sexta-feira, 24 de março de 2017

A voz que não abandona nem no último banco do ônibus

   Na rua sem saída, na travessa que não tem mais uma placa com o nome, na banca de jornal escondida na praça, no estacionamento do prédio comercial no domingo à tarde, no pátio da escola, quando não é recreio, numa  sala desconfortável, olhando para o teto a  espera de uma operação delicada de alguém a quem não se saberá perder do outro lado da porta, no alto do telhado de uma casa antiga, no vão atrás da escada que ninguém vê, alguma voz alcança?
   É possível que a palavra ultrapasse curvas e declives, atravesse paredes e muros com rebocos que esfarelam aos poucos, escorregue por mármores caros de um outro tempo, deslize por entre as pernas das mulheres que não usam meia calça no verão, mergulhe no escuro, sem rota, sem farol, alcance o braço desistente e gelado, abrace o corpo e suba com ele até à superfície?

   Como a voz quente poderá saber que alguém se afoga sem ouvir um grito? Como encontrar com vida, depois que o corpo sucumbir a proximidade do fim? Quanto tempo uma palavra dita  pode durar, depois que entra em contato com o ar? Um segundo, dez? Dias, meses, muitos anos? Ou não tem prazo definido para acabar? É para sempre para quem disse ou ouviu? Para quem dura mais?

  Atravesso a catraca, não tenho troco, por isso não abro a bolsa, não preciso soltar as mãos das barras, não me desequilibro e vou direto procurar um lugar para sentar. O fundo do ônibus está quase vazio, dos sete bancos, dois estão ocupados: um homem numa janela e uma menina no outro extremo, noutra janela. Escolho o meio, sento-me a dois bancos de distância de cada um, se não entrar mais ninguém, vamos espaçosos, livres e silenciosos. O homem tem uns cinquenta anos, tem  sacolas e olha para o que passa sob a sua janela, ao menos seu pescoço está virado para lá. A menina tem uns oito anos, carrega uma mochila de borboletas no colo e segura um celular com uma capa rosa, cheia de adesivos com estrelas metálicas, passa os dedos na tela com mais rapidez do que eu consigo acompanhar. Passageiros embarcam enquanto outros desembarcam, numa mesma parada, mas continuamos só os três no fundo do ônibus.

  Uma voz feminina rompe com o deserto de vozes e ela vem das mãos da menina. Ela ouve o recado até o fim, em volume máximo, sem fones. Escuto a mensagem, mas não entendo o contexto, a voz é afetuosa e se despede com "um beijo, Aninha". A menina da mochila de borboletas é Aninha, tem cabelos bem encaracolados e um arco vermelho que não deixa que eles lhe cubram a testa. Depois, vem outra mensagem e outra. Aninha ouve todos os áudios do celular, em sua maioria as vozes são femininas e um pouco maternais, e todas se despedem com "um beijo, Aninha". São mensagens que desejam bom dia, boa noite, perguntam sobre a saúde de Aninha, dão detalhes sobre alguma festa que ela vai participar: "fala com a sua mãe que o vestuário é livre, você pode vir com a roupa que preferir". Aninha está de uniforme, tento imaginar o que ela gostaria de vestir quando não está com uma calça azul de moletom e uma camisa com o símbolo de um colégio.

  Aninha ouve recados passados, vozes repetidas e sorri para a maioria delas. Aninha tem oito anos, está no fundo de um ônibus com dois desconhecidos, volta da escola sem que os olhos de um adulto do seu meio possam protegê-la da rua e parece segura. Aninha tem um cromossomo a mais, olhos castanhos rasgados e um casaquinho rosa, em cima da mochila,  parece feliz e confortável,  às vezes, suspira com uma palavra mais carinhosa, com um adjetivo no diminutivo e, principalmente, com o "um beijo, Aninha". Ela não usa os fones e é possível que pelo menos metade dos passageiros estejam ouvindo os recados em vozes que nunca conhecerão.

  Existe uma época em que o que vem do amor não causa constrangimento, em que a intimidade pública não é capaz de ferir ninguém, em que repetir vozes passadas não é uma viagem mórbida, mas o resgate de um afeto que nos mantém seguros no amor. Porque desnudar a alma no ônibus não é contravenção. Ouvir as mesmas palavras, as vozes passadas, repetir recados antigos é um jeito de não esquecer que embora as pessoas estejam distantes, suas vozes sempre chegarão na hora certa para uma emergência. As palavras aprendem a encontrar o fundo, mergulham no escuro, as vozes resgatam do frio o coração submerso em água caudalosa. Aninha descobriu um jeito de atravessar a cidade cercada de amor e vozes conhecidas.

  Eu ouvi suas vozes, Aninha, nelas eu pude conhecer você. Aninha, talvez você nunca me ouça, mas eu também gosto tanto de você. Obrigada por ter feito as vozes, que pertencem somente a você, ecoarem pelo corredor insosso e cinza do ônibus urbano. Aninha, eu vou descer na próxima parada e nunca mais apagar as vozes que me pertenceram um dia. As vozes sempre voltam, Aninha. As vozes têm uma habilidade inata de nos içarem do fundo. Boa noite e um beijo Aninha.


segunda-feira, 20 de março de 2017

A bilheteira do carrossel

    Atravessa cinco estações em poucos minutos. Antes de chegar à sexta, se levanta e mal fica de pé, alguém já ocupou o seu lugar. As pessoas estão cansadas logo cedo. As pessoas estão cansadas a qualquer hora do dia. Estão cansadas numa terça-feira, mesmo quando não está quente ou se chove. As pessoas continuam cansadas num sábado e, por isso, acordam tarde.  Estão cansadas de não saberem onde colocar as mãos, se não têm bolsos; de como resolver o problema, se ninguém as ouve;  estão cansadas de pagar o aluguel e quase não ver o céu da janela do apartamento dos fundos. As pessoas estão cansadas de trocar o pneu, de carimbar documentos, de conversar com um homem, ao telefone, sobre títulos de capitalização e apólices de seguro; estão cansadas de estarem cercadas por muros e, mesmo assim, terem medo. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo sagrado, todo dia é dia de disputarem o assento, porque estão cansadas demais.

  Estica as pernas, desamassa a roupa, ajeita a bolsa na frente do corpo, pede licença duas, três, quatro vezes até chegar à porta e esperar que ela se abra. Não precisa se esforçar, sai do metrô, arrastada por uma horda cuja estação final é a mesma dela.
  Anda pelo subsolo asséptico, com seguranças em volta das catracas, sobe as escadas e volta a ver a luz do dia. Atravessa a rua, caminha pelos mesmos dois quarteirões há meses e quase não nota as mudanças, só quando tem alguns cones, uma seta, homens cavando a rua e ela tenta se lembrar de como era antes de isolarem com faixas pretas e amarelas e telas vermelhas, porque não demora e a paisagem será outra ou a mesma de um outro jeito. Está cansada de mudarem as ruas e não se lembrar de como eram. Envelhece e não guarda novas memórias.

  Espera o carro avançar o semáforo amarelo, se oferece para acompanhar uma criança atravessando a avenida tão movimentada, mas o menino se assusta e afasta-se correndo, ela é quem quase causa um acidente. As pessoas estão cansadas de correrem de outras pessoas, de não poderem confiar, de terem medo, mas estão cansadas de olharem nos olhos e serem atacadas, de pararem para ouvir uma história e serem enganadas. Do outro lado da rua, o menino ajeita seus fones, possivelmente não a ouviu e temeu ser roubado. O celular está intacto, ele é mais ágil do que ela; nesta cidade, ela é mais vulnerável do que ele. Ele conhece melhor esse chão do que ela, ele está mais acostumado ao medo do que ela,  aquela avenida é dele e ele não tem oito anos ainda.

  Ela passa pela porta de vidro transparente, mas ninguém a vê, se vêm não a cumprimentam, ela se senta na quarta mesa e só amanhã vai ver o céu azul, de novo. São exatamente quinze minutos sob o céu do dia, quando sair vai ser noite, quando sair estará cansada demais para colecionar memórias, ficará com as mesmas de antes, o beijo quente do pai, o colo macio da mãe, o latido do cachorro, a campainha da vizinha, o cheiro da pomada de menta que abria as vias respiratórias, quando ficava doente e não ia à escola. Por que as memórias mais antigas são as mais vívidas? Que  fenômeno é este de sermos mais próximos do que é mais distante? O cheiro mais remoto é o primeiro que chega.
  Vai procurar a pomada da latinha na farmácia 24 horas, quando sair. Nunca mais descongestionou o nariz, isso deve influenciar no cansaço de todos os dias. Respiração curta, entrecortada, sobressaltada, precisaria de mais céu por dia, mas já acorda cansada e a poucos passos do túnel.

  Seleciona fotos de estranhos, escolhe os filtros, edita as cores: reforça o azul do céu que ela pouco vê, clareia os sorrisos, colore de rosa as bocas e faces, distancia os olhares e encaixa alguns produtos nas mesas deles. Elabora frases otimistas, despretensiosas, mas eficientes, se lembra das redações que fazia na escola, não podia ultrapassar trinta linhas, qualquer assunto tinha que caber entre vinte e cinco e trinta. Agora as linhas são ainda mais limitadas, mas o processo, no final, é o mesmo: agradar e ganhar uma boa nota.
  Às vezes, mergulha numa foto, tira os sapatos, anda na grama fresca, areia fofa ou carpete macio. Sorri com dentes tão brancos quanto os que ela acabou de pintar, olha para céu todos os minutos até não querer mais e não precisa desejar cadeiras, sua cama ou que a padaria não esteja cheia e com fila, porque nunca se cansa. Nas imagens do seu computador, todos estão descansados e saem ao sol.  Queria que existissem aquelas pessoas e lugares, queria acreditar nas frases que escreve, queria não estar entre as grades com trinta linhas, mas não encontra a terceira porta. No prédio, sobe todos os dias pela entrada principal e aprendeu a saída de incêndio num curso, logo que começou a trabalhar na empresa. São só essas duas, ainda, os caminhos que conhece.
  Fica orgulhosa da vida que inventa num cartaz, leva até ao chefe, ele pede para deixar o céu menos azul, "porque esse tom está um pouco artificial", ele diz. Ela não se lembra das cores possíveis de um céu de verdade, o vê tão pouco, só sabe como gostaria que ele fosse. Levanta o olhar para a sala, enquanto carrega seu lugar imaginário, todos estão cansados; então, volta para a sua foto e frase.

   Dez minutos antes das seis da tarde, ela envia sua vida sonhada pelo correio eletrônico, agora não será mais só dela. Quando sair, o céu será azul escuro, quase cinza, os carros terão mais pressa, os meninos correrão mais rápido e as pessoas continuarão cansadas e desassistidas de azul e fé. Amanhã voltará para a engrenagem da qual não se aparta. Suas redações de trinta linhas, dia desses, estarão espalhadas pela cidade e farão outros cansados sonharem com um este outro mundo que ela coloriu.
  Enquanto esse sonho não vem, a pressa dos carros só é aplacada por uma urgência, uma sirene longa e a luz vermelha do socorro colore as faces das pessoas cansadas. Ela se aproxima da avenida para ver mais uma vítima no escuro e reconhece os fones de ouvido, perdidos no chão. O menino que ela não precisou salvar pela manhã e que ninguém salvou no começo da noite, de olhos abertos, mergulhado no vermelho pavoroso da vida que ela nunca inventaria.

   Ela inventa o que não tem e às vezes acredita que é o melhor que pode ter. A bilheteira do carrossel nunca dá uma volta, não entra na fila, só dá as fichas e o troco. A bilheteira do carrossel nem é boa de matemática pura, só memorizou as possibilidades de combinações entre o dinheiro e o número de bilhetes pedidos. O parque é lindo, mas ela não sai do seu metro quadrado, decorado por luzes coloridas.

- Suba. É divertido lá em cima!
  Diz a bilheteira do carrossel; ela mesma nunca saiu da sua cabine.

   A bilheteira do carrossel oferece experiências e sonhos, mas não tira os olhos das linhas que precisa preencher todos os dias. A bilheteira do carrossel está cada dia mais presa às próprias experimentações de cores e frases. Um dia, ela mesma terá que aprender a desligar o carrossel.

  Se abaixa e recolhe os fones, irá guardá-los como a memória mais triste dos últimos anos. Poderiam ter se salvado, os dois, se ele não tivesse se acostumado a fugir e ela a admitir a sua inutilidade. Ele banhado de violência vermelha e ela presa, no alto, sem o azul. O carrossel só brilha à noite, mas nunca para de girar. Queria ter levado-o para um passeio e juntos subiriam nos cavalos cintilantes. Nenhum dos dois sonhou em cima do carrossel, ela vende bilhetes, ele não ouve mais músicas.



quinta-feira, 16 de março de 2017

O último quadro da casa do amor

   Depois do grito, só um silêncio, dolorido, tenso; aterradora ausência mais completa de som. O depois do depois do grito foi uma calma de desistência, de entrega, admitir que não havia mais o que ser feito. Depois do grito, era o corpo sem vida na maca, sem possibilidade alguma de ressuscitação. Nem respirações nem choques ou injeções. Os braços dos socorristas estendidos ao longo do corpo, sem ação alguma, exaustos das tentativas, incompetentes por não salvarem a vida. Depois do grito, o silêncio da morte de algo.

   Quando ela gritou e pediu a separação nem o cachorro, sempre tão barulhento, latiu, o filho inquieto não chorou, o interfone não tocou mais naquele dia. Depois do grito, só um vazio; a dor de cabeça, um gosto ruim na boca,  ressaca recolhida, depois do carnaval. Banho frio, sopa morna, chá quente; o corpo amanhã cura, mas do grito ninguém se esqueceu mais. O menino vai crescer, o cão morrerá daqui uma década e cão e menino, passados muitos anos ainda se lembrarão desse grito.

  O instante logo depois do  grito foi profundamente desolador. Foi o depois da tempestade: recolher os cacos, levantar os prejuízos, puxar a água, secar e torcer o pano pacientemente, quantas vezes fossem necessárias e depois do trabalho, sentar na soleira da porta, olhar para o céu e ter uma felicidade discreta, latejando no peito, só por estar viva depois do dilúvio.
   Quando o grito já havia abandonado este mundo, perdi o apetite de comida, de música, de qualquer alegria comezinha que fosse. Não tive vontade de levantar do sofá. Quis ficar imóvel e até sem respirar, se pudesse. Quis me esforçar o mínimo. Como se o grito também quebrasse alguma coisa em mim. Não respondi às mensagens, não trabalhei até tarde, não reguei as plantas. Foi um luto inconsciente pela culpa de saber que o grito viria e não poder fazer nada para evitá-lo. A limitada habilidade de uma vidente que prevê o futuro, mas não tem meios de interferir nele.

  Os dias seguintes foram como todos os outros dias, ao menos, aparentemente. Escutava risadas, as piadas entre o casal, os latidos do cachorro de olhos molhados, o chamado do homem do gás, as conversas entre vizinhas, o filho reclamando do banho, da comida e da escola, a furadeira, atravessando o tijolo para pregarem um quadro. Se penduram um quadro novo em casa, haverá futuro; tentarão um. A desistência quase sempre atravessa pequenos adiamentos: no projeto para uma viagem ou mudança, na compra de um móvel qualquer, nos planos para um feriado distante, na pintura de uma casa e nos quadros que evitamos pendurar na parede. Mas depois do grito, houve o quadro. Se eu fosse astróloga, eu veria a separação marcada numa linha colorida, sob a regência de um planeta difícil, mas eu omitiria a informação, se tivesse escutado as marteladas no prego, na parede deles.

  Soube antes do grito. Fui sabendo da separação deles por pequenos sinais, caminhos tortos que tomavam, enquanto eu, no banho sussurrava:
- Não é assim. Isso vai dar merda!

   Foi triste ver o amor morrendo, foi brutal assistir a um assassinato com cumplicidade, enquanto eu tomava banho, regava plantas ou fazia o jantar. Um desferia um golpe e o outro, nem esperava o amor recuperar o fôlego ou um pouco da cor, dava um chute. As frases ácidas, as piadas dolorosas, incitando os sorrisos amarelos de ambos, o gracejo mordaz, as críticas tacanhas. A face mais miserável das vinganças; ferir a quem eu não posso mais amar, tentar matar aquele que não me permite mais ser quem eu era, enquanto o amava. Eu vi o amor rolando pelo asfalto, num vazamento pequenininho, bem no início, quase ninguém notava, até a água, agora, correr caudalosa rua abaixo.

   Dia desses penduraram o quadro, mas foi só. Nenhum movimento maior que pudesse estancar o vazamento. A água continua ganhado o asfalto, nem a figura bonita na parede consegue evitar que eles continuem a desferir os golpes, que só fazem jorrar mais água. Bem antes do grito, na casa do amor, no mapa do casal, havia um obstáculo. Depois do grito, nessa mesma casa, há uma ruptura. Se eu passasse o giz de cera, se emendasse a linha interrompida...De nada adiantaria. Identifico as casas astrais, as combinações entre ascendentes, signos lunares e solares, mas nada impede, a qualquer dupla que seja, de dizimarem  um sentimento quando estão dispostos a isto. Touro, com ascendente em virgem e escorpião, com ascendente em libra, organizam, limpam e decoram a casa, antes de incendiá-la.



domingo, 12 de março de 2017

Do oitavo andar é que não virá

  São só oito andares. São oito camadas, de apartamentos e gente, que o separam da superfície. Acho que sobe de elevador, na maioria das vezes, embora as escadas pareçam para ele mais estáveis, mais seguras. Só o concreto é confiável na vida dele, fundada em cimento, tijolo e vigas de aço. Mas tem estado mais cansado, com menos fôlego a cada vez que aperta o oito, que depois de iluminado, sobe obediente, abre a porta subserviente, sem nenhuma pergunta, e ele chega, sem o esforço de escalada. Chegou ao alto e nem sabe se era isso que queria. Quase se esquece do caminho que fez até lá. Do oitavo andar, ele não pode ouvir os motoristas buzinando, a propaganda dos ambulantes, a chuva cair no asfalto, os pneus derrapando na tinta grossa das faixas de pedestres, os cães farejando possibilidades de amor.  Do oitavo andar você não pode me ver.

  O oitavo andar é alto, é distante, é um outro continente, tem clima ambiente, é higienizado, decorado e mantém sempre a melhor educação. O oitavo andar é o último refúgio da sua classe, que não se curva, não se mistura, tampouco se suja com óleo das engrenagens que erguem os elevadores aos seus andares.  Eu não falo a sua língua, não frequento sua tribo. Seus parentes, eu nunca vi. Não sei a sua idade, nem se vacinou contra febre amarela. Eu não estava lá quando você doou sangue, quando quebrou o copo, enquanto lavava louça. Não sei se as suas mãos têm calos, se são lisas, se os dedos são compridos ou tortos. Mas eu nunca me esqueço de olhar para o oitavo andar.

  Oito distâncias da minha vida, sete possibilidades de descer em um andar que não é o seu, seis horas e você vai até a janela, cinco minutos depois já está sentado de novo, quatro toques no telefone até você atender, três minutos para chegar ao elevador, duas voltas de chave na porta,  um só instante que eu o vejo hoje. Subiu os oito andares e eu não estava lá.  Eu não sei se é estrangeiro. E se for, eu não conheço o seu país. Não compartilho da sua mesa, nunca conversei com os seus amigos, não subi no elevador com você, eu sempre estive na escada esperando-o. Oito andares e eu não sei fazer você descer ainda.

  Oito andares de gente que talvez já tenha ouvido a sua voz, tenha discutido com você, reclamado do seu jeito de estacionar o carro ou do barulho e poeira da última reforma que você fez em janeiro. Sua gente não se acostuma com barulho que não é o dela mesma, sua gente não suporta poeira em cima do mobiliário caro e do cabelo com spray.
 Oito andares de gente que talvez tenha visto os seu sorriso gentil e tenha achado-o incrivelmente simpático, bem humorado e disposto às oito da manhã. Oito andares de admiradores com o homem que estaciona o carro na pior vaga, no fundo e que pediu licença antes de começar as obras de reforma e desculpas depois que acabaram. Sua gente não resiste às gentilezas.

  Oito andares que eu não posso subir, oito geografias que eu não aprendi no mapa com o professor que gritava meu nome de um jeito engraçado e paternal. Oito dezenas de vidas que você verá todos os dias e não vai conhecer a minha, porque eu não estou no seu clube dos oito. Oito andares de paredes de todas as cores, mas de tijolo laranja por baixo da delicadeza e do bom gosto - os quais vocês nem sabem o quanto custaram -  iguais aos outros quinhentos da cidade. Oito andares de apartamentos e gentes para eu não me lembrar de você e por que não o esqueço, então? Porque não passo ao sexto, ao sétimo ou ao primeiro, o andar mais acessível de todos.

   Oito andares e eu ainda estou sentada no primeiro degrau do primeiro andar, ninguém passa, ninguém me pergunta o que faço na escada do prédio ao qual não pertenço. Escuto os carros lá fora, eu não saberia viver para sempre no oitavo andar. Na portaria toca uma música antiga, eu canto baixinho, porque me lembro ainda da letra - quantas músicas cabem na memória de um adulto médio, em média? -  parece a trilha da minha história de espionagem, escadas e andares.
- Meu filme é ruim.
Eu disse.
Vou embora e não subo nenhum degrau, nem um.
 
  Meus oito andares de desistência. Há quinze meses que eu só penso em você. Há quinze meses o oitavo andar tem ficado cada vez mais alto. Não tenho garantias, segurança também não tenho, falho mais que os elevadores, não sou concreto, nem aço,  mas tenho olhos fixos para o oitavo andar e nada mais. Do oitavo andar ele não virá. Ele nunca desce, ele só aprendeu a subir. Do encastelado do oitavo andar eu não escuto nem os gritos, porque ele ainda não sabe que está preso. Vou pela rua e farejo possibilidades de afeto com os cães. Na superfície é que eu transito bem.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Do que habita não abandona. Pode não ser mais, mas nunca mais vai embora

  É mais fácil nos acostumarmos a ausência das pessoas do que a falta de quem nós éramos antes delas partirem. Pode ser muito duro, no início, mas acostuma-se a não ouvir mais a voz, a não ter mais o peso das mãos sobre as suas,  não ver mais a chamada perdida no telefone do número para o qual nunca mais ligaremos,  não ter mais a opinião que desequilibrava nossas certezas, não saber mais dos gostos, do gosto da outra pele, do cheiro, da temperatura do outro corpo, do pelo na pia, que não é o seu e de todos os vestígios que provam a existência de alguém que o habita além de você mesmo. Acostuma-se assistir a uma comédia e nunca saber ao certo se ouviria uma risada ou um suspiro de contrariedade, acostuma-se a encontrar a louça suja, na volta do trabalho, que deixamos pela manhã ou a ordem da casa que limpamos no dia anterior. Acostuma-se a ver, ter e ser exatamente ao que era na noite, antes de dormirmos, na manhã seguinte, sem marcas, mágoas ou novidades. 

   Acostuma-se a não tentar entender a mudança na cor dos olhos; um dia verdes noutro não.
-  Os olhos mudam de cor pela luz ou pelo humor? Já reparei que ficam mais verdes quando você está mais alegre, mas também já percebi que se o dia está mais claro, eles ficam mais claros também.
  Acostuma-se a não ter mais dúvidas sobre a cor dos olhos, porque eles nem nos olham mais, mas não nos habituamos a não sermos vistos da maneira que só aqueles olhos podiam nos ver. Outros olhos verão novas pessoas em nós,  descobertas por outras perspectivas, mas e aquela, onde foi enterrada? Para depositarmos flores no seu túmulo.
  Se viajamos, acostumamos a não pensarmos mais se tomou o remédio, se visitou a sua tia, se aguou as plantas, ainda tem alguma? Se desistiu das aulas de piano, se ainda pinta. Sua casa está uma bagunça agora? Tem alguém que troca os lençóis da cama?

   Mas não nos acostumamos a não deixar um bilhete sobre a bancada da cozinha, lembrando do gás, do aluguel e do remédio e a assinar com um nome de algum personagem de quem só nós dois soubéssemos rir. Não nos acostumamos a não chamar de tia, uma tia que não é irmã da nossa mãe nem do nosso pai, não acostumamos a não sermos a heroína, que salva plantas do destino da morte por sede, de não ter que desviar de um piano, que quase não cabe na sala ou de não encontrarmos uma toalha, um tapete, um pano de prato com respingos de cor. Não nos acostumamos a não sermos mais a palavra, o sentimento ou as músicas que decoramos, de tanto a outra voz cantarolar. Não nos acostumamos a mentir que não nos lembramos mais, a  fingir que mantemos as memórias num fundo escuro de uma gaveta do guarda-roupas, quando elas nunca desgrudaram de nós; mesmo que façamos isso várias vezes por dia para todas as pessoas que perguntarem como estamos.  

  Ela sempre subia a rua com uma muda de planta, um vaso, uma raiz, com alguma sacola com adubos, vermífugos ou pedrinhas brancas que decoravam os pés das suas flores. Subia as escadas do ônibus verde, sempre com a ajuda de algum vizinho, com um embrulho difícil de alojar entre os bancos. Plantava, plantava. Eu a vi mais vezes com as mãos na terra do que qualquer outra pessoa que já conheci. Meu avó era agricultor e nem mesmo ele eu vi tantas vezes com as mãos marrons como as dela. Toda lembrança que eu tenho dela, tem um cenário verde ou marrom, cheira a terra molhada e tem olhos grandes e brilhantes, atrás de folhas verdes. Subindo a rua, carregando um  coqueiro pequeno, uma avenca, palmeira ou papiro.
  A entrada da sua casa é de um verde que não se esquece fácil. Morei em outras ruas, bairros, vi casas maiores que a dela, jardins que eu queria para mim, mas o daquela casa é algo comovente. Nunca passei por lá sem desejar ser uma abelha, um grilo, um caramujo que andasse sobre a terra fofa e desviasse das pedrinhas brancas que protegem e enfeitam os pés de rosas.

  Ela envelheceu, passou a carregar menos peso, plantas menores e a pedir que a ajudassem com as suas sacolas. Ficava doente mais vezes ao ano e por mais tempo em cada vez; aos invernos vinha pouco ao jardim, mas sempre voltava a ele. Eram dois os moradores oficiais da casa, ela e o marido; mas no jardim, a vida era múltipla e abundante. Não sei pensar nela sem um cenário verde e as mãos marcadas de terra e barro. Não sei pensar no seu marido sem ela ou no jardim, vivendo por outras mãos. 

  Há três meses ele vive só. Há doze semanas o jardim é mantido por ele. Algumas plantas parecem mais murchas, outras não vingaram e morreram sem crescer. Não sei se ele, como ela, tem habilidade com as plantas e flores, se sabe a época de plantar, de adubar, de limpar, podar e replantar alguma muda. Mas tem se esforçado. Ele rega as plantas que ela deixou e parece que ainda sustenta a vida dela absolutamente intacta. Algumas dezenas de anos compartilhados com a companheira e ele lentamente se acostuma a almoçar sozinho, ir ao banco, supermercado e a plantar flores, mas não sei se ele se habitua a não ouvir o barulho da terra cavada, da água molhando o solo e das pedras se chocando, enquanto lia o jornal ou limpava uma calha do telhado. Não ter as mãos dela, ajeitando seu colarinho é algo a que terá de se acostumar, mas não sentir a mão dela macia, roçando o seu pescoço enquanto desamassava o colarinho da sua camisa, não sentir um cheiro de terra, misturado aos dedos já limpos dela, não é para esta vida.

  Ele liga a mangueira, acho que chora enquanto a água cai. A água molhando as folhas e é certo que ela também se refresca nalgum lugar. Ela tem o que todos gostaríamos, uma continuidade infinita nos olhos e nas mãos de alguém. Ele tem o que nem todos gostamos, mas que fazem de nós o que somos, uma âncora lançada num tempo, atravessada no peito, invisível para quem nunca viu o continente nem o barco. As memórias de ambos um dia estarão cravadas nas rosas, antúrios e begônias e mesmo depois delas, mesmo quando cimentarem o santuário de lembranças de ambos, eles terão habitado a água, a terra, as pedras, os cheiros, as primeiras visões do domingo de algum vizinho. Sinto tanto a falta dela quanto sinto dele, quando era ela quem cuidava do jardim.
  Despedimos, derramamos lágrimas, seguimos com a vida sem o quente da outra pessoa, mas o tempo, esse nunca mais vai embora. Os calendários passam, os números são substituídos, envelhecemos e conhecemos outros de nós em outros olhos, mas quem nós permitimos que nos habitasse um dia, mesmo que parta, não leva consigo toda a história. Ele liga a mangueira, aproveita para chorar a ausência de quem ela levou e por ela, também, que não plantará mais rosas ou novas memórias.