domingo, 12 de maio de 2024

Uma cômoda de quatro gavetas, uma casa que desmorona e outras que precisam ser erguidas

     Uma cadeira de couro preto, com detalhes em vermelho, acolchoada e majestosa inaugura a calçada da manhã de sábado. Uma cadeira de altura regulável, braços volumosos e encosto soberbo, cuja parte traseira ostenta um logotipo que lembra uma chama limita a minha passagem e abre espaço para os outros objetos domésticos. Um suntuoso trono adolescente concorre com a máquina de lavar calçadas do condomínio e marca o território que logo será ocupado por uma casa desfeita. A funcionária do prédio recua e os homens do caminhão se sentem mais à vontade para espalhar, pela calçada, os vestígios de um grupo de humanos.

    Ao redor da cadeira, um dos homens estaciona um conjunto de tábuas largas que parece compor uma estante e caixas, muitas caixas de papelão sobre um sofá de três lugares cinza e duas poltronas estampadas com figuras geométricas em branco e preto. Imagino que as caixas abriguem livros, porque vi a estante e, em outras, sapatos, porque notei um pedaço de cadarço para fora de uma delas e um salto fino, escapando por um furo, possivelmente feito por ele mesmo. Entre móveis e as caixas, que abrigam, com discrição, os objetos menores, aparecem, aos poucos, uma dezena de outros objetos desabrigados, por escassez de caixas de papelão. Uma bola de basquete, uma almofada grande, com uma borda alta estampada com estrelas — possivelmente a cama de uma animal doméstico pequeno — um par de chinelos masculino, um mural com moldura rosa, um escorredor de pratos, duas avencas, uma escultura em madeira de um gato egípcio. Tudo isso na calçada de uma avenida movimentada, antes das oito da manhã. 

    Sigo acompanhando o translado de um lar, objetos que revelam um pouco sobre a civilização do apartamento quinhentos e três. Conheço-os há, pelo menos, quinze anos, desde que o casal chegou com um menino no colo e uma menina, que ainda não tinha rosto, mas tinha o meu nome. Mesmo depois de tantos encontros, conversas prosaicas na portaria ou elevador, sacolas carregadas, choros consolados e pequenas birras pacificadas, eu nunca soube tanto deles quanto agora, na calçada. Que, aos poucos desenha um quadro diverso do que aquele com o qual eu me acostumava. A organização da casa desmontada subitamente, ao menos para mim, segue um outro sistema, com dois agrupamentos separados por um corredor imaginário. 

    De um lado, a cadeira gamer preta e vermelha conduz a coleção, de outro, uma cômoda de quatro gavetas, branca, com detalhes de palha trançada nas bordas assume a dianteira. Atrás da cadeira, os chinelos, a bola de basquete, a estante e algumas caixas, atrás da cômoda branca, o mural com detalhes em cor de rosa, a caixa furada e o sofá. 
    Aos poucos, a organização em dois polos se torna mais explícita. O fogão de um lado, a geladeira de outro, as duas TVs que se separam, os colchões das camas que são organizados por essa linha imaginária que o corredor vazio ajuda a traçar.
    A casa vulnerável na calçada se tornará duas. O grupo de humanos que acumulou esses bens devassados na avenida se repartirá. Outro caminhão estaciona na frente do prédio e os homens se dividem entre os polos que alimentavam, ainda há pouco. 

    A cadeira é içada para um dos caminhões e eu me lembro do menino que usava camisetas de times estrangeiros de futebol, gostava de dinossauros e de gibis da Turma da Mônica, quando o conheci. E que, mais tarde, precisou andar por quase seis meses apoiado por muletas, depois de um acidente no mar, nas férias. Um outro adulto assumiu o lugar do menino nos últimos anos, mas ainda tem o mesmo olhar entusiasmado de quem gostava do Cebolinha. 
    Quando a bola de basquete e o par de chinelos é acomodado no caminhão, escuto, muito longe, a buzina do carro do pai na garagem e o menino atrasado, correndo para a aula de xadrez, basquete,  inglês, para a fisioterapia ou Enem.
 
    Quando o quadro com moldura rosa é colocado no outro caminhão, a menina que eu conheço desde a chegada da maternidade, deitada confortavelmente numa cadeirinha de bebê para carro, vestida com um macacão vermelho parece saltar para dentro do caminhão-baú. Foi aos onze anos, quando a mãe dela me mostrou, à caminho do médico, ainda no elevador do prédio, aquela mecha comprida de cabelo branco na cabeça da filha, em uma mistura muito comum, especialmente na maternidade, de surpresa e culpa — surpreendida pelo traço de velhice precoce da filha e culpada por não ter percebido antes — eu testemunhei duas velhices peculiares. A da menina, de mesmo nome que o meu, que envelhecia enquanto brincava de boneca e  ninguém viu e o da mãe da menina, que aprendia a impossibilidade de saber e ver tudo o que acontecia com os filhos. Os dois envelhecimentos me marcaram.

    Tudo o que antes estava na calçada é acomodado drasticamente em dois caminhões-baú. Toda a vulnerabilidade de um lar desfeito é recolhida em dois abrigos escuros e silenciosos.  Da civilização que eu conheci um dia, ficarão paredes brancas e marcas de móveis no piso de cada um dos cômodos. O primeiro caminhão é fechado, o motorista e os outros dois carregadores se ajeitam nos bancos e partem com metade de uma casa desfeita.  
    No segundo caminhão, o último item a ser colocado é a cômoda de quatro gavetas. As portas do baú também são fechadas e eu fico na calçada, como a mãe, surpreendida e culpada por uma transformação que eu não vi acontecer. O que abrigará a quarta gaveta da cômoda, agora que o grupo se reparte? A faxina continua no condomínio, como se nenhuma perda representasse qualquer importância para um prédio de onze andares.
    Desvio da água da faxina, retomo meu caminho para a casa, que ainda é minha e parece inteira. Sou, num mesmo tempo, mãe e menina de mecha de cabelo branco. Quero acompanhar as transformações e não ser somente surpreendida por elas, mas quero também mudar sem ter que falar com ninguém. Quero a verdade dos outros e manter o meu mistério.  Há sempre reconstruções a serem encampadas, quando uma casa desmorona; às vezes termina numa calçada, às vezes não.
 

 

domingo, 5 de maio de 2024

O amor feio, vermelho e em caixa alta na porta de aço

    Letras garrafais, em caligrafia bonita, cor escarlate, na porta de aço branca: o amor é feio. Já estava ali quando eu passei e não vi. Uma inscrição muito evidente na porta de aço bem no meu caminho e eu precisei de uma segunda chance para vê-la. Certamente, na primeira vez em que passei por ela, olhava para o trânsito, para a construção logo em frente ou seguia muito concentrada noutra coisa para percebê-la ali.
    O amor é feio, escrito por uma mão segura, sem nenhum borrão ou falha. Uma declaração muito convicta de alguém que não hesitou sobre o que pensa do amor.
 
    O amor é feio, que eu só vejo na volta, interrompe a minha marcha disciplinada, me segura, me faz querer voltar e analisar todos os vestígios. Há quanto tempo está ali? Terá acontecido esta noite? Por que só o vi na volta? 
    Nos dias de semana, a porta de aço branca já está suspensa quando eu passo. Cadeiras, sofás, puffs, banquinhos, divãs, ladeados por rolos de tecidos e espumas ocupam a paisagem daquele lado. A loja de reforma de estofados abre antes das nove, que é frequentemente o horário que eu passo pela sua calçada, talvez a frase já estivesse lá e eu não poderia vê-la. Se foi há mais tempo, por que ninguém apagou? 

    Analiso a tinta, que parece muito forte e delicada para ser spray, mas fosca para ser tinta esmalte e grossa demais para ser caneta. Passo os dedos sobre cada letra, mas só sinto o metal da porta, a tinta foi absorvida por ele, não há relevos. O vermelho é encarnado e recente, mas não tenho meios para precisar a data do aviso ou será desabafo? Ou filosofia? Não parece prece, mas há algo de messiânico, sem espaço para dúvidas. Nenhuma pontuação para ajudar. O amor é. O amor não parece que é ou talvez seja. O amor é. Segundo quem? Quem atribuiu ao amor a feiura? E que tipo de fealdade é esta? 
    O pensamento não tem atribuição a um autor, não cita, não usa exemplos, não há outro recurso discursivo além da própria afirmação: O amor é feio. E eu só o vejo numa segunda chance. Será que eu não vi antes porque evitei a constatação da inscrição. Será que eu vi e não li ou li e não compreendi? O que terá sido?

    Procuro por pingos de tinta no chão, qualquer resquício do crime, ali na calçada. Talvez uma tampa de caneta, um pincel, um lacre, algum material que responda, ao menos, a minha curiosidade técnica, de quando e como. Mas nada ao redor, além de uma garrafa vazia de cerveja de 330 ml, bem embaixo da inscrição. Terá o álcool potencializado a certeza de que o amor é mesmo feio? Ou a garrafa veio depois? De um leitor, que como eu, não pode seguir sem analisar o amor vermelho em caixa alta.
    O trânsito começa a ficar mais intenso em frente à inscrição, não consigo mais ser discreta e me incomodo com os olhares pelos retrovisores e janelas com vidros abaixados, também, preciso seguir. Não quero abandonar a frase sem nenhum esclarecimento, mas ali parada também não pareço fazer nenhum tipo de avanço. 
    O amor é feio me segue até em casa. O amor é feio está incrustado na sola do tênis, no elástico da meia, no suor do top e no cós do meu short. O amor é feio vai me acompanhar durante todo o domingo.
 
    O amor é feio não limpa com sabonete e água corrente; ele entranha na minha toalha de banho e na que eu uso para segurar o cabelo molhado. Visto outra roupa e no reflexo do espelho, lá está ele, em caixa alta e sem pontuação;vermelho vivo, quase pulsante.
    Separo um prato para mim e outro para o amor é feio, dois copos, dois pares de talheres, duas conchas de feijão para cada um. Na siesta ele coloca a cabeça no outro travesseiro e me encara antes de fecharmos os olhos; o amor é feio sonha na minha cama, enquanto eu sonho com ele. Acordo do pesadelo de não compreender o aviso-inscrição e ele ainda está lá. 
 
    O amor é feio veio comigo, como um enigma que só me abandonará depois que eu decifrá-lo. Resolvo chamá-lo para uma conversa, faço um café, sirvo biscoitos e meio queijo curado em travessas que só uso para as visitas, arrumo a mesa e ofereço uma xícara ao amor é feio. Ele me olha atento, mas permanece mudo. Explico-lhe que estou acostumada aos domingos desacompanhada e sem mistérios, que preferia descansar na ignorância do que investigar mais uma situação fundamental; que preferia relativizar a ter que lidar com a precisão do seu corpo vermelho e linear. O amor é feio não se comove, me ajuda a tirar a mesa e seca a louça.
 
    O amor é feio está parado no meio da minha cozinha e me olha. Eu não tenho saída, não sei discordar de uma companhia tão genuína. Começo então meu próprio inventário do amor que é feio. O amor feio de vísceras, de líquidos, de gripes ou doenças incuráveis, o amor feio do parto natural de gritos, de placenta, de odores e sangue. O amor feio da casa que não foi arrumada, do cabelo que não foi penteado, da nódoa da camiseta velha. O amor feio do soro caseiro que a mão mexe na esperança de que o acamado melhore, o amor feio da sala de visitas e do respirador mecânico na UTI. O amor feio das dívidas, das incertezas, dos declínios, das derrotas. O amor feio do cansaço, da impaciência, da falta de desejo. O amor feio dos silêncios estranhos, das palavras ásperas e dos desencantos; o amor feio da guerra-fria, da cama dura e do quarto escuro. O amor feio que não se admira no visor da câmera, que não dedica poemas, não escreve cartas ridículas de amor, porque está ocupado demais segurando o lenço, trocando o lençol, ninando a criança que acordou no meio da noite e esperando; de novo, esperando.

    O amor feio me ouviu, pendurou o pano de prato na tampa do fogão, me olhou satisfeito, tomou o corredor e eu só o ouvi abrir e bater a porta. O amor é feio se deu por satisfeito e me libertou. O amor é feio em vermelho, em letras maiúsculas e caligrafia bonita na porta de aço quis me dar uma segunda chance e se foi.




quarta-feira, 1 de maio de 2024

Que saber que a coca-cola é gelada não garante a dissolução da sede

      Que saber como são concebidos os filhos e que, no caso de tê-los, é recomendável, antes, ir à ginecologista para que ela receite ácido fólico, atividade física regular, dieta equilibrada e boa sorte não significa que vai saber como segurá-lo no primeiro dia em casa, enquanto atende à campainha e afasta delicadamente o cão da porta, com um dos pés, para que ele não fuja. Tampouco garante que saberá responder as inúmeras perguntas da primeira infância ou ter paciência com elas, lidar com a indiferença adolescente e o desespero reprimido do adulto que nunca mais perguntou nada. 
     Assim como estar informada de como evitar a gestação, sobre os métodos contraceptivos, o preço da educação e saúde de qualidade e que o planeta caminha para uma pane ambiental, não resolve o dilema entre o sonho infantil e o pragmatismo recente, também não interdita os muitos outros partos que virão.

    Que não aprisionar pássaros em gaiolas, peixes em aquários, cães de maior porte em apartamentos pequenos e não alugar um haras, só para comprar um cavalo, que verá, como um pai ausente, cada vez menos, a medida que deixa de ser potro não garante a mesma ética com outros seres vivos. 
    Não usar roupas ou acessórios de pele ou coro animal, mas vestir a roupa costurada por mãos escravas orientais. Defender direitos igualitários de gênero e raça, não poupa a empregada da louça suja na pia nem que ela recolha sua roupa íntima pendurada na porta do box do banheiro. Não mentir não é o mesmo que ser verdadeira; doar tudo o que se tem não é generosidade; dividir é.
 
    Aprender como fazer a declaração do imposto de renda, que consiste em guardar recibos o ano inteiro e avisar, no ano seguinte, à fonte — especialmente as de serviços pequenos — de que vai utilizá-lo, ter os números dos documentos à mão e salvar cada informação lançada nada disso a protege de uma carta da receita federal, cobrando uma restituição indevida. Fazer aulas de direção, nunca sair sem o cinto de segurança, sem os documentos e a medalhinha de São Cristovão, pendurada no painel do carro  não assegura a atenção do pedestre ou a perícia do motociclista.
    Não dever ao banco, ao fisco, à empresa de cartão de crédito ou à que recorreu para o empréstimo, mas atravessar a rua para não passar em frente ao mercado de frutas e verduras, pelas folhas de couve, agrião e chicória, pelos brócolis, cenouras e dúzias de tomates e laranjas pelas quais não pagará esse mês, ainda, só assegura uma certidão negativa oficial e mais nada.

    Esboçar um itinerário, pesquisar roteiros, estudar a língua estrangeira, se antecipar aos possíveis imbróglios culturais, comprar as passagens, reservar estadia, arrumar as malas e se sentar na poltrona do avião não a ampara, quando estiver no ônibus errado, com sede e fome às dez da noite e não conseguir se comunicar com mais ninguém. Que depois do silêncio, de cento e cinquenta quilômetros de distância do lugar planejado, da fome e da sede, saber que a Coca-Cola é gelada não garante o fim da secura. Conhecer um outro país ou vários deles não credencia ninguém para ser viajante.
    Atravessar uma alameda, uma viela, um viaduto, uma linha, fronteira ou continente pode exigir calçados especiais, passaporte, cartografia, idiomas e bagagem e nada disso garante o trânsito entre turista e viajante.

    Que saber como apartar uma briga, dissuadir ou sair de uma não significa ter paz. Que engolir o choro não garante a vida adulta e que o conflito mais radical é o que se estende pela história, cujo início parece tão apagado que já não sabe contra quem é a luta; mas acorda todos os dias com os punhos cerrados.
    Que rezar não garante o céu, que não rezar não envia ninguém ao inferno imediatamente sem apelação da defesa. Que ao escolher um lado, deixamos de ver uma paisagem bonita, mas se não escolher, corremos o risco de fazer a viagem no corredor, só com fragmentos de perspectivas. 
 
    Saber que uma coisa acabou  não garante o fim definitivo de nada, porque há a paisagem, os fragmentos de perspectivas, os filhos das mães que os quiseram e o das que os tiveram. E, ainda, os pássaros soltos e as trabalhadoras domésticas em cárcere, os impostos mal declarados, os pequenos comércios de esquina. Há as passagens de avião em promoção, as pequenas grandes viagens subjetivas, romper a linha imaginária, seguir em frente e abrir o portão e, depois, abandoná-lo definitivamente. Saber que uma coisa acabou é velar o finado e nem sempre seguir em frente, mas para outro lado, por uma Coca-Cola gelada e, finalmente, pelo perdão ao inimigo remoto .



domingo, 21 de abril de 2024

A cadeira morna da sala de visitas

    O futuro sempre esteve aqui, nos cadernos de dez matérias que terminam com muitas páginas em branco, nas roupas de festa que uso, no máximo, em duas ocasiões, mas não tive coragem de tirar do guarda-roupas, ainda, nos copos de requeijão que se acumulam debaixo da pia, na proporção dez por um morador, na mão que falta ou na que socorre; nas que se revezam nesse exercício. 
    O porvir já está aqui do lado de dentro, na incompreensão do amor, da guerra, da palavra, no dito pelo não dito, nas cadernetas com senhas anotadas, número de CPF, números de telefone sem um nome, nas frases e parágrafos inteiros de um texto que nunca se realizou.
 
    Está na prova que eu fiz no ano passado, cujo resultado será na semana que vem. Nas imagens que salvei no celular e com as quais não me identifico mais, na resposta que pensei, mas não enviei ainda para a amiga tão antiga, desde sempre.      
    Nos coletivos que eu não uso, mas que aprendi, caso precisasse algum dia, panapanã, vara, resma. Na primeira pessoa do plural, a quem eu recorria para escrever meus trabalhos e na primeira do singular que eu me autorizo agora.
    O futuro é o sol nascente e o que se põe nesse instante, alaranjado e melancólico outonal. O Dez Chamamentos ao Amigo de Hilst e a poeta que nasceu hoje e o lerá atônita em dez de maio de dois mil e trinta e sete. A batida do dedo mindinho na mesa de centro, o enfeite de porcelana na casa da avó.
 
    Está na sessão de cinema de domingo que deveria servir para me ajudar a não justificar a minha tristeza ou a não ter uma angustia racionalizada. No álbum salvo no tocador, lançado há mais de trinta anos, que eu ainda não ouvi. No plano de aula que o professor faz, enquanto escrevo, nos moldes de letras do alfabeto com as quais alguém aprenderá um mundo esta semana, nas anotações do dono da mercearia, que vende fiado.
    No prato pelo qual salivo, enquanto espero, no restaurante ao qual eu fui pela primeira vez, no bater das asas de uma pomba na praça e na música do Timbalada que me acompanha há dias, de um tique-taque no meu coração que renascerá. O futuro promete o renascimento, mas também é o afogamento em tristezas e constatações sentimentais. É a minha esperança e trauma projetados na tela de uma praça que exibe documentários em dias de festivais internacionais. É o décimo primeiro andar de um prédio no Centro, é o apartamento comprado na planta, cujos quartos parecem menores do que uma cama de casal.

    O futuro é esse lençol de pequenas margaridas estampadas que eu comprei para ter noites de sono revigorantes, mas que tenho que me contentar em só ter manhãs melhor decoradas. É o ingresso para o show da banda que só virá em setembro, o ultrassom que revela a vida encapsulada que só cederá em dezembro. É o cão adotado e a feira onde esperam outros. O daqui em diante também é daqui para trás; o impulso que salva, que muda, que anuncia um novo repertório. É o dente de leite que cairá, o siso que começa a incomodar. 
    É a casa recém-pintada para alugar, as paredes descascadas para denunciar o abandono; é a solidão e o encontro; o desejo de ser só depois do encontro ou de estar junto depois de experimentar os cômodos silenciosos pela ausência.   

    O futuro é o milésimo desse instante que eu gasto para falar com desconhecidos enquanto os íntimos descansam na outra sala e não podem mais me ouvir hoje. É o compromisso desmarcado e o outro assumido no lugar, depois de três minutos de ócio almejado. É a rainha, no xadrez, cujos movimentos são ilimitados e, por isso, imprevisíveis para o amador. É o botão da calça seguro somente por um fio de linha e o zíper que só se movimentará mais uma vez, antes de emperrar; mas não sabemos disso.
   É a perna flexionada para o mergulho, antes mesmo do encontro entre o corpo e a água. É o extintor na parede em um prédio que o fogo nunca queimará; é o terror antes da ligação para o um nove zero. É o frio na espinha do infrator antes do crime e o vento que anuncia o assalto, antes da voz e da bala; é a bolsa no chão.

    É a minha invenção de descanso, paraíso e amor incondicional ou sublime; ou os dois. É o café que marquei, mas não vou tomar por causa da chuva, do pneu furado, do relatório final de última hora, da inflamação na garganta ou da loucura de um parente próximo que pulará da janela em frente à minha.
    É o sonho acalentado por mais de trinta anos e, pela primeira vez, esquematizado numa página da agenda. O futuro é o vinho na taça, a garrafa no supermercado e a leitura do código de barras.
    — É...até que cabe no orçamento.
    É o barulho do vidro no carrinho de compras de metal e o reflexo rosado no azulejo branco da cozinha, quando a luz do final de tarde transpassa a garrafa. É o brinde, o primeiro e o último gole.
     É o anzol na loja de materiais de pesca esportiva e o poema da Adélia sobre limpar os peixes, enquanto os cotovelos da mulher e do marido se tocam na pia.

     O futuro é o purgatório da espera por justiça, pelo equilíbrio, pelas seis da tarde de sexta-feira, promoção e aposentadoria, pela porta aberta por alguém que nunca virá. É a angústia de Florbela, Silvia Plath, Ana Cristina César,  Virgínia Woolf e o desespero amarelo de Van Gogh. É o cursinho preparatório, os simulados, as piadas, o desconforto com mentores que estimulam a competição.
    O porvir é o vizinho ranzinza que segura a porta do elevador e o simpático que não separa o lixo. É o círculo de experiências numa reunião e a minha cadeira sem calço, que balança e, por isso, eu não estive lá. É a travessia do Atlântico em uma carteira de escola, na aula de Geografia. É a folha semi-escrita; nunca a completamente em branco. É a cadeira já morna, na sala de visitas; é o cheque-mate com a rainha.




domingo, 14 de abril de 2024

O destino da mulher de sal

    Não é muito grande — coisa de menos de dez metros quadrados — não é um primor estético, tampouco indispensável a qualquer coisa cotidiana. Mas é um descanso inusitado para os olhos no meio da rua, da semana, da dureza dos dias. Não é estrategicamente localizado ou milimetricamente projetado, não tem a intervenção de um profissional, nem operacional tampouco de planejamento. Mas, ainda assim, parece racionalmente concebido. Há uma estrutura ali que captura os olhos, uma dinâmica de cores, formas e tamanhos que apaziguam angustias; é uma organização esquizofrênica que nos perdoa pela nossa própria bagunça. Um monumento à simplicidade, ao rústico, ao caótico e ao lento.

    É um retângulo de concreto, semelhante a um tanque desses em que se mistura massa de cimento em grandes canteiros de obras. Mas, neste caso, em proporções muito menores, fixado ao chão, repleto de terra e adubo.
    Nas bordas do retângulo cinza, cacos de pisos, de diversos tamanhos e cores, que salpicados formam prismas de luz nas paredes e muros da casa, quando um raio de sol bate. Só por esse instante valeria a contemplação, só por essa luz o jardim doméstico parece monumental.  Mas ainda há as instalações excêntricas com garrafa pet para afastar os gatos, da casa e da rua, das flores mais sensíveis e um universo de insetos que se nutrem, reproduzem e mantêm esse inusitado bioma.

    Quando me mudei para o prédio recém-construído, esse universo multicolorido já existia na mesma rua. A primeira vez que o vi, tirava medidas da janela para instalar uma persiana, a qual mantenho sempre aberta, quando estou em casa, para não perder o espetáculo comezinho da natureza tutelada pela maior responsável pelo retângulo mais colorido da cidade. 
    Acompanhei o plantio e o desenvolvimento de grande parte da coleção de mudas que resiste lá agora, também testemunhei o desgaste natural da jardineira, que já era bastante idosa quando a conheci e fiquei sobressaltada com cada um dos acidentes que ela acumulou nos últimos anos.
    Mas quando seu corpo sofria um impacto maior, era comum assistir e participar do rodízio entre voluntários que se organizavam no seu portão e apareciam para ajudá-la com o jardim, sensibilizados pela importância que ela sempre deu a ele e mobilizados pela beleza que ela proporcionava a qualquer um que passasse em frente ao retângulo das boas intenções.

    Eu mesma aprendi a cuidar de Begônias, Girânios, do Camarão Amarelo, Lavanda, Girassol e até dos musgos, na casa dos fundos do meu prédio. Aprendi a ver a profusão de cores de muito perto, sentir as raízes e o movimento que as minhocas fazem ao manterem o solo arejado. É como se pudesse contemplar um Van Gogh a centímetros de distância.
    Descobri, ainda,  que dividíamos muitas semelhanças, profissionais, gostos gastronômicos — doce de laranja cristalizada, arroz doce, bolinho de mandioca, lambari frito, romeu e julieta —, a reverência  à natureza e à liberdade dos seres, o gosto pelo cheiro da terra e o apaziguamento junto ao trabalho manual. 
    Conheci da jardineira a sua ideologia pelo partilhar belezas, construir afetos sem promessas ou palavras, mas com flores, cores e objetos inusitados. Assisti a sua resistência muito discreta e cheia de dignidade às especulações imobiliárias; vi a sua casa se tornar a última, a única, artigo super valorizado e não cedido por dinheiro algum.

     Nos últimos meses, a saúde da protetora do jardim se declinou ainda mais, seus dias na casa se tornaram menos autônomos e as visitas mais frequentes. Logo, o jardim se tornou ainda mais coletivo, com muitas mãos, muitos tutores, uma espécie de espaço público, mesmo que rodeado por antigas grades. Flores rodeadas de gatos e gente, foi assim que ela viu o jardim da própria casa pela última vez. A dona do retângulo das boas intenções, do espantalho da normose nossa de cada dia se despediu muito frágil, mas consciente de algum legado, eu acho.

    Depois dela, a casa também não resistiu, o telhado colonial da varanda é o primeiro a ser maculado. Cada telha é cuidadosamente removida para ser aproveitada em algum simulacro arquetetônico caríssimo. Cada item retirado é uma despedida da vida que eu conheci até agora.
 
     Por enquanto, o jardim é mantido, empoeirado, sem cuidados, com flores secas, mas seu fim não tardará.
    São seus últimos dias, queria segurar o que não posso. Tenho chorado pelo que ainda existe, mas está perdido. É esse o meu desafio ancestral, ir em frente sem a hesitação da mulher de Ló. Corro sempre o risco de me tornar pedra de sal, assim como a mulher bíblica, não pela insensibilidade, mas pela dificuldade em admitir as perdas e não olhar para trás nunca.