sábado, 26 de maio de 2018

Uma cabeça

   Meia dúzia de santos de mesmo nome, meia dúzia de um mesmo milagre que não acontecerá seis vezes; talvez um milagre em seis parcelas. Milagre extenso, duradouro, longínquo, mas leve, seguro por doze mãos santas.
   O primeiro dos santos foi uma escolha minha, o último bibelô de uma loja da qual eu gostava muito, que ficava no centro. Era uma loja dessas de artigos variados para presentes, parecia a casa de uma avó colecionadora ou um cenário de loja de filme francês. Não tinha prateleiras com objetos organizados por tamanho ou utilidade, aliás muitos dos objetos nem tinha utilidade muito precisa, não tinha corredores com distâncias regulares, era um labirinto rodeado de inesperados ornamentos; alguns até bastante empoeirados - desses eu gostava mais. Eram cordões indianos coloridos, luminárias chinesas com delicadas aquarelas pintadas nas bordas,  penduricalhos com o olho grego, lenços da Ilha de Java, rendas cearenses, bonecas russas de porcelana, caixinhas de música com bailarinas que lembravam as ilustrações de um livro conhecido na infância, xícaras com asas douradas, pratos com flores pintadas à mão, incensários feitos de pedras, pequenas cascatas em bambus, móbiles de origamis e perto da caixa registradora, entre gatos egípcios de madeira e estátuas longilíneas de gueixas, um santo.

  Vestido com uma roupa marrom, com um terço na cintura, uma ave num dos ombros, outra nas mãos e um cervo, salpicado de manchas brancas, recostado na sua perna direita; um santo pequeníssimo, cheio de detalhes, que levei décadas para descobrir e nunca soube de todos; um santo que eu não sabia que precisava. Na porta da loja um cartaz, avisando que era o último dia do seu funcionamento, fui me despedir do ambiente mais sereno da cidade e levei o São Francisco num papel de seda branco, com um folha de papel celofane transparente e um pequeno ornamento em papel de seda vermelho, que lembrava uma flor, colocado em cima; todos os artigos da loja seguiam esse padrão elegante de embrulho. O primeiro dos seis portadores do milagre grandioso, partilhado ao logo do tempo.

  Os outros todos foram presentes; o segundo chegou para fazer companhia ao primeiro, ao menos foi essa a recomendação do remetente num bilhete que já não tenho mais. Depois, cada um que chegou não sabia do outro e fui aceitando a coincidência de um mesmo santo multiplicado; eu que nunca colecionei objeto algum, eu que nunca tinha tido um santo.
  Os estilos artísticos das imagens são variados, assim como os materiais de que são feitos, madeira, biscuit, resina, mas o primeiro é o mais sensível, os pássaros já perderam as suas cabeças incontáveis vezes, mas foram logo coladas, exceto depois da última queda, há cerca de vinte dias. Não encontrei as cabeças. O santo continuou sereno, seguro e, o mais importante, com duas aves decapitadas no corpo, o primogênito do grupo ainda é um dos portadores do meu desejo de milagre. Da ausência das cabeças só eu sei, porque a imagem é pequena e fica no alto, ninguém se aproxima muito; a intimidade é só minha. Não me incomoda que a imagem não seja mais completa, porque o santo também não me pareceu contrariado.

  Mas hoje pela manhã, enquanto trocava o lençol da cama, um objeto mínimo, apareceu junto ao rodapé da parede, parecia uma ponta de lápis. Puxei-o com o pé, levemente, para não riscar o piso e quando coloquei-o na palma da mão, eu a vi luminosa, sem sequer um arranhão. Uma cabeça sobrevivente, uma cabeça pequeníssima reluzente, viva, resistente, corajosa. Uma cabeça, há mais de duas semanas, apartada  da sua condição primeira, mas completamente plena em existência. A cabeça ausente do pássaro que nunca se afastou do seu santo protetor. A cabeça que por anos tem ouvido as pregações do seu condutor. Uma cabeça menor que meia unha do meu dedo mínimo, que não estraçalhou-se na queda e que tem, repetidas vezes, desviado da vassoura e dos pés da cama, uma cabeça disposta à volta, sem ressentimentos. Apenas uma, das duas, mas completa em si.

  Há muito não participo dos rituais das igrejas, nenhum dos santos que eu guardo recebeu uma bênção especial, com água ou orações e à medida que chegavam, eram postos ao lado de algum livro, mesmo assim, os santos são reverenciados por mim, como os livros. Carregam os meus pedidos secretos, as minhas angústias noturnas, as misérias disfarçadas, as alegrias e esperanças cotidianas; os santos com pássaros completos, ou não, são as representações delicadas entre consciência e transcendência, matéria e memória.
  Os seis Franciscos enchem o meu quarto de compaixão e coragem.
 
  Na minha mão, a cabeça parece não pertencer a nada, não requisitar corpo ou companhia. Uma cabeça branca com um bico alaranjado e dois olhos negros, uma cabeça tranquila de pássaro que nem parece perdida. Coloco-a em cima de um móvel branco e ela desaparece, enquanto procuro o vidro de cola. A cabeça resgatada fica ainda menor fora da minha palma. Busco o santo de pássaros decapitados para devolver-lhe ao menos uma completude, tateio o móvel e a cabeça espeta a minha mão; ela olha para mim. Escorre gratidão dos meus olhos; a cabeça do pássaro é inteira, sem a orfandade do corpo, como pode ser tão pequena e plena?

  Tenho os santos, são seis, um tubo de cola numa das mãos e uma cabeça sobrevivente na outra. "Senhor, fazei de mim o instrumento de Vossa paz..." ecoa nos quatro cantos do quarto. A cabeça é um milagre que eu não compreendo, me ultrapassa, me incendeia, me conforta.
  Nada de errado nesses vinte dias  de pássaros sem cabeças, de duas cabeças perdidas e uma reencontrada; nada de errado nessas décadas de coisas que não se completam. Os milagres devem ser assim,  ordinários, pequenos e incompletos, cuja espera demora e a realização é efêmera. Espremo o tubo de cola no pescoço de um dos corpos sem cabeça e colo a parte que era ausente. O pássaro do ombro do santo já pode olhar para o horizonte. Amanhã procuro a outra cabeça, se achar, colo o outro milagre, se não, vou continuar a procura.




sexta-feira, 25 de maio de 2018

Não abri a porta de pijama

  Fui eu quem dormiu antes do final, fui eu quem quis cortar o cabelo e não gostou; sou eu quem não quero sair da cama antes das oito. Fui eu quem disse que me levantaria e estaria pronta às nove e não estou. O suco amarelo do lado da cama não me anima, a cortina branca, revelando as silhuetas geométricas das construções ao lado não me emociona, o céu azul-desmaiado não me convida a ficar de pé, o pijama rosa já não me incomoda hoje.
  Adio até os menores movimentos, só a respiração passa completamente livre, independente, sem solicitar a carga de energia que eu não quero dispensar.
  O dia seguinte a uma celebração é um dia natimorto; amanhece e acaba sem deixar impressões no calendário. O dia depois de uma espera terminada é um pacote vazio, esquecido no sofá da sala. Não há ninguém que virá reclamar por ele, não há nada a ser aproveitado; é uma prova consistente de fim.    

  Já são quase nove e  ainda estou de rosa, numa cama prateada. Abro a cortina e me sento; algum significado pode entrar pela janela. Tudo calmo, cinza e um pacote vazio no sofá da sala, esperando que eu vá buscá-lo; ainda não vou. No final da rua, a lateral da fachada de um prédio fica mais branca, um homem minúsculo pendurado em uma corda, que balança a cada movimento suave que ele desenvolve, deixa ainda mais branca a minha manhã.
Nenhuma notícia, nenhuma manifestação, nenhum significado passeia pela minha rua; só o homem com a sua lata de tinta branca afasta a ausência completa da  manhã.
  Da minha cama, assisto ao movimento tedioso do pintor de paredes, acompanho seus braços abertos se fecharem para depois, abrirem-se novamente, a rotação dos seus punhos treinados, sua conversa muda com o colega que está do outro lado do prédio, cuja sombra é refletida na parte menos branca da lateral que eu posso ver. Ela também será pintada, todas as marcas de tempo, de intempéries, choques de voos desesperados de pássaros passados, cinzas de queimadas de muitos invernos serão apagadas pelo homem minúsculo, preso a uma corda. O quão seguro ele é, balançando em um assento de madeira, suspenso por uma corda, da qual desconheço origem e data de fabricação?

  Fui eu quem disse que me levantaria cedo, faria o café, trocaria de roupa e esperaria a encomenda que não é para mim. Fui eu quem não tirei os olhos da parede branca, tornado-se ainda mais branca, desde que tirei a cabeça do travesseiro enluarado. O silêncio se assusta com uma chamada que eu atendo, fingindo disposição:
- Sim, já me levantei. Sim, já tomei meu banho. Sim, claro que estou apresentável para abrir a porta.
  Minto três vezes numa conversa curta. Não preciso de muito tempo para simular o que eu planejei ter feito, mas não fiz; meio ilusão, meio desistência.
  O homenzinho e um terço de lateral do prédio a ser pintado. Será que terá uma segunda demão?   Quanto tempo, quanta tinta, quanto trabalho até a parede estar suficientemente branca? Já era, agora será mais. Tinta nova em parede de outros tempos, quantas camadas até apagar antigas histórias. E se eu me levantasse, buscasse um litro de tinta na loja do bairro, quanto tempo até eu esconder as marcas dos meus dias?

  A desolação de não estar no dia certo, ainda que no dia certo não haja tempo de ter certezas sobre o dia. Estar em cima do tapete impede a visão ampliada, esconde o que está debaixo dos pés, por isso que a celebração não está nunca sincronizada com o sentimento; ele é antes ou depois, na hora mesmo é a invenção que ocupa os espaços entre os brindes.
  O homem na parede branca, às vezes para e parece olhar para vizinhança, não me vê, claro, porque está de costas para quem o assiste. O que será que pensa o homem cujo trabalho é apagar marcas, reforçar brancuras? Será que se diverte com a aventura da altura, com o voo contido pelas cordas ou se entedia com a ausência de colorido sob seu nariz? Será que ele assina a sua obra? Oculta marcas que depois só ele pode ver e, se quiser, traduzir para alguém? Será que escreve mensagens, cartas, pedidos, orações, protestos? Fico ainda mais atenta aos seus movimentos, talvez eu descubra suas falas ocultas.

  Adio a troca de roupa, adio o banho, não penteio o cabelo.  Sou eu quem adio a decisão de levar o dia estático a cabo, de decretar o fim do desperdício das horas passadas numa janela, ainda em jejum. Sou eu quem fica completamente concentrada na pintura da fachada de um prédio vizinho, esperando traduzir uma mensagem única. Sou eu quem não se levanta, porque um homem parece se divertir, enquanto realiza o trabalho de ocultar o que eu gostaria de entender. Ele para para o almoço, seu balanço desce até o térreo e eu ainda não tirei o pijama rosa.
  O dia que acabou ontem e me deixou um pacote vazio. O dia que acontece hoje e que parece não ter um nome ou pais que o assumam, quem pintou de branco o meu dia seguinte?

  Os planos são ultrapassados pela urgência que a vida é. Às vezes de não caber nos limites de uma agenda, às vezes de nem chegar a ser qualquer coisa numa agenda, só um sonho atravessando outra página que não a minha. Eu disse que me levantaria antes das oito e não vou, não fui. O pintor voltou do almoço, terminou o trabalho no pedaço da parede e não recomeçou uma nova demão. Então é isto? Vai embora? Leva com ele o balanço com assento de madeira, as cordas firmes que duraram até ao final e a mensagem que eu não consegui ler? Vai voltar para filha (tem ele uma filha que o espera em casa depois do expediente? Eu sempre acho que tem, porque eu esperava pelo meu pai, dormindo no sofá da sala para vê-lo, ao menos uma vez no dia, antes de ir para a cama) e me deixar sem ter o que ver da minha janela; quem disse que ele era responsável pelo meu dia?

  A fachada do prédio não mudou em quase nada, só parece um pouco mais luminosa, recente, sem tanta história. A noite chega e enterra o dia natimorto. A encomenda não chegou e eu não tive que abrir a porta de pijama; ninguém veio.
  Vou até a sala e observo a  irrelevância do pacote vazio em cima do sofá, o dia depois do dia que será lembrado, o dia que será ocultado por uma demão de tinta branca, depois de amanhã. De encomendas que não chegam, de significados que não pousam na janela, de mentiras que se esquecem de acontecer, de planos que desviam da rota, de paredes brancas sem mensagem alguma, sob o pincel de um homem sem uma filha para esperá-lo, acordada em casa, também são feitos os dias. Sou eu quem retira o pacote do sofá e, finalmente, joga-o no lixo. Um dia que começa tarde, ainda pode ser um dia para se escrever uma história.




domingo, 20 de maio de 2018

Algum lugar em que se esteja salva

  Eu deveria estar segura na sessão de cinema das seis horas, antes e depois do filme. Eu só deveria sentir o impacto das cenas, da atuação dos atores, da trilha sonora, dos diálogos que falassem comigo e dos espaços vazios entre os bancos e as fileiras com outros espectadores como eu. Eu deveria poder não olhar para as saídas de emergência, quando um barulho inesperado na tela fizesse minhas pernas tremerem, eu deveria não ter que olhar para o relógio, para as notificações no celular, temendo ser tarde ou cedo demais para alguma coisa e nem para a cadeira ao lado, quando alguém começasse um movimento estranho. Eu só deveria estar segura e completamente entregue a um filme da sessão das seis.
   Eu não deveria me sentir ameaçada no elevador do prédio do dentista. A única falha possível que eu deveria temer é o das engrenagens da máquina, ainda assim, eu  respiraria confortável, acreditando na competência e responsabilidade dos humanos com outros humanos.

  Eu deveria  estar segura na China, na Índia, na Coreia do Norte, nas falésias do nordeste brasileiro, nas montanhas do Turcomenistão. Eu deveria comprar a minha passagem, escolher o caminho mais bonito, não o menor ou com estatísticas mais favoráveis, levar uma garrafa d'água, um par de tênis com amortecedores, um documento com foto, caso eu precise provar a minha existência em registro, um dicionário,  uma caneta e um caderno de anotações, caso eu precise me comunicar para dentro ou para fora de mim.  Eu deveria arrumar minha mochila e não colocar um guarda-chuva, para não pesar, mas me lembrar do band-aid, do filtro solar, do relaxante muscular, do origami de pássaro da sorte, em vermelho, que eu levo a qualquer lugar, para dar mais sorte a ele.
  Eu deveria entrar num avião e me sentir segura na minha poltrona reclinável, que eu manteria ereta para não diminuir o espaço do passageiro atrás e só suspeitar, no máximo, de uma queda livre, morte sem dor; o que não tiraria o meu sono.

  Eu deveria me sentir segura quando saio para correr às cinco da manhã e o silêncio da cidade abriga o meu silêncio. Nós duas, eu e a cidade, mancomunadas em mantermos os nossos mistérios na madrugada, somente sob a neblina espessa que começou em maio, sem as  máscaras, sem as mentiras das pessoas que moram nela.
  Eu deveria  só me emocionar com os raios de sol, entrando pelas varandas, banhando os gatos, reforçando os verdes das plantas, iluminando as frestas, projetando sombras bailarinas de crianças nos muros,  indo à escola pela manhã. Eu não deveria temer o silêncio, o vazio e a nebulosidade no asfalto. Eu só deveria me perguntar se os alongamentos foram suficientes e se os meus joelhos não me odeiam por requisitá-los tanto.

  Eu deveria poder ir a um restaurante, escolher uma mesa perto da janela, para também me alimentar da paisagem,  e examinar calmamente o cardápio. Eu deveria me sentir segura se pedisse frutos do mar, porque não sou alérgica a frutos do mar. Eu deveria  poder pedir uma entrada com camarões, um prato principal com lagosta e de guarnição um arroz com mexilhões e não temer nenhuma intoxicação, no máximo, um pequeno desconforto, caso me servisse com mais comida do que meu estômago esperasse. Eu deveria me sentir segura, se começasse uma discussão entre um casal, na mesa vizinha, se o homem humilhasse a sua companhia eu me levantasse e oferecesse a minha cadeira a ela. Eu deveria me sentir segura de oferecer segurança a ela e ela deveria se sentir segura em aceitar a minha segurança junto a dela.
  Eu deveria me sentir segura em pedir a conta, no restaurante, reclamar por uma cobrança indevida e não ser desacreditada, mal compreendida, depois, não suportar o doce da sobremesa parado na minha garganta. Eu deveria me sentir segura com a minha segurança.

  Eu deveria poder correr perigos e, ainda assim, me sentir segura. Eu deveria desafiar, resistir,  discordar, criticar, contrariar, não desejar ser aceitável e, ainda assim, não perder a segurança.
Eu deveria poder dormir em algum lugar público, porque eu perdi o cartão e não tenho dinheiro para o hotel. E mesmo cansada, relaxada na calçada, estar segura sob um céu brilhante de estrelas.
   Eu deveria me sentir em segurança quando um desconhecido me perguntasse as horas, um endereço anotado no papel, meu nome ou sobre o melhor sorvete da cidade. Eu deveria poder parar e conversar com um desconhecido sem suspeitas, talvez apenas com a possibilidade dele ser um chato e eu ter que interromper a conversa com uma desculpa improvisada.  

  Eu deveria me sentir segura, mesmo sabendo ser impossível estar segura. Eu deveria ter um tipo de insegurança completamente tratável, educável, subordinável e unicamente individual.
    Eu deveria estar segura em qualquer dia de chuva, sem nenhuma telha, telhado, marquise ou capa de plástico transparente, eu deveria somente ter receio dos raios e enchentes. Eu deveria poder pular em poças d'água com a cidade deserta, à noite, depois que eu saísse do cinema ou do restaurante, deveria poder, enquanto pulo, sorrir a estranhos e me conectar com desconhecidas em desamparo eventual.
  Eu deveria estar segura nas minhas inseguranças e não da insegurança que é nunca estar segura em absolutamente lugar algum. Eu deveria estar segura quando um sim, quando um não, quando eu muda.

  Os meus pensamentos deveriam ser os únicos lugares vulneráveis no mundo; não são. Eu não deveria estar a salvo somente dos meus pensamentos. Mas são os únicos que ainda me oferecem abrigo quando todo o mundo é um lugar em que nunca se está segura.
  Eu deveria conhecer algum lugar em que eu esteja sempre salva; esse lugar não existe hoje.



terça-feira, 15 de maio de 2018

O filme do Fellini não tem final

   A infância não acaba; a criança é quem parte. Os joelhos esfolados, os hematomas nas canelas, o dedo do pé com um curativo recorrente, sandália de borracha porque no tênis não cabe o dedo com esparadrapo, repreensão carinhosa da mãe, laranja descascada pelo pai, simulação de banho no inverno com chuveiro aberto, tédio, dia longo, final de semana curto, bala de caramelo grudada no dente, pular o muro para sair da escola e, arrependida, pular o muro para voltar à escola, não tem mais. A infância dura ainda, afastada, no outro tempo; a criança foi-se.
  Os irmãos não vão embora, não crescem, nunca são adultos; o fogo das iras infantis se arrefecem; é só.

  Os planos fracassam; os sonhos não. Eles seguem viagem, perdidos do dono, para sobrevoar outras cabeças. Os sonhos abandonados são ondas sonoras que tocam outras vidas a quilômetros de distância e a mesma onda que leva, pode trazer de volta. Os sonhos não adormecem, visitam outras camas, retomam o fôlego e chegam, num domingo à noite, sedentos da casa antiga, saudosos do dono quase desiludido.
  Os planos morrem, são velados por muito ou pouco tempo, são enterrados em cova profunda num caixão de madeira. Os sonhos resistem a tudo: à tristeza, à saudade, ao atropelamento por um caminhão de cimento, depois de uma manobra no trânsito tumultuado, ao tempo, ao clima, à solidão da terra estrangeira. Os planos são frágeis não suportam quase nada, escorrem na chuva imprevista, derretem sob um sol inesperado, morrem por hipotermia, catapora, coração quebrado.

  Os casamentos acabam, trinta anos depois, uma década, um ano, na porta da igreja; o amor não acaba. O amor muda de lugar; não espera pelas férias, pelo filho, pela cura, pela indenização do trabalho. O casamento aguarda, burocrático, sentado à porta pela melhor hora, enquanto o amor já foi embora.
  Os casamentos precisam de testemunhas, o amor evita outros olhos que não seja os dele próprio. As bodas têm promessas, vestidos bordados, grinaldas floridas, ternos, gravatas de cetim e sapatos engraxados. O amor é bem roto, maltrapilho, amassado e chega descalço. Os casamentos têm bolos e álbum de fotografias; o amor tem pão com maionese de madrugada e nenhuma foto em que caiba a lembrança.
  Os casamentos são intercâmbios ao exterior; com festa de despedida, muitas fotos e souvenirs na volta. O amor é final de semana na casa de vó, não dá para colocar no currículo, para narrar aventuras em outras línguas, mas é o que é para sempre.

  Os caminhões de lixo não levam tudo; a brutalidade sim, arrasta memória, duas cadeiras, a ternura do afeto, um quadro pesado e a cama do gato. Nos sacos pretos de lixo, recostados nos muros brancos, cabem papéis, fotos, metade de um bolo de milho solado, havaianas arrebentadas, uma tampa sem pote, o filtro com a borra do café, laços de um pacote de presente. Os gritos, as asperezas repetidas, sufocam um final de semana em Paraty, três viagens ao exterior, a lembrança de uma tia de cabelos cinza, o calor das mãos, o ombro onde um choro cabia sem nunca afogar.
  Num aterro sanitário, isolado: camisetas rasgadas, panos de prato manchados, pedaços de uma galinha de biscuit  que ficava em cima da mesa, bolachas mofadas e canetas sem tinta e sem tampas. Numa gaveta trancada da memória: as palavras, os poemas, os desenhos nos guardanapos, as flores secas entre páginas e as carícias.

  A casa em que nascemos não pode ser demolida; as histórias ruins que vivemos podem ser redesenhadas. O batente da porta do quintal com as marcas do canivete que marcaram a altura que ganhamos ao longo dos anos, ainda está lá. O basculante com vidros diferentes, em cada troca um acidente, um grito e um vidraceiro que deixava um pouco de massa para brincarmos, também permanece. Os castigos, os abusos, as palavras adoecidas, os olhares atormentados sobre a cabeça podem ser ressignificados, perdoados, soltos num barco de papel com flores e pedidos para a mãe d’água.  
 A casa em que nascemos é a mesma com a qual sonhamos em voltar durante as tormentas, as tempestades, as crises de identidade, existenciais e de idade. Os conflitos que deixaram marcas, podem ser suavizados até quase não existirem, para não sabermos como voltar.

  Os caminhos dos quais nos afastamos não deixam de existir; o medo do início da estrada é que perdido, logo que os dois pés ganham espaço. O visto, o sentido, o ouvido, o tocado há pouco ou há milhares de metros não nos abandonam nem são abandonados. O temido, o afastado, o estranhado, são as incômodas e pequenas pedras, que precisam ser retiradas do sapato, para o caminhante  prosseguir a sua jornada.
  O encontros nunca terminam; o primeiro encontro é que só dura até o primeiro sono. Uma história antiga, um relacionamento duradouro é contornado por sucessivos reencontros, descobertas, afinidades inesperadas. Uma cartela que se completa, termina logo o jogo.

  O filme do Fellini não tem final; o roteiro escrito é que tem um desfecho programado. Os anos não desgastam as cenas que acontecem nele. Se procurar, não tem como não encontrar uma personagem, narrativa, cenário ou figurino que ainda surpreenda, na décima, vigésima ou trigésima exibição.
  Um filme ultrapassa a pretensão do filme; um filme dura muito mais do que os minutos do filme.
Fellini não acaba; os filmes só não passam mais de madrugada, na TV aberta, mas ele ainda está lá, como os sonhos que chegam por ondas sonoras; um dia tocam em alguma casa, em que nunca pretendeu morar.


domingo, 13 de maio de 2018

Se você me perguntasse

  Se, num acaso desses, você me perguntasse as horas, o dia da semana, sobre os conflitos no leste europeu, quando começa a lua nova. E se você me perguntasse sobre a novela das nove, sobre o tempo de duração de cada botijão de gás aqui em casa ou sobre as linhas de ônibus da cidade, qualquer coisa eu te responderia, mesmo se não soubesse a resposta com alguma certeza. Eu só não deixava silêncio nenhum nos afastar; a conversa acabar num vazio, sabe?
  Se o nosso encontro se estendesse muito e mais perguntas você fizesse, eu, satisfeita, procuraria alguma resposta, mesmo que algumas delas criassem  incômodos; como o de ter que arrastar algum móvel, para procurar atrás dele ou subir numa escada dobrável, meio instável, para encontrá-la em cima do guarda-roupa ou do armário na cozinha. Nada nos silenciaria de novo, sabe? Nenhuma questão morreria sem nem uma tentativa de resposta.
  Se me perguntasse sobre rios, vales, montanhas, desertos, planícies, savanas, oceanos do mundo, nenhuma geografia seria demasiado distante, que eu não encontrasse alguma indicação de resposta.

  Mas se me perguntasse sobre coisas menos genéricas e muito, muito pessoais, como se eu estou contente, se encontrei felicidade desde a última vez que nos vimos e como vão as coisas aqui, nos cantos menos visíveis da minha existência, eu só te daria sinceridade, como quase sempre lhe ofertei. Responderia que estou sendo feliz como posso, como consigo, como tenho aprendido a buscar os contentamentos, sem aprisionamentos; nem a obrigação de ter de encontrá-los a todo tempo.
  Se me perguntasse se isso também é aprendizado mesmo, se é conquista e se estou certa se tem custos, eu ficaria em dúvida e diria que acho que sim e que não. É um pouco como remar até pegar uma onda mais forte e deixar ser levada, sabe? E depois remar mais e ser mais levada e numa tempestade manter a calma e remar, remar e me salvar e depois tudo de novo, sempre. Você saberia sobre o que eu falo e talvez sentisse um pouco da água resistente sobre seus remos imaginários, mas também, afável, debaixo do seu bote.

  Se me perguntasse se tem valido a pena, se as escolhas nas quais eu me fiei e aquelas que abandonei me levaram ao lugar que eu gostaria de chegar. Eu, de novo, não teria certeza, mas balançaria a cabeça afirmativamente, devagar, enquanto olharia no fundo dos seus olhos, para você, então, lê-los.
  Acho que diria que algumas vezes tem valido muito, noutras nem tanto, mas olho muito para a esquina seguinte, sabe? Sem ansiedade, quando consigo, estou tratando isso, viu? Mas sou muito filha do porvir. Olho muito para frente, como você sabe. Espero pelos outros dias, acordo para os novos dias, mesmo que pareçam se repetir, às vezes. Preparo uma mochila para viagem que nem sei ao certo quanto tempo dura, mas embarco; quero embarcar mais vezes, mas nem sempre chego a tempo.

  Depois, se me perguntasse como estão as suas plantas, não ocultaria o estado da varanda, com bem poucas, cada vez menos vegetação. Algumas murcharam, troquei a terra, a posição em relação aos raios de sol, tirei e coloquei novos cascalhos no fundo, mas secaram ou ficaram muito úmidas sabe? Excesso de água, falta de sol ou sei lá o quê. Outras eu quis doar, como presentes; coloquei-as em vasos bonitos, circulei-os com laços de linho cru e nem expliquei que você as plantou, embora eu sempre visse as suas mãos dentro de cada vaso ofertado.
   Daqui a pouco nada mais aqui vai ter um passado concreto seu, me desculpa? Me perdoa? Mas essas coisas pesam, passam, prefiro que circulem, ganhem outros ambientes. Te distribuo um pouco por dia, te espalho e acho que assim você resiste mais tempo; em mais lugares. É a minha homenagem a você, se você me perguntasse o porquê.

  Se me perguntasse se eu ainda como chocolate em pó puro, como negaria? E leite em pó também, granola e sanduíches sem suco, refrigerante ou água.
- Como aguenta comer isso assim, seco? Vai passar mal. Isso não deve ser bom. Mania, teimosia...
  Eu como, enquanto sorrio, porque ainda escuto o que você não diz mais. E, assim, nossa conversa é ilimitada; as frases repetidas ainda tocam entre uma música e outra. Porque eu ouvi muitas palavras do dicionário na sua voz, eu tenho um acervo imenso que encaixo nas cenas, conforme as narrativas requisitem a sua presença.
  Se você me perguntasse sobre os invernos na cidade, sobre os gatos, minha família e se eu tenho pagado as contas em dia, eu diria que tudo vai indo, como deve ser. Os pés gelados e as caminhadas, o ronronar carinhoso e os pelos no sofá, as brigas e os afetos, as dívidas e os perdões.

  Se me perguntasse se tenho ido ao médico regularmente, se tenho me alimentado bem e dormido. Digo sim para os três, embora em alguma medida, eu nem saiba o quanto faço mesmo, de maneira satisfatória,  cada coisa e se elas prolongam ou fazem a minha vida ser melhor.
  Se me perguntasse o sexo dos anjos, se aqui e agora é paraíso ou purgatório, sobre o manjar dos deuses, se ainda me lembro das estrelas que vimos, tantas vezes, pela nossa janela. Se me perguntasse o que eu ainda procuro quando olho para o céu; tudo ia ser desculpa para estendermos a nossa conversa improvável.
  Se me perguntasse se tenho falado sobre política à mesa, tenho, muito. A cada dia mais e depois que o assunto indigesto é servido, eu me lembro das suas recomendações, mas não perco a fome, embora o apetite, às vezes, se levante da mesa.

  Se me perguntasse sobre algo que me aconteceu hoje, eu lhe contaria que pela manhã fui à farmácia, comprar xampu e a atendente me desejou um feliz dia das mães, enquanto me entregava a sacola com a nota:
- Um feliz dia das mães.
  Soou dura a frase, embora ela sorrisse. Soou estranha, embora seja completamente normal, nesse domingo. Soou cortante, mas também bonita, natural. Eu que não sou, eu que não tenho. Mas já tive e serei. Serei, mãe? Serei mãe? Nem sei.
  Se você me perguntasse, mãe, como são os meus dias,  diria sobre a saudade que eu sinto, sobre os lugares que você povoa com toda a sua intensidade e as plantas que levei embora, cujas raízes avançam e se entranham ainda mais em mim. Mas que tenho sido feliz, como posso, você sabe. Atravessada pelas pessoas que eu trago para casa todos os dias, mãe. Meio errada, possível, esperando pelo dia seguinte. E na única definição que não me aprisiona nunca: sigo sendo para sempre muito filha da minha mãe, mãe. Se você me perguntasse, mãe; se só mais hoje você me perguntasse.