domingo, 12 de julho de 2026

Só o canário amarelo está fora das grades

  O novo vizinho da porta ao lado tem um pássaro no apartamento, deve estar em uma gaiola e esse pensamento me afetou a manhã inteira. Ouvir o canto do pássaro, enquanto eu tomava café, só não foi agradável, porque eu pensava mais na gaiola do que no canto. Os novos vizinhos também ouvem música alta, há muito tempo não precisava lidar com sons tão altos no mesmo andar. Mas o pássaro, a música alta e até o movimento do apartamento ao lado, me lembrou a infância do bairro onde eu vivia rodeada por muitos sons.
 
  Agora entendo os mais velhos, meus avós e as suas histórias, minhas tias-avós e as suas saudades, meus pais e as suas lembranças. Quanto mais nos afastamos da nossa infância, mais ela nos alcança em um domingo de julho, subindo uma escada, amarrando os tênis, atravessando uma rua, passando em frente à uma padaria, escovando os dentes, conferindo a fatura do cartão, ouvindo através da porta o canto de um pássaro, cantarolando a letra de uma música da qual não se gosta, vislumbrando a imagem de uma gaiola e asas amarelas de um canário. Tudo nos leva para o lugar de onde viemos.
 
  Agora que separo suas mechas de cabelo grisalho, eu me lembro da primeira vez que eu a maquiei, Eu tinha doze e ela quarenta e dois. A pele dela era macia e cheirosa e só começava a aparecer as primeiras linhas de expressão um pouco mais acentuadas, eu acho. O batom eu a deixava passar, seus lábios muito finos e as minhas mãos pouco habilidosas ainda, quase sempre faziam uma linha torta para fora dos limites. Eu já cortava a minha própria franja, pintava as minhas unhas e usava o batom vermelho que ela comprava para ela, mas nunca teve coragem de usar.  
Muitos anos depois eu ainda a maquio, às vezes ajudo a escolher a roupa, sugiro os brincos, lenços ou colares, pinto suas unhas e retoco as raízes brancas do cabelo que ela usa curto desde que a conheci. Mas não corta mais o meu próprio cabelo.
 
  Hoje eu não a maquiei, mas me ofereci para pintar os seus fios, que a cada ano são mais brancos. Ela resistiu um pouco, porque estava frio e não tinha nenhum compromisso essa semana. Mas insisti e estamos as duas agora, esperando pelos quarenta minutos de ação da tinta para ela entrar no banho, enxaguar e eu secar o seu cabelo, que deverá ser, de novo, loiro escuro.
  Enquanto esperamos o tempo de pausa da química, ela me conta mais uma vez — agora é recorrente essa repetição de repertório —  que o primeiro cabelo branco que ela viu na cabeça da sua mãe, perguntou o que era e ela respondeu que estava ficando velha para morrer. De novo ela conta e de novo sua voz embarga, seus olhos ficam molhados e ela sorri com os lábios um pouco trêmulos, enquanto termina a história.
— Eu chorei e disse que pediria a meu pai para comprar tinta de roupa para ela passar no cabelo.
 
  Não sei quantas vezes eu já ouvi essa história, foram muitas. Mas hoje a infância dela me alcançou, pensei se não faço o mesmo esforço que a menina que ela foi, teria feito, se conhecesse os avanços tecnológicos dos cosméticos atuais. 
  Pensei também que ao comprar a caixa de L'oréal 6.0, passar um hidratante em suas têmporas e pescoço, colocar sobre os seus ombros uma toalha antiga e separar as mechas para chegar nas raízes brancas com mais facilidade,  penteá-la e mantê-la com a aparência mais jovial, talvez seja a tinta de roupas que ela pediria para o seu pai. 
 
  Olho profundamente nos olhos dela, enquanto seco o  seu cabelo, percebo que uma mecha atrás da orelha passou incólume pela minha tentativa de rejuvenescê-la. 
— Não sobrou tinta, teremos que retocar na semana que vem.
— É que já não dá mais para esconder a velhice. Deixa isso pra lá. Nem parece.
  Sua resposta foi quase tão árida quanto a da minha avó. Só não falou diretamente da morte. 
Pensei que procurando cada fio branco, eu estendia a vida dela. Pensei que ao devolver a cor aos seus fios eu adiava qualquer partida, mas não.

  Eu quero continuar maquiando-a, quero preencher de pelos falsos suas sobrancelhas falhas, quero destacar seus olhos, cujo verde lembram de uma folha no outono. Eu quero insistir em esconder seus cabelos brancos e fingir para morte que a hora ainda é longe.
  Se eu a salvasse. Se uma pincelada de tinta nas sobrancelhas ralas escondesse do tempo suas pálpebras murchas, todo domingo eu dedicaria o meu tempo nessa obra infinita. De todos nós, só o canário do apartamento ao lado, não tem necessidade de enganar qualquer tempo.

 


 

domingo, 5 de abril de 2026

Eu que nunca ouvi humanos

 Levanto mais tarde do que de costume, mas mais cedo do que planejava, pego o celular e escolho uma música sem álbum definido para que, depois, o próprio tocador me surpreenda.
  Todos os dias eu escuto música, todos os dias pela manhã eu cantarolo, enquanto arrumo a cama e preparo o café. Meus dias começam e muitas vezes terminam com música. 
  Minutos depois, pronta para sair, enquanto fechava a porta de casa, encontro a vizinha do apartamento ao lado que graceja:
    — Acordou alegre hoje!
  Ela vê a dúvida no meu rosto e complementa:
   — Ouvi você cantando.
 
  Eu sempre canto, mas só hoje ela ouviu. 
  Sorrio, desejo um bom-dia, pergunto sobre o novo vaso de flor que ela colocou na sua varanda e seguimos em uma conversa lenta que só uma manhã de sábado pode me proporcionar.
 
  Continuo no meu itinerário planejado, mas não deixo de pensar nas músicas de todos os dias, que ela não ouviu ou não se apercebeu antes. São anos de uma rotina da qual eu mesma não tinha constatado a longevidade. Talvez ela também tenha sido capturada para os outros sons da rua: o cantar do galo a qualquer hora do dia, das maritacas na mata ao lado, dos latidos muito familiares dos cães da vizinhança e até o da calopsita do novo morador do térreo. São muitos sons com os quais tenho concorrido. São muitos outros timbres, mais potentes e desinibidos que o meu. Mas estou lá, a minha voz também é uma paisagem sonora da rua.
 
   Enquanto caminho ouço um álbum conhecido, já salvo nos favoritos. O fone vai somente em uma das orelhas, é preciso deixar um ouvido livre para as buzinas, pneus, barulhos do trânsito em geral e, eventualmente, para ouvir o cumprimento de algum conhecido. Já que não enxergo mais de longe, preciso mais da audição.
  Todos os dias alguma música habita as minhas experiências, mesmo que seja só a lembrança de alguma canção ou letra.
 Aumento a velocidade significativamente, porque já estou quase na metade do trajeto e na parte plana do percurso. E, então, a música do meu fone é sufocada por outra.
  
  De uma massa amorfa de entulhos, restos e descartes semiaproveitados, rodeada por dois cães de rua, uma voz se levanta. É potente, grave e não vacila. A voz que emerge do amontoado de despejos tem tanta certeza que me faz hesitar. Suavizo os passos, desacelero, porque preciso ouvir mais daquela voz. 
  É uma música popular, a qual logo reconheço, embora há muito não a ouvisse. E a voz canta a letra sem errar, toda a nitidez em cada palavra, alta, potente e absoluta. 
  Ninguém mais para, a rua é movimentada e os transeuntes seguem os seus caminhos sem nenhuma surpresa com a voz. Me aproximo mais um pouco e vejo a mulher deitada, rodeada pelos dois cães e por objetos descartados e, agora, recuperados por ela, expostos no degrau de uma loja fechada onde ela se abriga.
 
  Ela também sempre canta, já reconheço a sua voz, mas ainda me surpreende a familiaridade dela com os tons e as letras. Já a ouvi conversar com os cães, xingar moradores do bairro e até justificar sua negativa em ir para abrigos com as assistentes sociais. E é muito diferente. A voz que canta é demasiado exata, mas também emocionante. 
  Ela está deitada em uma calçada, sem nenhum espaço de preservação da sua delicada intimidade, sem a segurança de portas e paredes, sem nenhuma certeza de alimento ou repouso e ainda canta. Os cães ao seu lado estão dóceis e ninguém a interrompe, me surpreende uma beleza dessas a essa hora e ninguém, aparentemente, que a contemple. Talvez de algum dos apartamentos do prédio, alguém comente que ela está feliz, porque canta.
 
  Passo por ela, dobro a esquina e ainda escuto a sua voz. Nada a ver com alegria, embora ela possa estar sim feliz. Nada a ver com segurança, tampouco com alguma certeza de conforto. Mas, certamente, há uma relação da música com a sobrevivência da mulher. 
  Qualquer um que não ouça a sua voz enquanto canta, enxergará a sua vulnerabilidade e limitações cotidianas. Qualquer um verá seus pés sujos descobertos, a garrafa de cachaça, no que substitui uma mesa de cabeceira, e a companhia de dois cães de rua. Escutarão os latidos, os gritos dela com qualquer um que a aborde de maneira mais invasiva, mas não ouvirá suas canções. Sentirá o cheiro do álcool e daquilo que o seu corpo elimina. Sua presença será sempre uma massa amorfa de rejeição e despojo — de tudo aquilo que não serve mais. 
  Mas bastava ela cantar para que quem não a vê,  enxergasse outra presença; tão humana quanto à mãe que cantava enquanto lavava roupa, tão próxima quanto à irmã que desafinava enquanto arrumava a mochila para escola, tão afetuosa quanto à avó que cantava para a neta quando ela estivesse doente e com medo de dormir no escuro. Nem alegria nem tristeza, sobrevivência.

 


 

domingo, 29 de março de 2026

Acordamos em um mundo no qual nunca dormimos

Acordamos sempre em um outro mundo. Desamarrado os nós, lavados os pratos, guardados os copos e talheres, na manhã seguinte, há outras esperas. 
 Acordamos no mesmo mundo de xícaras, meias sujas, cabelos cheirosos e vidros de xampu, completados com água, mas também em um outro mundo. Desconhecido, imprevisível, completamente inexplorado.
  Dormimos enquanto, eventualmente, somos consolados por um sonho e acordamos subitamente com uma topada do dedo mindinho no pé da cama. Acordamos surpreendidos por uma matéria no telejornal, antes mesmo de tomarmos uma xícara de café.
 
  Acordamos sempre em um mundo que não é aquele ao qual conhecíamos. Os nomes das coisas, pessoas e sentimentos permanecem, mas sempre são nomes de coisas, pessoas e sentimentos que podem soar diferentes num outro dia. A cadeira, Bárbara e angústia mudam conforme as horas avançam. Nos preparamos para um mundo que não é o mesmo quando estivermos prontos. 
  Dormimos na roupa de cama a qual escolhemos no sábado recente e embora os trezentos fios sejam os mesmos, agora, estão mais desgastados pela noite.
 
  Acordamos sempre em mundo no qual não saberemos se vamos ganhar ou perder, mesmo que haja indícios na noite antes de dormir. Dormimos em mundo de fotos de mulheres em cima de motos, vespas, bicicletas no Cairo, em Paris, em Alter do Chão, sozinhas, livres, sem secadores de cabelos nas bolsas de viagem e acordamos com a polícia anunciando o fim das buscas com uma mãe chorando e centenas de liberdades contidas.
 Acordamos sempre em mundo cujos sonhos não cabem nas asas de um avião da Panair, sem tempo para sentir o vento na varanda do apartamento financiado, sem tempo para um almoço que emende com o jantar em um restaurante pequeno do Centro com a amiga que não vemos há meses. Acordamos sempre atrasadas para o dia, para o futuro, para a carreira, para os filhos e para cuidar da saúde dos pais. Acordamos com pressa e medo.  
 
   Acordamos sempre em uma outra cidade, diferente daquela que olhamos da janela do ônibus na noite passada, quando saíamos do trabalho. Com menos belezas, lojas que conhecíamos há décadas fechadas e outras novas que se parecem  com as de outras cidades que nunca visitamos. 
  Dormimos enquanto uma cidade inteira se pulveriza. 
  Acordamos em uma praça que foi concretada e árvores que permanecem isoladas e sem vegetação que as contorne. As cadeiras de aço dos botequins não se espalham mais pelas calçadas, agora são parklets dos cafés e bares chiques que estendem o espaço. 
   Acordamos sempre na cidade que o hino aprendido na escola não faz mais sentido.
 
  Acordamos sempre em uma outra casa. Sem o barulho do liquidificador, que silenciou por uma manhã ou a vida inteira, sem a TV ligada na previsão do tempo e as vozes familiares nos cômodos aos quais costumávamos varrer e passar pano. Dormimos numa ilha de afetos e companhia e um dia acordamos sozinhas, saudosas do cheiro de biscoito de nata e beijos mornos de bom-dia.
  Acordamos sempre em uma casa que se reconstruiu em cima de uma outra devassada pelo tempo, pelos dias difíceis e felizes que não soubemos como guardar além da memória.  
Acordamos sempre em outro corpo, menos flexível, menos musculoso e tenro, mas com mais traquejo e relacionamento íntimo com os próprios desejos.
 
  Acordamos sempre em outro país, que não é mais aquele no qual acreditávamos tanto. Mas em um outro do qual desistimos numa noite e insistimos de novo na manhã seguinte. Acordamos em um país cercado por armas e grades, dormimos muitas noites arrepiadas de horror e pena e um dia acordamos, de novo, em um país com promessa de liberdade próspera. Acordamos crédulos de uma comunidade promissora e somos, eventualmente, derrotados por patrícios com os quais não comungamos porque somos diversos.
 
  Acordamos sempre em um outro mundo. Para o qual não fomos preparadas e do qual não podemos escapar sem nos arrepender. Acordamos com a camisola amarrotada em uma casa que precisamos sustentar, com um corpo que é questionado diariamente, em uma cidade que não nos reconhece, em um país que nos enterra sem chorar. Dormimos ameaçadas e acordamos mais cedo para arrumar o cabelo da filha que precisa de nós para sonhar. 
  Acordamos em um mundo no qual nunca dormimos, mas cantamos, enquanto cozinhamos, lavamos, passamos, construímos, dirigimos, ensinamos, analisamos, escrevemos, pesquisamos e não deixamos de criar. 
 

domingo, 22 de março de 2026

Cem dias e cem noites de fúria e vontade de viver

Choveu cem dias e cem noites. E embora digam que não passou de uma semana, acho que é assim que nos lembraremos desse tempo quando já estivermos distantes.
  Nada permaneceu seco, o que não foi levado pela força da água, ficou por secar. Seu nome perdido no meio da lama, meus ossos gelados pela água até os joelhos, as pupilas da nossa vizinha dilatadas de medo. Ficaram a TV, os móveis da sala, do quarto e as fotos da lua de mel dos meus pais em Petrópolis em 1977,  nem o tapete molhou, mas a água lamacenta submergiu a nossa segurança.  
 
  Resgatamos o gato, as violetas na sacada, os ímãs da geladeira, taças, garrafas de vinho, almofadas do sofá, chinelos de borracha e o livro da minha cabeceira, da Silvina Ocampo, que abri na página cujo trecho está sublinhado com lápis: "Não amamos as pessoas pelo que são, e sim pelo que nos obrigam a ser”, enquanto você desmontava as prateleiras encharcadas do armário da pia da cozinha.  
 
  Estamos  a salvos com as lembranças materiais das duas famílias, ainda temos tudo o que parcelamos na casa, mas choveu por cem dias ininterruptos. Ouço alguém no telejornal agradecer pela vida, pelo único bem preservado. Também somos gratos, mas antes e depois choramos.
 Tudo que ardeu, está afogado agora lá fora. Aqui dentro, só pedaços da vida que precisará ser reconstruída sem intervenção externa. Não há outra casa, senão esta. Ainda que nos mudemos um dia, ela não sairá de nós. Para nós, também não existe isenção de impostos,  novos cartões de vacinas e segunda via de documentos, mas também teremos que nos reconstruir.
 
  Difícil nem é nascer; duro, me parece agora, é continuar sem tantas coisas que tivemos. O sobressalto da noite mais angustiante, ainda nos perturba. O agudo das sirenes, os rasantes de helicópteros, os gritos apavorados de humanos como nós. Como apagar a noite de cem dias e cem noites, como apagar o medo de não acordar no outro dia?
 Março está quase no final e ainda estamos úmidos no começo do outono, nenhuma tragédia no jornal é maior do que aquela que não apareceu em lugar nenhum. Faz parte do drama chorar sem ter o porquê.   Tudo sobrou. Se olharmos, detidamente, cada ponto da casa, o resultado é o mesmo: tudo aqui. Mas também para nós, que testemunhamos o céu escuro, a água infinita, o tremor da terra, entendemos que tudo que é, só é provisoriamente. E choramos por isso. 
 
 O inegociável também está um pouco mais desgastado agora. A perspectiva das raízes das árvores suspensas, das fendas e voçorocas no solo se estendem para vida: o que fazer sem estabilidade? Como ter coragem sem nada que garanta o nossos pés fincados ao chão? Retirar os pés do solo e acreditar em uma aterrissagem que não nos escape. Mas tudo nos escapa, porque não somos infalíveis como a água, arrastamos muito pouco. 
  Na rua de cima, nos dias seguintes às chuvas, eu vi sofás, colchões, bichos de pelúcia e varais com roupas secando. Era triste, mas também bonito assistir a tantas vidas de volta ao solo, ao menos ao desejo de um solo.
 
  Houve um tempo, antes de você chegar à ele, que eu subia aquela rua para visitar uma tia. Nos sentávamos embaixo de um abacateiro e assistíamos a vida passar, porque é o que tínhamos. Ela anotava em um bloco de papel as frases que não conseguia dar voz e eu vocalizava as frases de nós duas. Era um diálogo que sempre me deixava extenuada; falar por nós duas.
 
  Mas teve uma vez que ela fez uma lista da ordem dos funerais futuros, onde meu pai era o primeiro e ele está aqui ainda, ela não mais; foi bem antes da chuva. Hoje eu me lembrei disso, quando tentava tirar a lama dos meus tênis de caminhada. Nunca sabemos de nada; nem antes nem depois da água.
 Então me lembrei do nome do livro da Ocampo: Fúria. Primeiro a da chuva, depois, a da nossa vontade de viver. Olho para a clareira no morro tão antigo e antes tão estático, de improvável queda. Queria eu ter a dulcíssima visão do abacateiro, mas agora tudo está com as raízes um pouco expostas. Sobreviveremos ao que não temos controle? Algum dia ouviremos novamente o barulho da chuva sem tremer?

 


domingo, 15 de março de 2026

Morria de medo de ser braçuda

  Tinha medo de ter braços musculosos, braços que não parecessem femininos. Medo de veias saltadas e muques sobressalentes nas camisetas floridas. 
  Tive medo de ser grande e ocupar muito espaço. Medo de não encontrar vestidos em que coubessem o meu tronco e os meus braços, se não fossem tronco e braços de mulher.
 Tinha medo de parecer mais viril do que doce. Tinha medo de ter braços másculos e incontroláveis; que é como eu pensava que os braços fortes eram. Involuntária violência.
 
  Tinha medo de abandonar heranças de delicadeza por causa dos músculos superiores. Nunca mais jardim, nunca mais afagos, nunca mais barcos de papel e embrulhos de presentes.
 Tive medo de que qualquer sinal de força me afastasse do destino de mulher que todas deveriam encontrar.
  Braçuda, adjetivo coloquial para mulher com braços fortes.
  Sou uma mulher braçuda agora.
 
  Não das que colocam o braço para fora do carro, enquanto dirigem ou aguardam impacientes o tráfego lento,  mas das que carregam as próprias compras, com sacos de arroz, fubá e açúcar e um litro de amaciante. E as da vizinha também, quando a encontro na rua de subida escarpada, com sabão em pó, água sanitária e feijão.
  Sou a mulher braçuda que eu tive medo de ser .
  Não das que ameaçam o inimigo, mas daquelas que mudam os móveis de lugar da casa sem pedir ajuda, que sobem cadeiras para limpar debaixo da mesa ou enrolam tapetes pesados para pintar a sala. Das que carregam realidades e, não mais, só sonhos.

  Sou uma mulher com braços fortes, depois do medo. Não das que caçam o jantar, mas que carregam as sacolas do açougue e do mercadinho de verduras e legumes para preparar a própria comida.  
 Tenho braços musculosos de mulher e não exibo meus atributos no parque depois da corrida, tampouco tento destacá-los nas camisetas ou admirá-los no espelho da academia. Sou só uma mulher braçuda das que carregam a autonomia e a desafiadora liberdade que as outras mulheres da família não descobriram que podiam fazer.
 
  Sou uma mulher braçuda para carregar sacolas para o meu pai. E para minha mãe não receber uma ligação no meio da noite, comigo chorando e pedindo ajuda. Meus braços não garantem nada. Mas sou uma mulher braçuda que tenta ter menos medo.  
  Morria de medo de ser braçuda e não caber nos espaços que eram destinados a mim. Morria de medo que os meus braços fortes me desviassem do destino, porque não sabia que os caminhos eram plurais.
  Sou uma mulher braçuda que ninará a própria mãe, quando chegar a hora e acolherá, no colo, o pai que a segurou por anos, com os seus braços fortes. 
   Minha mãe tinha braços franzinos e medo da noite. Eu não quero ter os mesmos medos da minha mãe. Sou uma mulher braçuda que anda no escuro.