domingo, 13 de janeiro de 2019

A vida. O que é?

   É a metade do varal com roupas  penduradas, exalando lavanda e outra metade ainda no balde torcida. O olhar descansando no horizonte, o meio sorriso e o suspiro, antes de abaixar e pegar a próxima peça. É o quintal perfumado com roupas limpas e a criança passando entre os varais, de olhos fechados, varrendo os cabelos com as bainhas molhadas das roupas, para refrescar-se do calor, depois de tanto brincar. A mulher assiste a cena da janela, mas não destrói o pequeno prazer da menina.
- Depois é só passar uma água de novo, se precisar. Hoje tá quente mesmo.
  E volta para os próximos afazeres, contente por quase nada.
  É  recolher a roupa no final da tarde e enquanto dobra, pensa que o suor que mais ama está no tecido. Não há manchas, não precisa lavar de novo, mas que bom que ela sabe que está lá. Vai estender a toalha na mesa, trocar os lençóis, passar a calça masculina, recolocar a cortina na sala e a cabecinha da menina vai ser sabida por ela na casa inteira. Um segredo que é só dela: a filha espalhada.

  É o açúcar no fundo da xícara, o bolo de fubá no pequeno prato de louça e a mão idosa, cortando mais um pedaço de queijo e oferecendo uma lembrança indissolúvel, que só reconhecerá a sua força muitos anos depois.
- Só mais um pedaço.
  É, antes de comer  o queijo, perceber as digitais da mão que o cortou e foi a mesma que o fabricou, no pedaço farto.
- Aperta a massa assim, bem firme, mas com cuidado. Depois tira o soro todo assim e coloca na forma para maturar.
  É querer chorar porque nunca mais os queijos serão das mesmas mãos. E sentir a alegria de ter experimentado esse gosto um dia. A cada pedaço de queijo, a memória reacende uma tarde de sábado amorosa.

  É uma mulher de sessenta anos, de tênis dourado, macacão estampado, cabelos compridos tingidos de preto, sentada solitária na mesa do bar da esquina tomando sua cerveja, fumando um cigarro,  recostada na parede de azulejos, olhando para o trânsito e enxugando uma lágrima. É ter interrompida a sua tristeza por um desconhecido mais jovem do que ela, que chega de muletas, se senta na mesa ao lado e oferece uma conversa.
  É dissipar a lágrima, ao menos por enquanto, sorrir um pouco, dividir seu maço de cigarros com o desconhecido, comer um pastel de queijo, pagar com moedas uma cerveja e um pastel e ir embora sob os pés dourados firmes e quase alegres de novo.

  É a barriga da mulher crescendo em sonho, amor e medo. É a maternidade assumida desde antes de um bebê crescer dentro dela, desde antes dela estar crescida. É ter sido mãe de muitos filhos não gerados. Mais velhos, mais livres, mais difíceis de amar, mais carentes. Pai, irmãos, amigas, colegas de trabalho, avós até e não sentir-se preparada para ser a mãe do seu filho.
  É amparar-se nos livros, nos médicos, nas outras mães, mas quando ouvir o choro de chegada, desvencilhar-se de todo o aprendido e viver no risco, nos equilíbrios diários em uma corda estreita. É ser a mãe diferente da sua, mas às vezes tão igual que assusta. É amar o sujeito e se cansar do verbo, às vezes. É se entregar ao verbo e querer o sujeito livre, um dia. É não saber nunca, mas responder com a segurança de quem sustenta.
  É a materialidade do amor idealizado, nem um pouco igual ao sonho, mas fabuloso na mesma medida.

  É cão que foge do quintal pequeno por um portão que o vendedor de gás deixou entreaberto e que explora as ruas ao redor, com a felicidade da descoberta. Pula em outras pernas, sente outros cheiros, late para cães que não sabia existir, vagueia livre sem um nome, grito ou assobio conhecidos. E, volta para casa faminto e assustado, dias depois, subserviente ao amor que tem tigelas de água e ração em plano seguro.
  Mas é, também, o cão que nunca mais voltou. O dono espalha cartazes, busca pelas ruas, chora dias seguidos. Nunca sabe se o cão não voltou porque não reencontrou o caminho ou se nunca mais quis voltar para o quintal. É não ter respostas e ouvir os latidos do cão nos sonhos por muitos anos, até só se lembrar que um dia teve um cão e o nome dele, mais nada.

  A vida é o carrossel iluminado no parque barato, rodeado de brinquedos ordinários, erguidos em um terreno afastado. Às vezes é bonito porque brilha, às vezes é triste porque quase ninguém vê só as luzes.
  Mas é sempre um carrossel com cavalos coloridos subindo e descendo em círculos. Às vezes embaixo, olhando para a terra batida, para os rostos desamparados dos funcionários sem expectativas de dias melhores, para os brinquedos descascados e seus os fios elétricos aparentes; às vezes no alto, olhando para as luzes e para as belezas vistas de cima, ouvindo os sons consoladores das gargalhadas e gritos das crianças.

  É a roupa no varal, a criança, a mãe, as digitais, o suor, as mãos que sempre voltam, os pés dourados e a cerveja, interrompida pelo choro, o choro interrompido por um desconhecido que salva uma mulher sem saber. É a maternidade em corda bamba, o amor mais seguro, mesmo no fio ao ar livre; é o cão que parte e volta e o que jamais retorna.  
  É um carrossel que não entendemos porque subimos, que ameaçamos  perder a vontade de continuar nele quando estamos embaixo, mas custamos muito a querer descer quando ele sobe. A vida é tudo que nos passa, fica um pouco e vai embora, mas também o que nunca nos abandona, mesmo se não ouvimos mais o seu latido. A vida um carrossel brilhante, rodeado de brinquedos ordinários.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O amor anda atrás do infinito e eu vou com ele

  Eu comecei essa carta com o seu nome, mas foi estranho vê-lo escrito e depois, separado por uma
vírgula, metaforicamente não sobrevivemos às vírgulas entrepostas por nós. E agora, embora eu deseje distância,  não quero matá-lo novamente com uma vírgula entre você e tudo o que quero te dizer.
  Primeiro, eu quero que saiba que embora eu o tenha evitado o quanto pude, que eu não tenha atendido às suas chamadas, não tenha descido até a portaria para entregar suas coisas, não tenha lido nenhuma das suas mensagens ou ido aos lugares que você esperava me encontrar, eu não desejo uma completa ausência sua. Pode compreender isso? Não quero vê-lo, falar com você, saber coisas novas sobre a sua vida, compartilhar músicas, assuntos, pessoas, parques, bibliotecas, êxtases, dores, salas de espera, parte de trás das igrejas, corredores de supermercados, mas quero ter a certeza que você existe e passa muito bem. Para mim, você ficará muito vivo como memória e não mais como um agora e perspectiva de futuro, quero que você seja minha história. O que morreu foi um amanhã que sonhamos dividir, o seu nome eu ainda vou falar, do seu rosto eu vou saber sempre, dos gostos, das cicatrizes, do cheiro, nada disso foi embora com você. Você me deixou muito e eu sei que não posso devolver a você ou doá-lo a quem quer que seja.

  Eu não queria escrever essa carta, não queria falar o que eu já disse outras vezes, com as mesmas ou novas palavras, mas também não queria que uma mensagem no tapume de uma construção fosse a derradeira comunicação. Eu escrevo para você, para que saiba que eu não vou partir em silêncio, embora a minha mudez progressiva, sem que você percebesse, tenha sido o meu adeus mais longo.
  Eu gostava de falar, se lembra? Eu gostava de falar com você; não era falar apenas, era falar com você, eu gostava porque você me ouvia; só deixei os silêncios entrarem nos diálogos quando pareceu que eles equivaliam, para você, ao que eu tinha para dizer. Está me lendo? Ou lê como me ouviu nos últimos meses, com o seu diálogo terminado na cabeça?
  O que eu quero te dizer é que sua mensagem escrita com letras maiúsculas, spray azul, no tapume de alumínio em frente ao meu prédio foi mais um diálogo terminado, sem interlocutor, sem chance para a minha fala. O que eu quero te dizer é que eu sempre pude, quis e tive o que falar, mas era campo estéril, eu jogava as sementes, aguava como podia e já não nascia mais nada.

  Eu escrevo uma carta que talvez nunca chegue a você. Talvez as frases, os encadeamentos de ideias, as palavras que  mais o interessarem sejam lidas silenciosamente, depois, sussurradas e finalmente, gritadas, quando tiver bebido demais e se lembrar dela. Mas será que o atravessará de verdade?
  A sua mensagem escrita no tapume durou apenas um dia, acho. Passei por ela várias vezes, mas só li uma, mesmo assim, jamais esquecerei do sentido todo que estava ali. Eu a fotografei com uma única mirada, no susto, na surpresa, na indignação com o seu grito na porta de entrada do meu prédio.
  A mensagem no tapume era para você. O meu nome era o vocativo, estava com uma vírgula e iniciava a frase, mas Allan, a mensagem era a sua explicação para o fim, era a sua desculpa e a sua absolvição. Eu não estava ali, embora o meu nome estivesse.
  O que eu quero dizer a você é que sou grata por ela, grata porque depois que a apagaram e eu entendi o destinatário dela, eu quis fazer o mesmo. Escrever uma carta para mim, uma carta que me explicasse a tristeza que eu sinto agora, porque partir é doloroso demais, embora tenha sido uma escolha muito pensada e profundamente sentida, mas a cada dia que eu ficava, você desaparecia um pouco de cada vez das minhas páginas. Eu não queria apagá-lo.

  Eu escrevo essa carta para dizer que eu concordo com a primeira frase da sua mensagem "Não era para sermos felizes para sempre". Nem nós, nem ninguém, não o tempo todo, não indefinidamente. Allan, o "para sempre" é o quê? Ninguém alcança o para sempre, por que nós alcançaríamos, por que nos amamos? Nem o amor alcança, ele chega, no máximo até a esquina, se senta e nos espera, não vai a lugar algum completamente sozinho, nós é quem somos responsáveis por ele, entende? Alimentar, tratar das dores, educar, levar para passear, deixar em quarentena quando um vírus o engole, trocar as compressas quando a febre for muito alta, comemorar as conquistas diárias dele. Nós temos a guarda do amor; não é ele que nos leva, somos nós que fazemos o passaporte e o ajudamos a passar pelas alfândegas. Nós arrumamos a sua mala, o levamos para almoçar e passamos nele o protetor solar, antes de irmos à praia.

  Eu escrevo também para dizer que discordo completamente do trecho "o mundo nos abençoa". Não é ele que nos abençoa, nos escolhemos e nós sofremos as consequências das nossas escolhas, o mundo é um lugar, Allan, a entidade está em nós.
  Sim, há sempre as especificidades de cada existência, as injustiças, os sofrimentos, as desigualdades, as limitações, que alguns chamam de destino, mas Allan, esperar que o mundo nos abençoe é de um cristianismo ordinário demais.
  O mundo é o mundo, nós que nos movemos nele. Decerto que sem tanta autonomia e as certezas que gostaríamos, mas ainda assim, somos nós que detemos a possibilidade de algumas escolhas; não muitas, talvez, mas são o que são.
  Então, Allan, nós abençoamos ou não o mundo, o nosso próprio, o interior.

  Eu comecei essa carta, especialmente, para responder a um trecho que não me saiu da cabeça:"Em todo deserto há oásis, um Edén". Sim, acho que você se referia que esse lugar de descanso e prazer, foi o que tivemos. O amor é isso para você? Ainda é?
  Allan, eu também pensei que fosse, que descansar era o amor e por isso, eu escondi os meus desertos para que você encontrasse o oásis; sucumbi, compreende? Não pude sustentar o oásis, quando o que mais tinha era deserto.
  Eu queria que você tivesse atravessado comigo. Com sede, medo, calor durante o dia e muito frio, durante à noite. Eu tentei contar para você sobre os meus desertos e você continuou me pedindo o oásis. O que eu entendo agora é que o deserto é o amor. E é isso que eu quero me dizer: não esconda mais os seus desertos, não se cale pelo medo da areia sair pela sua boca.

 A última frase da sua mensagem foi definitiva, também, para o meu entendimento: "O amor sempre anda no infinito". Eu acho que o amor sempre anda atrás do infinito. E eu vou ir com ele, Allan.
  Eu não posso ficar onde o amor não caminhe; o infinito é demasiado escondido, mas eu tenho tempo para buscá-lo.
  Allan, desculpe não escrever essa mensagem para você, mas você teve a sua, apagaram-na dos tapumes na segunda-feira, mas eu espero que ela apazigue a sua dor. O amor anda, Allan, ele quer andar. Leve-o com você, eu trago o meu. Da sua breve história, Alice.




domingo, 6 de janeiro de 2019

Estratégias para não se curvar ao medo

  Para afastar o medo desses dias que parecem demasiado estranhos e tentar a sutileza da liberdade, mesmo sem ignorar as sombras, deve-se andar pelas ruas com uma amiga ou duas, rirem sempre que possível, não para serem simpáticas aos transeuntes, mas sorrirem entre si, gargalharem até esquecerem do que acharam graça.  Querer rir do riso da outra, só sentir o contentamento de estar entre alegres. Escolherem um lugar para se sentarem e explorarem cardápios antes de pedirem o mesmo de sempre.
  Andar armada de bons dias passados juntas, pelos que virão e por esse que partilham agora, mesmo incômodos algumas horas. Andar acompanhada de afetos que não desaprenderam a sorrir, a amar, a ouvir e a se comoverem. Andar com amigas que também saibam chorar pelas dores que não são suas, sem censuras e que se deixem contaminar pelo riso que paira no dia.

  Carregar  um batom vermelho na bolsa, ou outra cor qualquer, e sacá-lo quando o cinza dos acontecimentos ameaçar empalidecer os lábios relaxados. Levar um livreto de poemas e proteger-se com ele, quando tentarem esvaziar a sua voz.
   Escolher a música do carro, do rádio, do bar, da casa, da rua, avançar a que não tocar a alma e deixar em máximo volume Elza, Chico, Tracy, Violeta, Gil, Omara, Gonzaguinha, Elis para emudecer o medo e convocar a coragem. Aprender a tocar o próprio tambor se quiser dançar a qualquer hora do dia.
 Soltar a mão das verdades, das absolutas  certezas e abraçar o possível inesperado. Manter-se atenta e ágil, mas principalmente, vigilante dos tesouros que eles roubam para não fazerem uso, porque desconhecem o valor: o prazer do ar fresco da madrugada, a mansidão vira-lata do cão de rua que a persegue para atravessar a rua sem perigo, o vento contra o corpo em um passeio de bicicleta no outono, o cheiro do pão morno saindo do saco de papel, os vizinhos idosos batendo na sua porta com seus doces de compota embrulhados para presente.  

  Olhar-se menos no espelho e mais através do reflexo dos olhos generosos dos que te amam, dos que sabem amar. Aprender a reconhecer quem está disposto a amar e ser amado, sem interesse outro que não do sentimento em si.
  Para não sucumbir  ao medo de perder  o amor e submetê-lo a materialidade das provas, entregar-se crédula, sem garantias - elas nunca existem - rasgar a desconfiança, deixar o ciúme arder numa fogueira solitária longínqua, abrir as janelas, as portas, entender a liberdade do sentimento, que atrofia se colocado em gaiola ou adestrado para o uso de coleira. Amar a quem nunca antes foi amado, a quem nunca se pensou poder amar, a quem nunca escreveu amor no tronco de uma árvore. Ajudar a encontrar o amor de quem não sabe que é possível o amar a si; amar sem futurologia, sem ideologia, sem negociatas, sem jogos de poder. Não ser empregado, escravo, nem subserviente a quem jura, mas não cumpre, a quem promete, mas acaba sempre tentando juntar os cacos do que foi quebrado. Poder amar e, mesmo assim, ir embora, porque dói ficar.

  Ter tempo, dar tempo, partilhar tempo, não guardar; saber que os tempos não voltam, aprender a construir novos. Ter tempo de repousar, caminhar, dançar, trabalhar, lavar louça e, de também, deixá-la na pia, enquanto usa o tempo para olhar a rua, o gato, o desenho do filho pendurado na geladeira ou a unha pintada.
  Cozinhar com calma para si e para alguém, conversarem longamente na cozinha, enquanto o assado não fica pronto; pausa para abrir o forno e espetar o garfo para ver se está macio.
  Usar o tempo para construir efemeridades: estourar bolhas no plástico, fazer bolas de sabão ou círculos com a fumaça do cigarro, usar os dedos para fazer cachos no cabelo de alguém ou no próprio. Deixar os dedos descobrirem os detalhes que passam tão rapidamente, mas que se sentidos nunca são perdidos completamente.

  Estar disposta ao aprendizado diário. Ser humilde e franca com as suas limitações ou ignorâncias, ser grata a quem ensina, aponta caminhos ou, simplesmente, torce e aplaude seus passos. Não ter vergonha de quem é, de quem quer ser, de quem a inspira, mas sabe ser impossível a cópia.
  Estar disposta a ensinar, a aprender ensinar, ser generosa com as falhas e ausências do outro, tanto quanto com as suas próprias. Querer partilhar a informação, a perspectiva, a leitura, a experiência, o resultado das suas pesquisas, mas não querer ser a voz uníssona, saber argumentar, ouvir e se sentar para esperar uma nova chance, se o que diz não atravessar ninguém. Estar disposta a esperar pelo tempo de ser compreendida; às vezes demora.  

  Saber desobedecer, quando necessário, não porque a ordem desagrada , mas porque fere o que de mais profundo você aprendeu a seguir. Desobedecer as placas, as regras, as normas, os chamados, as prescrições, se tirarem o seu sono e a sua paz, se para cumpri-los abrir uma ferida sem cura.
  Aprender a nadar, correr, dirigir, pilotar um avião, no caso de precisar fugir ou ajudar alguém a ser livre ou continuar vivo. Aprender a contar histórias, ouvir histórias, escrever histórias, no caso de precisar se apartar deste mundo para ser livre, continuar vivendo ou ajudar alguém com as mesmas necessidades. Ter linha, agulha e um pedaço de tecido para bordar cada uma das suas vitórias, que sejam pequenas e cotidianas, mas que alimentem os seus dias de dificuldade, quando o medo senta-se na beirada da sua cama e a assiste a se levantar e se vestir. 

  Para não paralisar diante da ameaça da sombra, é preciso rejeitar o desespero e o seu peso; se recusar a carregar o que não te pertence. Tem que dobrar as esquinas com cuidado, calma e sedenta de motivos para não entregar-se ao medo e as suas dezenas de braços. Tem que acordar disposta a conquistar o mínimo por dia e aprender a descansar da luta, mesmo quando falhar; para ter ânimo de recomeço.
  Para não perder a esperança quando gritam, ameaçam, incendeiam a tua aldeia e violentam os seus afetos, chamar a coragem para seguir ao lado do medo e esperar pacientemente o momento do drible, se colocar na área e tentar o gol. Reconhecer o seu lugar no time e o valor de cada jogador, mas principalmente: ninguém deve soltar a mão de ninguém.





sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Muitos cafés depois e um avião para Salvador

  Coador de pano, pó de café moído no quintal da casa da mãe. Chaleira vermelha com água quente, o
sol entrando pelos desenhos vazados da cortininha de renda e iluminando figuras no chão da cozinha. Conversa fervida em água com açúcar, cheiro de café e depois, um silêncio comprido e amoroso. O pai morreu quando era pequena, ela e a irmã foram, até agora, a família completa junto com a mãe.
   Beberica o café puro na beira do fogão, antes de se sentar à mesa com as outras duas moradoras da casa. O primeiro café do dia é mais do que  aroma e sabor, são as raízes, os sonhos que ela traz na camisola, a ligação com as mulheres que a sustentam tranquila. Teve sempre tanto medo. Tem medo nos olhos ainda.
  A mãe é pequena, franzina, mas tem força nas palavras,  curiosidade juvenil,  sabedoria dos antigos e é muito bem informada. A irmã é mais nova, morena e mais extrovertida. Ambas dão a ela um chão seguro, para equilibrar suas xícaras.
  Ela é loira, um pouco sem brilho, numa cor meio reta, sem sardas. Terminou o ensino fundamental, não precisa mais se levantar tão cedo para ir à escola. Decidiu que não quer estudar mais. Dois dias para o casamento e toma mais café quando pensa que terá que entrar na igreja com todos a olhando.
  Ela tímida, ele sem jeito, os dois altos, ela com menos sorrisos públicos, ele com mais simpatia, mas as vozes de ambos se equalizam bem baixas; sussurram quando conversam na rua, mas falam bastante alto em casa. Eu os ouço.
  A irmã foi para a faculdade, ela se casou de branco, com um batom rosa cintilante, bochechas enrubescidas de blush e vergonha.

  Coador de papel, pó de café enviado pela mãe, já moído, no quintal que ela não varre mais. Leiteira de alumínio com água quente na trempe boa do fogão, o sol queimando as violetas sem flores na janela. Conversas comezinhas, com o marido, lavadas na pia, enquanto descongela a carne para o almoço.
- Traz moranga do mercado, quando estiver subindo? Vontade de comer moranga hoje. A da minha mãe, eu queria agora.
  Depois um silêncio curto, interrompido por uma resposta suspirada:
- Tá na última gaveta, junto com os documentos do carro.
  A barriga, já muito pesada, abrevia o seu tempo de tomar café em frente ao fogão, se senta e toma café com o seu homem, enquanto sente saudades da mãe e irmã. Com ele as conversas parecem durar menos, serem mais apressadas.

  Cafeteira elétrica, pó de café do supermercado. O sol alimentando de luz a sua pequena hortinha vertical na parede da cozinha. Cheiro de café, depois que a tomada é ligada, o leite fervido na trempe boa do fogão, o filho engatinha pelo chão da cozinha e se parece muito com o pai. Depois aprende a andar, a falar - e fala muito com os vizinhos - cresce mais um pouco e já vai à escola. Agora já toma café com ela e o pai na mesa da cozinha e o silêncio dos dois é amenizado pela urgência de fala do menino. Ele carrega a responsabilidade de comunicação da sua família. A mãe só fala quando está entre conhecidos, o pai prefere os distantes, o menino fala com tudo, em qualquer lugar, a qualquer hora. Quando o casal briga na noite anterior, o pai sai mais cedo para o trabalho no outro dia e é o filho quem toma café com ela, enquanto ela sente saudade da mãe, da irmã e da camisola em que os seus sonhos se dependuravam até o dia.
  Despeja mais café na xícara trincada e pensa na felicidade que achou que teria e talvez tenha tido, mas parece tão rara que não sabe se é mesmo felicidade, se só a dela é curta e passageira assim ou se a de todo mundo é e ela não sabe, porque só conversa com o homem alto sem graça e com o filho falante.

 Máquina de café expresso que a irmã mandou de aniversário, junto de uma caixa com centenas de cápsulas. Faz um café de cada vez, o filho às vezes quer outras não, o marido prefere o da padaria.
- Vou tomar meu pingado na rua.
  O sol entra pela janela da cozinha e ilumina a cabeça cacheada do seu único filho. Vai dar um cachorro a ele para fazer companhia quando não estiver na escola. Pensa, enquanto toma seu segundo café. Filhote fêmea. Passa a tomar seus cafés com a cadela, enquanto fala  sobre a saudade da mãe e da irmã. Os silêncios compridos e amorosos voltaram à sua cozinha, desde a chegada da cadela.
  Mas começa a ter tristezas que não vão embora quando o seu homem está e felicidades incomunicáveis, enquanto ele não chega. Será que mãe sentiu isso pelo seu pai?

  Nos últimos dias, depois do natal, ela parece ter conquistado uma altivez, uma independência, uma força que só o café da casa da mãe parecia dar. Olhos de uma brancura diferente, um brilho, uma assertividade, uma resolução acontecida ontem. Saiu muitos dias da semana para fazer compras, deu várias instruções ao filho: de como fechar o gás, preparar o próprio café, aguar a horta, alimentar e levar para passeios diários a cadela.
  Não tem conversado com o homem, não se entendem mais mesmo. Mas ainda dividem a trempe boa do fogão.
  O filho está de férias e ela avisa que ele irá com ela até o aeroporto. São dias de planos, ajustes e recomendações ao filho, para ele mesmo, e algumas que ele deve repassar ao pai. Ela tem quarenta anos e vai viajar, pela primeira vez, de avião. Em quinze anos, terá o seu primeiro réveillon sem o filho e depois de seis anos, não tomará o seu café diário com a cadela.

  Chega em Salvador e a irmã a espera no aeroporto, a convida para um café. A mão da mãe não colhe mais cafés nem acaricia seus cabelos, o ouvido da mãe que às vezes parece próximo e outras não,  mas as irmãs brindam todos os cafés em sua homenagem.
  O filho, a cadela e o marido ficam no ano anterior, junto com milhares de cafés. Um deles não estará na sua cozinha quando ela voltar. Foi combinado assim, ela sabe, mas doerá.
  Enquanto assiste aos fogos na orla, pensa nos  instantes de vastidão de pequenos acontecimentos, a maioria deles uma repetição cotidiana, que atropelam, pedem urgência a cada esquina e não parecem importantes ao final do dia. Mas é tudo o que temos em abundância. Fogos coloridos e luminosos, apontando no céu. A próxima chuva eles não verão juntos, nem sob a próxima lua eles dormirão abraçados. Cansados e atentos; ríspidos e delicados; seguros e vulneráveis. Foram o que puderam e pelo tempo que conseguiram  inventar juntos. Enquanto ela fazia o café, a azia no estômago dele consumia seu gosto por ela e ela já nem queria mais um final feliz, porque eles não sabiam mais como serem felizes juntos.

  Ela inventou uma felicidade plena que não chegou, não em plenitude como imaginou. Ela foi, a cozinha ficou sem ela por alguns dias. Ela deixou o filho e ele sobreviveu muito bem. Ela tem quarenta e, pela primeira vez, não faz café todos os dias. A vida em suas temporadas assistidas por outros e ignoradas por nós; quando uma acaba é sinal de que a outra se aproxima.
  Café expresso do aeroporto, segura a xícara e se lembra do quintal, onde a mãe colhia o café. Como era bom o café com o gosto das mãos da mãe. Como são bons também os outros gostos. Só isso passou pela sua cabeça,  enquanto olhava o sol da Bahia, atravessando os vidros no aeroporto. O ano é outro e ela voltará esta madrugada para casa; que não vai ser a mesma. Ela também não.



domingo, 23 de dezembro de 2018

As urgentes banalidades

   O ônibus não está tão cheio, é o terceiro da fila e os dois da frente sim estão lotados. No corredor, sou eu e mais três. Quando ela entra é mais uma a colocar o rosto a disposição da janela. Faz muito calor, mas agora venta. Embarca no ponto em frente ao shopping, os cabelos pretos estão presos num coque alto, com alguns fios soltos, molhados de suor, a camiseta com a logo da loja em que provavelmente trabalha também está um pouco molhada. É baixa e, mesmo com uma sandália alta, quase não alcança a barra de ferro superior, até tenta uma vez, mas fica torta e desiste. A bolsa marrom no ombro parece pesada e bate, duas vezes seguidas, no ombro de um rapaz. Trabalhou o dia todo em pé. Está cansada, mas sorri com os olhos fechados, enquanto o vento levanta os fios soltos do seu coque. Vê-la gostando tanto assim do vento, me faz gostar mais dele também. É um alento tão simples e ela parece apaziguada, mesmo exausta.
  O rapaz cujo ombro foi atingido algumas vezes pela bolsa, oferece o seu lugar a ela, porque vai descer logo. Ela se senta, estica as pernas, relaxa os braços, as pálpebras e o maxilar, já fechava os olhos quando retesou os músculos novamente e buscou algo no fundo da bolsa marrom. Depois de alguns segundos de busca, tirou um pacote transparente, fechado por um laço laranja com alguns chocolates dentro e escolheu um deles para o rapaz, que já havia dado o sinal e se aproximado da porta para descer. Ela se levantou rápido, alcançou a mão dele e o obrigou a segurar a oferta. Ele se surpreendeu, esquivou-se no início, mas agradeceu, quando entendeu o gesto.  Desceu sorrindo, ela se sentou, novamente, sorrindo e eu também sorri.

  O vento fresco da janela do ônibus num dia de calor insuportável, a oferta de um lugar a alguém cujo corpo está muito próximo ao seu limite, o desejo de retribuição pela visibilidade inesperada e um chocolate quase amassado nas mãos de um desconhecido, que nem ela e nem eu veremos outra vez, são as banalidades de uma pequena viagem urbana que trazem a alegria possível e que não temo  perder, porque não foi buscada, só veio.
  Aperto o meu livro com mais firmeza, termino o único poema lido na viagem e acho que quem descansou fui eu, quem esticou as pernas, relaxou os músculos e se refrescou com o vento da janela do ônibus fui eu, quem aceitou um chocolate e sorriu também fui eu.
  É difícil explicar o contentamento pelas pequenas felicidades alheias, mas sentir não é complicado. É possibilidade democrática, cujo pertencimento é perecível, mas sempre possível.

  Eu desço do ônibus, olho-a pela janela transparente e ela ainda descansa, sem o sorriso de antes, mas com o rosto ainda sereno. Tenho o meu livro, a minha bolsa bem menor que a dela e o meu cansaço, diferente do dela, mas apaziguado como o dela. Subo a rua, sentido o cheiro da Dama-da-noite da esquina, sonhando com um jardim de hortênsias, como o do prédio cinza e achando o céu estrelado a sorte mais plena de uma pessoa. Tudo, desconfio, desencadeado pelos gestos no ônibus ou pela poesia que eu levo comigo nos últimos dias a qualquer lugar em que eu possa ler. E querer mais o quê, além dessa banalidade recém testemunhada?
  Vou caminhando e sonhando com as alegrias que transbordam os meus vazios. Quero a banalidade de um beijo amoroso na mesa de café da manhã, uma almofada xadrez no sofá macio da casa em que eu moro, um cão resistindo à coleira, ao banho, à palavra de comando do adestrador; só por ser cão e se afirmar a cada negativa.

  Subo a minha rua sonhando com banalidades antigas, despedidas longas na soleira da porta, com a intensidade de uma vida, a viagem é curta, mas a saudade é infinita, antes de dobrar a esquina e o corpo só quer o outro corpo, o ouvido sente a mudez da voz preferida, os cômodos da casa dobram de tamanho, o outro lado da cama é longe demais e as horas custam muito a passar. Não dói, porque sabemos que essa é uma solidão que acaba, dois dias riscados no calendário e a casa volta a ter presença e calor, como se nunca tivessem feito as malas.
  O corpo quente ao sol, no dia mais frio do ano, minutos de raios luminosos e mornos nos pés com meias de lã e a xícara de chá quente nas mãos, refletindo o céu de inverno.
  A notícia de alguém de longe, que nem sabíamos se ainda pensavam em nós, e sim, pensam muito, sentem saudades e mandam boas novas do outro lado do oceano. Achamos delicada a lembrança e o sentimento de levarmos alguém para sempre e este alguém também nos levar, mesmo que nunca disséssemos nada, o que de mais indissolúvel pode existir.

   Chego em frente ao meu prédio e, enquanto procuro a chave para abrir o portão, me lembro das banalidades de infância, do pique esconde, na salada de fruta - uma para cada gesto de afeto - nos tios muito jovens que achávamos que eram velhos e hoje temos mais idade do que eles, quando os achávamos velhos, e nos sentimos sobrinhos ainda muito jovens. A véspera de natal e os presentes que nunca vinham e, mesmo assim, nunca deixamos de sonhar que viessem, cada ano uma decepção e uma esperança nova, logo nos perdíamos da desilusão e andávamos abraçados à esperança pelos próximos doze meses.
  Medo de cachorro de rua, de gente desconhecida, de nota vermelha, de conversa com a diretora da escola, da violeta genciana não sair da franja até o dia de fazer a foto para a carteira de identidade - a mãe ameaçou que a foto não seria adiada por causa da franja lilás.

  Subo as escadas do prédio, enquanto celebro as banalidades atemporais, as mãos dadas e o ombro firme oferecido, quando a vulnerabilidade ventava. As promessas de eternidade, de profundidade, de presença em qualquer circunstância e a crença em todas elas, muitas vezes, mesmo que tenham falhado sempre.
  Banalidades que nunca vão embora, a palavra, o gesto, a entrega sem certeza, sem querer certeza. Sem perguntas, sem ressentimentos pelas perguntas feitas, pelas dúvidas do outro, pelas incertezas e medos, mesmo assim a entrega. O corpo solto no salto, sem medo de escapar da cama elástica.

  Banalidades do destino, o reencontro com um amor antigo, décadas depois, ter os filhos que não tiveram ou batizar os filhos dos amigos que tiveram. Partilhar de lembranças evidentes para um, muito apagadas para o outro e oferecerem o agora de cada um, nítido para ambos.
 Banalidades que nos salvam da dor do mundo, o beijo do filho, o abraço orgulhoso do pai, o olhar lacrimoso e emocionado da mãe, a música inesperada que nos devolve a lembrança, a presença, o sonho.
  Abro a porta de casa e a almofada xadrez é a minha primeira visão de lar, bastou um vento fresco no ônibus, uma mulher com coque, um lugar no ônibus para o corpo cansado, o chocolate prensado nas mãos de um desconhecido e, de novo, tudo ficará bem. O dia hoje pedia banalidades, era urgente e chegou numa linha de ônibus urbano sem ar condicionado.