quinta-feira, 19 de abril de 2018

O coração é mudo perto da sirene de uma ambulância

  Anda por um mesmo solo, mas as sementes que leva no bolso já não germinam mais. Abre as frestas
na terra marrom coloca-as na mesma posição de sempre, amacia os grãos de terra muito compactos,
afofando as laterais, cobre-as, cerca-as dos cuidados de um agricultor experiente, acostumado ao plantio de uma esperança e a chuva não chega. A água dos regadores não é o suficiente, as mãos de ternura, o solo aerado, o clima certo da estação conhecida também não são; nada brota.
  Passeia por entre os campos, buscando erva daninha, pragas que não existem, rumina a frustração de só ter nas mãos a promessa e não mais as certezas, enquanto o gado ainda pasta.
  E se desviasse o curso dos rios vizinhos para a sua propriedade? E se mais mãos estivessem dispostas a ajudá-lo? E se alterasse os ritmos climáticos que não trazem as chuvas até as suas sementes? Por que é tão homem e a natureza tão indomável?
  Anda por um solo desconhecido e deserto, as sementes morrem nelas mesmas; não podem mais ser outra coisa. O homem olha para o céu, enquanto o gado é tranquilo e pasta.

  Os primeiros metros serão os mais difíceis, depois acostuma-se com o silêncio ou com os sons que aparecerão no caminho. Incontroláveis, incertos, possíveis. Os passos dos outros, os próprios, um cão que latirá ou mais cães ou nenhum, um carro passando sobre a poça de água, brecando antes da praça, escorregando no óleo da avenida, um grito, um sussurro, a risada de alguém, as batidas do próprio coração. Alguns metros mais e não acostuma-se; o dissonante, o trepidante, o indiscriminável: que som é esse?
  Queria música. Queria a precisão das cenas de um musical: música melancólica e lágrima, batidas mais rápidas e superação, o dedilhar no piano e encontro. Mas a música não toca enquanto atravessa a rua; não tocou antes, não tocará depois. As buzinas afastam, o coração não é mais alto que o som da cidade; o coração é mudo perto da sirene de uma ambulância.

  Não compra mais jornais, não os lê começando pelas seções de preferência: cidade, esportes,  política, economia, pula os classificados, cultura, entretenimento só até a metade. Não se informa mais a partir da sequência aprendida: título, lead, autor, ilustrações, legendas e matéria. Não pensa nas fontes que o jornalista ocultou e nas que ele apresentou prontamente, não reflete sobre a empresa que publica o jornal, na que o mantém e naquelas que patrocina cada parágrafo lido. Não desconfia, não retira os olhos da página por alguns segundos e nem perde o olhar depois de uma pergunta brotar entre as notas; não demora os minutos que cada notícia demanda. Depois da imagem de uma criança na guerra não poderia passar a página e já começar noutra experiência - não é mais a pessoa deste tempo.
  Consome notícias, cada vez em maior número e gravidade, mas os olhos seguem sem serem interrompidos por pergunta nenhuma. Perguntas não existem para as pessoas deste tempo.

  As vozes antigas não frequentam mais os sonhos, não saem mais das bocas das personagens dos filmes, não aparecem nos meses de estiagem e noites de domingo, enquanto lava um prato e desliga a TV.
  A cabeça é a mesma com a cicatriz perto da orelha, os cabelos os mesmos com uma tonalidade nova de tinta a cada semestre, o ouvido não perdeu a acuidade elogiada, mas as vozes têm se distanciado, têm se tornado silêncios não sentidos. Se desaparecerem, ninguém saberá; quando não forem mais possíveis, a falta será a estranha sensação de ter esquecido algo, mas nunca se descobre o quê.
  As vozes que foram embora e se repetiam há anos, como as músicas no shuffle, saem da playlist e dão espaço para álbuns novos, que não cantam a língua antiga.

  O olhar do cão doente no bagageiro do carro, que entrou pelo meu dia e me fez mais bicho, mais irmã do animal e menos gente com inteligências diversas, bípede, com coordenação motora fina e movimento de pinça. O último olhar do cão que me fez querer compartilhar da sua comida, corrida e uivos noite a dentro.
  O espelho do banheiro não está menos brilhante, não oculta imagens atrás do vapor, mas os olhos humanos refletidos, agora, são tão amorosos quanto do cão partindo. Cão corpulento, mandíbula forte, cão com as quatro patas robustas imóveis; toda a vida do cão nos seus olhos fadigados de dor e marejados de despedida lenta e grata. Por que os cães são tão gratos, quando, quase sempre, merecem mais do que recebem?
   O cão que não é meu, mas o seu olhar, desde a manhã, é.

  As chuvas que andam por outros caminhos e negam a vida que as mãos insignificantes não podem gerar sozinhas; os sons ordinários das ruas que calam as batidas poderosas de um coração que não é nada nas cidades. As notícias, cuja veracidade ou agudez não fazem diferença; as vozes silenciadas, as memórias afogadas e  as músicas da tribo que ninguém mais canta.
  O olhar do cão, chamando alguém para a vida e para o amor que não desiste na perda; só se despede e fecha o bagageiro com saudade. As mudanças mais contundentes não são explicáveis ou visíveis, só são. Só acontecem. A sirene de uma ambulância, às vezes, carrega mais vida do que um coração que só se prepara para atravessar uma rua.




segunda-feira, 16 de abril de 2018

Tudo é desordem, depois da porta da entrada

   Os quadros estão tortos, os móveis cheios de poeira e a lâmpada do corredor está queimada, desde não sei quando, todas as vezes em que fui lá nos últimos meses ela diz, enquanto passamos por ele:
- Queimou. Tenho que trocar.
  Não diz quando nem o porquê de ainda estar queimada, interrompe o assunto para explicar o escuro e logo continua de onde paramos, com a mesma rapidez de alguém que coloca a mão no interruptor, de repente, clareia. Devia me oferecer para trocar, trazer uma nova lâmpada da próxima vez, mas nunca voltamos ao assunto. Eles são muitos e diversos e o interesse dela não se limita à casa. Eu é quem estou atada à solidez das coisas, quando chego; ela é etérea. Suas mãos atravessam as cortinas, seu corpo de ossos largos e pele fina acumulada levita sobre o piso, seus olhos não se detêm aos limites materiais.
   Passamos. Pelo corredor e a sua escuridão, pelos assuntos que ela recorta e une com a habilidade de uma costureira; o que não parecia ter conexão, de repente, ela emenda magistralmente. Passamos. Inevitavelmente pelas vidas, muitas; uma da outra agora, não há garantias de duração, mas de passagem sim.

  Ela fala sobre muitas coisas, algumas eu acho que entendo bem, outras eu só ouço com curiosidade e respeito, porque creio que entenderei algum dia, talvez ela nem esteja mais aqui e numa tarde, no meio do trabalho, uma compreensão pouse sobre minha agenda. Ela fala, eu aceito como regalos preciosos que valerão muito numa necessidade. Sou carregada de entendimentos para o futuro, ela compreende depois de passados. 
  Depois da porta de entrada, tudo é um caos, no apartamento,  coisas antigas acumuladas, paredes com marcas de infiltrações passadas, móveis que mudaram de lugar e borrões de tempo. Mas ela organiza um mundo, quando fala, e isso é o bastante.
  Construímos. Muros, paredes, pontes, relações, carreiras, famílias e quase todas fogem de um projeto esboçado muito antes das chuvas, do trânsito, das perdas, das direções tomadas. Construímos para não saber o que será, no final; colocamos porta-retratos, luminárias, souvenirs de viagens que não são nossas e, um dia, tudo é uma confusão de lembranças que não fazemos ideia sobre que memórias evocam.

 Eu sento numa das cadeiras da cozinha, enquanto ela passa o café, esse é o ritual de sempre. Enquanto ela procura o filtro, tento lembrar do dia em que eu comecei a gostar de tomar café. Não me lembro. Ela está silenciosa agora. É sempre assim, quando se concentra, eu observo. Volto a pensar sobre o café na minha vida, talvez nem goste mesmo do sabor, talvez o café seja a minha abertura para o mundo. Tomar café me levou aos outros; tomar café me trouxe os outros.
  Ela coloca as xícaras sobre a mesa e eu me lembro de gostar de xícaras desde pequena, um conjunto de xícaras amarelas de plástico foi o meu brinquedo favorito por muitos anos. O café é finalmente a minha realização depois das xícaras amarelas vazias de líquido, transbordantes de esperanças. Aprendi a tomar café antes dele chegar à minha xícara.

  Na pia da cozinha acumulam pacotes de biscoitos, açúcar, fubá, café, sabão em pó e argila e algumas louças que devem estar empilhadas no escorredor desde o almoço. Ela pega o pacote de biscoitos, entre o pacote de argila e o fubá e o coloca na mesa, tira um pequeno prato do escorredor, sem derrubar nada que estava por cima, e espalha os biscoitos sobre ele. Retira o pacote de açúcar, que estava entre o sabão em pó e argila e o despeja dentro do açucareiro vazio, sobre a mesa; com a mesma destreza, abre o pacote de café, entre o sabão em pó e a parede e enfia uma colher três vezes, sem derrubar nenhum cisco visível na pia.
  A cozinha é uma completa desarrumação, mas as mãos dela encontram caminhos suaves que ultrapassam os obstáculos da desarmonia.
  Empunhamos. A colher com a exatidão, que ela precisa, até chegar à água no fogão, nossos valores e crenças com a energia para ultrapassar dias difíceis e escondemos a bagunça ao redor e a dor que é resistir.

  Com o café pronto, ela se senta em frente a mim e os seus olhos são mais fortes e acolhedores do que a xícara de café. Com tão pouca gente é possível olhar e ser olhada sem pesos, sem desculpas, com a nudez confortável da intimidade de um amor que conhece os defeitos do amado e ainda assim não  foge, não se muda, não viaja para longe, não inventa uma gripe ou um compromisso de um familiar que não existe.
  Nos revelamos. No café que preparamos, nas xícaras que amamos, nas esperas que confiamos, nos olhares que aceitamos sem nos sentirmos violadas.

  Depois do café, seguimos para a sala e atravesso o corredor que, há pouco, parecia mais escuro. Ela ilumina mais uma vez:
- Queimou. Tenho que trocar.
  Começo uma frase:
- Se quiser...
  Mas ela não deixa que eu termine. Nos sentamos no sofá que fica em frente a uma janela, quase sempre fechada, porque a luz do sol agride suas retinas muito sensíveis, mas que ela não troca de lugar, porque assiste às estrelas nas noites que elas estão visíveis no seu céu.
  A sala dela é um amontoado de histórias em preto e branco, bibelôs de porcelana, revistas e discos antigos, mantas de crochê e almofadas de retalhos.  
  Apoiamos. Nossas cabeças nos ombros mais frágeis que os nossos, nossas mãos em mãos mais frias que as nossas, nossas dores ordinárias nas cicatrizes mais profundas de alguém que só quer companhia para o café.

  Preciso ir embora da desarrumação que é o seu entorno e da ordem delicada e precisa que são as suas mãos, olhos e palavras. Despeço-me do café  e da lucidez no meio de um cômodo em desvario.
  Buscamos. Nos curar do passado, guardar experiências para o futuro e, sobretudo, vivermos cada minuto que ainda temos na sua sala.
  Passamos. Pelos corredores sem luz, com a coragem de quem está certo que a claridade virá.
Mas também duramos, naquilo que amamos fazer algum dia e no tempo que nos dedicamos a só passá-lo com alguém, cujos olhos nos atravessam sem doer.
  Minha casa ordenada, meu desalinho ao fazer café e derramar metade do pó na pia. Ela me ensina o lugar das desarrumações, ela não esconde sua lâmpada queimada, suas paredes borradas, sua pia entulhada.
  Tudo é desordem, depois da porta da entrada, mas a casa continuará aberta, sem recusas, sem retoques; isto é melhor do que ter todas as luzes sempre acesas.
Tudo é desordem, depois da porta da saída, mas é possível encontrar caminhos menos tortuosos de levar o pó de café até à água no fogão.




terça-feira, 10 de abril de 2018

O dia cinco é pão e poema

  Todo dia cinco quando sai o pagamento, ela separa a parte dele: sabonetes, cigarros, chocolates e advogado. Todo dia cinco ela planeja a visita do mês e tem esperança de que seja a última nessas condições. Ela já não é jovem, mas talvez mais do que aparenta, fez uma cirurgia recente na coluna e anda com dificuldade, chega ao trabalho antes das seis, porque escuto a torneira aberta às seis em ponto, mas todo dia cinco ela parece menos triste e com mais vitalidade. Sorri mais,  fala mais palavras ao telefone e comenta sobre o clima, enquanto eu abro o portão. Todo dia cinco ela tem a voz mais suave, os olhos menos duros e o sonho de que seus presentes abracem seu menino todos os dias do mês até o próximo dia cinco.

  Sei dela pelas conversas ao telefone debaixo da minha janela, antes das sete: quatro netos; mais dois filhos, além daquele a quem ela visita; igreja duas vezes por semana, hinos religiosos enquanto trabalha, dor nas costas, mãos ressecadas, dificuldade para marcar consultas com o ortopedista no posto do bairro - tinha que ter feito uma avaliação pós-cirurgia em dezembro, mas até hoje não conseguiu ser atendida -  e um marido que mudou-se há um ano para uma cidade vizinha para trabalhar em um sítio, quer se mudar para lá quando aposentar.
- É um lugar tranquilo, minha filha, tem que ver! Todo mundo conhece todo mundo, sabe?
- Sei.

  Pelo telefone eu sei, sem querer, que ele já está há quatro anos e talvez fique mais seis e que desde que ele perdeu a liberdade, ela não comemora o próprio aniversário, não faz nenhum almoço especial de natal nem de páscoa, na última festa de ressurreição ela iria para casa de uma irmã. Não sei se foi, mas prometeu debaixo da minha janela que iria, mas não queria fazer nada especial.
- Perdeu a graça.
  Semana passada, no dia cinco, ligou para alguém e encomendou um bolo, com recheio de baba de moça, achei que talvez ela desistisse de esperar pela liberdade do filho para retomar as festividades, mas ela pediu duas velas uma com o número dois e a outra com o seis e um confeito simples.
- Porque eles furam o bolo na entrada.
  A própria vida ela não comemora mais, os natais, as ressurreições, réveillons,  mas na dele ela insiste. Ele é o seu assunto mais recorrente nas ligações, o advogado e a irmã os interlocutores diários.

  A reclusão dele é o calendário dela: dia da visita, dia da audiência, dia da saída temporária. É também a sua linha do tempo: o antes dele ser preso e o depois do dia em que ele foi preso. Não sei de crime, só sobre a pena que ela cumpre em regime dolorosamente semiaberto.
  Não tem gostado mais de assistir aos desfiles de escola de samba pela televisão, não vai mais com o marido à igreja aos finais de semana - nem moram mais na mesma cidade - perdeu alguns amigos, quase já não fala mais em bênçãos, já não chora mais quando fala com a irmã ao telefone e é obcecada com a chamada do advogado ao celular, atende antes do terceiro toque. Sua relação com o mundo passa sempre por uma cela, por grades, disciplina, horários, dias marcados e burocracias que ela tem aprendido. Quem traduz para ela o novo mundo é o advogado, a quem eu não conheço, mas parece ter muita paciência nas explicações.

  No dia cinco, quando sai o pagamento, ela renova suas esperanças com os planos pequenos de investimento na casa, quitação das parcelas de algumas dívidas e cumprimento do seu acordo com o homem que abrirá janelas, portas e horizontes para seu filho, temporariamente, em degredo. Todo dia cinco eu a vejo, depois do almoço, quando já retirou o pagamento, subindo a rua com mais coragem, disposta à luta, andando com dificuldade e insegurança como um lutador com o calção folgado demais. Ela é peso pena e sobe ao ringue para lutar contra um adversário peso pesado; resistente e dura, cai nas cordas e adia muito a queda, o rosto na lona.
  Todo dia cinco ela descasca uma laranja, uma banana ou algum doce que oferecem para sua sobremesa e olha tão profundamente para o céu, que chegam a parecer azuis os olhos castanhos dela.  Acho que ela tem algum encontro com o que é, ainda, invisível para mim.

  Tenho sentido pela sua espera; tenho pensado se não estamos sentadas na mesma sala, dividindo um banco longo e interminável, enquanto uma recepcionista levanta a cabeça a cada vinte minutos e repete:
- Só mais um minutinho, viu?
  Não fazemos festa, porque esperamos alguém chegar; não comemos peixe, não passamos um batom, não enfeitamos árvores de natal, não comemoramos os gols que os camisas amarelas conseguem fazer. Perdeu a graça.
  Ela tem um dia de sonhos e outros vinte e nove de lutas; guarda as festas, feriados e nem sei se ainda canta os hinos religiosos com a devoção das primeiras serenatas; embola frases, esquece tons. O dia cinco alimenta a sua sobrevivência material e subjetiva. O dia cinco é seu pão e poema.

  A sua luta é a espera; talvez chegue, talvez nunca. Imaculada o nome; imaculada a sua luta. Todo dia cinco. O sabão resseca mais as suas mãos, a mangueira estragada a obriga a carregar baldes,  o advogado liga e fala sobre algum recurso negado. Há lutas que ultrapassam os rounds planejados.
   Não terá a sua liberdade no próximo dia cinco; vai comprar chocolates, cigarros e sabonetes por mais um mês. Eu ouvi tristeza, debaixo da minha janela, mas quando saí, seu rosto parecia ainda mais seco do que ontem.
- Vai com Deus, ô menina.
  Ela ainda acredita em milagres, ela ainda vê deus.
  A esperança dos outros têm  asas ainda mais delicadas do que a nossa. Queria dizer que ficará tudo bem, mas não fiz Direito nem sou crente em muita coisa. Imaculada é seu nome, sem manchas é a espera dela.




sábado, 7 de abril de 2018

A vida é tão líquida quanto uma pedrada que não chega

  Era para ter sido janeiro, dia primeiro, talvez dia dois ou três, compreendendo os recessos da virada do ano, os atrasos pós-festas de réveillon. Entendendo que as chuvas de verão poderiam acidentar o trajeto e que as ressacas ainda precisavam ser curadas, poderia demorar um pouco mais. No calendário aparecia o número dez e, ainda, nada.
  De repente, é abril e não veio, há dias de esquecimento dessa não chegada, em algum momento ela se acomodará na fila das esperanças que ficaram no varal depois da mudança. O caminhão cheio, o trânsito começando a ficar intenso, a criança logo terá fome e o cão já está inquieto no carro. Duas camisetas ficarão para trás e na desordem da nova casa, ninguém se lembrará delas. Era um sonho de presença que sacudirá com o vento, queimará sob o sol e se encharcará debaixo das correntes de névoa espessa pela manhã e chuva no final da tarde, até desbotarem, se desfazerem e serem encontradas em farrapos no chão do quintal pelos novos moradores. Quase tudo pode ser esquecido. Quase tudo poderá se desmanchar no varal, se o tempo não for de lembranças.
Foi com a inabilidade  de um dia de mudança que o esperado não aconteceu e ficou para trás, completamente desassistido.

  Era para ter amanhecido com um novo tom no quarto, as cortinas não mudariam, a cor da parede ia ser a mesma da noite anterior, a estampa do lençol não surpreenderia, a densidade do travesseiro não ia ser mais nem menos, mas ao abrir lentamente as pálpebras, os olhos reconheceriam um outro reflexo no espelho aos pés da cama, o que traria um espectro de luz amarela-alaranjada que anunciaria o frescor da primavera de um final de semana no apartamento de fundos.
   Diferente do verão, quando os sonhos chegam suados ou desmarcam porque o sol está demasiado quente ou vão ao centro para comprar um ventilador e se atrasam, o reflexo não veio quando era outono e nem uma mensagem com um pedido de desculpas chegou pela manhã.
Foi com a imprevisibilidade de uma tarde muito quente que a desistência abriu as cortinas e dobrou  o lençol. Às vezes acontece de num encontro faltar uma das partes, porque é tarde, é sexta, é um caminho longo até o outro estado ou porque não suporta carregar uma estação inteira no porta-malas.

   Já era silêncio passivo e olheiras no espelho do elevador até o décimo segundo andar, mas numa parada no terceiro, ela entrou e despejou seus sorrisos e olhos brilhantes e molhados nos meus braços até contaminar, sem remédios, vinte horas de um dia que estava decido a ser triste. Se não nos conhecemos antes foi por culpa dos elevadores ou da sua recente chegada à vida. Nossas descoincidentes subidas terminaram com as suas mãos hábeis puxando a minha camiseta, pedindo para eu ficar ou ela ir comigo; a surpresa da sua presença humilhou o silêncio e afastou as olheiras do espelho.
  Foi com a precocidade de uma simpatia às oito da manhã e a chegada não esperada que o dia nasceu outro, mesmo depois de já nascido; duas manhãs que se encontraram na porta do elevador do prédio azul e se tornaram uma, menos cinzenta muito mais jovem.

  Era para ser despedida, sem dramas, sem discursos, sem testemunhas da partida, era só ir lá e mergulhar profundo, aproveitar um pouco, se conseguisse, e encontrar o caminho menos instável, depois das águas.
  Já se preparava para descer  do único topo que aprendeu a pretender, aspirava ar salgado e abandonava-o num suspiro com braços relaxados, porque era esperado, depois do quebra-amar, debaixo de um guarda-sol.
  Foi com a imprecisão da natureza que a onda veio robusta, generosa e urgente, quando o surfista desistia do mar, ela sacudiu a sua prancha e o ergueu até a sua crista, lugar mais alto das suas buscas; nunca foi ao encontro da estabilidade na areia. Pertencia à vida líquida, aceitava a sua identidade.

  Era para ser perecível, duas ou três semanas, no máximo um semestre, mas o terreno foi bem menos hostil do que parecia, ao longe,  e as mãos mais grossas do que se esperava ter. Foram centenas de sementes jogadas em  desordem que as temperaturas, as águas e os insetos forçaram à vida plena, abundante e ilimitada.
  Foi com incerteza entre o solo e a semente, com as improváveis chuvas no inverno, a ausência inesperada de pestes e pragas que as raízes brotaram, fixaram e se alastraram pelas encostas desertas de longevidade; e a vegetação nunca mais foi vazia. 

  Foi com a imprecisão das ausências que esquecemos de anotar na agenda, que uma coisa nunca apontou na esquina e outra se colocou na nossa porta na manhã de um dia cinzento, iluminando rosto, sorriso, da sala de estar até área de serviço do outro lado da casa.
 Com a imprecisão das ausências esquecidas, com a sutil semeadura das dúvidas que crescem e são colhidas com valentia, com a impontualidade dos encontros que nunca mais nos abandonam, o calendário é menos nosso e muito mais do mistério. Era para ter sido ontem, ainda não foi. Era para ser hoje, quem sabe se será? A vida é líquida e tão surpreendente quanto uma pedra jogada e uma cabeça subitamente desviada; sem avisos compreensíveis.



quinta-feira, 5 de abril de 2018

A corrida não acaba num par de tênis

  Quando os solados começam a ficar desgastados e tortos,  dependendo do tipo de pisada inclinam-se
para dentro ou para fora, se as laterais tornam-se mais frouxas e instáveis, a palmilha sai do lugar com frequência e, por isso, as solas dos pés já não ficam mais acomodadas em  uma superfície plana e regular, significa que o tempo de uso do par de tênis celebra o seu final. Os sinais de término começam sutis, por uma pequena linha solta, o tecido que afina-se, os cadarços que precisam ser mais apertados e a cada semana tornam-se mais evidentes, às vezes acontece um rasgo, uma fenda e depois de estarem claras as indicações não temos muito tempo, num dia estão nos pés e na mesma manhã precisam ir para o lixo.

  Quando chega o fim de um tênis de corrida, de uma corredora amadora, é uma sensação estranha de melancolia pelas distâncias superadas materializadas num descarte, como se o par esgarçado estivesse impregnado de todo o esforço e nenhuma medalha para colocar no peito. Não há pódio, flores, aplausos, faixas a serem atravessadas, não há sequer um cronômetro a ser superado. A entrega mais completa e determinada é, toda ela, enrolada languidamente em um saco plástico preto, que é levado para o container do condomínio, onde abrigam-se outras mortes não anunciadas.

   Correr é repleto de individualidade, não convida ao diálogo nem partilha e, num mesmo tempo, é tumultuado de vozes e generosidade, os joelhos, pés, dedos, músculos da virilha todos se tornam entidades a serem profundamente compreendidas, precisam ter seus limites respeitados. O par de tênis sustenta a tripulação de operários organizados.
  Quando um par de tênis precisa ir ao lixo, uma história com suas geografias, filosofias e biologias é fatalmente terminada, mesmo que se quisesse atravessar outras distâncias com os mesmos solados amarelos; mesmo se ainda estamos no meio da semana e o outro par ainda não chegou pelo correio, mesmo que ele pareça carregar toda a cidade.

  As derradeiras corridas com o par dos últimos tempos são recortes de cenas delicadas de adeus e gratidão; os tênis são os leais companheiros dos dias de chuva imprevista, de sol incendiário ou das tardes mornas com cheiro de álcool dos bares da avenida nos sábados. Os tênis, só eles sabem o quanto de espaço, esforço e afeto precisaram ser percorridos até chegarmos ao luto do saco plástico na lixeira.
  O correr é um exercício para o nada, o começo e o seu final coincidem num ponto espacial, mas são opostos simbólicos; a corredora que sai, invariavelmente, se perde no caminho e a que retorna não reconhece o que deixou; o correr é um mistério que não aponta resposta. É  abandono e retorno sucessivos sem lágrimas, sem dramas, sem perdões; correr é suor e simplicidade.

  Quando um par de tênis de corrida acaba, leva com ele todas as possibilidades de novos dias, novos pisos, novas paisagens compartilhadas; enterra o nosso porvir juntos e, afastado dos pés, é somente uma coisa oca, velha e sem lembranças. Mas quando um par de tênis, ainda se despede, todo ele é uma narrativa de disciplina e coragem que parece me chamar a tambémcontinuar. Ele é o fim da corrida, o par de tênis de solado amarelo que não brilhará mais todas as manhãs; é doloroso o rompimento, mas é necessário que acabe algum dia.
  A corrida amadora é uma loucura disciplinada, uma inquietação que deseja horizontes e amplidão, que não tem medo do escuro, do frio, da chuva, que só precisa ir, apesar de tudo.

  Se um par de tênis precisa ir ao lixo, leva com ele os quilômetros que superamos, as bolhas que as suas costuras nos primeiros dias me provocaram, as pequenas pedrinhas incrustadas nas suas linhas do solado, os longos suspiros que eu só experimentei porque ele me levou a algum lugar, as angústias ultrapassadas, as alegrias que não puderam ser partilhadas. Só os tênis de corrida sabem o que é passo de fuga ou de encontro; os corredores nem sempre.
  Quando um tênis de corrida acaba, ele anuncia a transitoriedade da própria passagem; nenhum encontro permanece o tempo que gostaríamos de estar nele, só dura o tempo mesmo da corrida, é limitado e abundante.

  Quando um par de tênis não pode mais acompanhar a caravana, outro chegará pelo correio, os pés estranharão e ele aos pés, ganharão caminhos e serão um do outro até a última corrida juntos.
Um par de tênis novos, recém-chegados, são uma esperança recomeçada. São os países que ainda não fomos, as lamas que ainda não mergulhamos, os automóveis que irão se escandalizar com a  nossa velocidade tão desamparada de máquinas.
  Se um par de tênis acaba sem nunca ter oferecido medalhas, significa que as vitórias nunca irão ao lixo com ele nem as derrotas, elas permanecem nos pés. A corrida não acaba num par de tênis nem no pódio ou na chegada. O correr é uma loucura permanente que troca de tênis, mas não desiste de ir em busca do nada.