorista arranca, a senhora tem dificuldades em se encaixar adequadamente, ninguém oferece seu assento e ela fica entre nós. Agora, somos eu, a senhora com o corpo instável e a mulher que não desiste de chamar pelo Amor. Somos uma ilha de mulheres, cada uma com a sua instabilidade, cada uma com a sua impossibilidade de segurança, cercada de estranhos que nos sufocam, mas nos amparam nas curvas. O cobrador pede atenção,  um passinho mais para trás dos passageiros e um lugar para a senhora recém instalada. Dos três pedidos, sem um gênio como intermédio, nenhum é atendido. Mas no terceiro pedido ele insiste.
- Um lugar, gente, para a senhora aqui. Por favor, podia ser a mãe de vocês, né? A elegância, a educação, minha gente!

  Mas ninguém se levanta. Na parte da frente do ônibus, a sua maioria são também de idosos.  Decidido a  encontrar um lugar para a passageira que podia ser a mãe do ônibus inteiro, o cobrador se dirige para a mulher, cujo Amor se negava a atendê-la. Se ele soubesse o que ela agora passava, evitava qualquer pedido. Mas não era ele o íntimo, era eu. Não era eu a cobradora, era ele.
- Moça, por favor, a senhorita poderia dar o lugar para a senhora aqui?
Ele cobrou pela primeira vez.
  Ela demorou um pouco a entender que era com ela, mas quando se certificou do pedido, só disse:
- Não. O lugar é meu.
  Agora a coreografia que era muda, passa a ter muitas vozes. Nos meus fones ainda era Nina, mas fora deles, era o suspense de uma radionovela. Quem não podia ver, tentava ouvir. Eu via e ouvia, com Nina ao fundo, claro. E sabia que não era um embate muito simples.
  O motorista olha para trás, freia o ônibus, o cobrador está em pé, meio curvado, porque a cadeira elevada, deixa pouco espaço até o teto, uma criança chora no colo da mãe, jovens indignados gritam "fora golpista" para a mulher resistente no seu lugar, ouço um "fascista" no meio. Mas a mulher não se move, só continua a chamar pelo Amor que brilha em verde, enquanto ela liga e morre em vermelho, depois de gritar muito.

  O Amor vai mesmo deixá-la assim, nessa situação de desamparo? Um grupo começa a vaiá-la. Mas os dedos dela ainda insistem. Não vai, ela não vai ceder o lugar. Não ouve os argumentos, só olha o celular e engole o seco que é não ser compreendida.
- Moça, é só um lugar. Não custa.
Uma jovem de uniforme branco tenta convencê-la.
  Não é. Nunca é só alguma coisa só. A incompreensão não é isolada de um não entendimento anterior. Custa. Não o cansaço das pernas dela, de hoje, de agora, voltando do trabalho às sete e quarenta e cinco da noite. Custa é não ser correspondida, não conseguir ser ouvida, depois de incansáveis tentativas, custa uma vida inteira de recusas, um nome brilhando, obedecendo a norma linguística, mas se negando a atender uma súplica e, agora, a um ônibus inteiro a odiá-la.
- Ninguém sairá daqui até essa senhora se sentar.
  Sentencia o motorista.

  Mas a mulher sentada, com a respiração de alguém que dá braçadas exaustivas, há muito, em mar aberto, não sucumbe, não se levanta, não desiste. Vai nadar o quanto baste até ser atendida pelo Amor.Tenta mais uma vez, o Amor não espera mais nem duas chamadas e recusa a ligação, ela entrelaça os dois pés na base de ferro do banco. Nunca ninguém vai tirá-la dele, faz força, cara de quem vai bater em todo mundo, o coro aumenta:
- Fora Temer! Fora golpista!
  De repente o Amor, com letra maiúscula brilha na tela do seu celular. É ele quem a chama agora, foi o tempo de vê-lo acenar e ela se entrega completamente relaxada, transforma o semblante e inaugura um rosto pacífico, amoroso, satisfeito, pleno.

  Ela se levanta tranquila, pede licença, os pés dos bailarinos fixos, de repente, se movem e se abrem numa coreografia muito eficiente e ela desce. Observo-a, tento aprender com ela, se eu souber o que o amor não queria, talvez aprendesse a também ser atendida. O Amor, o único poder capaz de levantar a mulher da sua insistência. Obediente. Cativa do Amor ou liberta por ele. Não sei se ela desceria naquele ponto mesmo, não sei o que o Amor disse à ela. Mas foi o único a quem ela sucumbiu. Nina Simone acaba e o Chico já rodava na lista, "Não, acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos pra tomares conta. Agora conta como hei de partir" e ela só desceu.
  O Amor a tirou de dentro do ônibus. A senhora se sentou, eu desci no meu ponto, ainda espectadora de uma procura e encontro muito injustiçado. Das três, só uma instabilidade não se apaziguou nessa viagem; mas o espetáculo foi bonito.

 

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O silêncio não é oco

  O silêncio não atravessa, não atinge um alvo - nenhum círculo vermelho, coração ou presa - é uma flecha atada para sempre ao arco,  não chega a lugar nenhum nem em ninguém. O silêncio é um pedaço de couro duro que demora demais a se desfazer; é uma pedra muito pequena, escorregadia demais para ser esculpida, é uma água parada em alguma parte da estrada, que não mata a sede, não molha os pés e nem lama é capaz de gerar.
   O silêncio  morre no instante mesmo em que nasce, às vezes mata alguma coisa de quem sai, mas não faz eco. Não se sustenta, não se propaga numa amplitude de penhasco, abismo ou caverna, também não cria um túnel. Só termina onde começa, o silêncio é maciço, intransferível, incomunicável. O silêncio é uma chamada invisível no telefone, um email sem assunto nem corpo, com um remetente anônimo.

  O silêncio é uma bagagem insuportável de carregar e difícil de despachar em serviço seguro. A voz que não vem é incômodo instalado no corredor de embarque, na estação de trem, no vão entre o elevador e o piso. É a viagem isolada de cenários, sem passagens, sem check-ins; é a experiência máxima de existir só em si para si; sem espectadores. Ele revive o instante da despedida, ilimitadamente. Ele não é fluido como a tristeza num choro; não é libertador como um soco, chute ou tapa; não é arrebatador como a palavra difícil de ser dita. O silêncio é o adeus máximo, sem possibilidade de diálogo, réplica, tréplica; é um argumento muito sólido, definitivo e pontiagudo. O silêncio é a insistência na despedida.

  Gestar um silêncio já é uma maternidade, porém íntima, não compartilhada. Não se chega a carregar um filho nos braços, o parto é uma dor sem grito, é  uma haste fina permanente entre as pernas, escondida, que ninguém pode ver. Ele só sobrevive em um útero quente e molhado, se sair morre.
 Sobre o silêncio ninguém disserta. Porque as palavras são ricas, polifônicas, frutíferas e ocas. E o silêncio é fincado na sobriedade, evita qualquer relação com o que é próspero. O silêncio reparte meu cérebro em quatro, a primeira parte me faz cega,  a segunda me emudece,  a terceira me faz desmemoriada e na quarta, uma bruta. A quarta parte do meu cérebro me insensibiliza para um assunto ou nome para sempre. Cega, muda, sem memória e embrutecida, só escuto o silêncio que carrego, expulso todo o resto da sala, sem pedir licença, sem formalidades de educação.

  Hoje à tarde o silêncio não saiu pela janela, não pode ser colocado dentro de uma carta, endereçado a alguém do outro lado do Atlântico. Não apareceu na transmissão de vídeo nem nas fotos para as quais eu fiz pose. Não foi buscar pão, para eu prendê-lo do lado de fora; não se animou em tomar sol, uma cerveja ou fumar um cigarro; o meu silêncio é muito contido, sério, não tem vícios. O silêncio atravessado na garganta não desceu nem com os dois litros de água que eu já tomei no dia, também não respondeu as perguntas que eu fiz, enquanto estivemos só nós dois.

 O meu silêncio é uma lâmina cega, não corta, não fere, não sangra, mas dilacera, justamente porque só fica. O  silêncio me decepa, me finaliza no ringue, me humilha, não me liberta, me atordoa, mas não me deixa no chão por muito tempo, porque me faz querer ultrapassá-lo.
  O silêncio me distancia de mim e me mantém mais próxima do inimigo. Treina os meus músculos para se manterem retesados, sem relaxamento ou frouxidão. Contamina minhas outras vozes, ainda não caladas; me desafia a ter que carregá-lo sem o querer. Mas não o abandono, espero, paciente, a gestação se completar, a natureza  retirá-lo de mim.

  Depois das seis, sentei-me com ele na minha cafeteria favorita e tomamos um expresso; não conversamos, nem tentei. Mas acolhi suas impossibilidades, a sua vida em ausência, sua angústia de nascimento e morte muito próximas. Sou sua mãe, também sentirei as duas dores, sem intervalo, sem anestesia, sem que nenhuma mão segure a minha; ele sabe, e também por isso sente. O silêncio se afeiçoou a mim e não quer que eu sofra com a sua ocupação infértil, mas essa é a sua essência possível. Gosto dele também, porque é meu e o reconheço cada vez mais, enquanto ele cresce, antes de sair. Mas é um ciclo que precisa acabar; gosto mais quando o definitivo se afasta. Preciso viajar com palavras, com términos que não acabam com um argumento, um lado, um adeus. Preciso de partilhas e o silêncio me afasta delas.

  Terminava a terceira xícara de café e com a precisão, que só o silêncio tem, ele escorreu pelo meu ventre, minhas pernas e desapareceu antes de se espalhar no chão. Ninguém mais viu quando  o meu silêncio nasceu e se despediu hoje, antes das sete da noite. Ele foi muito duro durante toda a sua existência, mas no último minuto de convivência foi afável, generoso e pareceu querer me amar. O meu silêncio maciço, rígido, implacável e completamente frágil, no final, acabou mesmo. O meu silêncio doloroso, instalado desde a última tortuosa palavra desencontrada teve seu fim. Não está mais no vão do elevador, numa estação ferroviária em Berlim, não pertence mais ao Aeroporto Viracopos. O meu silêncio, depois de manter-me desconfortável por meses, apaziguar nossas querelas no fim, terminou com uma xícara de expresso.
  E do seu silêncio eu nunca vou saber. Esteve também em uma gravidez indesejada? Já acabou? Não me responda. Nossos silêncios estarão enterrados numa mesma cova, espero. Eu estive gestando um silêncio, pari enquanto tomava café. Este é mesmo um fim; e agora não dói, porque não existe mais nada.





segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Nem tão setembro que eu não possa chorar nem tão agosto que eu não consiga ser feliz

  Em setembro, dentro do apartamento ainda é frio. Moletom, meias, janelas fechadas, o gato chega antes das seis, edredom na cama à noite, pijama de flanela, chá e banho quentes. Não importa  que o sol brilhe fora, do piso da cozinha ainda sobe a friagem de agosto, a porta da varanda fica fechada quase o dia todo e as persianas balançam muito, com o vento, se a janelas têm frestas de liberdade; até o cheiro das paredes internas do prédio ainda é úmido. Casaco de lã, botas, secador de cabelo, nenhum deles têm descanso e garrafas de café duram menos.
  As mãos não ficam quentes, só porque tem sol lá fora. Setembro fora é um cartão postal, para os dias passados dentro.

  Quando agosto termina e o jardim já aparece mais bonito, com as rosas vermelhas refletindo na janela do quarto da frente, ainda faz frio nos cômodos do fundo. O estômago absorve melhor o mingau, a sopa, os caldos, os refogados e os queijos derretidos. O corpo ainda treme descoberto, os pelos do braço se eriçam, se a geladeira é aberta. No início de setembro não faz calor dentro de casa.
  Mesmo que o céu esteja mais claro, que os raios de sol façam listras no piso e que o os bares voltem a ter mesas nas calçadas, a lua ainda não convoca para fora, as noites têm uma névoa menos espessa, mas ainda venta muito. Em setembro, dentro ainda faz frio e as blusas de gola alta não estão guardadas.

  Lá fora já esquenta, o brilho do sol deixa os olhos apertados, a blusa de manga longa é amarrada na cintura, o suor escorre depois dos dois primeiros quilômetros de caminhada. No segundo domingo de setembro, o primeiro a me encontrar ao sol é o gato amarelo da rua, não sei se me cumprimenta ou me manda voltar para o inverno; nós nunca nos entendemos bem. Os bebês ficam expostos nos carrinhos, as mulheres e homens de cabelos ralos e brancos estendem suas articulações para os raios solares. A sorveteria fecha mais tarde, os carros estão estacionados à sombra e nos terraços os copos descansam nas muretas. Porque setembro é quente fora dos apartamentos.
  Num mesmo mês, sensações térmicas distintas. A chegada de setembro não esquenta a minha cama, a partida de agosto não modifica o termômetro do meu ímã de geladeira. Os espíritos do inverno não se despedem no calor.

  No início de setembro, as fotos dos porta-retratos continuam as mesmas, o espelho manchado não brilha nem depois de um pano com álcool, o garoto do violino ainda não aprendeu a tocar uma música inteira e as mulheres de blazer branco, no domingo, sempre vão lembrar a minha mãe; eu  sorrio para elas como se fossem minha mãe.
  Atravessar a rua não é mais fácil sob o sol, escolher rabanetes ainda é um mistério e as filas de até dez volumes continuam atraindo gente com doze ou quinze itens. As festas ao ar livre só vão até as sete e as costas das mulheres permanecem agasalhadas, os brindes não alcançam o teto, mas o risco de pneumonia nos organismos mais frágeis é diminuído. 

  Setembro é mais afável se visto de fora pelo lado de dentro, flores, gatos, raios solares esquentando maturidades e banhando pés recém-chegados.  Agosto é mais silencioso se vivido por dentro, mesmo com as janelas destrancadas.
  Ambos se encontram no hall de entrada do prédio, se cumprimentam com cortesia e não saem sem desejarem um bom domingo um ao outro. Não disputam estadia, não requisitam preferência, não se ofendem ou rechaçam o que é próprio de cada um, mas coabitam a mesma cidade sem invadirem seus espaços; um é doméstico, enquanto o outro é da amplitude.   

  Nem tão frio que eu não possa suar nem tão quente que eu não queira um banho gelado depois de correr. Nem tão alegre que eu não me sinta só nem tão triste que eu não vá sorrir. Nem tão confortável que eu não sinta angústia nem tão instável que eu não possa me segurar. Um não acaba quando o outro começa, o sol de setembro só dá o descanso  do frio de agosto da minha cozinha escura, se eu saio para ir ao mercado. No mais, é inverno no apartamento ainda por algumas semanas.

  É estranho uma alegria não durar até o final do sorvete; é alentador ver as rosas vermelhas refletidas na janela da frente, quando ainda estou de meias.
  Nem tão distante que eu não possa sonhar nem tão impossível que eu não possa esperar. Quando o sol de setembro brilha nas ruas, as mãos não ficam mais quentes, as filas não são mais honestas, os rabanetes não se tornam menos misteriosos, mas o céu azul é uma promessa difícil de não querer acreditar. Nem tão setembro ainda nem tão, nunca mais agosto, já.



sábado, 9 de setembro de 2017

A única pergunta que importa

   Teremos tempo. Só mais um copo, depois dessa música, quando eu eu secar o meu cabelo e passar o batom, depois de acabar esse livro, no final da sessão das nove, quando eles fecharem o bar,  depois de comprar a passagem,  de achar a poltrona certa e desligar o celular, depois que eu mudar o número, depois desse último maço de cigarros. Depois de setembro, depois desse semestre só vai faltar mais um ano, uma prova, um projeto, um casamento ou dois, o batizado e a doença; depois que o médico passar e a notícia estiver mais assentada, vamos encontrar a nossa cura. Depois de uma noite de sono, na volta do passeio  com o cão, depois que eles reponderem ao e-mail - não importa se com um sim ou com um não - depois de eu me acostumar com a ideia, com a direção hidráulica, com o sistema novo, com o sapato, com o despertador do vizinho e o código do portão. Quando desligarem a chave de energia, depois que eu me aceitar. Teremos tempo?

  Teremos tempo de pedir a conta, de dividir os custos do que consumimos e decidir dar a gorjeta ou não. Ainda haverá tempo para comprar a rosa na volta, de ir buscar o sobrinho na escola um dia, de vê-lo numa apresentação de final de ano, de terminar de pintar uma tela, mesmo que não queira mais fazer outras, pelo menos pendurar esta. De comer mais vezes o amendoim do carrinho no Calçadão, de descobrir quem desenhou a placa nova do anúncio artesanal do sapateiro, de tirar uma foto antes de demolirem a casa. De adotar um gato, de oferecer comida e agasalho aos moradores da praça, de comprar pipoca e dividir com os pombos, de cumprimentar o vizinho muito tímido, de nadar no mar, aprender a andar de bicicleta, morar na Espanha e conhecer Havana. Ainda terei tempo de falar francês?

  E quando os filhos estiverem maiores, a crise do país tiver passado, quando tivermos empregos melhores e feito a viagem que já pagamos a metade, quando as prestações do apartamento e do carro estiverem quitadas, então assim, nos acertaremos. Você estará mais equilibrado, eu serei mais segura e nossos filhos alfabetizados, vacinados e muito educados. Sua mãe virá menos vezes, meu pai ajudará a pintar o apartamento para colocarmos à venda. Finalmente, faremos um acordo sem constrangimentos e mágoas, na frente do juiz. Sem listas, sem ofensas, sem acusações, sem olhares desviados e advogados nos calando e falando por nós. Depois, na saída do fórum, sem testemunhas, eu vou tentar devolver o anel e você não vai aceitar e choramos, nos abraçamos e vamos os dois, sem nós. Porque haverá tempo. E as festas de final de ano, como combinamos mesmo?

  Terei tempo de perdoar a festa que você deu para tentar fazer com que eu não fosse embora - os convidados, a música, a minha cerveja favorita, esquentando no copo, que eu deixei a noite toda na mesa de centro, as flores e eu, desconfortável, no sofá da sala que eu queria vazia. Terei tempo para entender quando você mandou uma mensagem, do outro lado do oceano, avisando que o amor acabou e que nunca mais faria o nosso jantar. Terei tempo de não querer ficar e de não insistir que você poderá descobrir, ainda, que na verdade me ama, que é só uma fase. Terei tempo de aprender a não chorar, a não convocar os amigos mais íntimos para a minha defesa, a não negociar sentimento. Você já me esqueceu? Eu já me libertei?

  Terei tempo de encontrar um outro apartamento, onde caiba meus livros. Um novo amigo que dance comigo nas noites de sexta, uma manicure que não retire as cutículas, um cabeleireiro que não se recuse a cortar o meu cabelo bem curto, um amor que sonhe comigo, nós dois juntos, na varanda, que eu viaje e na volta ele esteja me esperando e depois ele viaje e eu também o espere e que as festas de boas-vindas não terminem mal. Depois da dissertação, vou ler só o que gosto e escrever para ninguém. Depois que pedir demissão, não usarei mais saltos e calça social, vou viajar pelo nordeste e andar descalça e vazia de certezas. Terei tempo de não responder às mensagens do celular, e-mail, ligações. Terei tempo de me conhecer - prazer, prazer, como vai?

  Teremos tempo até o carro subir na calçada e arrastar uma vida de nós, até o caroço que apalpava ainda muito pequeno - coisa da sua cabeça - ficar incrivelmente grande e nos pedirem desculpas, quando não existir mais o seio e, logo, nem o futuro. Até o segundo, terceiro e quarto amor passarem sob a janela e não pudermos descer ainda, porque não são seis horas e os meninos ainda são muito pequenos para entenderem. Não visitar a cidade, porque nos feriados a estrada é cheia demais e os finais de semana são para descansar, até a avó não se lembrar de desligar a panela no fogo, depois não saber mais cozinhar o arroz, esquecer o endereço de onde mora, não saber mais chegar à padaria, errar meu nome, meu rosto, até, finalmente, apagar-me da sua memória. Quanto tempo nós perdemos então?

  Tivemos muito tempo até não andarmos  mais na mesma rua e o seu olho marrom não buscar mais os meus lábios. Até não termos coragem de perguntarmos os nossos nomes um para o outro, de não inventar um assunto qualquer e o outro seguir na invenção. Interesse adiado: perdemos o ponto.
  Até esquecermos de perguntar como foi o dia, se  gostaria de ouvir alguma música, se a cerveja gelada cairia bem ou era melhor o vinho comprado há um mês. Até não sabermos o que perguntar e não admirarmos mais os mistérios nos olhos de quem preferimos desconhecer mais a cada noite.
  Tempo - demasiado efêmero, invisível na prateleira do supermercado, sem volta, sem troca, sem etiqueta com a data do prazo de validade. A única pergunta que importa: quanto tempo teremos até o cão decidir com quem vai querer ficar depois que formos embora?