domingo, 18 de agosto de 2019

Atravessar os desertos eu já sei, porque tem nome

   A atravessar desertos eu aprendi, meu amor.  Me acostumei a aridez dos dias, ao nariz reclamando
umidade, ao sol escaldante, às miragens, a confusão mental e eu achando que a vida, de repente, podia me abandonar e me deixar solitária lá; no calor do dia ou na friagem da noite.
  Os pés sangrando, os poros cobertos de areia, a garganta quase fechada, o desejo ilimitado por água, o desconforto da luta, a sobrevivência batalhada, tudo isto eu aprendi.  Ter muito medo, em alguns passos, noutros  uma coragem que eu nem sei dizer de onde vem. Porque eu aprendi a cruzar desertos, a saber que a minha finitude não está neles, porque ela me espera do outro lado.
  Eu aprendi secura demorada, mas passageira.  Sentimentos, órgãos, memórias ressequidas que um dia encontram água. Eu sei atravessar os desertos porque eu sei que eles acabam, entende?

  Assistir aos desencontros do amor eu aprendi com os filmes que eu não podia ver, mas que fingia dormir no meu quarto para, então, no meio da noite, me levantar e ligar a TV.
  Eu aprendi a chorar com a dor bonita nas fotografias e trilhas sonoras do cinema que não era para mim. Eu aprendi a testemunhar despedidas em preto e branco e a me rasgar com diálogos e choros das personagens que não eram as principais, mas foram sempre as minhas preferidas. Eu aprendi a torcer por finais felizes, mas também imaginar o que aconteceria depois da cena final. Eu aprendi a entender que o happy end não dura tanto assim, mas é terno e doce, no segundo que o cinema eterniza.

  A andar sobre desfiladeiros eu me acostumei também, pode estar certa. Aprendi que equilíbrio é, além de treino,  muita vontade de chegar ao outro lado, pois não tendo razão maior para a travessia, tudo parece demasiado sem vida e arrastado.
  A dirigir carros e não deixá-los cair nos abismos eu aprendi; porque o solo nunca foi plano e seguro comigo.
  Eu sei evocar orações, santos com os quais eu quase não conversei mais depois que abandonei dogmas e templos; eu aprendi a ver um deus mais humano e a mim mais celestial. Eu rezo o terço antes da travessia, no ponto exato em que eu tenho mais medo e ao chegar do outro lado. Eu tenho sido muito crente, desde que não frequentei mais as aulas de catecismo.

  Atravessar a praça central sob ataque inimigo eu sei bem como é. O coração batendo desesperado, as mãos suadas, a dúvida do seguir ou permanecer no esconderijo, as técnicas para tentar não ser vista fracassando uma a uma. Eu sei sentir o sangue na boca, antes do tiro, antes da ferida; eu sei querer me salvar e também querer dar a mão a alguém e ajudá-lo a se salvar, eu sei como é quando a mão não alcança.
  Eu sei permanecer por horas em pé, sem fazer xixi ou beber água, eu sei ranger os dentes sem fazer barulho e pensar em coisas distantes da praça, enquanto o fogo cessa.
  Aprendi a me desvencilhar das mãos que oprimem - de algumas delas - , quando me alcançam e a não olhar para trás, com o risco de nunca mais ver a liberdade. Eu aprendi a enxergar inimigos na praça, ainda que sorriam e me cumprimentem pela manhã.

  Parir sem pai e anestesia é exercício diário da minha maternidade sem visitas ou chás com presentes e bolos.
  Aprendi a esperar as horas, semanas, meses ou anos de uma gestação, a me alimentar por dois, a quando enjoar chupar limão. Aprendi a acalentar um desejo, construir um projeto e ele não nascer; ser o filho que não vingou, só eu comemoro todos os anos o dia do seu nascimento. Um filho que eu dei o nome e ainda chamo, enquanto durmo.
  As minhas gestações são complicadas e solitárias, mas tenho sobrevivido a cada nascimento e morte.

  Ao que eu não me acostumo e o que me angustia são os dias comuns, em que o extraordinário abandona as horas desmaiadas num canto. São as palavras, sem versos, na tela do computador, as reuniões que não evocam esperança, os números sem história, as vezes em que se esquece de sorrir por semanas.
Eu não me acostumo com as horas vazias de encanto: as filas sem conversas, os cães que não ladram, as crianças que sempre estão na escola.

  Atravessar os desertos eu já sei. O que é difícil é continuar em agosto, fazendo marcações no calendário da mesa. Sem bombas, gás lacrimogênio, sem ver a vida por um fio e eu atada à ela. Sem direções perigosas em desfiladeiros, sem gestações de alto risco que às vezes não dão em nada.
  Tenho medo dos dias mornos, são eles que contaminam as minhas entranhas, são eles que silenciosamente desmancham os nós pequenos das minhas esperanças.
  Por que sou assim? Por que somos, meu amor?
  Vamos aprender a chamar o elevador sem paixão, esta é a guerra mais bruta e a mais frequente. Atravessar o deserto eu já sei, porque ele tem nome. Mas esses dias de tranquilidade letárgica eu não sei ainda o que fazer com eles, porque não sei do que posso chamá-los.




terça-feira, 13 de agosto de 2019

Aprender a luz como as mulheres de Zanzibar

   Em Zanzibar muitas aldeias não têm energia elétrica. As mulheres que estudam pouco precisam ensinar as tarefas aos seus filhos à luz de um candeeiro, que arde os olhos e sufoca os pulmões. Mas aprender liberta os seus filhos da escuridão em que vivem. Em Zanzibar, sem luz e sem leitura, a vida das mulheres é muito mais dura que a jornada dupla ou tripla das minhas vizinhas. Suas casas cheiram a óleo queimado e a fuligem se espalha pelos móveis e chão da casa, mas as mulheres não desistem de iluminar os amores nascidos delas. As mulheres de Zanzibar precisam dar a luz todos os dias, numa maternidade humana, porque tem defeitos e inumana, porque jamais acaba.

  Em Zanzibar, o banho é frio, o dinheiro é pouco, a comida não pode ser guardada por muito tempo e as mulheres estão no mais baixo patamar da pirâmide social; sem terras, sem bens, sem liberdade e sem escola. Mas mesmo assim  as mulheres permanecem na aldeia, ainda que no escuro.
  Enquanto os homens de leitura procuram outras raízes, as mulheres nunca partem, porque são elas a manterem sempre acesa a luz dos candeeiros.

  De tanto tatearem no escuro, agora, as mulheres de Zanzibar estão indo à faculdade para aprender sobre energia solar. As mulheres não se tornam engenheiras e se mudam para alguma grande cidade; em Zanzibar, são operárias e aplicam o que aprenderam nas casas ao seu redor. Instalam luzes e chuveiros elétricos, compram a primeira geladeira de muitas gerações e continuam a ensinar seus filhos, com pouca leitura, mas agora com luz.

 Uma mulher que aprende, em Zanzibar, liberta dezenas das sombras da ignorância e da falta de luz.
  As mulheres em Zanzibar tem parto com dor, não compram batons de revistas nem sabonetes em caixas. As mães de filhos sem pai, em Zanzibar, esperam a noite chegar, para colocarem os filhos na cama e chorarem sozinhas no escuro. No dia seguinte, depois de desaguado o choro, voltam a instalar as luzes que iluminarão as letras dos filhos delas e de outras.

  A dar a luz também se aprende; assim como a amar ou enxergar no breu. Como as mulheres de Zanzibar eu quero ser capaz de iluminar caminhos. Quero aprender a resistir ao escuro; quero apoiar candeeiros, até o dia em que for capaz de trazer o sol que falta.
  Como essas mulheres eu quero aprender um amor, mas não o romântico das novelas e dos filmes estadunidenses, eu quero um amor que tenha asas. Um amor que voe, um amor que não somente ensine ou que só aprenda, um amor que pule do precipício porque intimamente entende que pode voar.
  As mulheres de Zanzibar me inspiram a querer  avançar na falta; a aprender o que eu não tenho, inventar na ausência; enfileirar candeeiros, caderno após caderno; dar nome às coisas e números ao que não tem nome.

  Como as mulheres de Zanzibar, que são ilhas iluminadas num mar absolutamente escuro, eu quero dar a luz infinitamente, quero aprender brilho e calor e não guardar nada para mim. Como as mulheres, eu quero ter a coragem de não tendo nada meu,  compartilhar o que pode ser de todos.
  As mulheres de Zanzibar choram no escuro, mas não fogem pela manhã. As mulheres não sucumbem ao medo de uma vida sem luz, à tristeza de uma vida sem leitura, à injustiça de homens que não protegem os seus próprios filhos.
 
  Eu preciso aprender a iluminar como as mulheres de Zanzibar, não sei como nem a quem lançar luzes,  eu só não quero deixar minha aldeia nesse aflitivo escuro.






quarta-feira, 31 de julho de 2019

É para que não morra que eu não me calo

  Acho que comecei a escrever quando te conheci. Porque conhecendo e sabendo que não era meu e
eu não era sua, quis que o meu olhar sobre você atravessasse os anos. Acho que trago, eventualmente, os nossos encontros em alguma escrita para que eles não fiquem só em mim e sendo só meus você continue anônimo. Acho que eu escrevo porque embora eu não saiba o seu nome, não me canso de te chamar.
  Comecei a escrever para que o mundo não nos engolisse, não apagasse a nossa importância, para que não sucumbíssemos à desimportância que nos dão.
  Talvez, escrever você seja a única medida que me ocorre, quando desconheço suas necessidades, desejos e sonhos. Oferecer palavras tem sido o meu gesto desesperado de te manter sobrevivente em mim, para que eu não o esqueça e não naturalize a sua invisibilidade cotidiana.

  Eu quis ser outra, tentei ser, buscava que o meu olhar tivesse alguma prática, que eu pudesse através dele salvar alguém, algo ou alguma experiência, mas nem a mim tenho conseguido salvar só por olhar.
  Eu queria escrever a um amor, queria ter poemas nascidos de cada suspiro meu, queria ser criatura amorosa e romântica, mas não sei escrever cartas de amor ridículas. Não me organizo em versos brancos; só consigo o caos e a paz na prosa livre de métrica.
  Eu queria escrever um tratado de paz respeitado por todos os povos, mas sou conflituosa da raiz dos cabelos até as suas pontas, nem a rebeldia do meu cabelo eu sou capaz de conciliar. Ou então, escrever uma teoria científica que desse esperança a uma mãe cujo filho nunca foi à rua jogar bola, mas eu não me abri às ciências naturais.

  Gostaria de poder escrever grandes utilidades que servissem à humanidade e a você, através dela, mas o teto do elevador, a linha solta no casaco de um desconhecido, as palavras cruzadas de uma senhora no café e o seu sorriso para a garçonete, o homem sozinho no balcão do bar, tomando cerveja às nove da manhã numa terça-feira e as risadas de um bebê no ônibus me seduzem, muito mais, para registrá-las.
  Gostaria que escrevendo você, suas ausências fossem amenizadas, que o meu desconhecimento sobre você fosse superado e que você, ao final da frase, soubesse quem eu sou. E após esse reconhecimento, tivéssemos nós um ao outro; não como posse, mas muito como possibilidade de compreensão e partilha.
  Gostaria de escrever uma canção para você, que o alcançasse em um dia difícil de luta e caminhos vacilantes. Você, que anda por toda a cidade, e que não para para ouvir uma música inteira na porta de um bar, antes de ser expulso.

  Gostaria de escrever sementes, que brotassem e se transformassem em comida todos os dias em um prato que você saboreasse em uma mesa, com cadeira e toalha. Mas isso também lhe foi negado.
  Gostaria de escrever liberdades nos seus passos, que eles não fossem errância ou falta de raízes, mas escolha e vento no rosto; brisa leve e não a rigorosidade do inverno das suas madrugadas trabalhadas.
  Gostaria de escrever abraços: quentes, familiares e duradouros. Que as ruas não pudessem te tirar, ao menos, a lembrança dos gestos passados, que você se soubesse amado mesmo na truculência do trânsito e dos transeuntes.
 Gostaria de escrever ternuras que atravessassem os seus dias, que confortassem o seu corpo que é tão público, ainda que quase nunca olhado. Queria escrever banho, casa e afeto. Queria escrever respeito e visibilidade.

  Há anos eu o vejo, não sei se desde o primeiro encontro a sua importância gerou algum sentimento em mim. Mas hoje eu sei que eu escrevo para você.
  Há anos os seus passos arrastados ficam atrás dos meus, que são mais apressados e têm para onde voltar todos os dias.
 Há anos as suas pisadas trêmulas, os seus olhos voltados ao chão e os seus ombros pesados de coisas que não servem mais a eles, e que só por isso pertencem a você agora,  sobrevoam os meus blocos de papel, as folhas soltas na minha escrivaninha e o meu lamento por não ter nada além das palavras para você existir mais.

  Eu escrevo para que você resista, que a sua dor doa menos, que o seu destino seja saudado em algum lugar desse hemisfério. Eu escrevo porque sei da nossa irmandade e da distância social que não estarrece o mundo.
  Eu escrevo porque não sei construir uma casa, salvar sua vida dos vírus e bactérias e nem sei se aprender a ler é uma necessidade sua, ao menos agora. Porque este último, talvez, eu pudesse ajudar em um encontro. Mas também entendo que as suas necessidades não passam pelos meus olhos; tão limitados de janelas coloniais.

  Eu escrevo por você, porque te quero vivo e quero que saibam da tua existência. Eu escrevo para que  alguém no mundo, além de mim, se comova com a sua vida e queira muito que ela seja sabida.
  Eu escrevo para que os seus passos, as suas mãos feridas, o seu rosto que não tem a cor da agonia ou do contentamento sejam conhecidos em outros cantos do mundo.
  Eu escrevo para que não morra hoje, que sobreviva a mais esse inverno, a mais uma cruel ditadura que não se importa com você.
  É para que não morra, ao menos em mim, que eu não me calo. É para que sobreviva, na minha existência, que eu não deixo de perseguir os seus passos e escrevê-los aqui. É por você que eu escrevo; é para você que não me lê, não me vê, não me sabe



segunda-feira, 29 de julho de 2019

A casa para qual retorno nunca esteve vazia

  É quase domingo quando eu sonho com eles. O sábado que termina pareceu um recorte doloroso do caminho sem volta que é adultescer: desejar amor no piso gelado, lavar a louça do almoço, mentir para não magoar, fazer a lista de compras e procrastinar a incerteza do desejo.
  É quase domingo quando as mãos deles me seguram, a quentura deles acolhe o meu abandono, as faces sorridentes deles me devolvem a alegria da minha. Uma ventura noturna rápida e cheia de ternura. E dura isso: o fim de um dia e o início do outro.
   Não, acho que é somente a imagem que passa rápido, a sensação atravessa a noite e amortece os meus passos duros da manhã gelada.
  Nós três sentados num degrau da porta de casa, eu no meio, nunca caio, os dois cuidadosos e sem medo, me mantêm segura.

   Mas o sono acaba e o sonho é sugado pelo ralo da pia de domingo. Ninguém me segura, agora, solta na cama ainda tento me lembrar do calor da presença deles. Nós três nos levantamos juntos da cama. É cedo, tomo café, cercada pelos dois de outro tempo, enquanto me lembro, porque o sino tocou, da missa para qual nos apressávamos. Dois pares de mãos, menores do que as minhas são agora, me ampararam uma noite inteira.
   Penso em ligar para agradecer, para partilhar o sonho, mas o telefone não existe mais na casa em que nunca mais voltamos. Dez treze era o final do telefone; dez treze e depois de três toques uma voz familiar resolveria toda a sorte de dúvidas, medos, dívidas. Dez treze e adultescer era longe e muito desejado.
  Passo um pouco de manteiga, coloco um pedaço de queijo e reparto as duas últimas fatias de pão em três partes, ofereço duas delas para as personagens felizes do porta-retratos.

  Estivemos os três sempre à porta. A foto é antiga, ele de cabeça baixa porque fez pirraça na hora de posar, ela olhando para nós dois e eu sorrindo entre ambos: segura, amada e esperançosa. Encho a segunda xícara de café e acho que o sonho, embora tenha me deixado melancólica, também me lembrou que é possível uma quentura que atravesse o tempo, as geografias e a lógica dos dias. É domingo e eu cresci, é domingo e não tenho mais um final de telefone dez treze para dizer que ficará tudo bem; é preciso que eu mesma me diga, me ouça e acredite em mim. Adultescer é acumular funções, assumir àquelas que os outros faziam por nós.
  O pão acabou, o pó de café tem no máximo mais duas colheres; o que é pouco para as minhas duas xícaras de cada manhã. Acrescento o pó de café na lista de compras já começada.

  Troco de roupa, coloco um tênis e saio entre os dois que me amparavam no degrau da porta, na foto de mais de três décadas e no sonho de ontem à noite. Eles me dão a mão para atravessar a rua, me ajudam a encontrar os itens da lista nas prateleiras do supermercado e, depois, organizam as sacolas.
  No caminho, o irmão às vezes dispara em uma corrida, a irmã grita para ele voltar e eu me divido entre gargalhar e cuidar das sacolas. Ele provoca os cães da rua, que sempre respondem e ela sobe atrás, tentando acalmá-los e ameaçando contar, em casa, sobre o mal comportamento do menino. Eles sobem mais à frente e eu os assisto. Adultescer só foi preciso no caixa do supermercado, até agora. Mas ainda farei almoço para nós e pedirei ajuda com a louça. Depois podemos ficar os três sentados, de novo, no degrau da porta.

  A manhã de domingo apaga o meu sábado dolorido de maturidade não-idealizada, liberta as minhas memórias e recolhe, para mim, os sonhos que eu plantei em jardins que nunca mais visitei. As visitas noturnas que se estendem sobre o meu dia seguinte, trazem lar, afeto e achocolatado em pó para o apartamento de um quarto e inverno rigoroso de manhã julina.
  Na fotografia, de resolução muito ruim e lembranças muito nítidas, estivemos sempre à porta, esperando, assistindo, vivendo os possíveis de cada um, sonhando os impossíveis que nós três aprendemos a resguardar.

  Queria sonhar com eles esta noite, mais uma vez, mas hoje eu sei que não preciso e eles não aparecerão, mesmo que eu saiba que eles sempre estarão por aqui. Acalentaram a minha noite, me despertaram para um domingo mais quente, foram ao supermercado e empurraram, animados, o meu carrinho, dormitaram no meu sofá, enquanto eu lavava a louça do almoço e abriram espaço para o meu cochilo da tarde, quando eu terminei com a cozinha. Sonhamos os três abraçados, seguros e amparados pela nossa história.
  Eles acordaram antes.
  Ajeitaram o cobertor em cima de mim, calçaram os seus sapatos e saíram em completo silêncio. No final da tarde eu voltei a ser só e adulta; ser adulto é saber-se só. Foram, mas deixaram a casa.
Mais do que os quartos, a sala, a cozinha. Qualquer casa que eu habito, moro neles. Sento-me à porta e espero que algum dia o mundo me atenda. Eu nunca estou só, se esqueço um pouco de adultescer, quando sonho.

  Dez treze, eu nunca mais disquei e fui prontamente compreendida. Dez treze, eu nunca mais ouvi a voz que me dissesse exatamente o que fazer com a pergunta, a questão ou a minha vida.
   Anotando o endereço no cupom do supermercado, pela primeira vez, eu percebo que o  número do meu apartamento é mil e treze:
- A voz mora aqui. 
   Suportar adultescer num sábado gelado é desafio para muitos domingos de sonhos acalentados, ainda; adultescer é infinito, imponderável e inevitável. Os cachorros latem nos portões e não há voz de menina que os acalme. Adultescer é latido, grito, berro, é escandaloso e loquaz. Não respeita os limites de espaço, os desejos de permanência, os telefones que há muito estão desligados. Adultescer é compulsório, mas o inevitável também pode ser bom. Arrumo a minha cama e coloco somente um travesseiro, as visitas não ficam esta noite e só voltam mesmo quando o frio da maturidade doer de novo.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Mesmo se o amor faltar num dia, noutro ele chegará

   Pode esperar na calçada cheia de latas de lixo, às duas da manhã, ou na sacada da cobertura do prédio novo no Centro, às oito da noite, mas ele demora ou passa discreto, sem acenar. Não é visita de hora marcada.
  O amor chega descansado e contente, faminto e magoado, novo ou de segunda mão, vindo de um brechó da parte baixa da cidade. O amor chega veloz ou muito lento. Chega adiantado para o compromisso ou atrasado para a entrega, o amor não chega na hora; o amor não usa relógio.
  O amor chega barulhento, num pacote de biscoito polvilho e vem também silencioso, numa meditação budista. O amor tem as vozes que os ouvidos não conhecem.

   Pode aparecer exposto numa gôndola bagunçada do supermercado e na estante da biblioteca metodicamente enfileirada; o amor desorganiza e ajuda a inventar outros caminhos. O amor distrai e ensina. Solicita e oferece tudo o que tem, o amor não calcula unidades.
  O amor chega numa avalanche no Chile, o amor escorre por um friso na mesa e se quebra, um pouco, quando chega ao chão. O amor escapa, aparentemente, ileso do primeiro e um pouco quebrado do segundo. Mas nunca se esquece da avalanche nem da queda.
  O amor come sushi com melado, macarrão com ovo e pão com maionese. O amor não é gourmet, o amor tem muita fome.
  O amor pede uma música para o cantor no bar, sem nem saber o nome da canção, o amor cantarola um pedaço da letra, faz os instrumentos com o estalar dos dedos; ele não tem vergonha.

  O amor chega numa sacola sustentável, sem plástico, free bisfenol. O amor salva da poluição, do desmatamento, do efeito estufa, da chuva ácida, dos três mil agrotóxicos. O amor gosta de saúde, o amor quer viver infinitamente.
  Mas se o amor se desilude, quer intercâmbio na China, um curso de ayurveda num ashram na Índia, quer casa da melhor amiga, sumir no mundo. O amor só quer ir embora e mergulhar na tristeza, da qual sairá sem nem saber nadar.
  O amor detesta roteiros, o amor improvisa, se impõe, surpreende; o amor eterniza, mesmo se abandona; o amor esquece, mesmo se é magoado, o amor perdoa até quando o amor nunca mais fala manso e gentil; o amor às vezes dura muito só cultivando lembranças e espera.

  O amor vai ao cinema na última sessão de quarta-feira, o amor aluga quartos, bagunça camas, o amor às vezes só quer dividir chuveiro, cobertor e panela de brigadeiro. O amor quase nunca convida, o amor arrasta, convoca, o amor passa aí em cinco minutos, o amor faz as malas em três.
  O amor chega na taça de vinho, na noite de sexta, e na garrafa com água gelada depois de ter corrido onze quilômetros.
  O amor pousa com as asas de uma borboleta ou com as antenas de uma barata. O amor chega no escapulário de um santo no qual não se tem fé, mas muita devoção nas mãos que o trazem, religiosas e crentes.
  O amor chega numa marchinha de Carnaval, na marcha nupcial, na música clássica do carro que vende melancias.

  O amor corta e pinta o cabelo para parecer mais atraente, mas o amor seduz quando não se esforça. O amor emagrece, faz ginástica, clareia os dentes, coloca lentes e é mais bonito quando acorda e está um pouco gripado.
 O amor traça seu biotipo, identifica se o tom de pele é quente ou frio, compra roupas e maquiagem, mas é mais bonito pelo que lê, fala e faz quando ninguém mais vê. O amor conquista pelo seu tratamento ao garçom, à mãe e aos sobrinhos que não são dele.
 O amor suaviza, mas o amor também acentua texturas, cores; o amor é escandaloso e sereno, livre e dominador, o amor se contenta e sempre quer mais amor.

  O amor chega no altar, mas também no chão da fábrica. O amor chega em balde de gelo com espumante e duas metades de copos de café solúvel.
  O amor chega em contrato e em  promessa nunca revelada em voz alta. O amor encontra o apagador e ajuda a iluminar o caminho, até há bem pouco, muito escuro. O amor oferece a mão para chegar ao lado desejado, ao encontro do outro, ao destino do qual, nem sempre, ele fará parte.
  O amor produz calafrios, calores, perturbações e grandes contentamentos; o amor não agride, não ofende, não quer destruir o objeto do seu afeto; o amor não sabe onde começa e termina os seus sentimentos; só sente. 
  O amor pousa tal qual a mosca na sopa; incomoda, faz as mãos abanarem o vento e depois acostumarem-se, postas no colo, conformadas, desistentes. Continua-se a sopa, divide-a com a mosca.

  O amor cavalga alucinado e também caminha tranquilo, passeando, querendo ser paisagem.
  O amor é um trabalhador esforçado e boêmio charmoso. O amor é poesia dos livros e narrativa do filho à mesa de jantar, sobre o seu dia. O amor é inspiração para uma pintura cubista do Pablo e também para o cobrador de ônibus levantar antes das cinco da manhã, com os dez graus na cidade.
  O amor é fuga da vida cotidiana e enfrentamento das adversidades. O amor fica e vai embora; o amor é sem querer e também escolha.
  O amor chega num bloco de notas, em cima da mesa, com um recado dentro há semanas. O amor faz chorar de ternura numa segunda-feira.
  O amor viaja em uma poltrona emperrada, com a luz quebrada, o choro da criança, o consolo exausto da mãe, uma jovem impaciente pedindo silêncio e o afeto de desconhecidos que se revezam em distrair a criança e descansar a mãe.
  O amor não desce sempre na rodoviária no tempo estimado, mas ele vem. O amor chega, ele sempre chegará. O que de melhor o amor faz é viajar. O amor é chegada e partida. Mas não ficar também é coisa do amor.