domingo, 22 de julho de 2018

Podia flutuar dentro de um cinzeiro

  Era uma ilha de certezas absolutas, cercada por algumas dúvidas que não alcançavam os seus pés, mas que esbarravam nas suas bordas de areia, desde que começou a frequentar as aulas duas vezes por semana.
  Quis tentar alguma  atividade artística para relaxar e, ao mesmo tempo, ter motivos para não voltar imediatamente para casa depois do trabalho.  Pensou em origami, mas achou que a fragilidade do papel e as dobraduras muito delicadas, ainda não caberiam, sem rasgos, nas suas mãos desassossegadas.
  Depois, pensou no curso de aquarela, porque achava bonita a atividade vista de longe, sentia-se em paz só em olhar os alunos de costas, debruçados sobre os seus blocos de papel, com o pincel numa das mãos e a paleta de tintas na outra. Mas quando pegou a lista de materiais, viu que não se restringia ao  pincel e ao estojo com as cores básicas, mas requisitava bloco de folhas de marca específica, grafite para desenho, quatro pincéis, doze bisnagas de tinta, flanela, reservatório para água - pensou em perguntar se copo descartável serviria, mas para os outros itens não tinha substituto mais barato -  achou que a atividade não era tão simples como pensava e o investimento talvez não tivesse o resultado esperado. Poderia ficar ainda mais ansiosa pela quantidade de material que precisaria se lembrar de levar para o trabalho duas vezes por semana,  aprender os seus usos e, ainda, o tempo de reposição de cada um. As aulas eram às segundas e sextas e se alguma tinta acabasse na sexta e ela não se lembrasse de repô-la antes da segunda?
- Melhor não.

  Também não escolheu o mosaico porque emendar delicados cacos não pareceu ser  uma habilidade possível; produzir cacos era mais próximo da sua história. Teatro e  música, nem pensar. Não tinha idade e, principalmente, disposição para vestir uma malha e simular situações ou entoar, exaustivamente, repetições sonoras até poder praticar com  uma música completa.
  Mas quando passou pela porta do atelier de cerâmica, imaginou que a materialidade de um prato, um copo, de vasos cilíndricos e esculturas pesadas, poderiam se adequar melhor às suas mãos pouco acostumadas às sutilezas.   
   Escolheu a cerâmica porque dentre as atividades disponíveis, foi a que pareceu mais fácil, mais concreta e a argila não era frágil como o papel, não requisitava uma bolsa cheia de tintas e pincéis caros como a aquarela, não era demasiado delicada como os cacos do mosaico nem a faria se expor num palco, nas festas de final de ano. Na aula com argila relaxaria e, ainda, produziria peças com alguma utilidade cotidiana: um prato, uma caneca, uma escultura para segurar os livros na estante, um cinzeiro que fosse.

  Matriculou-se em Cerâmica I, que começou com as monótonas  aulas teóricas. Decepcionada, no início,  as segundas e sextas só eram boas porque chegava em casa mais tarde. Quatro aulas depois e pode, finalmente, manipular a argila. Sentiu o êxtase da possibilidade de alguma arte materializada nas mãos quando coloco-as na massa, mas logo a decepção de não conseguir enxergar nada além de barro.
  Tinha que juntar o pó à água e criar uma massa de textura intermediária, nem muito dura nem muito mole. Já nesse passo, teve muita dificuldade, achava que colocava pouca água, adicionava mais e a massa escorria pelos dedos como lama em enxurrada, pensava que colocava pó em boa medida, mas a massa ficava completamente endurecida. Enquanto os outros alunos já começavam a dar alguma forma à massa, ela ainda nem conseguia encontrar a argila, depois de tanta água e pó.

  Tudo com a argila foi inexplicavelmente difícil: encontrá-la a partir dos dois elementos em cima da bancada, tentar moldá-la, fazer dela algo e levá-lo ao forno. Cada etapa foi um desafio com sucessivas humilhações. Não esteve nunca acostumada a não ser brilhante. Mas com a argila experimentou não ser, não saber e falhar muito.
  Na roda de modelagem, viu quase uma centena de formas se desfazerem na sua frente. Os vasos não nasciam com facilidade, ficou com as formas planas muito mais tempo do que desejava e detestava a fealdade dos seus planos tortos, queimados ou espatifados dentro do forno.
 A cerâmica era a incerteza que começava a roçar os seus pés seguros na ilha. A argila era o começo das suas dúvidas que se desdobravam em outras a cada aula.

  Pensou em desistir dezenas de vezes, faltou algumas segundas, mas sexta-feira já tinha as mãos marrons de reconciliação, tentou conquistar a compaixão do professor, mas o homem baixinho e troncudo dava respostas secas e só solicitava mais, dele nunca partia os elogios. Não era o instrutor zen das aulas que imaginou ter. O relaxamento esperado nunca existiu.  Mas teve o alívio de chegar em casa, ao menos dois dias da semana mais tarde, o contentamento de aprender a misturar a argila e, às vezes, até se ver refletida nela, quando formava uma poça d'água no centro do monte de pó avermelhado. Desde que começou a fazer as aulas de cerâmica, passou a pensar mais na medida das coisas e na força empenhada em cada uma. Tudo é medida e intensidade, na argila.

  Se cozinhava, pensava na proporção dos temperos e duvidou que soubesse calculá-los bem. Muito sal na comida ou sal de menos? O seu paladar era outro depois das aulas de cerâmica. Tudo tinha outro gosto. Tudo era passível de gosto, para além da cozinha. Às vezes sentia numa imagem, música, numa palavra lida ou ouvida a aridez da argila seca e, aos poucos, a sua textura maleável.
  Se esfregava o cabelo da criança, pensava, ainda com espuma nas mãos, se era com muita ou pouca força. Começou a refletir sobre as suas mãos na cabeça molhada, até na própria. 
  No trabalho, já não sabia se era exigente com muita  ou pouca força. Suas palavras, de repente, estavam em uma bancada, recebendo água e movimentos, ora fortes ora suaves, das suas mãos que aprenderam a continuar, mesmo depois dos fracassos.
  Desde que começou as aulas, tem se sentido menos mão e mais massa. Tem tido bem menos certezas e isso a fez ser ainda mais frequente e dedicada às aulas de cerâmica. Tudo o que conseguiu fazer, até agora, foram doze pratos tortos e um cinzeiro quase bonito.

  Ela e a argila, indomáveis matérias, tortuosas insistências, existências aflitivas e quebráveis, mas  fortes, até em pedaços. Concretudes imaginadas e surpreendentes subjetividades.  Não era mais ilha, nadava entre ondas de dúvidas, sem medo de afogar. Escolheu mudar de casa e ir às aulas já não era para evitar o que não queria encontrar no antigo lar, mas era o gosto pela aceitação de não ser brilhante sempre e a ousadia de não desistir de um aprendizado demorado.
  O professor, finalmente, gostava dela, no dia em que ela tirou o cinzeiro do forno, saiu dele a primeira manifestação de aprovação:
- Nada mal.
  Voltou a comprar cigarros para usar o cinzeiro; acendia-os, mas nunca levava-os à boca. Via-os queimarem no cinzeiro que ela fez. Não é pela dureza do barro, é mais pela efemeridade da fumaça. No fim, quanto mais duro o material, mais delicadeza ele requisita. Estranha aula de segundas e sextas. Misterioso tempo em que aprendeu a medir a intensidade da própria força.
  Gostava de voltar para casa agora, mas não faltava às aulas de cerâmica. Saiu da ilha e flutuava, dentro de um cinzeiro, sobre ondas de errâncias.



segunda-feira, 16 de julho de 2018

Quando as segundas eram menos segundas

  Os cordões de fitas amarelas e verdes parecem balançar ainda mais hoje, porque é inverno e venta muito pela manhã. As bandeirolas azuis anil e brancas parecem mais velhas hoje, porque é segunda-feira; e quase tudo tem tom de sépia às segundas, no frio.
  Há pouco mais de trinta dias que elas foram dependuradas e já parecem tão antigas. Estão lá, em todo o comprimento da rua, mas ignoramos a finalidade de alegria dos adereços cor de um país. É uma festa que não aconteceu completamente. São os balões coloridos cheios, formando um arco na parede da sala para uma festa surpresa, cujo convidado não chegou. Enfeitaram a sala, decoraram a mesa de doces e bolo, apagaram as luzes, para que quando o aniversariante abrisse a porta só acendessem as velas. Ficaram todos no escuro, por algum tempo, até se cansarem e constatarem que ele não viria.

  As fitas coloridas, ao longo da rua, lembram o que não chegou a acontecer. Logo os balões murcham, no mesmo lugar, ninguém se move para retirá-los. A família almoça, janta, assiste à TV, o pai faz contas na mesa, o filho faz o dever de casa e os balões lá, improváveis no cotidiano, impossíveis de serem removidos.
 E eu que nem esperava por aniversariante algum, sinto a melancolia da desistência, uma mágoa pela festa desperdiçada. Ninguém retira as fitas, ninguém devolve o cinza das ruas, porque a tradição é a de colocar; o retirar ainda não aprendemos.

  Se eu não morasse aqui, eu não estaria tão acostumada aos vestígios das cores da bandeira pelos muros, calçadas e postes. Cores que desbotam durante quatro anos, até quase não serem visíveis e, de repente, numa noite, voltamos do trabalho e as cores estão lá, de novo, esperando pelo convidado. É engraçado tentar entender o lugar onde moro: as tradições que só compreendi depois que desbotaram.
  Às segundas-feiras o desalento pela ausência do esperado parece ecoar ainda mais alto. As fitas dependuradas nos cordões  parecem tão menos vivas, tão entregues ao vento, que se não houvessem os nós, demasiado apertados, elas se jogariam de lá.
  Fitas perdidas de função, descontextualizadas, ultrapassadas não de tempo, mas de sincronia entre tempo e presença. Às segundas, as fitas nos postes doem mais. 

   Passo debaixo dos cordões e evito olhar para cima, minha dor de cabeça lateja e eu acho que é pela falta de cor das segundas; não estou certa disso e não há médico que irá confirmar essa suspeita. Uma aspirina, antes de sair de casa, e óculos escuros são medidas possíveis. Meus vizinhos também se escondem atrás de lentes escuras, hoje, ninguém olha para os cordões, desconfio que eles também os evitam.
  Toda segunda-feira, pela manhã, há duas ressacas possíveis: pelos excessos ou pela ausência. Ambas são torturantes, mas só uma não deixa, ao menos,  um sorriso na sobremesa do almoço. A inevitável ressaca das segundas, que gostaria de ainda estar no domingo ou deseja, com toda força, o próximo final de semana. Uma é pela saudade e  a outra pela promessa. Queria perguntar a cada um dos meus vizinhos qual é a ressaca deles, mas mal falamos um bom-dia, às segundas.

  Antes do final da rua, vem um cachorro trazendo uma menina, são coloridos os dois e não aceitam o tom de sépia das minhas segundas. Uma mulher adulta acompanha-os na subida, um pouco mais afastada, o cão puxa a menina pela calçada, ele é mais forte do que ela e parece melhor acostumado ao trânsito. São sete horas de uma segunda-feira  e só os dois não estão de óculos. As segundas deles é outra, ainda não aprenderam a lamentar ausência e excesso ou o fim; têm o que podem, aproveitam o que têm.
  As felicidades dos dois coincidem com as cores de festa da alameda. Sobre as cabeças de ambos as fitas brilham e agora dançam nos cordões. Por uma subida, eles colorem a rua que começava a desbotar. De galochas vermelhas de verniz, com uma tiara de brilhantes de plástico a menina ilumina  a rua e me afasta de uma ressaca acostumada de segunda.

  Não ouço a porta se abrir, ninguém acende as velas e depois as luzes, os balões não são estourados em comemoração. Mas a menina e o cão trazem sons com eles, uma alegria calma de sábado à tarde, sem cinzas, sem sépias, sem fitas ultrapassadas, sem ressacas.
  Só os dois. Ele com a força da experiência e ela deixando-se ser guiada pela rua que ela nunca viu desbotar.
  É bom morar aqui e ainda não estar acostumada; é bom não saber que as fitas um dia cairão.

 A festa não aconteceu. Nem o país parece acontecer, agora. O domingo saciou as minhas muitas sedes, transbordou do copo e molhou a minha camisa de segunda-feira. Era para ser desbotada a minha segunda, mas as galochas vermelhas, as mãos muito pequenas tentando conter um cão e uma boca infantil gargalhando não me permitiram a mesma segunda. Quando eu perdi a segunda deles? Como recuperar a segunda que não desbota?
  Ela passa com um par de galochas vermelhas brilhantes, uma tiara enfeitada  e o cachorro a leva pela rua. A menina de galochas vermelhas e o cão, dono dela, são as melhores cores de qualquer segunda-feira. A segunda para eles não é desbotada. Por que a minha deveria?



sexta-feira, 13 de julho de 2018

Muito magra para ter um filho, muito gorda para ter um homem

  Muito inteligente para ser bonita. Bela demais para ser esperta. Muito jovem para saber. Velha demais para aprender. Muito independente para ser acompanhada. Vulnerável demais para ir sozinha.  Muito vaidosa para as teorias e descobertas na Ciência. Desalinhada demais para os jantares e colunas sociais. Muito sensível para suportar o peso. Ambiciosa demais para ser afetada. Muito ensolarada para entender abismos. Soturna demais para fazer sorrir.
  Muito maternal para ser desejada. Sensual demais para ser respeitada. Roupa curta demais para não querer ser vista; roupa muito comportada para a idade.
- Que roupa você usava? Fazia o quê sozinha, na rua, uma hora dessas? Era inevitável isso.

  Muito sociável para confiar um segredo. Solitária demais para desejar intimidade. Muito responsável para largar tudo e vir agora. Passional demais para querer ficar para sempre. Muito tagarela para ser ouvinte atenta. Silenciosa demais  para saber o que lateja dentro. Braços muito longos para a blusa cobrir o punho; braços curtos que não ficam bem de mangas três quartos.
  Muito irredutível para dizer um sim. Disponível demais para negar a proposta.
- Por que não casou? Por que não durou? Por que continua com ele? Com uma mulher, só porque não conheceu um homem de verdade.

  Muito volúvel para tomar decisões importantes. Irredutível demais para conhecer outras perspectivas. Muito limitada para ver além. Livre demais para se comprometer. Muito louca para compartilhar uma mesa, uma cama, uma poltrona de ônibus, uma vida. Imperturbável demais para surpreender na mesa, na cama, numa poltrona de ônibus, numa vida.
  Muito magra para carregar um filho no ventre. Gorda demais para conquistar um homem. Muito desesperada para passar por um processo longo de adoção. Tranquila demais para acharem que quer mesmo um filho.
 - Não quer ter filho? Mais um filho? Não terá ninguém com quem contar. Nunca mais vai ter sossego.

  Muito dramática para aceitar rotinas. Inabalável demais para expressar suas emoções. Muito doce para ouvir verdades. Muito ácida para dizer verdades. Muito alta para usar calças skinny. Estatura baixa demais para vestir calças flare. Muito consumista para poupar. Econômica demais para aproveitar.
  Muitos traumas para ser saudável. Passado tranquilo demais para fazê-la forte. Muito curiosa para suportar o que não tem resposta. Desinteressada demais para refletir.
- Por que sorri? Por que a cara fechada? Não entendo como suas emoções são tão inconstantes.

  Muitas marcas para desenhar uma história nova. Inexperiente demais para escrever um livro. Muito arisca para ser conquistada. Cativa demais para conquistar. Muitas acnes nas maçãs do rosto para sair sem maquiagem. Cabelos grisalhos demais para não pintar. Muitas decisões equivocadas para perdoar. Indecisões demasiadas para seguir em frente.
  Muito rancorosa para esquecer. Generosa demais para se vingar.
- Você o confrontou? Você o magoou? Ele não faria isso se você não o deixasse nervoso.

  Muito crédula neste mundo que não merece confiança. Desconfiada demais para se entregar. Muito abnegada para realizar seus sonhos. Egoísta demais para construir sonhos em conjunto. Muito fagueira para ter problemas. Melancólica demais para ter boas lembranças. Muito batom vermelho para quem não quer nada. Maquiagem de menos para quem está interessada. Muito atrasada para planejar. Adiantada demais para terminar.
  Muita cerveja para para seu o rim pequeno. Sóbria demais para sorrir.
- Você bebeu? Nem um copo? Não devia ter bebido. Devia ter bebido pelo menos um pouco.

  Muito ocupada para desejar um bom-dia. Disponível demais para não responder ao boa-noite. Muito profunda para ser leve.  Superficial demais para se deixar afetar pelo mundo. Muito discreta para um apartamento com cortinas floridas e almofadas com estampas tropicais. Alma colorida demais para uma sala em tons pastéis.
  Rios de afeto a serem contidos; quilômetros de palavras a serem calados. Transborda.
  Desertos de empatia que acumularam sede; estradas desabitadas que ensinaram a falar só. Atravessa.
  Muito mulher para ser amada. Amada demais para ser entendida. Muito, pouco, demais, alguma, nenhuma. Toda.


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Se eu a chamo de razão é porque o juízo há de ser perdido

   Se eu o chamo de sonho, logo ele se tornará desengano ou materialidade, que um dia acabará; segue um dos dois caminhos, sem destreza, mas repleto de autonomia. Mas se eu não o chamo de nada, se não o comunico e só o invoco secretamente, ele continua sonho e eu posso voltar a ele incontáveis vezes.
  Se eu o chamo de devaneio, o que há de onírico nele tenderá a se diluir ou na sua realização ou na sua impossibilidade. Mas se eu o guardo em silêncio voluntário, ele nunca me escapa, se eu não quiser perdê-lo.
  Se, numa dessas crises de insistir em dar nome ao que inquieta, eu o chamo de loucura, posso afundar-me nele ou ser curada, mesmo que não abra a boca para tomar os remédios. Mas se o carrego discretamente dentro da bolsa, preservo-o dos olhares que não podem compreendê-lo.

  Se eu o chamo de meu, logo não poderei conquistá-lo. Sendo meu é um fardo, às vezes, transportá-lo no ônibus cheio, guardá-lo bem seguro nesses tempos de violência, aquecê-lo sem sufocá-lo no inverno de julho com essa massa de ar polar sobre nossas cabeças. Se eu o chamo de meu, só poderei partilhá-lo com quem eu quiser; furtando a escolha que não deveria ser minha.
  Se eu o chamo de meu, coloco-o na estante, nos primeiros anos, na gaveta, nos anos seguintes, até deixá-lo debaixo do colchão para não perdê-lo e não ficar muito amassado, aproximando-o do meu corpo em repouso e afastando-o dos meus olhos, crescendo sozinha, sem que ele me acompanhe.
  Se eu o chamo de meu, mato a provisoriedade das nossas linhas cruzadas  e o feliz espanto de reencontrá-lo quando abrir a porta da casa.

  Se eu o chamo de presente, tão logo ele se transformará. E será passado, mesmo que eu não o chame. Há uma progressão de existências; o instante está fadado a se transformar em memória alguns segundos depois de ser decretado em agora.
  Se eu, esquecida, o chamo de instante, ele não demorará a entrar num trem qualquer e abanar a mão para mim, depois do apito para o último embarque. Se eu não o chamar de um tempo, pode ser que ele nunca olhe o relógio, mesmo que frequente muitas estações.
  Se eu o chamo por um neologismo, pode ser que ele se torne coisa completamente nova, sem tempo, espaço, sem memória definidos; uma biografia completamente inédita, sem suspeita de plágio.

  Se eu o chamo de presença, darei nome ao que era antes, de ausência, mesmo nome, no caso dele partir. E então serei injusta com a vida abastada de outras coisas, pela raridade de uma presença  e pelo desespero da sua partida. Mas se o chamo novidade, apenas, se tornará cotidiano, um dia, se tivermos sorte e eu não pensarei sobre lacunas e ocupações.
  Se eu o chamo de presença, nomeio todas as outras coisas de vazio, não é verdade nem é certo. Se eu o chamo de outra coisa, será importante também, sem invalidar as que chegaram antes.
  Se eu o chamo de completude, logo um buraco profundo se formará nas minhas costas, apagarei as linhas que me sustentaram e ficarei suspensa apenas por essa chegada.

  Se eu o chamo de felicidade maior da minha vida, o que terá sido as outras e as possíveis vindouras? Mas se o chamo só de felicidade, não ignoro as que me ergueram até aqui nem evito as que estiverem à frente, no caminho.
  Se eu o chamo de mais uma felicidade, sugiro um inventário de paixões obsequiosas que não começam nem terminam nesta. Ao contrário, abro espaço e mais linhas para escrever as lembranças e as possíveis.

 Mas se eu falo tristeza, dou nome, endereço, localização certa no GPS, logo a alegria também pode vir. Se eu vestida num agasalho cinza, com cabelos presos num rabo de cavalo torto e olheiras sem máscaras me chamo de triste é porque terá havido alegria antes do rabo torto, agasalho, marcas de insônia e haverá esperança de existir um depois, ao menos sem as olheiras.
 Se eu a chamo de tristeza não fico mais triste porque dei um nome, fico mais íntima, talvez, e entendo melhor a sua aproximação.
  Se eu, sem medo, grito o seu nome, no corredor, para que ela leve duas ou três lágrimas minhas, antes de ir embora, não é por amizade, mas pelo respeito que tenho com as suas visitas, que não me assombram se dou a ela o que deseja. Descendo a rua, a tristeza cumprimenta a alegria, que saltita tranquila para me ver.

  As palavras nos criam, os  vocativos subalternizam ou libertam. É preciso  saber exatamente o que chamar e do quê, se não vamos  matar, quando queríamos dar vida ou estendemos a visita de quem bastava uma olhada.
  Se eu chamo de razão a decisão tomada, tenho que saber que o juízo faltará em outras tantas. Se eu chamo de coração o passo dado em direção a um desfiladeiro, a errância não é apagada nem o passo, a queda é certa, mas a autoabsolvição não poderá ser negada.



domingo, 8 de julho de 2018

O que entendo sobre o amor é quase uma página em branco, dobrada dentro de um livro

  O que eu conheço do amor é quase nada; menos do que física, teologia e correntes marítimas. É  ele
chegando para apaziguar a dor de uma franja feita com tesoura cega no banheiro de casa; semanas com a testa em uma linha tortíssima e o amor dizendo linda.
  O que eu conheço do amor é bem pouco; menos do que sei sobre os pontos no bordado de uma camisa que não me serve mais, as contas com dízimas periódicas ou sobre o desenrolar da Guerra do Peloponeso. É ele quem abre as cortinas, dá um beijo fresco no rosto quente com olhos perdidos e apoia o corpo franzino para que, sentado, veja o sol de mais um dia. Ele é quem ajuda com o banho, a alimentação e a continuar uma música muito antiga, que a memória acamada não alcança mais; permanece na única palavra repetida e o amor não se cansa de escutar.

 O que eu suspeito do amor é ainda menos do que me negar a voltar para buscar o guarda-chuva quando o céu escurece, o vento levanta a poeira do asfalto e bate as portas de casa; chego sempre molhada. É ele acordando mais cedo para fazer o café que não toma, por causa da gastrite, e com pouco açúcar porque foi assim que quem ainda dorme elogiou sempre.
  O que eu desconfio sobre o amor é menos frequente do que contrariar sucessivas vezes a minha intuição e ela sempre vir em um resgate desesperado, sem nunca me cobrar as negativas.
É assistir à Mariana dando duas voltas, ao redor do braço, com o cadarço que prende a chave, todos os dias às cinco da tarde, para buscar o irmão na escola. Antes, ainda passam na padaria e, às vezes, no supermercado. Mariana, nove anos, o irmão tem seis, subindo a rua quase tão, ou mais,  adultos que os próprios pais que não se falam desde o natal. O amor avançando os tempos para eles dois se cuidarem.

  O que eu falo de amor; só posso falar em outra língua, porque é extraordinário, ainda que frequente as mesmas ruas do bairro onde moro, que pise nas mesmas cinzas de cigarros dos vizinhos e que inteire a passagem com moedas, como eu. Só o que posso falar de amor é do que não sei, porque do que sei quase não falo, silencio, me calo em respeito à sua tão sincera dignidade.
  O que falo de amor sai com a voz tremida, gaguejada, quase incompreensível, não por temor, mas por alta conta que o tenho, quando ele segura um dos filhos nos braços e ajuda a empurrar o carrinho com a boneca da outra filha, que quer imitá-lo na maternidade.

  O que recebo do amor é quase tudo: lenço com álcool no pescoço no meio da noite, casa aberta no domingo de manhã, carinho nos cabelos e a reinvenção da infância que não sei se tivemos.
  O que eu tenho do amor é muito, é uma prosperidade que não termina nem se ele vai embora. Deixa sempre o que de melhor ele soube gerar.
  O que eu guardo do amor é demasiado fluido, mas que nunca é levado pelas correntes, mesmo as muito fortes, de água. É alegria sincera pela  alegria discreta de alguém a quem se quer tanto bem, que o contentamento alheio torna-se seu. Amigas há vinte anos e recente; sem cansaço.

  O que eu defendo do amor é a bobagem de não sair sem ele, não falar sem que ele esteja bordando as frases, não escondê-lo do ódio, da imperfeição, das obscuridades humanas; pelo contrário, apontá-lo como arma, estendê-lo como escudo, na defesa de levantá-lo sempre como bandeira única.
  O que eu resisto no amor é libertar tudo que parece preso ao meu redor: passarinho, cachorro em apartamento, gato com infecção urinária: "há duas semanas ele mal andava e hoje não volta antes das seis para casa. Fico sozinha, mas ele faz o que ama".
  O que eu não me conformo com amor é quando ele se silencia nas horas que mais precisam da sua voz, quando ele acha que já é o bastante e economiza nos gestos, nos passos, na quantidade de pó de café e nas músicas sem o fone.

  O que eu escrevo sobre o amor, eu não mostro. Envio em garrafas sem destinatário, porque amor não tem único destino certo. É variável, é múltiplo e indeterminado em sujeito e objeto; só o verbo é permanente, mas o jeito dele também não é.
  O que eu fotografo do amor, as lentes da minha câmera não conseguem captar com precisão, mas minhas retinas ficam, para sempre, impregnadas da suas imagens.
  O que eu arquivo do amor, são os três estudantes do apartamento, levando a mulher que faz o serviço doméstico até o hospital, porque ela não parece bem. E o amor inexperiente, que sempre foi acompanhado, aprende a ser companhia e a falar sobre uma dor que não era sua; agora é.  

  O que eu conheço do amor é nada. É Mariana crescendo um pouco mais que o irmão e ele vindo atrás; os dois, sozinhos, amando um ao outro e a vida na infância que lhes foi permitido experimentar.
  O que eu entendo sobre o amor é uma ausência de explicação, sem prova alguma ou documento com firma reconhecida em cartório. É uma página em branco, onde muito se quis dizer e nada soube, dobrada dentro de um livro, encontrada anos depois e compreendida; com atraso, mas sabida.
  O que eu sinto do amor é Mariana, tirando as duas voltas de cadarço do braço, abrindo a porta, colocando os pães sobre a mesa e levando o irmão para janela para fazerem bolhas de sabão. Na minha janela, uma chuva leve e colorida, às seis da tarde de sexta-feira; há a infância que resiste. Quando eu me aproximo para sentir o cheiro, uma bolha repousa no vidro, estoura e fica só uma espuma com um pouco de sabão em pó escorrendo. Passos os dedos, cheiro fundo e levo a mão à boca, estou lambendo o amor para não esquecê-lo nunca.