terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Um jardim de flores que não murcham

  Um jardim não é necessário, não é prático ou muito útil. É um painel generoso de boas-vindas numa  casa ou um adeus colorido para quem vai embora. Queria ter um jardim. Não é segredo para ninguém. Tive até muitos, ao longo da minha vida. Um meio agreste com hortênsias muito delicadas, rompendo a terra vermelha barrenta, se escorando nas paredes de taipa; um outro mais organizado com rosas brancas, amarelas e vermelhas e um outro, bem menor, que aconteceu entre os espaços de uma calçada de cimento, com liquens, musgos e suculentas de pequeno porte. Mas abandonei cada um deles; eu me perdia de um e encontrava o seguinte, sem muito intervalo para doer e lamentar as partidas.
  Fui embora deles porque nunca me pertenceram, de fato. Agora, busco um inteiro, real e possível. Que caiba no meu desejo, mas que não ocupe muito o tempo que não é meu ou os espaços que eu não tenho.

 Há anos que o meus olhos moram um pouco na varanda do outro lado da rua. Gosto da casa vizinha como se fosse minha, porque é, mesmo que eu não more ou não tenha nenhuma parte na sua herança. Mas é minha na sua imaterialidade, seus tempos, suas mudanças sutis e contumazes. Nas cores das suas paredes externas, nos ciclos das plantas, no latido do cão, na doença do homem e no seu violão baixinho, nas conversas da mulher antes das sete da manhã, nos filhos que foram embora, nos gritos e risinhos dos netos que vêm nos feriados.
  A casa é minha pela intimidade que eu estabeleci com os sentimentos que ultrapassam suas vigas e se sustentam nos anos. Na melancolia do envelhecimento dos seus donos, na solitude de um cão sem crianças para espantá-lo nos seus sonos que se prolongam pela tarde, nos afetos dos vizinhos que elogiam as novas cadeiras da varanda e oferecem laranjas dos seus quintais. Eu nunca entrei na casa, não preciso; moro sem nunca ter aberto, sequer, uma das suas portas.

   Laços de fita vermelhos e verdes nos pequenos coqueiros nos vasos da porta de entrada, no natal; coelhos de pelúcia na janela, na páscoa; bandeirinhas coloridas, em junho. A varanda é um calendário-cenário que  ilumina a rua e me torna mais íntima da casa que já é minha. A casa avisa e, ao mesmo tempo, parece ser comunicada sobre o clima que se espera dela em determinada data. Até o andar do cão e as músicas que o homem dedilha no seu violão parecem aderir a um acordo festivo. Eu também me sinto tocada pela decoração. Aos domingos pela manhã, gosto de estudar as perspectivas dos objetos que enfeitam o mês. 
   Mas anteontem, pela manhã, a mulher chegou na varanda de cabelos bem vermelhos; as cores dos seus fios também atravessam os meus dias. Um vermelho inédito, profundo, corajoso. Um vermelho intenso na cabeça castanha, loira - de várias gradações - ou negra da minha vizinha. A varanda muda, o cabelo da vizinha acompanha.

  Ela chegou com o cabelo rubro e vigoroso e começou a  decorar a varanda com flores artificiais mais coloridas que as da sua camiseta bordada. Acompanhei seus movimentos quase a manhã inteira, fazia intervalos pequenos para cuidar dos afazeres da casa onde moro com paredes, janelas e boletos, mas, mais ainda, para não sufocá-la com o meu interesse pela sua instalação vindoura. É uma artista; eu acho. É uma arte muito peculiar a dela; admiro.
  Na casa da frente, flores coloridas de tecido no final de fevereiro, fim de carnaval. O que significa um mar de flores de cetim brilhante, na janela da frente? Que data devemos saudar? Qual o ritmo as cordas do violão e o andar do cão vão marcar? Para  primavera, uma distância de sete meses. O que as flores na janela anunciam?

  Penso em muita coisa, olho profundo para as pétalas cortadas numa máquina industrial em algum outro país, compradas por poucas moedas numa loja do centro; me lembro dos meses, dos feriados, datas comemorativas e não chego a nenhuma suposição segura.
   E ela, ainda, se mexe ruiva, curvilínea e menos velha a cada flor depositada. Sorri e compõe a ordem de cada buquê, analisando as cores primárias, secundárias e terciárias, recorrendo ao círculo cromático fixado em sua memória de artista acostumada. Alguém passa, cumprimenta, elogia e ela modesta:
- Nada não. Só um jardim mais fácil para eu cuidar agora.
Fala risonha, numa esperteza infantil no corpo muito maduro e cabeça de fogo com labaredas altas.

  Meio muro que não protege a casa da visão que chega de fora, sem passaportes, sem documentos nas mãos; não dificulta, não atravanca, não burocratiza as visitas dos olhos alheios. Meio muro que não esconde as partidas, as ausências, os remédios, as caras amarradas, as risadas frouxas e repetidas por décadas entre um casal, as mudanças possíveis nos cabelos, nos rostos e decoração.
  Num deserto de sonhos muito demorados ou distantes, na urgência de gastar as horas e no desejo de demora para que os dias passem, numa terra absolutamente inóspita, de concreto no piso e  grades de ferro nas janelas, ela cria uma ilha de beleza. Artificial na sua materialidade, mas sublime de sentidos. O jardim que ela pode cuidar. Que ela planta sob os meus olhos e vai manter, como pode, até sua luminosidade conseguir simular sua flora colorida, particular e possível.

  Não ter inveja do jardim alheio, fazer o meu próprio, conhecer minhas possibilidades de florir, de alguma maneira, algum lugar. É minha oração de domingo.
   Queria me desfazer de um jardim; deste do outro lado da rua. Antes que seja muito tarde e ele se alastre, sem limites, pela minha memória. Mas acho que já aconteceu.
  Não ter inveja de um jardim que eu não plantei, mas cujas cores se fixam no meu domingo e me mostram que eu nasci, mesmo, para assistir aos jardins crescerem, me capturarem, fazerem das minhas entranhas seu adubo, até eu ir embora e o jardim ter que ficar. Um jardim que não lança perfumes ao vento, mas cujas flores não murcham nunca. A cabeça vermelha da mulher é quente e o seu jardim é o frescor do meu domingo, que ainda busca um lugar de flores que não precise do espaço de uma casa ou do tempo de certezas e netos.




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A primeira vez em que eu não estive em mim

  A primeira vez em que eu vi a neve eu estava em outro país, era fevereiro, na cidade da minha casa era um calor escaldante, mas eu sentia frio noutro lado do hemisfério.
  A primeira vez em que eu vi a neve, meus lábios estavam gelados, a ponta do meu nariz estava dormente, mas eu pensava muito no calor que não chegava ali. Eu estava rodeada por um infinito de brancura bonito e melancólico, mas a memória visitava a noite morna na qual eu não dormiria. Eu não queria ir embora, mas é como se eu nunca tivesse chegado.
  Eu via a neve, deixava ela molhar as pontas do meu cabelo para materializar o encontro, mas estava partida, vivendo o passado recente das noites tropicais, enquanto os flocos de gelo caiam sobre a minha cabeça. "A neve é mais pesada do que eu imaginava", eu pensava em escrever nos postais que eu nunca comprei.
  A primeira vez em que eu vi a neve, eu chorei porque vi a neve e depois chorei, porque chorei por ter visto a neve. Ninguém viu e eu não saberia explicar um choro desses.
A primeira vez em que eu vi a neve, eu não estava lá completamente.

  A primeira vez em que eu me preparei para assistir a um eclipse, alguém a quem eu amava tinha sua vida apagada em outra cidade. Não fui ao velório, mas alguns minutos de escuridão durante o dia pareceram nos aproximar. Eu olhava para o céu, com um óculos de papel celofane colorido que eu tinha feito em casa e sabia que uma saudade imensa interrompia também um pouco da luz na minha alma.
  A primeira vez em que eu assisti a um eclipse, eu não entendia de astronomia, mas sentia o que era ter uma presença encoberta para sempre, mesmo que o escuro durasse somente alguns minutos. Eu olhava para o céu, para o sol, mas tudo o que eu podia ver não ficava em horizonte algum.  
  A primeira vez em que um eclipse passou pela minha vida, não acontecia no céu que eu insistia em olhar.

   A primeira vez em que eu vi o mar, eu também estava em um lugar que não era o meu lar. Não estava sozinha, mas me sentia completamente solitária, porque o mar era muito maior do que eu tinha imaginado. Não sabia como aproveitar toda a beleza, por qual dos lados eu deveria experimentar entrar, por exemplo. Eu tinha muito medo de fechar os olhos e não ver mais o mar. No primeiro encontro, eu senti a responsabilidade da primeira visão.
  A primeira vez em que eu vi o mar, eu era pequena, mas sabia que eu nunca esqueceria da sensação de vê-lo pela primeira vez, eu fingia um olhar ordinário, mas carregava toda aquela imensidão de medo, desejo e alegria.
  A primeira vez em que um oceano invadiu a minha vida, eu suspeitei que a felicidade podia também angustiar. E se acaba, por que acaba? Eu estava distante de casa por muitos quilômetros e era feliz ainda.

  A primeira vez em que eu fui ao cinema, eu não sabia quase nada da experiência. Não perguntei muito sobre o lugar, embora tivesse muita curiosidade, nem sobre as pessoas que também estariam lá ou o que era assistir a um filme junto com desconhecidos. A primeira vez que eu fui ao cinema, eu coloquei uma roupa bonita, minha mãe colocou uma pulseira de prata, com meu nome, no meu punho esquerdo e eu não quis incomodar ninguém com a minha ignorância sobre cinemas.
  A primeira vez em que eu fui ao cinema, os bancos eram vermelhos, a sala cheirava a mofo e uma tela maior do que eu tinha imaginado se iluminava mais enquanto as luzes dos corredores se apagavam. Ninguém se assustou com as luzes, então era assim ir ao cinema: luzes que mudavam de lugar.
  A primeira vez em que eu  fui ao cinema, eu não assisti quase nada do filme, mas assisti às pessoas que assistiam ao filme. No escuro, os rostos ficavam iluminados pela tela, alguns sorriam, outros dormiam, mas a maioria ficava muito atenta às imagens imensas projetadas em uma tela branca. Enquanto eu olhava os rostos, eu segurava a pulseira com o meu nome e passava o dedo sobre as suas letras para ter certeza de que era eu quem estava mesmo no cinema.

  A primeira vez em que eu assisti uma desesperança eu não soube ressuscitar nenhum sonho. Não tinha um curso de primeiros socorros, não sabia se usava o extintor da parede ou o martelo na caixa de vidro. Fiquei muda, mesmo que achasse que devia falar. Queria ouvir, mas as palavras de um desesperançado são quase sempre ininteligíveis; ou não existem ou não deveriam sair em voz alta.
  A primeira vez em que  vi os olhos opacos de um desesperançado, eu movi os meus olhos para os pés dele. Não podia encarar uma desesperança; não sabia se era contagiosa ou se tinha cura.
  A primeira vez em que eu desconfiei de uma desistência eu corri, não ofereci minha mão no penhasco com medo de não suportar o peso e também cair.
  A primeira vez em que a desesperança pousou no travesseiro vazio eu não a espantei com uma vassoura. Embora eu continuasse na cama, minha mão abria uma porta e, sorrateira, a minha covardia me levava para fora no meio da noite.

  A primeira vez em que eu vi o amor, eu também não estava em mim. Assisti ao amor e pensava quem eu era antes de estar nele, o que sentia, agora, a outra que não estava aqui? Eu não podia molhar a ponta do cabelo com ele, não tinha óculos com papel colorido para vê-lo melhor, eu não sabia por qual lado entrar para me banhar nele, não conseguia fingir banalidade diante dele, não tinha uma pulseira de prata com meu nome para ter certeza de que era eu quem estava sob a sua luz e fui covarde quando me perguntaram o que era.

  A primeira vez em que eu vi o amor, era maio e não nevava, mas fazia um frio cinza, as minhas mãos estavam frias e a ponta do meu nariz com menos sensibilidade. Eu sentia o inverso do eclipse, a minha luz parecia ser descoberta. Podia vê-lo de longe, mas quis molhar os meus pés, com muito cuidado, na sua beleza. Ninguém mais se sentava ao meu lado e eu olhava, somente, um  rosto. Eu pensei em sair pela escada de emergência, quando a desesperança aparecesse, mas sabia que não sairia sozinha, eu puxaria uma mão para longe dela, desta vez.
  A primeira vez em que eu vi o amor, eu sabia que carregaria a lembrança do primeiro encontro na mesma bagagem onde eu guardo os postais que eu nunca envio, mas não me pareceu pesado, incômodo ou inútil. A primeira vez em que eu estive no amor eu também estive fora de mim e pude assistir o meu rosto sorrindo, no escuro da sala, sob um feixe de luz da tela.

 



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Calamos. E ouvimos o único som que interessa

  Regressamos. Incontáveis vezes a uma casa vazia para nos assegurarmos de que nada tenha ficado
para trás. Uma carta não lida, um caderno de receitas da família, um anel que não usamos mais, um recorte de jornal com alguma notícia que tenha mudado o nosso destino, um tufo de fios de cabelo do primeiro filho, uma moeda, um selo, parte de uma coleção que não temos mais ou, quem sabe, somente uma luz acesa num dos quartos vazios. Checamos atrás das portas, passamos as mãos sobre as muretas, os basculantes, portas e portais, olhamos, mais uma vez, para cada prego vazio e ainda tentamos nos lembrar o que mesmo ficava dependurado ali. Depois, fechamos janelas, portas e apagamos as luzes, deixando para trás o invisível que nos faltará numa madrugada de quarta-feira e que não lembraremos onde deixamos.
  Regressamos. Aos inícios das jornadas, esperando encontrar as mesmas encruzilhadas que recusamos, para retomar de um outro jeito, mas os caminhos são outros, impossíveis de serem reencontrados. Passada uma placa, ela se apagará e num desejado retorno encontraremos outra no lugar; as cartografias não são estanques.

  Repetimos. O prato favorito pelo qual a memória ainda saliva e buscamos o sabor de outro tempo. Acertamos o tempero, vamos ao mercado central da cidade atrás da especiaria que nunca compramos, calculamos as medidas, deixamos em fogo alto até levantar fervura e depois abaixamos o fogo, enquanto mexemos sem parar - há uma ciência nisso: o mesmo lado até engrossar, em círculos, nada de infinitos no fundo da panela. Apagamos o fogo, cobrimos o cozido e esperamos esfriar completamente, quando mergulharmos a colher na panela, levamos até à boca e o prato não é o mesmo. Recalcular as rotas não adianta, culpar os ingredientes é em vão, não passou do tempo nem foi prematura a retirada do fogão. Erramos outra espécie de tempo.
  Repetimos. As mesmas palavras, gestos, encadeados por lágrimas com o sal que é o mesmo, tentando salvar algo que foi perdido no choro anterior e só definido agora. 

  Corremos. Para não perdermos o ônibus, o início do filme, a primeira música do show. Penteamos o cabelo no caminho, jogamos um batom na bolsa, não respondemos a pergunta da vizinha para não perdermos o elevador. Esquecemos janelas abertas, a água do gato, o computador ligado e a última vez que saímos com calma. O ônibus passou mais cedo, as luzes da sala de cinema já estão apagadas e um diálogo forte já está sendo travado na tela e, depois de entregarmos os ingressos, escutamos o final de um refrão que reconhecemos.
  Corremos. Riscos ao escolhermos os sobressaltos, mas também se optamos pela calmaria. Corremos o mundo para encontrarmos o que sempre esteve debaixo da nossa camisa favorita, do cão que é mais dócil do que o nosso desespero, ao encontro de uma promessa vazia por medo de estarmos perdidos e sozinhos, corremos até não termos fôlego de sair à porta da cozinha e olharmos o céu de fevereiro.  

  Naufragamos. Com o barco recém revisado, pintado e polido. Completamente adequado sob o olhar dos especialistas, dos espectadores e dos condutores. Submergimos sem tempo de levarmos nada além do nosso próprio corpo e um colete salva-vidas. Vemos a vida que construímos não ultrapassar a primeira tormenta; e nem temos uma proa para sentarmos e chorarmos em cima dela. Antes, precisamos lutar em pleno mar aberto contra os raios, as ondas, a escuridão, os pulmões e braços que nunca, antes, experimentaram as condições extremas da escolha pela vida. 
  Naufragamos. Por um único nó que não conferimos, um botão que não apertamos até o fim; os detalhes nos afogam ou resgatam.
  Naufragamos na certeza, na confiança de um barco indestrutível e uma tripulação bem treinada e apaixonada. Agora, cada par de braços tenta encontrar um caminho que os leve à segurança, no escuro, na solidão do vazio, destituídos de planos e bússolas.

  Mentimos. Que passa, que passou, que nunca nos afetou para acreditarmos que não há peso nenhum a carregar. Conduzimos um novo par e tentamos não pensar na última coreografia que deixamos incompleta, antes de sairmos fugidos do salão. Não contamos uma violência a ninguém para que não nos lembrem com a solidariedade no olhar e a piedade na voz sobre aquilo que não pudemos esquecer.
 Mentimos. Porque também queremos acreditar na invenção que concebemos numa noite solitária de lua. Mentimos para fugirmos da pequenez da realidade, da agudez das tragédias cotidianas. Para sairmos mais cedo do trabalho e ficarmos mais tempo com o filho; para chegarmos mais tarde ao compromisso e ficarmos mais tempo na cama com o nosso amor. Ou inventamos uma desculpa para não falarmos ao telefone agora, não darmos uma resposta que não temos, para demorarmos mais quinze minutos no banho morno. Mentimos para viver ou para gostarmos mais de viver.

  Prometemos. A última vez, a visita na próxima semana, a viagem nas próximas férias, o último pedaço do chocolate. Mas não resistimos e voltamos ao vício, ao ócio, ao mau amante, ao costume que nos consome; falhamos na semana seguinte e na outra e na próxima, até as distâncias não serem mais conciliáveis, até não termos mais meios de encontramos o nosso necessário encontro; as próximas férias parecem próximas demais para organizarmos uma viagem, deixamos para a seguinte; o último pedaço de chocolate derrete entre os dedos, parece irresistível para cumprimos com a promessa de darmos a alguém, levamos à boca, sem culpa.
  Prometemos. Uma esperança, uma saída, um lugar onde os sonhos durem mais do que duas ou três noites, fidelidade, verdade, constância e resistência e se quebramos uma ou todas elas, não é por covardia, mas fragilidade dos ombros e falibilidade humana. Já não somos mais anjos, você se lembra? 

  Calamos. As vozes que ecoam dentro de nós, por medo, por amor a alguém que não nós, por não termos uma garganta que suporte a potência do grito guardado. Calamos para que o outro fale, nos submeta, nos engane, nos violente. Mas, também, calamos de coragem.
  Calamos. E não avançamos na discussão que só nos distancia da alma do outro, da nossa lucidez, mesmo que embriagada, das concessões que não faremos, da essência que ressignificamos com o nosso silêncio. Calamos e ouvimos as batidas do nosso próprio coração, que é o som que interessa, antes das vozes poderem sair. Não simulamos queda na jogada decisiva, partimos para o ataque até que possamos gritar tudo o que não conseguimos antes.



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O mais difícil sempre foi não saber o que fazer com as mãos

   O mais difícil da despedida não são as palavras que saem atropeladas nem os engasgos entre as
frases, não é o nó na garganta de choro e alívio.
  O mais difícil da despedida não são as lembranças ternas dos primeiros dias de morada, sobre as quais não ousamos falar no último dia.
  O mais difícil não são as lembranças dos primeiros temporais que se estenderam por dias, a roupa que não secava mais nem o cheiro do cachorro que voltava da chuva e parecia estar molhado há meses ou os dias em que abrir a porta era doloroso, quando se queria entrar e libertador quando não queríamos mais ficar.
   O mais difícil são os silêncios ao abaixarmos para pegar alguma coisa que ficou no chão depois de levantarmos um móvel pesado. Um marcador de página, um cartão do técnico da lavadora de roupas que nunca achamos, um bilhete de amor que um outro de nós escreveu num dia de felicidade.

  O mais difícil de ir embora não são as portas que deixamos bater atrás de nós, sem  a delicadeza da chegada, porque o síndico não está em casa, porque já passam das dez da manhã e porque não nos diz mais respeito nenhum arranhão na pintura, mola solta nas dobradiças, lascas na maçaneta ou fragilidade do vidro.
  O mais difícil não são as fechaduras novas que deveremos aprender a encontrar cada chave certa. Na pressa, na chuva, na iminência de um assalto ou abordagem de um desconhecido.
  O mais difícil é sair por uma porta pela última vez, enquanto o suor escorre, os vizinhos entram e saem, as curvas sinuosas do prédio que fica irritam e a geladeira não passa pela última porta, enquanto não deixam-na aberta.

  O mais difícil de uma partida não é o peso dos móveis antigos de madeira maciça, os mecanismos dobráveis dos novos, nem a noção de espaço cuidadosamente calculada; os frisos, as frestas, as arestas, o gesso, os detalhes da arquitetura art-déco do prédio que não podem ser sacrificados.
  O mais difícil não é equilibrar a pilha de potes de plástico, de livros, de discos, de mágoas enroladas em papel pardo ou a força e o jeito para atravessar cada obstáculo sem nenhuma lágrima.
  O mais difícil são as perdas inegociáveis, as cicatrizes divididas que doem mais do que se estivessem juntas numa mesma mala. Dores similares em lados opostos do caminhão de mudanças. 

  O mais difícil de uma mudança não são os livros que devem ser partilhados: olha o nomes, as dedicatórias, as dobras e marcações, o tipo de leitura de cada um. Isto é uma mancha de café ou mel? Na dúvida, encosta a página sob o nariz e aspira pela última vez o poema mais bonito. Que conhecimento nos escapou? Que livro não soubemos ler até o final?
  O mais difícil serão as memórias, as próximas histórias escritas sozinhas e sem o leitor paciente logo ao lado. Um livro de página marcada no criado-mudo, que ninguém viola.

  O mais angustiante não são os carregadores e os modos deles com a louça, a cristaleira de família e os fios do computador que não couberam na caixa. Não é a brutalidade com que tratam o armário da cozinha só porque está descascado e sujo, já era assim quando comprei. Era o passado de segunda ou terceira mão que eu quis na minha casa. Nenhuma suspensão ou medo com os espelhos e a possibilidade de sorte perdida nos próximos sete aniversários.
  O mais difícil de uma viagem de ida é descer as escadas com a fragilidade do peito tão exposta e não ter com quem dividir a responsabilidade de cuidados.

  O mais difícil não será decorar o novo CEP, as referências para entrega das compras feitas pela internet nem aprender em que parte da rua íngreme deve-se inspirar e expirar.
  O mais difícil não é saber que dia o caminhão do lixo comum passará e os dias em que o do lixo reciclado vai falhar. Não é difícil aprender quais os vizinhos vão implicar com a moto ou com o gato ou com o jeito que eu abro o portão da garagem. 
  O mais difícil, sempre, vai ser voltar para uma casa que não se voltou antes e não ser temporário. 

  O mais difícil de deixar ir embora não são as contas que vão chegar no final do mês e que eu vou ter que ligar para falar de dinheiro. Não serão as correspondências que vão chegar nos próximos cinco anos no seu nome e que, depois de um tempo, vou jogá-las fora sem abrir, porque não são minhas e não nos falamos há muito para eu entregá-las.
  O mais difícil sempre foi saber o que fazer com as mãos, depois que o caminhão for embora, com os espaços vazios na sala, na cozinha, no quarto, na bancada do banheiro e nas lembranças arejadas e amplas, cujas paredes estarão marcadas por um móvel que não está mais ali. O mais difícil de uma partida  é ver que duas vidas partilhadas, tão profundamente, cabem em um pequeno caminhão baú e que desorganizados, um por cima do outro, os móveis não são os mesmos que eram na casa. O difícil é depois de apagar a luz, ter que voltar a ser grande de novo com tão poucas coisas a serem guardadas.



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O topo da cabeça e a sola dos pés que me preocupam

Dois sorrisos jovens, largos de olhos e lábios, uma mulher de unhas longas, cabelo castanho e ondulado abaixo do ombro, como eu nunca pude ver, e flores no alto da cabeça. Um homem muito magro de olhos muito verdes, sobrancelhas negras espessas e mãos compridas e alvíssimas.
- Eles estavam tão felizes na foto. Tão bonitos.
  A cada página virada, uma felicidade diferente estampada, os olhos sempre ficam. Hoje, as pessoas parecem outras: os cabelos, as unhas, as maçãs proeminentes no sorriso já não existem, mas os olhos ficam; ficam sempre. As fotos são de um dia em que eu não estive, não podia ainda estar, mas eu sei narrá-lo completamente. As poucas imagens me ajudaram a construir um dia em que eu não estive. Do temporal que caiu, só sei pelas histórias que contam e por um áudio que eu ouvia quando pequena, os trovões que abafavam a voz do homem ao microfone. O que dura mais: uma foto ou um dia de felicidade?

  Em frente à padaria há um outro casal, esse totalmente desconhecido, mas que me faz lembrar do álbum. São sete da noite e a mulher se prepara para deitar, eu a acompanho de longe, numa intimidade impossível, mas aberta. Ajeita um garrafa térmica, uma sacola abarrotada e uma mochila amarela no degrau da porta de uma loja fechada, senta-se ao lado do homem que já se deitou e puxa um cobertor até o tórax, se deita, levanta a tampa de papelão e, antes de se cobrir, confere se o companheiro está bem abrigado, abraça-o e, depois, como uma ostra na concha, se fecha embaixo do papelão.
 A mulher é a última a se deitar. Na casa do álbum de fotos também era. Cuidadora, protetora, ajeita os detalhes ao seu redor antes de ir dormir, organiza e se assegura dos desfechos de um dia, preparando-se para a manhã do próximo.

  Eu já os vi outras vezes, talvez já tenhamos tido uma dezena de encontros. Nos últimos meses, eles têm dormido do outro lado da rua da padaria. E eu tenho trazido o cão para os nossos passeios diários, um pela manhã e outro no início da noite. É uma das ruas mais calmas do centro da cidade: mais casas, poucos prédios e pequenos comércios. O cão passeia sem sustos e eles parecem descansar com alguma tranquilidade.
  Há entre os objetos e as caixas de papelão do casal um ambiente  incrivelmente doméstico, embora  não seja ocultado por paredes. Conversam, discutem, sorriem, bebem, comem, fazem afagos um no outro, enquanto as pessoas da cidade passam com os seus pés a poucos metros das suas cabeças. Quase sempre os vejo indo dormir, mas nunca os assisto despertarem, desconfio que fazem isso antes das seis da manhã, para liberarem a porta da loja e não serem acordados pelo trânsito intenso antes das sete.

  Seus objetos pessoais, seus hábitos alimentares, de descanso, de higiene e sua sociabilidade familiar são tão expostas, tão visíveis e, mesmo assim, parecem completamente libertos dos olhares alheios.   Suas vidas, amiúde, transcorrem tão naturalmente e sem formalidades ou sob a justeza da vigilância, que desconfio que realmente não são vistos ou são bem pouco percebidos.
  Não sei nada sobre eles durante o dia. Não sei sobre os lugares que frequentam, se almoçam, se têm amigos, onde tomam banho, se vão ao médico. A mulher pinta o cabelo, disso eu sei, não sei com que frequência e nem onde retoca as raízes dos seus fios loiros. Mas conheço seus sonos e essa é uma intimidade que me fascina. Tão vulneráveis, ambos, tão entregues e relaxados, que às vezes me emociona, noutras me preocupa demasiado. Entre o papelão, com o qual se cobrem, e a rua, uma finíssima camada; entre a cabeça deles e os passos de desconhecidos ou as rodas de um automóvel, apenas centímetros de distância.   

  Terão um álbum? Que os inventará, numa tarde, sem uma foto? Quem narrará um dia de felicidade sem os registros que apoiem o enredo?
   Sou eu quem devo preservar a história de ambos? Como posso fazê-lo? Inventar um dia em que eu também não estive ou fotografar este onde estou? Como apontar uma câmera sem ser percebida? A quem entregar a fotografia para que se lembre depois? Os dois jovens, os dois felizes. Uma cozinha de azulejos amarelos com um fogão ao fundo, terão tido ou ainda terão, numa foto? Um filtro de água, copos de vidro, um tapete para colocarem os pés descalços ao se levantarem da cama, existirá?
   A vulnerabilidade dos seus destinos na calçada e a estreiteza das minhas possibilidades de  fotografá-los, ambas expostas, mesmo que ninguém as veja.

  Outra noite, outro passeio com o cão. E, a mulher, de novo, é a última a se deitar. Seus cuidados, seu zelo com os objetos que rodeiam o seu lar e a proteção com o companheiro que é parte da sua casa possível. Prende o cabelo com o elástico vermelho, senta-se ao lado do seu homem, estica o cobertor e, depois, o papelão - suas cortinas. Passo por ambos e vejo o topo das suas cabeças, que está descoberta, porque o papelão não é grande o suficiente. O topo amarelo da cabeça dela e a dele com os fios de cabelo tão curtos, que fazem seu crânio parecer com uma jaca. É uma intimidade da qual eu não posso escapar, eu velo o sono de desconhecidos, os quais eu gostaria de presentear com um álbum para que a filha deles um dia os visse jovens e felizes.
  Continuo a andar e posso ver a sola dos pés dos dois. O pé pequeno dela, com a sola escurecida, completamente nua e os pés dele, grandes, talvez do tamanho dos meus, cobertos com um par de meias azuis. Como podem sonhar tão expostos?

  Às vezes, quando me deito, sinto uma friagem entre os cabelos no topo da cabeça, uma vulnerabilidade, como se olhos desconhecidos pudessem alcançá-la e, por isso, uma angústia noturna me visita, só pela possibilidade de não estar tão protegida, a minha intimidade, como eu gostaria. Depois, na sola dos meus pés, o vento frio do quarto sopra e eu enrolo o cobertor um pouco mais nos calcanhares e os protejo. Só pelo medo de não estar suficientemente guardado o meu sonho mais recôndito. O sono se atrasa, me levanto, busco os chinelos no tapete próximo à cama, vou à cozinha e bebo um copo com água, até me sentir plena de liberdade sob as paredes mais espessas do que o papelão. Como alguém pode sentir-se mais livre sob um teto e paredes tão juntas?
  Quanto dura o que ninguém vê? Uma felicidade é fotografável ou a simulação dela é que é? A história de um casal sem paredes nem álbum, quem poderá perpetuar?