domingo, 2 de agosto de 2020

Prepara um mundo onde talvez ninguém chegue para habitar

    Refoga a cebola, só depois frita o alho, dispõe os pedaços de frango na panela e se vira para a pia molhada, quebrando a embalagem do supermercado, para fazer menos volume no lixo. É um ritual que se repete há anos e esse é sempre o início de um mundo.
  Não consulta, sabe esse ofício antes de aprender a escrever o próprio nome; sabe antes de conhecer o seu nome. Deve ter sido assim a criação do mundo, pelas mãos resilientes de uma mulher.
 Dobra os cobertores, estica os lençóis, estende a colcha, joga-a três vezes antes de cair exata na cama,  pescadora que maneja a rede. Mas, na dela, nunca vem nada. Estica a colcha, que adere muito lisa sobre o lençol.

 Recolhe as roupas do varal, dobra-as, empilha-as delicadamente sobre uma toalha de banho também recolhida e as fecha numa trouxa; que não é a de partida, porque é sempre a última a sair, a se deitar e a comer o frango.
  "O que chamam de amor é trabalho não remunerado", abaixo a cabeça enquanto leio o artigo. Se eu contar a ela sobre o que eu acabo de ler, vai ficar confusa no primeiro segundo, sorrir logo depois e negar com um gesto repetido de cabeça; de um lado para o outro. Ela tem um mundo a ser construído diariamente.

  Prepara o  café como se esperasse visita, nunca faz uma ou duas xícaras. Todos os dias despeja um pouco de café no ralo da pia. Sobra. O café abundante sempre acaba por ocupar as ausências das tardes dela; silenciosa, absolutamente sozinha e regada à três xícaras cheias de café fresco.
  Desperdício de pó, água e expectativa. Todos os dias, os três escorrem pelo ralo, todos os dias são repostos à beira do fogão de quatro bocas.
  A água ferve na chaleira cheia e quatro colheres de pó já esperam no filtro de papel. Não adoça o café porque não sabe o quanto de açúcar é do gosto da visita. Coloca uma toalha na mesa, enquanto o café escoa para dentro da garrafa térmica, tira a manteiga, o queijo e uma compota caseira de goiaba da geladeira. Checa o coador, fecha a garrafa, distribui duas xícaras em cima de dois pires, pega o pedaço de bolo em cima do armário e um pote de biscoitos. Se senta e não serve o café ainda; espera pela campainha.
  - Já está tudo pronto.
   Narra para si.

  Escreve uma lauda que aparentemente não servirá para nada nem a ninguém. Escreve comprometida com cada palavra, obcecada e completamente tomada pela tarefa; porque tem, porque é dela a incumbência de inventar esse mundo que ainda não nasceu. Prepara os parágrafos para caberem os acontecimentos cotidianos e inusitados.
  Escreve  uma página de carta em que não inclui destinatário. Parece sempre um desperdício isso; não ter direção.
  Escreve discursos que ninguém ouve. Toma notas que só interessam a si, faz resenhas de livros desconhecidos, cria listas sem nenhuma finalidade prática, escreve confidências entre receitas de bolo, versos em comunicados administrativos e organiza antologias de diálogos ouvidos no ônibus. Um outro mundo que não sabe se chegarão a habitar como ela. Talvez ecos, abismos, pontes vazias para o nada, escadas que terminam antes de um novo andar.

   Preparam os filhos sem conhecê-los, sem saber que mundo frequentarão. Se munem de psicólogos, instrução formal, dentistas, futebol, dança, liberdade e rigorosidade, não traumatizar, não deixar que flutuem em mar aberto. Limitar e estimular. Criativos, inteligentes, generosos, o que Deus der, que tenha saúde, que seja feliz e só.
  Não sabe se o útero será capaz de sustentar essa vida não planejada. Não tomou zinco, sabe que a ferretina já era baixa há tempos, tem medo do vírus e do abandono paterno. Vai ter um filho sem pai? Vai repetir a própria história? Será que pertence a uma casta fadada à maternidade heroica? Não sabe fazer tricô, mas já viu uma lista de enxoval que deve levar à maternidade. - Não tem mais cueiro - vai dizer a futura avó. Vai comprar uma cadeira do bebê para o carro, uma para a mesa de jantar,  outra para levar para passear. Batizar sim ou não, furar a orelha sim ou não, nome curto ou homenagear alguém, normal ou cesariana, humanizado o que é? Ao menos terá cadeiras para esperar ela fazer o mundo para ele.

  Corta as letras do alfabeto em um papel colorido, desenha flores em um cartaz de ajudante do dia. Lava garrafas pet e separa as tampas, ambas podem ser usadas como peças de um jogo, suporte de letras, números, faces divertidas de animais. Ensina o alfabeto - letra palito e cursiva -  todos os dias esse mesmo alfabeto, anos de letras coloridas e olhos brilhantes. Um dia começam a desvendar uma palavra, letra por letra,  e meses depois já inventam histórias no papel.
  Ensina lavar as mãos, dividir a merenda, jogar o lixo no lugar certo, ajudar o colega, respeitar o lugar na fila e a se espantarem com as injustiças. Ensina uma palavra nova, a consultarem o dicionário, a não terem medo de pensar, a contarem seus sonhos, a somarem e subtraírem certezas. Ensina e espera o impossível do aprendizado. Dizem que trabalha para um tempo que ainda não chegou. 

  Não faz sentido, prepara um mundo para ninguém ou, talvez, ele já seja essa preparação constante e infinita para sozinha habitá-lo. Prepara um mundo de abstrações espantosas e materialidades comezinhas e não sabe se alguém baterá à porta antes da primeira xícara. Passa um pouco da compota no bolo, corta-o em pequenos pedaços e sente o cheiro do café ao abrir a garrafa cheia. Despeja um pouco dele na xícara, mas fica atenta a qualquer som. Pode ser que demorem a encontrar seu apartamento.
  Ajeita o parágrafo na linha certa, o frango na panela, o pó no filtro, compra um lugar de espera para o filho, que nem sabe mesmo se chegará, se lembra da ordem das letras no cartaz e quem sabe nesse mundo que ela cria alguém um dia venha habitar? 




sexta-feira, 31 de julho de 2020

Feliz aniversário para você que ficou no sinal amarelo

  Estão suspensos os embates, as portas na cara, as ligações recusadas e as verdades únicas. Por ora,
sem  indiretas, meias verdades, meias voltas ou teimosia inteira.
  Sem acusações nem defesas, sem choros nem juízes. Não vamos pedir o VAR para a jogada, confiaremos no depoimento de quem deu o chute, tampouco requisitaremos autópsia para as razões de uma morte natural ou reconstituição para a cena; não interessa de onde partiu a primeira estocada. A primeira e a última têm, agora, o mesmo valor; do silêncio.
  As últimas palavras aceitarão outras depois, o nunca mais acabou de ser para sempre. A última cena não foi ao ar ainda; tudo continua, embora não atuemos mais na mesma trama.
  Já não sei mais se usava óculos ou não, se usou aparelho nos dentes e quando foi a última vez que sorriu para mim; possivelmente foi ao telefone, antes de eu nunca mais atender você.

  Não vou contar os seus segredos, estou segura que também não publicará os meus; porque nem nos lembramos deles. Na última confidência já não estávamos lá. Talvez porque não soubéssemos que era a derradeira.
 Acho que gaguejava quando estava nervosa ou suava as mãos; ou a minha memória é pior do que eu pensava. Tinha olheiras ou orelhas de abano. Tinha alguma cicatriz ou trauma de infância. Os avós eram vivos até os dezesseis dela ou estiveram na formatura.
  Sonhava com chuva de arroz ou tinha uma receita de bolinho de chuva ou era pão de queijo? Não, o pão de queijo era da outra.
  Tinha sobrenome árabe, sotaque das meninas de Minas. Baixa estatura, cabelo comprido e depois cortou e depois deixou crescer de novo. Era de esquerda, dizia. Foi à direita, eu vi.

  Eu também não era essa; talvez a mesma altura, o mesmo sotaque, o sobrenome bem brasileiro. Mas ainda assim, era outra e não saberei explicar a diferença. Que é brutal e sutil num mesmo tempo. E foi aí que não dividimos mais. Bastou essa virada, vírgula, dobra, esse pequeno chacoalhar do solo sem nem registro no sismógrafo, bastou esse ínterim e não estivemos mais.
  Eu não me mudei para a China nem você; não estou em Cuba, muito menos você. Não estou na Rússia e você no Turcomenistão, mas a nossa geografia nunca mais se esbarrou. Minhas fronteiras são mais abertas do que antes, no entanto, você nunca mais apareceu aqui. Eu vejo mais pessoas, ouço vozes mais diversas e visito muito mais histórias, no entanto, em nenhuma linha que eu leio você está.

  Os bares são outros e ninguém nunca mais derrubou o seu copo para eu oferecer o meu. Os boletos são só nossos, as decisões parecem muito mais pesadas a cada final de dia, os garotos cada vez mais imaturos e não falamos mais sobre isso.
  O sinal era amarelo e eu atravessei, você esperou e o vermelho logo veio; ou foi o contrário. Um segundo e eu nunca mais vi você. Não sei se verei ainda, se vamos querer voltar nesse instante da rua, mas foi nesse segundo que uma muralha se ergueu entre nós.
  Covardia ou coragem; desilusão ou entendimento; vergonha do outro e orgulho de si ou o contrário. Tijolo por tijolo e nunca mais eu soube dos seus olhos ou você dos meus. Que estranho e comum é isso, das pessoas serem outras e não suportarem as outras que se tornam outras.

  Não tem mais copa do mundo de ressaca, não tem mais aula na Economia, não tem mais almoços no ICB. Não tem mais trabalho de estatística nem sabemos mais sobre a monitora de cartografia. E isso somos nós. É muito, mas tão pouco.
  O segundo entre alguém atravessar e outro ficar é que determina. Não tem passado que oriente no segundo em que o sinal se torna amarelo. E isto só é claro depois que atravessamos a alguns segundos amarelos.
  Por isso é que os espaços-tempo, antes e depois dos sinais amarelos, não devem ser desperdiçados. Porque os tijolos são silenciosos e precisos. 

  Hoje não vou mais poupar tempo, vou gastá-lo até o último segundo; o meu e o dos outros. Vou aceitar os débitos sem luta, não vou poupar. Só vou gastar. Palavras, telefonemas, todos te amo, nenhum te odeio, o grão de milho quase-pipoca, o troco em balas sempre, o gole quente final da cerveja, o confeito doce do bolo. Nada sobrará.
 Vou esbanjar tudo. Ficar velha e pobre, se chegar à velhice e se não receber nada em troca. Vou gastar tudo antes do sinal ser amarelo de novo.

  Feliz aniversário para você do outro lado do muro. Feliz vida para você que eu não sei por quais ruas anda, quais semáforos atravessa ou espera.
 Feliz aniversário para você com quem eu não falei mais, vida longa e com saúde para você que eu não reconheço, mas conheci um dia.
  A minha memória apagou traços, lembranças, trejeitos, confidências e desejo de futuro partilhado, porque alguma coisa se quebrou sem o nosso esforço de recolher e colar. Mas do aniversário eu me lembrei o dia todo. Que engraçado é isso de nos perdermos sem apagarmos tudo. Feliz aniversário para você que ficou no sinal amarelo. É assim que é também.




terça-feira, 28 de julho de 2020

Sereia urbana da penteadeira sob o sol

  O pente é de plástico, verde-água, é bonito, embora pareça mercadoria ordinária numa primeira visão. É sempre o mesmo pente, todos os sábados, escorregando pelo mesmo cabelo, que nos últimos tempos ganhou comprimento.
 - Tenho que cortar, mas o salão não pode abrir.
  O que parecia utensílio privado, todos os sábados é exposto no museu do agora que ela estende na calçada. É um ritual dela que me pareceu familiar desde sempre. Não existiu estranhamento antes, talvez porque já fizesse parte do meu repertório de memórias. Lavar o cabelo aos sábados e secá-lo ao sol. Assim, bem assim, espremendo os olhos e deixando a cabeça inclinada para os raios de luz.  Também já participei desse ritual. Depois, eu  o secava sob o sol, mas o fazia no quintal da minha casa.
  Hoje o lavo todos os dias, mas os sábados ainda me parecem feitos para lavar o cabelo.

  O dela não. O ritual dela é público, é na calçada contrária ao da casa onde  mora. Em frente ao portão de um vizinho pouco conhecido e não muito simpático. Ela fica de pé, às vezes deixa uma caixa de grampos no muro, penteia o cabelo e com o pescoço inclinado,  cumprimenta quem passa. Pentear o cabelo sob o sol, na rua, entre vizinhos e desconhecidos, não se limitando ao quintal de casa; é ela. Ela e o pente verde que já fazem as minhas manhãs de sábado. Ela vai onde o sol está, se na casa dela não tem, vai para rua, para calçada, vai transpor o toucador para o portão de um desconhecido.
 
  Quando eu me mudei, ela já morava na rua. Conhecia todo mundo ou parecia conhecer; perguntou o meu nome uma dezena de vezes, mas ainda me chama de moça do prédio. Casa verde, marido e um cachorro. E como se pareciam os três! Pequenos e nervosos. Agitados e inofensivos.
  O marido, durante anos eu achei que era irmão, de tão parecidos. Narizes aduncos, afinalados, rostos rosados, mesma altura, cabelos cinza, óculos de grau forte, daqueles que deixam os olhos bem pequenos. Calças passadas com vinco e tênis.  Ele tinha cabelo ralo e era tranquilo, ela tem o cabelo farto e muita linguagem; fala com as mãos, os pés e a boca. Não para nunca. Antes falava com o marido e o cão. Agora, resta o cão como ouvinte; o marido morreu há pouco menos de um ano.
   Tiveram um filho e o enterraram ainda muito jovem, morto por um acidente de carro. Isso antes de se mudarem para casa verde. O marido era mineiro, ela é do sul; disse que voltaria para lá, depois da morte dele.
  - Mas veio essa pandemia e eu tenho que esperar. E ainda tem o Fofinho, muito velhinho e eu não sei se aguenta viajar!
  Ela e Fofinho em uma casa enorme, sem sol pela manhã; ela atravessa a rua e deixa o Fofinho, latindo no portão.
- Olha, você pode me ver, Fofinho. Eu não vou embora!
 Eu já me acostumei com ela todos os sábados, penteando os cabelos na calçada e o Fofinho, até hoje, teme o abandono.

   Uma semana depois da viuvez e ela lavou o cabelo e veio penteá-lo na rua. E é mais forte que a saudade, a perda, a solidão, a distância, a doença, a sensação de não pertencer a este lugar. Nada a desvia do ritual do cabelo. Nem viuvez nem frio, agora, nem o vírus. Talvez só chuva ou dia muito nublado.
 Como é admirável a constância dela, a segurança de ter a si, o próprio cabelo e o gesto mais antigo do que qualquer relação que ela tenha estabelecido. Ela desliza o pente verde-água nos fios brancos e grossos, um pouco abaixo dos ombros, inclina a cabeça e balança os fios, que se desgrudam um pouco uns dos outros. Logo as pontas ondulam e os fios mais novos, ficam mais leves e ouriçados; o que ela logo resolve com os grampos.

  Enquanto o Fofinho late até se cansar e deitar no portão com a cabeça entre as grades, enquanto alguém esvazia um apartamento e muda de país, planos ou estado civil. Enquanto alguém se desespera porque é sábado e não deve sair.  Enquanto o noticiário atualiza milhares de mortos, enquanto os salões não abrem e o cabelo dela só cresce.
  Enquanto a lembrança de um filho lateja, se um jovem estaciona um carro na rua ou a memória, morna ainda, do companheiro de caminhadas e palavras cruzadas ficam do outro lado da calçada. Ela atravessa a rua todos os sábados e insiste no seu ritual ao qual se mantém fidelíssima. Lavar os cabelos e deixar para penteá-los na calçada, sob o sol.

  Encantadora visão da sereia urbana da minha rua, que se atreve a trazer a penteadeira para o sol que ela não tem na sua janela, mas vem buscar. Todos os sábados ela está na calçada, com o pente verde, o cabelo grisalho, a potência na voz e a delicadeza de colocar os grampos nos fios mais rebeldes.
  O espelho dela sou eu e qualquer uma que passe pela rua aos sábados de manhã, todas somos ela; revigoradas após um banho, desembaraçando o fios, com a esperança de um pente ordinário, esquentando o corpo cansado no sol e buscando um pouco de paz no gesto mais remoto.
  Por que de repente, o doméstico ficou tão íntimo, tão privado e menos bonito? 
  Ela faz diferente, partilha os fios grisalhos e também os cabelos loiros compridos de prenda do Rio Grande do Sul, os sonhos de menina que se tornaram desilusões ou conquistas, as vidas as quais se entregou e as que se esvaíram antes da dela. Eu não quero não tê-la nas manhãs de sábado.

  Vou falar para que ela não se vá. Vou dizer que quando ela penteia os cabelos, me devolve o lugar que eu não tenho mais. Vou dizer que quando sinto o cheiro que ela deixa na rua é quando eu me sinto verdadeiramente em casa.
  Vou pedir que fique e me lembre que a última que perdemos somos nós; nunca a primeira. Vou pedir que me ensine a não desistir de atravessar a rua. Vou dizer que eu só acredito em sereias como ela, urbana, cheia de perdas e fiel ao gesto mais antigo consigo. Vou dizer que se os braços dela perderem a força, eu penteio os seus cabelos em retribuição à imagem mais bonita das minhas manhãs de sábado. Vou pedir que fique. 


quarta-feira, 22 de julho de 2020

Desejos na pandemia

  Comer algodão doce, sair para nada; sem hora para voltar ou itinerário certo. Ir a um parque, sentar em um balanço, engasgar com Coca-cola. Subir uma ladeira, perder o fôlego, sentar na calçada e continuar depois.
  Visitar uma exposição, conversar com um artista sobre a vida, ouvir a suas verdades; sem me lembrar das próprias. Mergulhar em  água gelada e ao ar livre. Andar nua. Atravessar uma ponte, um medo, uma fase ruim. Depositar flores no túmulo de um desconhecido, no mais abandonado, no menos bonito.
  Beber cerveja e comer torresmo em pé, na porta do botequim movimentado. 

  Sustentar uma ideia, defender um princípio, mesmo que não conquiste pares. Pintar as minhas próprias unhas, começando pelas dos pés. Arrancar o siso e não esconder os cabelos brancos.
   Depilação sem dor, amor sem dor, despedida lenta molhada e temperada com sal e desejo de boa sorte.
  Buscar o cartão de vacinas na casa da mãe e tomar todas as que faltaram antes.

  Escolher um apartamento com um corredor cujas paredes acolham todos os quadros. Pintá-las com Suvinil cor terra batida e escolher uma moldura, em algum comércio de antiguidades, para um espelho que será pendurado na parede do fundo.
  Comprar uma chaleira que faça barulho quando a água ferver, procurar um relógio cuco na mesma loja e uma cadeira de barbeiro. Levar para casa o passado de alguém, sem temer a carga das histórias. Só construir outras.
  Conhecer novos vizinhos, me acostumar com novos barulhos, às suas vozes, portas batidas, chinelos arrastados no piso de cima, secadores de cabelo às sextas à noite, aquecedor no apartamento do idoso, chuveiros antes das seis, amores de madrugada. Escolher vasinhos com suculentas no supermercado e levar junto os bonsais.

  Fazer a matrícula em uma turma de flamenco e de mecânica para automóveis, exercitar talentos novos ou, ao menos, conhecê-los. Comprar novos bloquinhos de mesa e canetas de cores que não sejam azul e preta. Visitar a minha tia e escrever te amo na primeira página de cada bloquinho da dezena que eu levarei para ela.
  Aprender a respirar debaixo d'àgua e parcelar uma viagem com um programa de mergulho. E se a viagem não vier, estar pronta para não me afogar. Decorar três novos poemas e continuar declamando o de Florbela em qualquer lugar, por qualquer razão. Doar livros, mas não os que ganhei, ler as dedicatórias antigas, comprar novos livros e presentear com livros. Morar com os livros.

  Finalmente conhecer você, gostar de você, passear pelo seu universo e não ter receio de me perder. Não pisar nos sonhos de ninguém e não deixar que chutem os meus. Participar de associações ou não, clubes do livro ou não, mas não me sentir sozinha demasiado para precisar de um grupo nem suficientemente acompanhada para não querer.
  Comprar mais roupas que não precisem ser passadas, tentar deixar que sequem sob o sol, que seja uma fresta. Deixar as janelas mais abertas, que o vento entre, que a chuva escorra, que o calor deixe o mormaço na sala. Falar e ouvir mais, escrever e fotografar só o essencial. Lavar escadas, escorregar descalça na espuma.

  Escolher parceiros de dança, de copo, de lutas e de oração. Manter a mente atenta e o coração distraído. Levantar o queixo, os ombros e acessar a minha natureza de batalha. Escolher a trilha sonora do dia, ao acordar, e não deixar que ninguém desligue a música em mim.
  Torcer as articulações e alongar os músculos, inspiração profunda e exala. Solta. Aprender o tempo de deixar ir e saber ir. Gostar mais daqui e aprender a amar qualquer lugar e tempo.
  Não anotar os defeitos, porque eles mudam nem cristalizar qualidades, porque elas cansam. Calçar um sapato de número maior, aprender a me esticar na cama toda; não preciso ser encolhida mais. Alcançar um coração e deixar o meu ser tomado.
  Colocar limites, até entender a marcha do cavalo; ampliá-los aos poucos, até ele reconhecer a liberdade de ir sem machucar. 

   Repassar os sonhos todas as manhãs, ainda na cama. Contá-los a alguém, sempre contar com alguém e ter alguém que conte os próprios sonhos e comigo.
  Quando me lembrar desse tempo, no qual eu piso agora, ainda saber que não tinha que ser assim. Aprender a ensinar que a Terra não é plana, que a arma não é segurança, que não é natural desaparecer ou morrer só. Começar, de novo, de um outro lugar e escolher parceiros que dancem, que bebam, que lutem e que não tenham vergonha de chorar.





domingo, 19 de julho de 2020

O que eu não disse da nossa vida juntas

  Eu não disse para ela, todos os dias, o quanto a sua existência parecia legitimar a minha. Talvez não tenha falado nunca. Porque o cotidiano empurra para os esquecimentos quase tudo o que realmente importa. Esquecer de dizer as delicadezas que alguém ao nosso lado merece, esquecer de olhar sempre com os mesmos  olhos de amor que nos apresentaram ao tal ser, esquecer que é um milagre o encontro; e que somos muito maiores depois dele. Esquecer de dizer que o brilho dos olhos dela é de uma beleza de fazer chorar; esquecer de chorar de amor por ela.
  Faltou dizer que o apartamento foi tão mais lar depois da sua chegada e que nada nele era a minha casa antes dela. Faltou dizer que ela inventou o lugar onde eu me senti realmente, e pela primeira vez, em um lugar meu.

   Eu não disse que o dia em que a resgatei, eu é quem era salva. E que cada ferida dela cicatrizada, era uma minha que eu finalmente curava.
  Faltou dizer que a coragem dela inspirava a minha, que a minha dedicação a ela, tão elogiada, era muito menor do que a dela comigo. Faltou dizer que o rosto dela na fresta da porta da varanda, procurando pelo autor de um barulho qualquer na casa, é a cena que nunca vou cansar de rememorar. E que as minhas chegadas, desde que a conheci, jamais foram tão amorosas.
  Faltou dizer que ela trouxe nas suas coisas tanta profundidade, sem nunca dizer nada se encontrasse nos livros. E que todo o tempo que dividimos, passando tão lentamente para mim, acabou por me fazer ignorar que para ela era demasiado rápido.

  Eu não disse que os catorze anos mais determinantes da minha vida ela esteve neles. É claro que ainda há muito a ser visto, vivido e descoberto, mas que tudo será a consequência de quase uma década e meia, em que ela e eu éramos par. Eu não disse que não sei dançar sem ela, que em coreografia nenhuma eu me encaixo se ela não está.
  Faltou dizer que a maternidade que ela não experenciou, foi o meu maior desafio e ela me amparou quando éramos nos duas e a filha que eu acabara de conhecer. Faltou dizer que ela era a irmã mais velha; que eu a amei primeiro e descobri que poderia amar muito mais, sem nunca acabar afeto.
  Faltou dizer que família também é assim, ultrapassa genética, espécie e não se envergonha de ser inusitada.

 Eu não disse que é insuportável não tê-la para sempre; porque eu não sabia que não a teria. Eu esqueci do tempo e, agora, o sinto tão dolorosamente. Chega a latejar o peito, cada minuto em que eu me lembro que você não voltará. O tempo nunca me confrontou tanto e não tenho você para me consolar de não ter você.
  Faltou dizer que no dia seguinte, a casa ainda era sua, os seus hábitos pareciam circular pelos cômodos e que por muitos instantes eu a procurei; ainda a procuro às vezes. Não me acostumei a ter essa outra vida em que você não partilha e que os seus olhos de compaixão não me olham quando eu preciso.

  Eu não disse que eu não sei lidar com partidas; porque eu ainda não tinha me sentido tão irremediavelmente abandonada. Faltou dizer que eu nunca a abandonaria e que sei, que por opção, você também não. Faltou eu ter consciência de finitude e que tê-la agora é uma dor física, filosófica e existencial. Eu não sei se aprendo a dor, o tempo e os finais ou se são passageiros esses entendimentos; o que eu sei é que não sou a mesma e queria que você também conhecesse essa nova pessoa.
  Faltou dizer que eu sonho com os seus olhos marrons e profundos, me amando. Que acordo com mais saudade, mas grata por vê-la ao menos enquanto durmo.

  Eu não disse que esse amor não é do alcance de outros. Que essa singeleza de sentimento é somente nossa. E que nunca pareceu uma questão para ninguém, mas que agora se preocupam com o quanto eu me ocupo da sua ausência. É isto, ninguém sabe o que não sente.
  Faltou dizer que tudo é mais frio, maior e difícil porque não tenho seu rosto na porta da varanda. E que todo o amor que eu sinto é tudo o que tenho e quero ter agora. Eu já não me lembro o que eu disse, mas acho que sempre faltou. Por que não damos tudo? Por que não podemos ser amorosos e sedentos todos os dias? Por que o cotidiano nos distrai tanto?

  O que eu não disse da nossa vida juntas é que a minha memória mais importante sempre será a sua voz, a sua calma, os seus olhos. Que a sua ausência só é imensa, porque a sua presença ainda é a maior que eu conheci.
  Faltou dizer que se eu soubesse que era despedida, tinha tentado alargar mais o tempo, a minha casa e o meu peito para você caber mais neles. Faltou dizer que você sempre me salvou e que me deixou náufraga e desesperançada, por ora. Mas que logo vem a onda e com a coragem, que eu quero ter aprendido com você, eu vou com ela e chego a algum lugar para respirar de novo.


Para Renata, cuja tristeza não sou capaz de alcançar. Mas gostaria muito de segurar uma das pontas dessa dor imensa.