O novo vizinho da porta ao lado tem um pássaro no apartamento, deve estar em uma gaiola e esse pensamento me afetou a manhã inteira. Ouvir o canto do pássaro, enquanto eu tomava café, só não foi agradável, porque eu pensava mais na gaiola do que no canto. Os novos vizinhos também ouvem música alta, há muito tempo não precisava lidar com sons tão altos no mesmo andar. Mas o pássaro, a música alta e até o movimento do apartamento ao lado, me lembrou a infância do bairro onde eu vivia rodeada por muitos sons.
Agora entendo os mais velhos, meus avós e as suas histórias, minhas tias-avós e as suas saudades, meus pais e as suas lembranças. Quanto mais nos afastamos da nossa infância, mais ela nos alcança em um domingo de julho, subindo uma escada, amarrando os tênis, atravessando uma rua, passando em frente à uma padaria, escovando os dentes, conferindo a fatura do cartão, ouvindo através da porta o canto de um pássaro, cantarolando a letra de uma música da qual não se gosta, vislumbrando a imagem de uma gaiola e asas amarelas de um canário. Tudo nos leva para o lugar de onde viemos.
Agora que separo suas mechas de cabelo grisalho, eu me lembro da primeira vez que eu a maquiei, Eu tinha doze e ela quarenta e dois. A pele dela era macia e cheirosa e só começava a aparecer as primeiras linhas de expressão um pouco mais acentuadas, eu acho. O batom eu a deixava passar, seus lábios muito finos e as minhas mãos pouco habilidosas ainda, quase sempre faziam uma linha torta para fora dos limites. Eu já cortava a minha própria franja, pintava as minhas unhas e usava o batom vermelho que ela comprava para ela, mas nunca teve coragem de usar.
Muitos anos depois eu ainda a maquio, às vezes ajudo a escolher a roupa, sugiro os brincos, lenços ou colares, pinto suas unhas e retoco as raízes brancas do cabelo que ela usa curto desde que a conheci. Mas não corta mais o meu próprio cabelo.
Hoje eu não a maquiei, mas me ofereci para pintar os seus fios, que a cada ano são mais brancos. Ela resistiu um pouco, porque estava frio e não tinha nenhum compromisso essa semana. Mas insisti e estamos as duas agora, esperando pelos quarenta minutos de ação da tinta para ela entrar no banho, enxaguar e eu secar o seu cabelo, que deverá ser, de novo, loiro escuro.
Enquanto esperamos o tempo de pausa da química, ela me conta mais uma vez — agora é recorrente essa repetição de repertório — que o primeiro cabelo branco que ela viu na cabeça da sua mãe, perguntou o que era e ela respondeu que estava ficando velha para morrer. De novo ela conta e de novo sua voz embarga, seus olhos ficam molhados e ela sorri com os lábios um pouco trêmulos, enquanto termina a história.
— Eu chorei e disse que pediria a meu pai para comprar tinta de roupa para ela passar no cabelo.
Não sei quantas vezes eu já ouvi essa história, foram muitas. Mas hoje a infância dela me alcançou, pensei se não faço o mesmo esforço que a menina que ela foi, teria feito, se conhecesse os avanços tecnológicos dos cosméticos atuais.
Pensei também que ao comprar a caixa de L'oréal 6.0, passar um hidratante em suas têmporas e pescoço, colocar sobre os seus ombros uma toalha antiga e separar as mechas para chegar nas raízes brancas com mais facilidade, penteá-la e mantê-la com a aparência mais jovial, talvez seja a tinta de roupas que ela pediria para o seu pai.
Olho profundamente nos olhos dela, enquanto seco o seu cabelo, percebo que uma mecha atrás da orelha passou incólume pela minha tentativa de rejuvenescê-la.
— Não sobrou tinta, teremos que retocar na semana que vem.
— É que já não dá mais para esconder a velhice. Deixa isso pra lá. Nem parece.
Sua resposta foi quase tão árida quanto a da minha avó. Só não falou diretamente da morte.
Pensei que procurando cada fio branco, eu estendia a vida dela. Pensei que ao devolver a cor aos seus fios eu adiava qualquer partida, mas não.
Eu quero continuar maquiando-a, quero preencher de pelos falsos suas sobrancelhas falhas, quero destacar seus olhos, cujo verde lembram de uma folha no outono. Eu quero insistir em esconder seus cabelos brancos e fingir para morte que a hora ainda é longe.
Se eu a salvasse. Se uma pincelada de tinta nas sobrancelhas ralas escondesse do tempo suas pálpebras murchas, todo domingo eu dedicaria o meu tempo nessa obra infinita. De todos nós, só o canário do apartamento ao lado, não tem necessidade de enganar qualquer tempo.




