quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Foi embora sem bater o portão

  Ontem foi embora. Não foi surpresa, essa era uma ida  planejada, como outras também foram, mas nunca aconteceram - um dia, alguma vingaria da gestação complicada -  a mala eu mesma ajudei a fazer. Dobrei as roupas, retirei as que não estavam suficientemente limpas ou novas, cerzi buracos, preguei botões, levei sua calça favorita, já desmaiada de cor, à tinturaria, pedi para que pintassem de nova um passado do qual não gostaria de se desfazer. Lavei cada peça amarelecida, esperei secar do lado do varal, depois borrifei lavanda e passei colarinhos, mangas e, ritualisticamente, fiz vincos nas calças de tecido. Não me pediu nada, mas eu me despedia em cada parte de tecido limpo e bem passado que eu colocava em sua mala. Costurei um bolso interno em cada casaco seu, para que guardasse notas de dinheiro para possíveis emergências. Preparei-o para uma  guerra, mesmo que achasse bom se ficasse.

  Ontem foi embora e eu escrevi bilhetes, espalhei pelos bolsos das calças, nas dobras dos casacos, nas mangas das camisas. Assinei em cada dobra de roupa, como se marcasse um caminho, fui João e Maria, espalhando migalhas de pão, ainda que eu conhecesse a tragédia dos irmãos e soubesse que os vestígios, fatalmente, se perderiam. Nos bilhetes, só as frases pelas quais eu gostaria de ser lembrada; partes de poemas que eu gosto, trechos de músicas que ele canta, expressões de filmes famosos que gostamos de repetir.

  Ontem foi embora e eu limpei os sapatos que levariam os seus passos, a cada dia, para mais longe de mim. Lavei o tênis, depois das roupas, coloquei os cadarços de molho e enquanto secavam, passei cera nos sapatos e os lustrei com um pedaço de lã antiga. Quanto mais brilho nos sapatos, mais distante os caminhos ficavam. Como se o  meu empenho e a minha força, fossem as catapultas que o fariam voar  mais longe e mais rápido ao destino, onde eu não estarei. A minha decisão de despedida sem choro, custou trabalho, muito, que não comecei no preparo da mala, na compra das passagens ou nos jantares de despedida; começou no dia mesmo do encontro, no dia que ele veio para mim. O ficar custa sempre a promessa de deixar de viver uma outra vida e isto, nunca fui de pedir o cumprimento.

  Ontem foi embora e eu fiquei ali, no batente da porta, querendo que ficasse, mas muito certa de que é preciso que se vá, que ganhe outros céus, se ilumine noutros sóis, ouça outras línguas, sotaques, experimente outras comidas e, no novo, também aprenda a se reconhecer. Fiquei desejando que fosse bem feliz, que as notas de dinheiro fossem bem empreendidas, que não ficasse muito doente nunca, que amasse outras pessoas e jamais pudesse me contar tudo, porque o que os seus olhos vissem, fincassem direto na sua alma; sem fotos, vídeos ou relatos em mensagens de áudio. Eu penso que arrumar a mala de alguém a quem se ama é amar mais. O  amor é arejado; é espaço amplo, só quem entende essa liberdade é capaz de cantarolar uma música no corredor da despedida. Ontem foi embora, mas não bateu o portão.

  Não tenho medo que não volte, porque arrumei a mala e vi o que de mim cabia ali. Me levou nos botões repregados, nos remendos, nas costuras, na tinta da calça que eu fiz questão de renovar, nas migalhas de pão, no brilho dos sapatos, nas golas cheirosas das camisas, nas frases de Pessoa, Borges, Pizarnik, Adélia, Florbela e Drummond, nas músicas do Chico, do Milton, do Vinícius e do Tom. Me levou nos planos em comum, nas ideologias opostas, no medo de ir e na minha coragem de amar. Me levou quando disse que não podia ficar e eu não pedi que não fosse.

  O conforto de dizer adeus na porta, de não me humilhar segurando as pernas das calças, de não simular orgulho e pedir para apagar a luz quando sair. Um inevitável choro meu, molhou seu ombro de camisa impecável e, mesmo assim, ele colocou, gentil, sua mala no táxi, mas ele não bateu o portão. Ontem foi embora e não combinamos uma volta, não se pede um regresso a quem quer descobrir um outro mundo. Mas se, numa tarde dessas da lonjura em que estiver, encontrar um dos bilhetes e pensar que não é feliz sem a nossa poesia, abro o portão e desfaço as malas que eu mesma arrumei um dia.



 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

De saia branca com bolas azuis

   O que somos para os outros é quase sempre um mistério para nós. Somos o que não imaginamos, falamos uma língua que não conhecemos, somos a repetição que não chegará a acontecer, o gosto que nunca tivemos, a música da qual nunca gostamos, o filme que nem assistimos até o final. Amam-nos mais pelo que acreditam que conhecem em nós, mas nunca chegamos mesmo a ter; nos culpam pelo grito que nunca daremos. Somos, para nós, um espanto se nos vemos nos olhos dos outros
- Sou eu essa do desenho?
Pergunta assustada para criança.
- E se lembrou de mim quando comprou esse presente?
Segura o regalo, recostada na parede, tentando encontrar a identificação que não foi imediata. E inventamos que nos agrada, porque não queremos admitir que somos esse desconhecimento.

  São imagens de um outro tempo, uma família alegre que ergue copos de vinho barato, uma casa com paredes rosa, uma mesa de domingo que nunca mais foi cheia e um quintal, com roupas no varal - uma saia branca de bolas azuis pendurada - que nem existe mais. No filme de qualidade muito baixa, um cachorro passa e eu sei o seu nome, um velho se abaixa para fazer um afago no cão e o pelo macio faz cócegas aqui na minha mão. Antes que o velho se levante, a imagem corta para um prato na mesa, sinto o cheiro antigo da comida, todas eram minhas favoritas, nem lembro se comia bem, mas do cheiro eu sei que jamais vou esquecer. Depois do prato, um bebê dá passos cambaleantes e a câmera o persegue, várias pernas se afastam e dão espaço para  criança, que perdida na vastidão sem paredes, cai, chora e levanta os braços para as primeiras pernas que se aproximam. Uma mulher se abaixa, vemos seu rosto feliz e o bebê a reconhece, ela o segura, ele para de chorar, enquanto ela o balança e faz caretas; ele sorri. Vamos a outra cena.

  A câmera se volta para um grupo de crianças que brinca no quintal, são oito ou dez  de tamanhos bem próximos, a janela da cozinha é a moldura da cena, quando veem que estão sendo filmadas, se aproximam, dançam, fazem caretas, ensaiam acenos, se exibem no filme caseiro. Uma menina de vestido verde água e batom vermelho, posa com as mãos na cintura, a câmera dá um zoom e ela nunca mais poderá ser esquecida. Sorrio, no sofá, mais de vinte anos depois, cheia de ternura e saudade.

  Depois, no filme, há uma sucessão de recortes de lugares, faço uma visita: a horta com pés de couve gigantes; a banheira instalada perto do tanque, onde colocam as roupas de molho; um jardim de hortênsias e rosas; algumas samambaias penduradas nas vigas de madeira do teto; mais uma vez, o varal, nele a camisa de um time, um avental verde musgo e  a saia branca de bolas azuis, voando, parecendo querer ir embora do varal.

  Agora volta a mostrar pessoas, reconheço uma, duas, três, quatro, na quinta eu choro e as mãos dela atravessam o tempo e a tela e secam as minhas lágrimas. Sexta, sétima, oitava pessoa, aparece um canário na gaiola e eu sei exatamente o dia em que ele morreu. O filme vai acabar e eu queria que continuasse, tantos objetos que nunca pude esquecer e outros tantos que eu não sabia se existiam mesmo. Filmam os homens perto do fogão de cimento, alguns bebem, outros só sorriem sem nenhuma embriaguez aparente, uma mulher puxa seu homem e dançam no meio da cozinha, rodopiam desajeitadamente, sorriem enquanto um público bate palmas e no fundo da imagem, em segundo plano, uma mulher acena e sorri para a câmera.

  No fundo da cena, seu olhos atentos, sua expressão mansa, suas roupas que repetem ao longo dos anos e mãos que eu nunca via vazias de trabalho, mas agora acenam suaves, alegres, delicadas como as de uma senhorita sedutora. Por que eu nunca a vi ali antes? Logo ela que fugia das fotografias, abaixava a cabeça para os flashes e se enrubescia se alguém pedia sorriso? Por que o gesto? Ela acena e sorri, num filme que eu já assisti tantas vezes e que mesmo que há anos não revisite, conhecia sua sequência sem erros. Mas a mulher castanha, sóbria, tímida, de vestido marrom, com flores brancas, sorri e acena para câmera mais de duas décadas depois do evento. Eu só a descubro agora, sozinha, no sábado à noite. A cena me comove, preciso partilhar com alguém, pego o telefone e não sei para quem dizer que ela sorria e acenava na porta da cozinha. Perguntarão o porquê do filme logo hoje, dirão que sou nostálgica ou algo assim. Desisto da ligação.

  Construimos imagens de pessoas, lugares e circunstâncias e nos agarramos a elas como se sempre fossem e estivessem lá de um mesmo jeito. Acreditamos conhecer todas as possibilidades de uma pessoa, baseados nas nossas crenças sobre elas e experiências que insistimos termos testemunhado. Mas se um só gesto, palavra ou imagem, de repente, contradizem o que sabíamos dela, parece que uma outra pessoa nasce e  essa novidade nos convida a dançar no meio da cozinha. Sem música, atrapalhados pela surpresa, sem a intimidade dos amantes, rodopiamos perto do fogão, tentando não pisar nos pés um do outro. E nessa reinvenção, nestes novos nascimentos de alguém a quem amamos, o amor não teme o desconhecido. Chega delicado com a saia do varal e um copo de vinho barato.

  O Filme acaba. Não ligo para ninguém, não conto a cena, a quero assim para mim, só. Ela é uma descoberta minha, ela é o meu par no chão da cozinha. Vamos dançar a madrugada inteira e só eu conhecerei os seus novos passos. Quando ela acenou para câmera eu duvidei que era ela, porque não admitia que eu nunca conhecerei um filme por completo. Das pessoas, lugares e coisas só temos fragmentos e assim, também, os outros nos têm. Desse jeito o amor nunca acaba, ele sempre pode atravessar a porta de saia branca com bolas azuis.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Entre as lágrimas delas e as minhas mãos vazias

   A primeira eu conheço há pouco, rosto duro, atitude orgulhosa, quando eu a vejo entrar pelo corredor eu sei que ela não tem dúvidas, tem os passos acertados, não anda muito lentamente, mas também não tem pressa, é uma convicção inata - pode até nunca saber, mas sempre vai parecer que sabe -  segue direto para o lugar que escolheram para ela. É tão pequena e já tem aquele jeito de soerguer a sobrancelha direita quando alguém fala com ela. E eu falo muito, não ao ponto de incomodá-la, mas para que ela saiba que  a certeza dela não me afasta. Foram meses assistindo a esta mesma entrada, alguns dias ela pareceu mais próxima, noutros parecia não fazer questão de me conhecer. Não compartilhamos muito mais do que esta entrada, vejo-a bem pouco, mas a imagem dela é sempre presente. Ela não tem mais do que dois anos e me parece inspiradora.

   Na semana passada ela atravessou o corredor do mesmo jeito, a certeza era companhia, veio para o mesmo lugar de sempre, sem dúvidas, sem procrastinação, sem pedir um outro lugar no mundo ou simular um esquecimento. Veio definitiva, admirável flecha, memória atenta, mas os olhos eram outros, não tinham a secura do orgulho, nem o arco da soberba. Era uma solitária, como das outras vezes, mas muito mais vulnerável, cheguei delicada, abaixei-me e vi seus olhos numa tristeza tão profunda, que eu quase não consegui me levantar mais. Ofereci um abraço, ela não me respondeu, só continuou me olhando com aqueles dois profundos e misteriosos rios, peguei-a no colo, ela se ajeitou no meu peito e transbordou. Eu com a menininha que nunca pareceu gostar de mim, não de maneira especial, no meio do pátio, abraçando-a, acolhendo-a, unidas por uma tristeza tão dela, tão cheia de atitude e certeza; uma tristeza que se sabe triste. Eu consolando-a de algo que desconheço, eu tentando protegê-la dessa vulnerabilidade de estar no mundo, eu tentando tirá-la da loucura do sentir muito profundo.

  Nós duas no meio do pátio, ela desabrigada de tudo e eu segurando-a enquanto podia. Ninguém perguntou sobre o abraço que não acabava, passamos a manhã inteira entrelaçadas, sem palavra alguma - porque às vezes confundimos mais quando damos nomes - ficamos  até  os dois rios dela não terem mais água para fora dos seus limites. Quis ser o escudo e protegê-la das balas, até que parassem de  chover nas suas costas. Deixei-a dormindo de cansaço e choro, mas não pude deixar de senti-la dolorida no meu peito. Nos outros dias, não teve tanto choro, mas no meu colo ela ainda tem se abrigado. Tenho medo que algo tenha se quebrado dentro dela, ela tão pequena, tão preciosa, já com esses olhos de dor irreversível.

  Os outros têm o seu histórico médico, familiar, eles repassam e refazem as avaliações de toda a sorte, mas eu tenho os seus olhos e essa tristeza dela que tanto me desafia. Que não me afasta, pelo contrário, mas sinto que é injusta, precoce e percebo aterradora. O choro do outro é ainda uma tristeza maior que a nossa própria, porque nos coloca na impossibilidade de encontrar o lugar dela, um meio ou saída. Tenho-a, o quanto posso, no meu colo, mas não parece ser o suficiente. Queria saber o que fazer com o que se partiu nela, queria ter as mesmas certezas, como ela quando atravessava o corredor e ia exata para o seu lugar.

  A outra é das minhas ligações mais profundas com a vida, um amor antigo sem marcas possíveis no calendário, foi sendo, só. É o que sei e como conheço o mundo, porque ela já estava aqui quando eu cheguei e mesmo que eu discorde tantas vezes de tudo que ela me diz, foi sempre quem me apontou para cada coisa. É ela a minha dor e apaziguamento. Meu abrigo num mundo em guerra e a minha trincheira bombardeada, quando eu tento descansar. Nunca é só uma coisa. Mas nos últimos tempos ela tem os mesmos olhos da menininha, que eu abrigo no peito. Chora de repente,  diz palavras muito obscuras e não se comove com as minhas súplicas de reação.

  Tentei a mesma aproximação delicada, oferecendo o que podia e evitando perguntas, ampliando os espaços para a tristeza dela espairecer, respirar sem pressão e um dia ir embora. Mas meu plano parece demasiado lento, muito perdido de objetivos. Tenho medo que a tristeza dela esteja durando demais, tenho medo de deixá-la muito acostumada à falta de alegria, tenho medo de não saber a hora de intervir com mais dureza. Tenho medo de não ser essencial na sua tropa.

  Agora, quando vejo a tristeza de uma, lembro-me imediatamente da outra. Carrego as lágrimas de uma na bolsa surrada e o medo pela outra na manga do casaco. Sei sorrir como antes, continuo dançando em passos livres e deitando na grama, quando encontro alguma, mas se olho no espelho, vejo um pouco de cada uma em mim. E lembro que não posso coisa alguma por elas. Numa eu vejo a minha juventude me abandonando a cada dia, da outra só me aproximo mais em fios de cabelos que sutilmente embranquecem.  Queria poder aplacar essas dores, fazê-las esquecer das suas feridas, ser mais certa, mais autoritária e não essa tonta que segura uma no colo e leva chá com biscoitos para outra. As duas tristezas marcam meu próprio tempo, acho que por isso busco a redenção de ambas. Se salvar as duas mulheres, também eu estarei salva. Tenho essa existência cravada entre as lágrimas delas e o desejo de vê-las encontrar, depois do corredor, o lugar certo, a solidão independente e quase nada vulnerável.




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os maus dias, não deixem que eles escapem

   Não é um roteiro de filme, não tem como escolher as marcações. Pensa em abrir uma porta com toda suavidade e ela emperra,  cogita um pedaço de bolo na geladeira e alguém pensou antes, finalmente uma novidade chega e a primeira pessoa com quem compartilharia não está mais. A porta abre com dificuldade, não comerá o bolo e a novidade não tem partilha, suportará o peso da alegria solitária?

  Na TV os atletas sobem ao pódio, enquanto uma mulher na quinta fila levanta uma faixa: "Diego, saudades". A TV rapidamente corta, não querem mostrar as manifestações. Mas o Diego não me sai da cabeça, nem a mulher. Procuro um Diego entre os jogadores da partida, pergunto para quem entende, e não há nenhum, penso na comissão técnica, no juiz, nos voluntários, quem será Diego? Porque tem saudades dele, a mulher? Porque neste jogo, ela levanta uma faixa? Não, o Diego não pode estar ali, porque não haveria faixa, o Diego está em casa ou o Diego não está mais. Será mesmo que li isto? Ninguém mais viu. Sou a única, na sala, testemunha da mulher de meia idade. Só nós sabemos de Diego e eu tão pouco: que uma mulher sente saudades dele.

  Depois do pódio, ainda espero rever a faixa, mas nada mais aparece, só outras frases, de outras pessoas, que não me despertam o interesse. Desligo a TV, termino o chá e a faixa me angustia. Será que as saudades de Diego terão fim? Diego andará perdido por decisão ou destino? Que tipo de relação existe entre a mulher e Diego? Durmo mal, porque não esqueço. Amanhã acordarei cedo e vou para a rua: andar, correr, ver a cidade, tentar não pensar em Diego.

  Tinha uma cidade me esperando, tinha um corpo que queria recomeçar a ganhar os espaços, que ajudou a construir. Afinal, uma cidade não é um projeto de alguém, tampouco a construção erguida  dia após dia, não é o  prédio histórico, nem o nome célebre impresso na placa da rua. As cidades são os seus mendigos instalados onde podem, nos lugares que ainda não pertencem a ninguém ou ocupados na clandestinidade, são suas buzinas às oito da manhã e às seis da tarde, são os outros corpos que transitam ora cordiais ora urgentes. Uma cidade é o cheiro dela e mesmo que você permaneça longe por muito tempo, basta passar uma lembrança qualquer, ouvir falar seu nome ou ler em algum lugar e o cheiro, misteriosamente, desperta o olfato. Uma cidade é aquilo do que não gostamos nela, que passamos uma vida a reclamar, porque as queixas compartilhadas também fazem uma cidade, mas também são as especificidades afetivas, o homem do amendoim com chocolate e do coco com açúcar, a carrocinha de pipoca, o palhaço com a anedota repetida, a mulher do crochê em frente ao teatro. Uma cidade é o que imaginamos dela, mais do que se materializa. Uma cidade é o recorte que nossos olhos são capazes de definir diariamente; fotografias que se movimentam, ganham ângulos de esperança ou medo.

  Uma cidade é a atendente do supermercado impaciente com a senhora que não encontra a moeda que facilitaria o troco, uma cidade é o homem, o próximo da fila, a oferecer ajuda e encontrar a moeda, é a senhora a esperá-lo no final do caixa com um chocolate como agradecimento. A cidade é a amizade recém começada entre dois desconhecidos que, agora,  sobem a rua juntos. A cidade é múltipla; bonita e miserável, acolhedora e hostil, não há lado escolhido ou descartado; ter uma cidade é tê-la na sua confusão.
  O despertador, com a música do filme favorito, toca, levanto e abro a janela, a rua molhada e ainda chove. Era hoje o dia de ganhar o que por pouco não foi perdido. É como numa convalescença muito demorada, o doente quer a cura para fazer as coisas de sempre, mas com o gosto da quase perda, isso dá outro sabor. Só queria a rua agora.

Coloco o tênis, talvez me arrisque. O céu é cinza chumbo, mas a chuva é branda. 

  Saio à chuva, caminho devagar, escorrego algumas vezes e choro por quem não tem a opção da chuva hoje. Os dias não são nossos, os planos são só traçados de sonhos no papel, a vida tem essa autonomia desesperadora de mar em fúria, que leva o mais habilidoso nadador para correntes que ele jamais poderia prever. Os maus dias também precisam ser tragados em altas doses, sem limites. Eu hoje acordei e quis que o dia mau me pertencesse. Eu, hoje, não esperei pelo amanhã. Subi na onda e não calculei onde gostaria que ela me deixasse, porque, no fim, é  ela  quem sempre me leva.

   Saudades, Diego. Saudades. Eu acho que ele não volta, que a saudade dela, inscrita na faixa é só um desabafo cortante, um jeito de tentar ter um pouco mais do Diego. Ele gostava desse esporte, era ele quem viria, mas é ela quem escolhe honrar o que sobrou dos dois. No sábado à tarde, na cômoda do Diego, ela encontrou os ingressos, vestiu uma camisa amarela, fez o cartaz e foi chorar por ele lá. É um dia ruim, sem dúvida, mas ela não deixou que ele lhe escapasse. Nada mais pode afastá-la da sua fome. Tem saudades e grita, quer viver e sai. Não quer mais cama, porque curada, sabe que nunca vai estar completamente. Então sai pela cidade que foi do Diego e hoje é só dela. Vai ocupar uma cidade, mesmo carregando sua mais profunda ausência.



sábado, 20 de agosto de 2016

Do que aprende, sempre acaba se esquecendo

  A cama desfeita, a roupa batendo na máquina, precisa levantar para estendê-la no varal espremido da área de serviço. É preciso levar o cão para passear, já passa das nove e ele está inquieto, sobe na cama, late e volta a descer, já derrubou alguma coisa na cozinha, mas ela não levanta para ver. Sem coragem de começar o último dia. Sem disposição para admitir que é o último. Escuta o barulho da bomba d'água do prédio e pensa em ficar ainda mais tempo na cama, envolvida pelo ruído rouco que a bomba faz e ao qual ela se afeiçoou tanto. Quando escolheu o apartamento era para ser o do andar debaixo, não teria o barulho, mas no dia da visita, a chave não abriu a porta e o porteiro ofereceu a chave do apartamento da cobertura, ambos eram iguais, ele disse. Mas quando entrou, os azulejos de flores em rosa e verde água, da cozinha, disseram que ela tinha que ficar. O porteiro falou da maior possibilidade de vazamentos, já que os apartamentos de cobertura ficavam mais desprotegidos e advertiu do barulho da caixa d’água, mas nenhum dos incômodos, em quatro anos, se concretizou. Ao barulho se acostumou e os vazamentos sempre foram nos apartamentos de baixo. Os azulejos eram só neste apartamento, que falta sentirá dos azulejos, um dia...

  Já são quase dez da manhã e pobre do cachorro, pagando pela irresponsabilidade da dona. Ela se move por ele, pela culpa de ser tão má, com aqueles que mais a amam, olha para o cão e avisa:
 - Se não fosse por você, hoje eu não levantava de lá, viu?
  Ele ouve, se anima ao vê-la de pé, escovando os dentes e depois procurando os tênis, como um atleta, esperando pela largada, ele fica em frente à porta, concentrado, preparado, com o coração acelerado. Vai saber porque inventou de ter cachorro, devia ter um gato e ficariam os dois, lânguidos, tomando sol na cozinha, sem a agitação desse cão que parece sempre pronto para uma corrida. Mas foi ter o cão e amar o cão. Errou duas vezes e, sem perdão, é retirada da cama como punição.

  Descem os dois pelas escadas geladas do prédio, só sabem do sol, porque o viram da janela do apartamento, mas nas escadas é só breu e lâmpadas vagabundas. O cão é um tipo de chefe de excursão, vai a frente fagueiro, dando pulinhos, balançando o rabo e sendo simpático com qualquer coisa e pessoa; já o viu distraído com as coisas mais improváveis, com uma tampa de caneta perdida, sacolas dançando com o vento, panfletos de todos os tipos jogados ao chão. O cachorro é isto: um descobridor do mundo mínimo e dispensável. Quando pensa nisto, se lembra que ele olha para ela com o mesmo entusiasmo e afeição com que olha para a tampa da caneta na calçada.
- O cão me ama, porque sou mínima e completamente dispensável.
  Sorri e afaga a cabeça do cão pela primeira vez no dia. Ele gosta e olha para ela agradecido e surpreso, como olha para as sacolas que voam perdidas na rua. Atravessam as mesmas ruas, viram as esquinas que conhecem desde o início dessa relação, ele late para os mesmos outros cães das casas vizinhas, mas parece começar uma vida agora.
-  Esse cão que me convoca à vida, que, por vezes, eu resisto; esse cão que olha para minha inutilidade com total condescendência; esse cão que me leva para as mesmas ruas, com olhos de descoberta; esse cão que nunca soube porque o tive, na verdade, ele bem mais me teve do que eu a ele. Esse cão não virá amanhã.

  Passam pela praça, ela o solta e ele corre na areia com os outros cães, entre todos ele é o mais desobediente, atrapalhado e desordeiro, mas hoje ela não chamará sua atenção, não se envergonhará quando ele resistir à coleira, à ela, ao fim. Hoje, ela ficará na praça até ele querer ir embora. Desistiu duas vezes de se mudar do apartamento, porque nos outros condomínios não aceitavam animais, perdeu amantes que não gostavam da companhia constante do cão, alguns amigos deixaram de frequentar sua casa, por causa do cachorro brincalhão que mordia sapatos, desfiava meias e babava nas roupas. O cão afastou-a de muitas coisas e pessoas, modificou suas relações, mas deu a ela uma infinidade de outras, inclusive o próprio sentimento pelo cão, que parecia inflar dentro dela, esmagando o seu coração nesta manhã.
- Meu cão, o cão com quem sonhei desde a infância. Meu Trótski, meu bravo Trótski, que não sabe que a guerra está perdida.

  Sentada em frente ao tanque de areia, próxima de outros donos de cães, queria pedir algum consolo, um conselho para que despedida doesse menos, mas se ela sucumbisse, o cão se envergonharia dela, sua dona tão corajosa. Quanto mais doía nela, mais alegre o cão ficava, mais corria e com mais fôlego latia.
- Cachorro idiota. Vai me abandonar.
 - Trótski, venha! Trótski, acabou! Trótski...
  E o cão não vinha. Entrou no tanque de areia, alguns cães a ameaçaram e Trótski veio resgatá-la, ela aproveitou a indulgência do cão, enlaçou-o com uma das mãos e passou a coleira com a outra.
- Podia ter saído com mais decência, mas você nunca obedece.
  Passaram pelos outros cães, voltaram pelas mesmas ruas e ela querendo que durasse mais, que nunca perdessem esse instante, demasiadamente repetido, mas sublime.

  O veterinário estava marcado para as duas. Voltariam para o apartamento, o cão ficaria ao pé dela enquanto ela preparava o almoço e depois ambos sentariam no chão da cozinha e apreciariam as flores verde água e rosa dos azulejos.
- Que lindos os azulejos, não Trótski? Já viu cozinha mais bonita? Agora levanta, vamos ao médico!
Enquanto escovava os dentes, viu o cão posicionado na porta. Como se despedir sem dor? Como deixar o cão e ser sem ele de novo? Como aprenderia a vida sem o professor dos últimos anos?
- Nunca mais terei outro cão!

  O cachorro estava condenado, o alívio estava combinado com o veterinário. Marcaram às duas, mas ela disse que não ficaria para vê-lo fechar os olhos. Não podia. O veterinário disse que entendia. Mediaria uma passagem sem dor, como se agora já não doesse com toda a força do mundo, no coração dela. E o cão pela rua, desavisado da morte e a dona segurando o cão, com lágrimas que não acabavam. Chegaram ao portão da clínica, o cão nem resistiu à entrada, mais dor ela sentiu, porque nem brigar ele queria. Tocou o interfone, o cão latiu para um outro cão que chegava. Trótski sempre tão cordial. A dona puxou a coleira e, agora, era ela quem comandava a excursão.
- Bora, Trótski! Bora!

  Não podia ir até o fim. Mais um dia que fosse, mais uma última manhã dessas e já valeria a pena. Isso era o que ela queria dar ao companheiro: caminhadas, o sol, os azulejos de flores da cozinha, o barulho da caixa d’água. Porque foram ganhando os espaços, porque foram vencendo os cansaços, porque prolongou a estadia do amor e andou sem querer desistir. Agora, não sabe como ir, sem ele, tampouco como deixá-lo ir sem ela; mesmo que saiba que não ficará por muito tempo. Não adianta acordar durante um sonho e tentar voltar a ele. Mesmo antes de abrir os olhos, mesmo depois de simularmos um final
  Do que ela aprende e sempre se esquece é que o tempo de duração das coisas não passa  por ela, elas vão sem avisar e chegam, quando ela ainda nem arrumou a cama. O cão correndo pela casa, ela estendendo a roupa que lavou pela manhã. Um dia não serão mais os dois, mas hoje ainda são.