terça-feira, 20 de novembro de 2018

Um cotonete no telhado e o coração no beiral

   Mais do que o azul, tenho no agora o alaranjado molhado das telhas coloniais, sob a minha janela, nesses dias de chuva.  Mais do que as ondas esparsas vindas de um quase infinito, eu vejo os cordões de água da chuva escorregarem nos vãos do telhado vizinho.  Mais do que o mar para sonhar, ondas de barro, empilhadas numa estrutura de madeira, apaziguam as urgências que eu não posso conter.
  Mais do que uma paisagem idílica, me comove a casa ao lado e tudo o que nela ainda está incompleto. A cozinha onde quebraram uma parede, mas  não fizeram nenhum acabamento nos tijolos sem reboco; a metade de uma varanda sem piso, a escada entre a cobertura e a lavanderia, sem as barras da lateral - e por isso a avó sempre reclama quando vai estender as roupas; um terço do muro do quintal pintado de cinza e os outros dois terços, ainda, com o branco de outros anos; as marcas de pneus de um carro na garagem que ficou vazia, um homem cuja voz eu não escuto mais, enquanto tomo banho.

  O menino fala com uma voz, a cada dia, mais grave, a mãe tem variado mais os assuntos, que antes se restringiam ao doméstico universo,  a avó fala da feira e do governo, das flores que plantou e dos rumos da política externa, de uma doença de pele e do sistema público de educação, o cão ainda late a qualquer barulho na rua, só a voz do homem não mora mais ao lado. A incompletude agora está somada a esta ausência.
  Eu soube que ele iria embora meses antes de o carro arrancar em frente a casa; fui sabendo pela minha própria memória, acostumada com um avô que partiu, um pai que não ficou, tios que deixaram suas casas enquanto os filhos choravam nas janelas das salas. Fui entendendo a sua possível partida, pelas confidências da mulher ao telefone ou com a mãe, enquanto picavam legumes, pela frequência das pescarias dele nos finais de semana, pelos quilômetros rodados no carro velho sozinho, pelo vínculo amoroso e impenetrável entre a mãe e o menino. Soube e lamentei antes mesmo de vê-lo de costas, saindo pelo portão cinza.

  Dedico um tempo indeterminado a essa contemplação do telhado, porque me acalma, alimenta minhas divagações e me ensina a gostar ainda mais do que é próximo. No meu apartamento, tenho coisas bonitas que não uso, tenho outras nem tão belas que me deixam confortável e eu uso sempre. Olhar o telhado é conforto de saber onde estou, quando acordo e a certeza do lugar para voltar, quando vou dormir.
  Saber que ele é incompleto e guarda ausências é reconhecer o imponderável da vida. A casa é bonita porque nunca está pronta; a partida do homem é dolorida, porque sempre penso na personagem sobre quem contam, mas cuja voz não aparece nas páginas.

  Ainda chove, o telhado está quase todo limpo, só um cotonete não é arrastado pelas águas. Passo  muitos minutos, tentando entender o que o prende, esperando que ele  não resista aos pingos que aumentam ou calculando a distância entre ele e a minha janela, o comprimento do meu braço mais uma vassoura e, talvez, meio corpo meu debruçado na janela. Era o homem quem limpava o telhado, todo final de setembro.
  Enquanto sou vigilante do cotonete, o homem abre o portão cinza, depois de estacionar e eu nem notar o carro, o cão vai ao seu encontro, os dois ficam na chuva e eu acho que choram. O cão passa a face na perna dele muitas vezes, ele se abaixa e dá batidinhas amorosas na cabeça marrom, muito molhada, e, por isso, ele demora mais a entrar. Tomam chuva, matam as saudades um do outro e a casa, da minha janela, parece um pouco menos vazia agora.

  Eles entram num corredor coberto, externo à casa, o homem bate a campainha, alguém abre a porta e, minutos depois,  fecha. Não escuto mais nada de lá, nem o cão late.
  Volto para o cotonete preso e espero que ele caia; eu não gosto de telhados sujos. Eu não gosto porque me lembram da irresponsabilidade humana com o lugar que só enxergam espaço.
  Eu não gosto dos planos porque eles roubam os instantes do agora e nunca os devolvem. Eu não gosto dos planos porque eles falham, mesmo que sejam traçados com muitas certezas.
  O que eu não gosto na ideia do para sempre e, por isso eu não falo para sempre, é que ele não pode durar, se já começar para sempre. Eu uso um dia de cada vez, mas não resisto a viver muitos em uma só hora
  Eu não gosto das promessas porque elas são verdadeiras no começo, mas precisam mentir para sobreviverem.
  O que eu não gosto nos torturadores não é a potência dos seus socos, tampouco o que podem fazer com as suas mãos, eu não gosto é do vazio das suas almas, do que nunca suas cabeças poderão alcançar.
  O que eu não gosto do amor é quando ele só olha para uma pessoa e ignora as nuvens brancas em um céu azul claro, não vê as ondulações da paisagem e que isto também pode ser um amor profundo e o mais leal.
  O que eu não gosto nos finais de novela são os clichês muito inverossímeis, porque depois dos casamentos não é felicidade contínua e não é só o vilão que enlouquece.

  O cotonete escorrega de uma só vez, é rápido demais para eu entender como ele se desprendeu; é  como o leite que ferve e se espalho no fogão, no segundo que distraímos, com a senha e o atendente impaciente gritando o nosso número, com a mensagem que não vem, se estamos com o telefone na mão.
  Mas o cotonete não chegou ao chão,  está pendurado em um beiral do telhado da casa, em formato de coração. O telhado da casa vizinha agora é limpíssimo, não precisamos do homem para limpá-lo nesses dias. Basta uma vassoura longa e qualquer um pode tirar o cotonete do beiral. O homem ainda não saiu da casa, não sei se sairá e se sair, se voltará. Só sei do cotonete preso no ângulo debaixo de um coração.

  As incompletudes da casa me lembram das minhas, das paredes que ainda não consegui pintar, dos pisos que eu deixei de assentar, das barras que eu disse que colocaria, mas me acostumei às vertigens de todos os dias. 
  Estamos condenados a termos o coração dependurado, assim como o da ponta do beiral do telhado, sem segurança alguma, sem proteção e nenhuma garantia de  longevidade. Um cotonete resistente, um coração vazado e vulnerável, um telhado apaziguador, o homem e o cão, sob a chuva, com um amor que espera sem ressentimentos e outro que volta sem pudores. 
  Esta noite, possivelmente, vou sonhar com a volta do pai; eu sou como o cão, não suporto despedidas, minha cabeça sempre está a espera de um retorno macio.




segunda-feira, 12 de novembro de 2018

De torcer as roupas pela manhã temos vivido

  Há dez dias a insônia voltou. Derrubou minha xícara com chá, acendeu as luzes, endureceu o
colchão, puxou o lençol e o travesseiro. Deitou no tapete ao pé da minha cama e fincou sua estadia sem convite; até o gato ela irritou com a sua presença imposta.
  Há dez dias, as noites são muito longas e os dias curtos e sonolentos demais.
  Mas no décimo primeiro dia choveu, o barulho da água caindo, o ar fresco e a rua vazia convidaram o sono. Que esquentou meu chá, apagou a luz, afofou o colchão e me cobriu com o lençol macio.
  A água dissolveu, ao menos por uma noite, o envelope  e a minha angústia, o medo de ter medo e a minha limitação, uma vulnerabilidade com nome científico, receita com grafia ininteligível. A vida, de novo, numa corrente que não controlo. Olho para o céu escuro e não sei a que horas e o quanto de água cairá.

  Dormi o sono dos desmemoriados, nem promessa nem dívida, nem medo nem ansiedade, nem arrependimento nem resolução, nem culpa nem orgulho, nem acidente nem planos. A preciosa pausa noturna dos que flutuam em mar calmo, sem esperança ou pressa por um continente. O gato voltou ao quarto, subiu na cama, quando viu o tapete vazio e também descansou em paz. Partilhamos o alívio e a almofada maior; meus pés e o corpo felino inteiro. 

  Pela manhã, fui caminhar alegre pelo asfalto lavado - o melhor cheiro do pós-sono - , renascida, energizada e grata pela partida da visita inoportuna que desocupou o meu tapete, nos primeiros minutos de chuva.
  Ainda me lembrava do envelope, dos nomes científicos e das prescrições farmacológicas, mas não senti medo, insegurança ou mágoa. A minha persistente insônia foi derrotada por algumas poucas horas de chuva; qualquer vida está sujeita a sutis imprevisibilidades como esta.
  Muitos carros na avenida, poucos pedestres ainda e só uma imagem me detém agora: um homem do outro lado da rua, no pátio do prédio que está em reforma, torcendo suas roupas e estendendo-as numa mureta. Um guarda-roupa inteiro: duas calças e cinco blusas, um par de meia e nenhuma roupa íntima. Sua moradia está no chão, a lona não suportou a pressão da água e ele caminha sobre o seu teto azul agora.
  Ele não dormiu.
  Na noite em que a insônia partiu do meu tapete e eu e o gato pudemos descansar, o homem tinha o seu teto jogado ao chão e todos os seus bens encharcados pela minha paz noturna.

  Agora, eu caminho descansada enquanto ele torce suas roupas, silencioso e resignado, como eu fui por uma dezena de dias, abrindo e fechando o envelope do criado-mudo. Por que as roupas que ele torce tão publicamente ninguém vê? Por que o meu envelope, mesmo em limites domésticos, causa mais comoção?
  Queria atravessar a rua e pedir desculpas pelo meu sono tão pequeno-burguês que se alimenta do barulho das tempestades. - Quanto mais vento e mais água melhor! Que chova a noite inteira para eu me sentir embalada! - Queria atravessar a rua e ajudar a torcer suas peças de roupa e quem sabe tentar secar o seu cabelo.
  Quantos quartos vazios e um homem na rua, completamente vulnerável aos fenômenos naturais?

  De não perguntarmos, mas recebermos respostas estúpidas, mesmo assim, temos dormido. De não gostarmos da companhia à mesa, mesmo assim, temos jantado. De sermos julgados por não apontarmos, de sermos condenados por nos posicionarmos, ainda assim,continuamos a discursar, sem nem sabermos a que plateia.
  Por lisos diálogos temos escorregado, por afagos interessados temos cedido; as peles mais marcadas, as mãos mais feridas e as dores menos suavizadas temos ignorado.
  As desculpas deveriam vir em comboios; mas é possível que venha envergonhada, pequena e triste numa bicicleta de segunda mão. Eu não atravessei a rua, só acompanhei cada peça de roupa, encharcada, ser estendida.

  Hoje choveu de novo. A insônia voltou, mas não ocupou meu tapete. Sentadas na beirada da cama, ouvindo a chuva forte lá fora, dividimos os cigarros e as horas acordadas.
- Como tem sobrevivido o homem quando um dilúvio surpreende o seu descanso? Perguntei à visita.
- Amanhã ele torcerá suas roupas.
  Me acostumo  ao que acho que mereço. Acostumamos muito mais às ausências, porque a falta parece nos caber melhor do que a prosperidade. Não ocupa, não confunde, não exige esforços de manutenção.
 Nos acostumamos a não ter.

  Nas manhãs depois da chuva, ele torce todas as suas roupas e estende sob um sol que é tão imenso, que aquece as suas imprevisíveis fatalidades e ilumina o meu sonho sem sono, no envelope em cima do criado-mudo. Depois da tempestade, olhar para o céu e esperar pelo sol.
  De torcer as roupas não podemos esquecer nunca, mesmo que a previsão para o dia seguinte avise sobre a chuva.
  Ainda que desamparados de aprendizado de termos tudo, é preciso sair da cama pela manhã, levar o envelope até o consultório médico, ouvir o que pode ser dito e torcer as roupas. De torcer não devemos nos salvar nunca. Porque é o que podemos fazer depois de uma tempestade que derruba o teto.



sábado, 10 de novembro de 2018

Como guardar as paredes de um apartamento

   O caminhão para em frente ao prédio, é sábado e eu preciso desocupar tudo antes do meio-dia; combinei com o síndico. Vou economizar tempo, porque o outro apartamento é mais perto do trabalho, vou poupar com um aluguel mais barato e também com os trabalhos domésticos, porque terei menos duas janelas, menos um quarto e uma varanda para limpar. Só esses já seriam motivos para eu estar certa da mudança. Mas há outros, especialmente um: eu preciso escapar da saudade instalada em cada parede do apartamento.
  Não há quadro, cortina, cor de tinta, incenso, mudança de lugar de cada móvel que distraia o que aqui já morou e, de certo modo, ainda mora.
Varri o chão duzentas vezes, gastei um rio de água com cloro, descobri teias de aranha, uma pequena comunidade de formigas atrás do sofá, afoguei papéis com outra letra em um das muitas faxinas. Vendi alguns móveis, troquei, comprei outros que vinham com lembranças de desconhecidos e desfiz das minhas, também, com incautos anônimos que pagavam preços simbólicos por coisas que me pareciam demasiado caras, agora.
  Vou me mudar, porque todo dia pela manhã a xícara única na mesa, o ovo solitário na frigideira e a cadeira vazia, que eu inventei de encostar na parede e espremer a mesa sobre ela, denunciam um projeto definitivamente arruinado. Ou é saudade ou é mágoa; talvez as duas juntas embalaram os copos, os pratos, as roupas e os souvenirs de lugares que eu nunca visitei.

   O motorista do caminhão traz um ajudante, enquanto eu olho para os cantos esvaziados de anos felizes e também melancólicos, eles levam tudo: cama, sofá, a máquina de escrever do meu pai, a de costura da minha mãe, uma máquina de pão que comprei e não achei a caixa para colocar de volta; por isso vai enrolada em um jornal e um saco de flanela, de sapatos, eu acho.
- Não achei que fosse tão rápido.
  Eu falo, mas eles não me ouvem, a voz sai pequena e meio agarrada na garganta. Eu não acredito que vou chorar agora. O mês inteiro descobrindo memórias, me despedindo, sem testemunhas, e nenhuma lágrima molhou o tapete e agora, logo agora, o nó na garganta e a voz embargada até para pedir ao vizinho, que segure o elevador.
  Não aguentei, chorei no elevador cheio, na rua enquanto passavam outros carros e muitas pessoas,  chorei na frente dos dois homens da mudança e, depois, com o dono do apartamento; o único que me ofereceu um lenço de tecido, tirado rapidamente do bolso e mais um desconto no aluguel.

   Queria pedir ao senhorio que não alugasse o apartamento a quem não tivesse olhos para reconhecê-lo como o melhor lugar da cidade. Fiz tantos planos na janela da sua cozinha, enquanto lavava a louça. Dancei tantas vezes no piso de madeira da sala, escorreguei de meias pelo corredor, derrubei acetona enquanto fazia unhas aos sábados pela manhã, vinho à noite, goles de água a qualquer dia e hora e deixei escorrer muitos sonhos, que se incrustaram entre as fendas do taco antigo, que ele insistia em trocar por algum piso mais prático e eu me opunha sempre.
  Queria vender livros, mas nunca soube a quem. Por isso, o trabalho longe e o dinheiro que nunca é o suficiente. Queria amar, mas não entendi a língua, nunca chegava a tempo e, por isso, a partida e o ressentimento pelo naufrágio. Queria pagar o aluguel até o final dos meus dias e não sentir a dor de ver os ladrilhos preto e brancos, da cozinha, serem tocados por outros pés.  - É preciso desapego - alguma entidade sopra ao meu ouvido. - Também acho, concordo - eu respondo ao sopro. Mas não acredito muito em mim.

  Enquanto enxugo as lágrimas com o lenço do locador e me lembro dos lenços de pano do meu pai, eu encorajo a voz desentalar-se da minha garganta:
-  Não deixe quem pintem o corredor de outra cor, o lilás fica tão bonito. Testei outras, essa é a ideal para a luminosidade ali. Não deixe que tirem os tacos de madeira, que substituam a porta de vidro da entrada, as grades da varanda, nem que troquem o piso da cozinha e a louça rosa do banheiro. Não deixe que não gostem do apartamento. O homem me olha com gentileza e  compaixão:
- Vai ficar do jeito que você deixou, para quando puder voltar.
  Eu disse que só iria embora porque não podia mais pagar o valor do aluguel e ele disse que não mudaria nada; mentimos os dois.
   Não foram os sonhos desfeitos, a cômoda que perdeu um dos pés antes de ser colocada  no caminhão, os pratos que eu embalei sem nunca ter usado ou o amor que eu não soube ou não me soube; chorei porque eu amei o apartamento e ele a mim, pensei agora.

  Quando o sino da igreja tocava eu e ele acordávamos  no domingo e continuávamos silenciosos, ouvindo alguns hinos, eu me lembrando dos ritos e também da minha mãe e avó e ele não contando a ninguém sobre as minhas vulnerabilidades.
- Não. Nunca. Nenhum atrito, nem quando a infiltração da parede do banheiro começou, nem quando os azulejos da cozinha rebentaram-se numa semana, nem quando eu fiquei sozinha limpando, arrumando, cantando, chorando, bebendo, falando e sendo forte e fraca.
  Fico parecendo materialista quando falo. Mas amei um apartamento e se pareço louca quando penso isso, é porque senti mesmo reciprocidade, resposta para cada pergunta ou outra pergunta, e, então, fazíamos um diálogo de interrogações; se eu gritava ele ecoava os meus gritos, se eu emudecia ele me acolhia com uma mãe, uma amiga, um pai ou um amor de colo largo.

  Os livros foram os últimos a serem carregados. Quando saíram, eu achei que o apartamento se sentiu verdadeiramente magoado.  Fomos eu, os livros e o apartamento, uma tríade inseparável de memórias, imaginação e resistência calma no mundo em ruínas.
  Agora, éramos somente caixas de papelão, choro afagado em um lenço de um intruso capitalista e cômodos ridiculamente esvaziados.
  Antes das onze, tudo o que eu tinha ocupava dois terços de um caminhão pequeno, eu segurava uma bolsa vermelha, tirava dela um molho de chaves e me lembrava de retirar meu chaveiro, entreguei tudo ao senhorio e nem fechar a porta pela última vez eu pude. E as lembranças iriam ficar mesmo no apartamento ou encontraram espaço no caminhão que eu não pude encher?
  Subi no caminhão, me sentei ao lado do motorista e resolvi procurar o celular para uma última foto, mas o motorista arrancou e foi melhor mesmo eu não registrar a despedida.

  Agora está mudo o apartamento, é só mais um na cidade - pensarão os que passarem e lerem a placa de aluga-se - eu sempre saberei que não é.
  Vou economizar tempo, dinheiro, vassouras e panos molhados; no fim, é isto: poupar para viver. Mas eu queria gastar. Eu sempre gastei tudo; só o apartamento ficava, no fim do dia.
- O senhor pare aqui por favor.
  Eu gritei ao motorista, agora, assustado.
- Vou voltar e tirar uma dúvida com o senhorio. Mas antes: se tiverem que descer a mudança no apartamento do qual recolheram o preço é o mesmo?





quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Uma vela para a santa e o dedo médio para os fascistas

 A distância entre uma promessa e a sua realização é um cálculo imprevisível. Pode ser curta, logo ali, ou mais longa do que o desejado; pode ainda, não chegar nunca a se cumprir. Uma promessa perdida do seu caminho e jamais reencontrada, sem cartazes, sem anúncios, sem um corpo a ser velado; uma promessa volátil, tão logo feita, dissolvida no ar; uma promessa esquecida do seu destino, souvenir perdido na viagem de volta.
  Às vezes uma promessa só é concebida para adiar um fim, para salvar alguém da morte ou do tédio que frequenta a vida; uma promessa inventada para ganhar mais tempo, entre o seu lançamento e a sua chegada ao chão; cacos varridos e dispensados em sacos pretos de plástico.

 Uma promessa-mentira, cuja verdade está na vontade de criar um mundo diferente deste, um lugar onde qualquer promessa pudesse chegar a se cumprir.
  Uma promessa-cenário, que ludibria os olhos de alguns espectadores, mas não esconde do cenógrafo as partes remendadas nos bastidores.
  Uma promessa-esperança, vontade de acreditar na possibilidade do seu cumprimento; promessa-bandeira, hasteada na proa do barco para ter mais vontade de remar.

  Duas da tarde, passamos pela avenida e vem ela, que nos atinge como um pássaro perdido, uma flecha, um raio de luz;  vem trêmula, com passinhos tortos, mas muito determinados. É uma senhora que usa boina e ósculos escuros, tem o cabelo grisalho bem curto, veste um casaco xadrez, mesmo que faça sol e nos olha com uma esperança exaltada. Vem pelos adesivos que trazemos nas camisetas.
- Ele não, né?
- Não! Ele jamais!
   Ela segura o meu braço e a sua tremedeira parece se assentar; como uma criança perdida dos pais na praia e, de repente, os tem de novo. A respiração é ofegante, as suas narinas dilatadas, que parecem com as minhas, mas começam a tomar formas mais delicadas e ela conta, sem que pedíssemos, ela desabafa porque se vê entre iguais:
- E eles querem que os militares voltem, de novo! O que essa gente tem na cabeça, minhas filhas? Morei em Brasília durante quarenta anos, vivi toda a ditadura lá. Trabalhei para eles, eu sei o que eles são capazes de fazer. A tortura...
  Ela engole o resto da frase e nós duas não sorrimos mais como antes, eu e minha irmã, com adesivos no peito e a nossas esperanças mais latentes do que o sol de sábado. A mulher, cujas narinas são quase iguais as minhas, continua:
- Só não fui torturada porque eu tive que andar na linha, né? Que tristeza tudo isso!

  Então porque, de repente, tenho um amor pela história dela, porque ela segura o meu braço e parece precisar de mim, eu prometo:
- Nos vamos virar!
- Você acha?
- É claro, eu tenho certeza!
Minha irmã faz coro:
- Vamos sim! Nós vamos ganhar.
  Eu prometi porque a amei, prometi porque acreditava ou queria, prometi porque ela tão vulnerável, pequena, trêmula, idosa não merecia o país sombrio que ela conheceu, prometi porque não sei viver sem prometer nada.
 Somos três mulheres, às duas da tarde numa avenida da cidade e sorrimos tão cheias de fé, que entre a promessa e a sua realização, parecia ser só atravessar a rua.
 Eu prometi um lugar afetuoso e iluminado para a sua velhice. Eu prometi sensatez e liberdade; sororidade e direitos humanos. Eu prometi a ela um país, entende?

  Ela, agora, parece mais esperançosa e ainda mais próxima:
- Eu coloquei o treze aos pés de Nossa Senhora, eu acendi uma vela para ela iluminar a democracia.
- Sim. Nossa Senhora vai iluminar a todas nós.
  Eu pareço mais crente agora. Ela solta o meu braço e se despede:
- Vão com Deus! Nossa Senhora abençõe.
Minha promessa é mais forte do que eu e grita:
- Vá com Deus e fique tranquila! Nós viramos amanhã.
  Talvez ela tenha tido o último sono de esperança; talvez a minha promessa tenha sido seu melhor travesseiro.

  No domingo à noite eu chorava muito, chorava porque os cacos de uma promessa ainda feriam os meus pés, porque eu me lembrava das narinas dilatadas, desesperadas por um futuro que não repetisse um passado no escuro, chorava me lembrando das mãos dela no meu braço, do seu desassossego na sua chegada e da sua alegria na partida.
  Chorei porque eu só me lembrava da promessa não cumprida.
- Eu não dei um país a ela.
  Chorei porque a imaginava apagando a chama da sua vela com uma lágrima de desesperança, uma promessa arruinada. Chorei porque eu me vi na senhora exaltada, partilhando do seu desamparo com duas desconhecidas e sendo acalentada pela mais mentirosa delas.
- Quero dormir e esquecer esse dia. Quero dormir e esquecer a mão dela no meu antebraço.

  Antes de dormir, numa imagem do jornal, uma menina preta pequena e corajosa, erguendo o dedo do meio para uma mulher quase branca que parecia gritar com ela, vestida numa camiseta com a imagem de um mitomaníaco,  enrolada na bandeira de um país que era outro e mesmo nosso. A menina sem medo, impassível, não-subjugada com o dedo médio, única arma, contra os fascistas. Eu queria ter mostrado a foto para a mulher de sábado.
  Nem todas as promessas se cumprem no tempo em que gostaríamos, nem todas as promessas irão se cumprir um dia, mas quem tem coragem promete; quem tem promessas se levanta no dia seguinte. Eu devo a elas, não sucumbir, serei a menina, desafiando os gritos e a velha senhora, acreditando nas promessas de desconhecidos.
  Eu, a minha irmã, a menina preta, a mulher de narinas dilatadas, não somos derrotas, somos promessas.




quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O que eu quero dizer é que ir para outro país não me consola

  O que eu quero dizer e ainda não disse é que não há de ser nada no seu envelope branco, que se por acaso for, não será nada de grave e que saberemos como carregá-lo, porque eu estou na ponta oposta do seu envelope. Cheguei até ele por cada música, poema, confissão, insegurança, copo, prato, cama, mala, chuveiro, mesa, toalha, caneca, avental, poltrona de cinema, consolo, rímel, beliscão, pente, dor, incompreensão e casaco partilhado.
  O que eu quero dizer a você é que o seu envelope pesa tanto nas suas mãos quanto no meu sono, dia e coração. E que eu fiquei na cama hoje até mais tarde, deixando o sol entrar pela cortina semiaberta e que a cada parte do meu corpo que ele iluminava eu pensava no seu inteiro curado; sentiu o calor daí? Eu queria que sentisse, tanto quanto o meu ombro ao lado do seu na sala de espera. O que eu quero dizer é que também tenho a vida em suspensão, desde o envelope.

  O que eu quero explicar é que é simples, embora pareça complicado e que a Quadrilha de Drummond, mesmo que triste, é de uma humanidade que se comunica com a minha. Se João e Teresa se amassem, quando chegariam as outras personagens? Até o J. Pinto Fernandes me comove.
  O que eu quero que você entenda, mas que eu nunca consigo explicar, é que isto de amar nos leva mesmo a um outro lugar, mas o de ser amada nem sempre. Porque limita, nos isola dos outros mundos, nos cerca de projeções dolorosíssimas, que só usando o superlativo para tentarmos comunicar.
  O que eu quero que você alcance é que se doer, já no início, não é certo com o próprio coração nem com os dos outros. E que a viagem é longa demais para bagagens muito pesadas; sejamos, então, gentis e nos revezemos com a mala um do outro, que isto já um amor.

  O que eu quero mesmo que você entenda é que eu sofro profundamente, que vivo sangrando, mas nunca sujo o tapete da sala, não perturbo os comensais durante o jantar e que a minha dor, embora não seja estridente, sai a passeio sempre que lhe apetece, há uma liberdade sereníssima entre nós. Ninguém submete a ninguém.
 O que eu gostaria que chegasse até você é que a minha alegria é tão antiga, quanto é nova; tão extrema, quanto é suave; tão lilás quanto rubra e que as estações não a envelhecem. Minha alegria é  pueril e é bem simples, com vestidinho rasgado nas bainhas de tanto pular córregos.
  O que eu quero que você descubra é que sangro todos os meses e me curo; que esfolo os joelhos e continuo correndo, que danço quando estou triste e, às vezes, me encolho de tanta felicidade.

  O que eu quero dizer é que estou de asas abertas, embora pareça resignada e soturna, agora. E que de tudo isto não sobrará ressentimento, entende? Nem vontade de vingança, arrependimento, culpas apontadas. Porque eu quero o entendimento, não o único, mas o possível. Desvendar o que justifique a cegueira, os gritos, os rostos de raiva e os gestos armados.
  O que eu quero é ser capaz de comunicar que voamos todos, mesmo quando as asas estão feridas e as consciências perdidas. E que há sempre tempo de reformular rotas, de errar e recomeçar uma centena de vezes, de outros jeitos, mas não para todas as pessoas sempre. E com isso há de se ter cuidado: alguns erros apagam vidas.
  O que eu quero dizer é que ir para outro país não me consola, tenho, além das asas, raízes profundas de esperança e memória. Não sei quanto cada viagem dura, mas não me canso de esperar pelos degredados.
   O que eu quero dizer é que eu vejo todas as suas ligações e não atendo porque não quero, mesmo. Não é culpa da operadora, do aparelho, da minha desatenção remota. Eu sei que já não sou capaz de ser ouvida por você e falar assim não me agrada mais. Você escuta o som, as palavras, mas nunca me ouve.
  Eu quero dizer que eu poderia sim amá-lo e que, mesmo assim, você fosse alguém terrivelmente insatisfeito; e isso me mataria. Porque secaria todas as minhas reservas e, cansada, eu não saberia fazer mais chover em mim. Por isso, inundo-me, mas não deixo que mergulhe profundamente nas minhas imensidões molhadas.
 
  O que eu quero explicar e não sei como, é que sim, o  amor tem tantas nuances, não é uma janela aberta para um plano único. Mas estar na janela a um mesmo tempo é que é o inalcançável mistério. Às vezes chegamos cedo demais, outras vezes demoramos um pouco ou muito e a janela não nos conta se tivemos quem nos esperasse ou estivesse em atraso. Partimos sem nunca saber.
  O que eu quero dizer é que a janela não se fecha se alguém não chega e que evitá-la não nos poupará dos desencontros. O que eu quero dizer é isto: o lado oposto ao simples, neste caso,  não é o complicado; mas o desencontrado. E que o simples não é fácil, mas é o melhor para carregar durante a viagem.

O que eu quero dizer é que não sei falar como escrevo e o que escrevo também não ajuda a explicar nada. Mas é uma janela, entende? Que alguém chegue ou não, ela sempre estará aberta. "João amava Tereza que amava Raimundo que Amava Maria".