quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tem homens que nunca escrevem cartões

  Tem homens que correm de mãos dadas com suas mulheres até o ônibus e não sobem. Correm pela avenida às seis da tarde, cortando os carros, ultrapassando outros pedestres, desafiando as outras pressas, mas as mãos não se soltam. Uma ambulância em alta velocidade atravessa a cidade, mas não é mais urgente que o casal. Um carro da polícia ultrapassa semáforos, mas não é mais eficiente que aqueles dois. De longe, esses homens fazem sinal para o motorista não partir, mas não sobem quando chegam, soltam as mãos das suas mulheres e ficam no ponto de ônibus, assistindo-as partirem. Partilham de uma corrida, os homens e as mulheres, para só um dos dois embarcar. Eles sempre souberam que só ela ia, mas não largaram as mãos até chegar a hora. Nunca falam de amor, esses homens.

  Tem homens que ao final de um filme, no cinema, se levantam sutilmente das suas poltronas, no escuro ainda, e tomam suas mulheres nos braços para uma dança. Na última música, enquanto sobem os créditos finais, um par de namorados dança, no escuro, no corredor da sala de cinema. Ninguém pode ver, mas eles fazem a coreografia que, mesmo depois de muito ensaio, continua inédita a cada noite. As luzes se acendem, o homem de cabelos brancos ainda está enlaçado na cintura da sua escolha e a música para eles continua.
  É sexta-feira, faz menos frio que a semana passada, mas o cinema não está cheio; a dança do casal é a melhor parte da última sessão. O filme não acabou depois do fim. Esses homens não sussurram amor-palavra.

  Tem homens que não sabem comprar abacates - só aprendem depois dos sessenta e cinco, com uma desconhecida, no supermercado:
- Tem que balançar, se o caroço se mexer, é porque já está no ponto de maduro.
   Mas eles vão sempre à feira; todas as quartas e não deixam de tentar comprar o abacate no tempo. Esses homens que já aprenderam a escolher abacaxis e ervilhas, que levam sacolas de pano nos seus carrinhos de feira, que cumprimentam todos os feirantes, colocam as caixas de ovos, seguras por um elástico azul no compartimento de cima, experimentam gomos de laranja e pedaços de rapadura, também não negociam o verbo amar.

  Tem homens que choram ao assistirem suas mulheres parirem, não porque se tornaram pais ou porque seu filho é quente e macio como imaginaram, mas porque sabem que nunca poderão dar a elas ou ao filho, a felicidade imensa que natureza e destino arrastam para dentro de uma sala iluminada de azulejos brancos. Ele é a testemunha privilegiada de um milagre, cuja memória nunca se fartará em recuperar.
  Esses homens chegam atrasados aos almoços, confundem datas de aniversário de namoro, esquecem, um dia, os filhos do meio no supermercado e voltam desesperados de pavor e culpa, os encontram, compram sorvetes e torcem para não terem nenhum trauma, seus filhos do meio. Esses homens não cantam, não tocam, não declamam amor.

  Tem homens que misturam banana com tomate, para suas mulheres de oitenta anos com cãibras comerem entre o café da manhã e almoço.
- O médico disse que banana e tomate são bons para não ter cãibra.
  E essas mulheres de oitenta anos, plenas das suas faculdades mentais e gustativas, comem bananas amassadas com tomates, porque sabem que é o melhor que os seus homens sem leitura de romances, nem poesias, nem revistas de saúde podem fazer para tentar prolongar suas vidas sem cãibras. Esses homens que vão aos médicos com suas companheiras, aplicam injeções, preparam nebulizações e choram desesperados ao lado de um corpo esfriando de despedida, nunca falam de amor, mas conhecem saudade.   

  Tem homens que vão à escola depois dos trinta para aprenderem a ler e a escrever e pedem para a professora novata escrever um nome no quadro:
- O seu?
  E ele diz que não, que o interesse primeiro é outro.
- Escreve o nome da minha mulher? Porque de falar é muito bonito, quero ver de escrever mesmo.
  Eles também não pedem que a professora escreva cartas de amor ou declarações, quase sempre é um aviso, um recado, a leitura de uma notificação da prefeitura ou de alguma instituição financeira. Esses homens também não soletram o amor, mas descobrem os nomes das mulheres, antes dos seus próprios.

  Tem homens que  vão embora se não veem mais suas mulheres felizes, se não sabem mais encontrar os olhos delas, se as mãos se cansam de estarem dadas, mas moles de costume. Tem outros que nunca vão, porque suas mulheres não perdem os seus olhos. E nenhum deles escreve um cartão com o amor-signo sublinhado ou pintado de vermelho. Só vão ou não, sem bilhete, só pela vontade de não verem suas mulheres se liquefazendo de não poderem amar com liberdade.
  Tem homens que dançam no cinema com suas mulheres, na sexta, à noite, na última sessão do filme nacional e falam algo nos ouvidos delas; acho que não falam de amor-estereótipo. Com esses homens, sem a palavra amor, eu dançaria, correria, daria a luz, viveria até os oitenta e soltaria a mão, com delicadeza, se assim doesse menos.



domingo, 13 de agosto de 2017

Só não sei onde guardo o que não vivi

  A estampa não era a mais bonita, a cor não combinava com quase nenhum item que eu tinha àquela época. Perto das outras ela brilhava menos, não tinha alça ou bordas douradas, talvez fosse a menor também. É verde - uma cor que eu não tenho a menor predileção. Mas a vi antes de todas, eu que não pensava em xícaras naquela manhã, a quis com toda força.  Eu a quis na sua solitude e isolamento, eu a quis na sua pequenez, no seu abandono pelo esquecimento dos outros, a quis pela sua individualidade, resistência, rodeada de belezas menos tímidas. Eu daria todo o dinheiro que eu não tinha para libertá-la da opressão dos olhos que não a enxergavam. O negociador da xícara ainda quis me mostrar outras, muitas passaram pelas minhas mãos, antes de eu tê-la. Arredondadas, linhas mais retas, curvas sinuosas, douradas, porcelanas brancas brilhantes, estampas chinesas, pássaros, flores. Também me mostrou outros itens, uma luminária de vitrais coloridos, uma bolsa bordada com pérolas, um gato egípcio, uma boneca alemã. Mas nada parecia ser verdadeiramente tão meu quanto a xícara. Minha avó tinha morrido há um mês e eu não tinha nada dela, embora tudo em mim parecia ser uma extensão dela. Meus olhos grandes parados, meus lábios redondos, meu cabelo de fios grossos e escuros.

  Minha avó habitava em mim, desde sempre. Eu soube ainda pequena e gostava de ouvir que parecíamos. Eu achava isto mais do que qualquer pessoa. Nosso signo, nossos aniversários na mesma semana, nossa teimosia, nossa calma cotidiana e explosão mensal, nossos rostos colados, nossas conversas sem uma palavra; nossos silêncios, cruzando a sala e afastando intrusos. Nossos copos de vinho escondidos, as mãos dela fazendo os pontos no vestido que eu rasguei e que a minha mãe não podia saber - nossos segredos. Minha avó postada à janela da cozinha por longos minutos com olhos parados e doces, de cansaço e aceitação, e eu procurando o lugar que tinha o olhar dela. Eu não sabia que ela olhava para dentro, quando parava em frente ao basculante da cozinha.
- Agora eu sei, vó.

  Uma xícara fora de um conjunto, a única que, possivelmente, sobreviveu aos anos sem se quebrar, sem ser jogada no lixo, sem nenhuma fissura, nenhuma lasca perdida ou colada. A xícara que eu comprei em uma feira de antiguidades é uma lembrança inventada. Não guardei nada da avó, nem brincos, nem colares, nem echarpes, nem livros, quadros, nem foto do seu casamento - nada do que ela não tinha. Não guardei canecas esmaltadas, cristaleira, conjuntos desfeitos de pratos de sobremesa, nem uma foto da sua bodas de ouro - tudo o que ela tinha. Um mês e eu era uma neta sem avó ou herança, tinha medo que a minha memória não se sustentasse sem um ícone. Encontrei uma xícara verde da coleção de alguém, a materialidade de outra história, abandonada, e a chamei de minha imediatamente. Comprei a xícara para substituir o que não tive da minha avó. É a minha preferida, desde então, o café, o chá, o xarope caseiro para gripe, o vinho, todo líquido que me sustenta passa por ela. Até as suas mãos na alça e a sua boca na borda eu inventei. E a minha dor e medo de perder o que eu tinha dela, ficou na praça, na manhã daquele sábado. Saí para comprar incensos e comer churros e voltei com a minha avó.

  Um crachá de um lugar que não existe mais,  faliu ou os herdeiros venderam, coisa assim. Uma fita delicada de um presente que eu nunca usei, mas que gostei tanto do embrulho. O livro numa língua que eu tentei aprender, com uma dedicatória gentil,  mas abandonei. Uma carteirinha de um clube longe, que há muito eu deixei de frequentar, afoguei na sua piscina um dia, foi a primeira vez que experimentei não respirar e quase me entreguei; guardo a carteirinha e lembro de ser salva pelas mãos que viriam outras vezes. Guardo fotos de parentes distantes, de colegas de escola que nem eram meus amigos, de festas de faculdade, bilhetes, receitas que eu não faço mais, papéis que eu possa vir a querer ler de novo. Atlas com a União Soviética, um caderno de biologia que eu nunca mais li, mas tem a assinatura da turma e um bilhete do professor. Guardo o que posso de quem amei e de quem eu fui, porque é efêmero demais cada passagem, mas o sentimento parece impresso nessas testemunhas que ninguém, além de mim, pode ver legitimidade.

  Todas as noites, apago as luzes, velas, incensos, o estabilizador, o celular, as lanternas, luminárias e tudo mais que brilha em casa, mas as lembranças se encontram e fazem festas nas gavetas e caixas, dos armários e da escrivaninha. Mergulho numa piscina na União Soviética e não me afogo mais. Minhas amigas de faculdade escrevem no meu caderno de biologia. Um parente distante encontra meu crachá e o devolve a um colega de escola, que é criança ainda. Enrolo as receitas na fita do presente que eu não tenho mais e guardo-as junto com a carteirinha do clube. Meu professor deixa um outro bilhete no meu livro de língua estrangeira. Minhas memórias se confundem, misturam-se, trocam de lugar e tempo, mas não fogem, não me abandonam, continuam a bordar a minha vida de história e identidade. 

  Deito, fecho os olhos e imagino a festa das memórias. Passo a mão sobre o meu corpo de pijama e sinto a cicatriz ressaltada - é também uma memória. Tenho vergonha de ter saudades do quarto de hospital, onde passei longos períodos; mas tenho saudades, quando sinto a cicatriz na minha barriga. Gostava do silêncio, da solidão, da sensação de estar viva num lugar onde morriam, gostava de não ter que falar ao telefone nem assistir à televisão,  ficar de pijamas esperando que alguém entrasse sorrindo, gostava de não tomar o ônibus e de não ter planos para a sexta, para o final de semana, para as férias. Gostava de não pensar se tinha futuro fora dali ou não. Tenho vergonha de gostar de guardar todo o tipo de lembrança; das suaves e dançantes às duras e cortantes. Mas todas ficam, não sei não lembrar se fazem parte do que sou.

  Escafandrista no fundo de um mar, onde não reconheço corais, vidas marinhas inusitadas. Mergulho, reviro e só não encontro o que não vivi. A emergência da inteligência artificial não me assusta, como criar sensações e lembranças do que não foi vivido?
  Eu só não sei onde guardei o que não vivi. Até a memória da dor é melhor do que não ter lembrança de um quase dia, quase escolha, quase acontecimento, quase desastre, quase encantamento. Todas as vezes em que eu não fui, não tive o que guardar, também não tive como perder. As coisas que não vivi são as piores poeiras que  cegam os olhos, as pedras que cutucam os pés, dentro dos sapatos. Não sei onde guardo o que eu não vivi, mas todo o resto eu sei; até o que eu precisei inventar.
  A avó morreu e não me deixou nada além de mim mesma  Comprei a xícara e inventei uma herança. Minha memória parece não saber se lembrar se não tiver uma xícara que seja. Bebo o meu café e a minha avó aparece na cozinha, mexendo uma panela ou colocando mais lenha no fogão elétrico da minha casa. É bom ter com quem dividir o silêncio nos domingos pela manhã. A xícara verde é o nosso diálogo diário.
- Eu não conto do vinho, você não conta do buraco no vestido e nenhuma das duas falará, com ninguém, sobre a xícara verde. Nosso segredo. Promete?




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Meu poema não comove Madagascar

  Seiscentos e setenta e cinco poemas depois e nenhum deles salvou você. Quase setecentos textos-sentimentos e por  nenhum você chorou inconsolável na sua cama de molas, sem cabeceira; também não voltou a sorrir para o espelho embaçado do banheiro. Centenas de folhas de papel, sem carimbos, autenticação nenhuma, sem cartórios nem filas, sem avalistas nem fichas e não te libertaram do medo, das perdas ou das culpas; por que tanta culpa? Uma pequena biblioteca de argumentos-imagens e você  entendeu algum, dos poucos que tentou ler? Quis estar ou ser um deles? Sentiu como se alguma parte do seu corpo queimava ou, ao menos, os dedos formigaram?
  Meus poemas de amor nunca tiveram um destinatário; os de política nunca desarticularam regimes, descreditaram  poderes nem revolucionaram caminhos; meus poemas de súplica parecem tão cínicos, que não servirão aos arrependidos, os de exaltação nunca tiveram elogios suficientes. Quase setecentas frustrações escritas.

  Meus poemas de amor sempre escorregaram noutras mãos antes de chegarem, sujos, às suas; mas não peço desculpas, porque quem demorou a chegar foi você. Os poemas já estavam prontos.
  Meus poemas de amor que eu escrevi no trem, no ônibus, no elevador e em escadas rolantes, meus poemas-movimento sempre chegam aos mesmos lugares. Meus poemas viajantes que não cruzam o Atlântico, que não são conhecidos em Madagascar, que parecem estrangeiros na minha rua e que em inglês não soariam bem. Meus poemas desencontrados das linhas, perdidos dos temas, misturados com restos de linhas, miçangas e pedaços de incenso que não chegaram a queimar, no fundo de uma gaveta que eu nunca abro. Meus poemas em folhas amarelecidas de tempo, no futuro, herança encontrada por algum parente que eu não conhecerei.
  Meus poemas engajados que duram duas linhas e depois viram outra coisa, que escrevo enquanto assisto aulas de estatística. Meus poemas de súplica que nunca chamam deus nenhum, nem falam de céu, que eu escrevo na fila do caixa eletrônico em data de pagamento, todo dia cinco. Meus poemas de exaltação que falam de amor, política e súplica, e que de tão humanos, não têm adjetivos suficientes.

  Meus poemas nunca salvaram alguém que se afogava em mar, rio ou lago, um gato preso na árvore, um cavalo perdido num incêndio de uma floresta. Nunca devolveram a uma criança a sua infância desrespeitada desde o nascimento, não fizeram companhia a nenhum solitário; não salvaram da vida o infeliz para sempre; não fez dançar o pragmático. Meus poemas tão desajustados que não couberam nos cadernos, meus poemas dobrados dentro de algum livro, nunca mais vistos -  poemas esquecidos, esquecíveis na mochila e no armário.
  Meus poemas não salvam ninguém, nem a mim, que fico mais perdida a cada vez que faço um poema. Meus poemas escritos em três dias, lidos em três minutos e abandonados eternamente. Esse é o último verso, da última estrofe, que eu ainda não cheguei a escrever.

  Mas meus poemas sem métrica ou rima, são mais livres do que eu e você, que chegamos às oito no trabalho e saímos às seis, com uma hora de almoço. Poemas democráticos, que sempre têm um porteiro, um céu cinza, um gato, um vestido azul, um cobertor curto, uma criança que não fala, um velho que não escuta, um sapato perdido, uma música que eu não conheço, um violino, uma sirene de ambulância, uma urgência, alguma paciência demorada, os olhos perdidos da minha avó, as mãos macias da minha mãe, um avião que não cai, um motorista que sorri, um rio com margens largas, difíceis de atravessar, um homem melancólico, uma mulher que resiste e um elefante; sempre têm elefantes os meus poemas. 

  Meus poemas amorosos acabam antes que eu escreva um final, antes do ponto, num suspiro de desistência que não dura, quase sempre.
  Meus poemas políticos falam de uma república que eu não entendo absolutamente, de covardias que eu não gosto de lembrar, são tecidos com palavras que dizem outras coisas, diferentes de outros poemas, que dizem o que devem dizer. Meus poemas engajados mentem para dizer o que eu não queria.
  Meus poemas de súplica e exaltação não existem. Nunca existiram. Porque não sabem pedir desesperadamente ou elogiar com completa condescendência. 

  Meus poemas inventados que não descobrem a solução para os problemas do mundo, uma vacina, a cura para a calvície ou enxaqueca. Meus poemas que não entendem de matemática, que subvertem a física e que morrem de amor pela química, sem compreendê-la. Meus poemas não lavam a louça, não mandam os filhos de banho tomado para a escola nem pagam o ônibus para a vizinha visitar sua filha em Santa Rita do Jacutinga. Meus poemas não são traduzidos, não são lidos, nem visíveis no eclipse. Meus poemas nunca foram encontrados nas salas de espera dos consultórios médicos ou odontológicos. Lá, só revistas, conversas, uma TV ligada e um aquário. Tampouco a professora pede para que descrevam o eu-lírico. Quem é o eu-lírico dos poemas que eu fiz e nunca enviei a uma pessoa?

  Meus poemas desnecessários, enchem folhas de papel em branco que sempre vão ao lixo. Não empregam, não pagam impostos, mas também não utilizam os serviços públicos. Meus poemas escondidos, sufocados no fundo de uma gaveta. Gritam palavras de ordem, convocam manifestações, criam marchinhas debochadas para ver se conseguem escapar do controle.
  Queria que um deles salvasse um minuto da vida de um destinatário que eu não conheço. Setecentos poemas eu fiz e nenhum deles é para você ou é meu. Setecentos poemas de amor e nenhum nos salva hoje. Amanhã mais um elefante vem passear pelo poema novo. Os poemas que nunca salvaram, continuam ser escritos para que salvem, quem sabe, um minuto de alguém em Madagascar.






segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Uma barata não é exata

  Sei delas pelos vestígios que deixam e,  às vezes, pelo barulho que fazem ao caminharem à noite. Sei delas pela rotina inversa à minha, exploram o redor quando eu durmo, descansam, quando eu acordo; sei das suas vidas quando não as vejo. Nunca um embate, um encontro surpreendente no meio da cozinha. Elas não me dão a possibilidade do enfrentamento, mesmo assim, há a consciência das suas existências; porque elas estão na minha casa, ainda que eu não as veja. Elas frequentam os espaços mais secretos da minha vida, sem que eu as convide e possa também pedir-lhes licença quando me sentir invadida. Por saber delas,  passei a ter novos hábitos: fechar melhor os pacotes de biscoitos, guardar imediatamente as sobras do almoço ou do bolo na geladeira, sem deixar algum tempo em cima da pia; as meias finas, as roupas de tecido muito delicado eu coloquei dentro de sacos plásticos. Sem nunca tê-las visto, eu me adequei a presença delas, porque nunca houve o anúncio de uma disputa. A invasão silenciosa, discreta e lenta me preparou para hospedá-las.

  Não tenho medo de baratas, já tive, depois não tive, voltei a ter e, agora, não tenho. Passo algumas horas, antes de dormir, tentando saber quantas são, pelo barulho delas se deslocando na madeira do armário da cozinha. O que fazem, enquanto eu durmo? Sabem de mim? Alguma delas já me viu? Os armários da casa, elas chamam de casa? Baratas têm lares ou são nômades? Uma barata não pensa o que é uma barata, tampouco o que é o humano. Baratas são seres livres, resistentes e têm o medo, a aflição ou o desprezo humano pela suas presenças ao seu favor. A aparição de uma barata, causa comoção, espanto, chinelos voando, gritos, fugas desesperadas ou resoluções imediatas; baratas morrem antes de pensarem que vão morrer. A morte de uma barata não é condenável publicamente. Nunca choramos pelas baratas mortas.

  Sei delas pelos vestígios muito sutis, ainda. Não me incomodam, não há blusas furadas, pernas de baratas no pote de açúcar também não. A intensa vida noturna das minhas companheiras recentes não me acorda, elas não pisam nos meus sonhos e não chegaram até à cama. Isto sim criaria uma animosidade.  Não sei o ciclo de reprodução de uma barata; não sei se é um risco, eu não fazer nada e ter um criadouro delas nos armários do apartamento. Arrisco. Continuei por algumas semanas, vivendo como se não existissem nos armários, embora eu ainda esteja muito empenhada em  não deixar restos de comida, farelos de pão, grãos ou cascas de frutas na pia da cozinha.
  Mas as baratas têm comunidades muito ampliadas, se há vestígios delas num apartamento de um prédio, logo outros aparecerão nos outros apartamentos.  Elas se deslocam pelos encanamentos, entram pelas frestas das portas e janelas, são ágeis em subir alguns metros de parede, algumas até voam. As baratas são seres pequenos, leves, silenciosos e, por isso, se espalham muito facilmente.

  Um cartaz no elevador foi o anúncio da ruptura da possibilidade de uma convivência pacífica com as moradoras dos armários. A convocação de uma reunião extraordinária com uma empresa de dedetização, era a ordem de despejo que eu teria de compartilhar com as baratas que eu nunca vejo, mas sei que moram no mesmo apartamento que eu. Não queria a todo custo que elas continuassem a viver entre os pacotes de arroz, café, granola e feijão, que passeassem sobre as minhas calças jeans ou que soubessem que eu durmo tarde, acordo cedo e que nos finais de semana eu passo horas na cozinha, ouvindo os ensaios da moça que toca violino. Mas também não era urgente uma expulsão, o apartamento é grande, elas são demasiado pequenas para serem retiradas com jatos de veneno e homens uniformizados, de rostos cobertos com máscaras cirúrgicas.

  Que as baratas fossem embora eu não me oporia, mas uma retirada mais humanizada talvez fosse possível. Como expulsar de cada apartamento todas de uma vez? Havia uma cultura no armário da minha cozinha, diferente do armário dos meus vizinhos. A minha relação com as baratas, que eu abriguei não sei por quanto tempo, era muito específica. Eu sabia delas e talvez elas soubessem de mim, pelo que comiam das minhas sobras, pelos pisos que se acostumaram nos últimos meses, pelos meus barulhos interrompendo seus sonos diurnos.
  Eu queria, pelo menos, poder encontrar com alguma delas no chão da cozinha, quando de noite eu acordasse para beber água. Mas não tive tempo. O condomínio é organizado demais, para expulsar os intrusos, os moradores são práticos para limparem seus caminhos e eu me envergonhei de sugerir um rompimento menos abrupto.

  Na sala de reunião, uma estratégia definida num quadro: esquemas, algumas palavras, setas desenhadas com canetas coloridas. Eram elas, de um lado e nós, do outro. As baratas eram as invasoras inimigas, portadoras de bactérias, vírus, protozoários, fungos, passeadoras cosmopolitas dos esgotos, dos lixos contaminados, o vexame para os convidados, a história da nossa higiene relapsa, das condições sanitárias do bairro, rua, município. As baratas nos lembravam dos nossos desperdícios, descuidos, da nossa vulnerabilidade, mesmo em andares altos, cercados de grades, alarmes e câmeras. As baratas eram as nossas derrotas para os descuidos, para as nossas instabilidades nas limpezas individuais. Era uma guerra ao imprevisto, ao extraordinário, ao inexato, inesperado. Queriam morar: eu, minha mulher, meus dois filhos. E não: eu, minha mulher, meus dois filhos e um número inespecífico de seres asquerosos.
  Meu apartamento era um número na estratégia profissional muito bem articulada e aceita coletivamente, a cada dia da semana dois andares, o meu era numa quinta-feira. Algumas instruções de cuidados e a visita do homem de máscara cirúrgica na minha cozinha, me separando daquelas que eu nunca vi vivas, mas que sempre soube  das suas existências pelos vestígios que não puderam ou não quiseram esconder. Eu preferia matá-las com o chinelo, menos higiênico, mas talvez mais humano. Morrem com os pulmões cheios de uma fórmula tóxica, quando poderiam ser esmagadas por um chinelo de borracha que elas já teriam visto e até, talvez, andado sobre ele. Eram cinco baratas - três no armário da cozinha e duas no meu guarda-roupas - só as conheci mortas.

  O nosso medo nunca foi da barata. O incômodo não é a comunidade artrópode marrom brilhante, com pernas cujos pelos minúsculos trazem toda sorte de terríveis doenças. O medo não é da barata; morta ou viva, ela é uma materialidade. A possibilidade da barata,  nos vestígios que ela não recolhe, nos seus barulhos noturnos e o seu aparecimento inexato é o que apavora. A imaterialidade de uma presença é que é insuportável. Saber que a qualquer hora do dia, uma barata poderá ser vista; mas não saber a hora certa é o que nos apavora. Eu não gostaria de me livrar delas, porque uma barata é tão inexata quanto um humano. 
  Quase exatos, são os homens de máscara cirúrgica, que matam baratas sem nem tirarem seus chinelos. Recolhi quatro corpos de baratas com as patas viradas para cima, todas morreram assim, com a parte macia virada para o universo. Um quinto corpo eu não localizei, olhei para o gato, mas ele não confessou sua participação no ocultação do cadáver. Talvez a barata tenha fingido uma morte e se levantou quando nos ausentamos, nos minutos que eu abria a porta para o assassino distinto. Ninguém chorou pelas mortes das baratas. Eu me lamentei pelo desaparecimento dessa inexatidão dos armários do apartamento. Eu e a barata não somos exatas; que eles saibam disto, que o temor deles é pelo inexato.



sábado, 5 de agosto de 2017

É permitido que a cidade só durma depois de colocá-la na cama

   Descem as três do outro lado da rua, são três crianças barulhentas, que esquentam a manhã de sexta fria. Arrastam um carrinho com uma das rodas quebradas, abrem os sacos de lixo com cuidado, separam sucatas, reconhecem valor no que foi descartado, falam de dinheiro, se é vantagem carregar ou não e finalmente, equilibram suas escolhas no transporte torto. Estabelecem paradas, discutem estratégias:
- Aqui no morro não, tem que chegar mais no plano. Aqui o carrinho vai virar e a gente não vai conseguir levantar. 
  Conhecem as ruas,  dos buracos desviam, dos portões com cachorros se aproximam, brincam um pouco com eles ou os provocam, se não param de latir e não deixam que passem as mãos nos seus pelos; reconhecem os endereços onde os materiais de maior valor podem estar na calçada. São três crianças com cerca de dez anos, não sei quantos são meninos, se há alguma menina, se vestem com roupas parecidas,  os cabelos são curtos, as vozes são muito infantis ainda, se somente os ouvisse, acharia que eram mais. Falam muito, se confundem nas funções compartilhadas, erram a direção, um solta o carrinho antes do outro, ele quase tomba, um deles grita, atribuem as culpas uns aos outros, brigam, prometem se separar e, em seguida, estão rindo na calçada, com as três cabeças encostadas no carrinho torto de três rodas boas.

  Nunca os tinha visto antes, mas eles reconhecem aspectos da minha rua e bairro, muito melhor do que eu saberia. Conhecem os meus vizinhos pelo que eles não querem mais, lamentam as desistências de alguns e comemoram poder usufruir de objetos quase novos:
- Aqui, vem ver, isso aqui tá novinho! Tá até na caixa... Esse eu quero para mim, não vendo!
  Conhecem os cães dóceis, sabem quanto tempo têm para atravessar cada sinal, se o síndico vai aparecer no portão para impedir que abram os sacos pretos de lixo do condomínio e os comércios onde podem ou não parar em frente para ajeitar o carrinho com a roda ausente.
  Acho-os muito espertos, alegres e bem coordenados, quase me esqueço que cada um deles não tem mais de uma década de vida e que as apreensões que fazem são intrinsecamente necessárias a vida que está disponível para eles e que cabe num carrinho de madeira cambaleante. São três crianças com cerca de dez anos, fazendo escolhas, atribuindo valores, decorando endereços, equilibrando o que a cidade rejeita na precariedade que eles dirigem, estacionam, cuidam, dividem.

  Estão quase no final da rua e o carrinho já está bem cheio, param em frente a um prédio, dois deles empurram o corpo na lateral do carrinho, segurando suas escolhas, enquanto o outro vai analisar os sacos plásticos fechados que estão na calçada. Latinhas, papelão, mais latinhas, uma panela sem cabo - muito comemorada - fotos, que ela  guarda no bolso de trás da calça, um secador e um livro. Tudo vai no carrinho, menos as fotos, que estão no bolso e o livro que ela leva abraçada, enquanto empurra com a mão livre, o instável transporte. Se não estivessem às seis da manhã, escolhendo, recolhendo e carregando o que os meus vizinhos não quiseram mais, eram três crianças de dez anos como outras que eu já vi, chegando na escola às sete com um livro na mão.
  A cidade ainda acorda e as três crianças já desafiaram o frio, o escuro, seus medos, os semáforos, as distâncias entre as suas casas e o meu bairro e o injustificável abismo que precisam saltar todos os dias, logo pela manhã.

  A criança com o livro é a imagem que me captura, vou com ela. Por alguns instantes sou seu livro encontrado, sua promessa de saltos menos difíceis, sua fuga com um carrinho de quatro rodas boas, colorido por fora e macio por dentro. Queria que o livro, este que ela encontrou e com o qual vira a esquina para onde eu não vou, desse tudo o que a cidade em sono se recusa a dar a ela. Dormimos, sonhamos, comemos, damos às nossas crianças livros e colocamos capuzes rosas e azuis nas suas cabeças para se protegerem da neblina da manhã, levamos o lixo para fora, lavamos as mãos e vamos trabalhar de novo; enquanto três crianças analisam nossos desperdícios e fazem suas ausências parecerem um pouco menores com o que não nos serve mais. 

  Na minha primeira página, se eu fosse o livro, a criança saberia ler perfeitamente: é permitido tudo, a partir de agora. Comer nuvem de todos os sabores, deitar em cama macia de espuma delicada, brincar a qualquer hora e só empurrar o colega no balanço, para dar mais impulso e altura para voar. A partir do primeiro sim, do último não ou, mesmo, na  espera pela resposta que se arrasta, perdida, em alguma estrada que não essa, tudo agora é permitido. Inclusive o que era proibido, ilegal, impossível ou ignorado. É permitido o sonho, o desejo de ser, algum dia, ou não ser mais. De ainda ser amigo depois que o amigo vai embora; de não ter que conhecer os buracos da cidade para não agarrar as rodas do carrinho, mas saber deles depois da chuva, para chutar as poças de água que se perderam do resto da chuva e esperam pelos pés que as libertem.

  É permitido ter medo e alguém mais forte que o console; ter dor de dente e um horário com um dentista que o cure; ficar doente e ser cuidado, com remédios, sopa e cama. Ficar curado, sair da cama, ir para a escola e contar como foi ficar em casa. É permitido que os meus vizinhos saibam que você tem dez anos, gosta de cães, de brincar e de sorrir. É permitido sentar nas calçadas, mas também nas cadeiras das sorveterias, nos bancos escolares, nos tronos dos reinos das histórias que você ouvir, ler e imaginar. É permitido brincar com os cães dos meus vizinhos, com seus filhos, sobrinhos, afilhados e com eles próprios.
 É permitido que a cidade só durma depois de colocá-la na cama e se levante antes, para preparar seu café.

  A criança abraçada ao livro que não sou eu, atravessa o último semáforo, antes de eu nunca mais vê-la. A roda defeituosa faz mais falta com o carrinho pesado, as três crianças fazem força para empurrá-lo, antes de mudar de cor o painel luminoso. O peso é maior do que elas conseguem empurrar, a mão livre não é suficiente, o livro é uma escolha que precisa ficar para trás mais uma vez. Ela joga-o ao chão, as duas mãos são mais fortes, inclinam o carrinho para o alto e depois para frente, chegam do outro lado da rua, sobem-no na calçada a tempo.  Os carros passam sobre seu sonho de leitora, as três crianças assistem ao atropelamento do amor de uma delas; todas parecem lamentar. Retomam sua rota e eu não as vejo mais, o semáforo fecha, de novo, eu saía da janela, mas um vulto pequeno corre e resgata o livro trucidado, ajeita as folhas soltas e abraça-o de novo.
  Agora eu não vejo ninguém, mas imagino uma criança habitada da possibilidade de ler permissões infinitas em páginas coloridas. É permitido não deixar que elas precisem mergulhar nas nossas desistências; é permitido que os sonhos dos outros também sejam nossos e as suas ausências também façam ecos dentro de nós.