sábado, 22 de julho de 2017

A mínima felicidade absoluta

   Não é um estado em que se mora definitivamente, é visita ocasional, morna, pacífica e mesmo que não dure é muito comemorada. Não é uma música que se escute com frequência, que se dance diariamente, mas quando toca, o corpo reconhece e se torna repleto da substância por, pelo menos, uma coreografia inteira. Não é um cheiro só que acompanha o olfato indefinidamente, mas é numa rua, de repente, num sopro que ele vem, preenche de plenitude os pulmões e vai embora. Não é para ser demorado, guardado também não. É tesouro fluido, que enriquece patrão e operário numa mesma medida, sem que eles nunca saibam um do outro. Não há imagem que confirme, palavra que ateste, não há carimbo ou assinatura; é secreto o terreno, mas público o seu efeito.

  Não querer descolar dela é normal, é humano, é esperado, mas saber que se desprende de nossas mãos por períodos indeterminados é entendimento que a experiência dos afastamentos e aproximações trazem. É preciso ter visto seus nós e, depois, cordas partidas, esgarçadas no chão, por algumas vezes, até saber que é um movimento do qual não temos comando. É um barco mais ou menos a deriva que só nos socorre na sua própria precisão e não na nossa. Achar que vai se afogar sem o seu resgate, bater muito os braços e gritar socorro não a sensibiliza; é ela quem sabe quando vai jogar o bote. Nunca morremos afogados sem vê-la, suspeito.

  A menina tem oito anos e acaba de perder o pai. Na primeira vez que a vi depois da perda, meu corpo inteiro doeu, os músculos se contraíram e eu, ainda, tentei um meio sorriso, alguma palavra que não apareceu e me deixou sozinha com ela, muda. Inteligente e generosa ela me poupou da maturidade e se jogou na minha cintura para ser abraçada. Possivelmente, porque reconhece a nossa irmandade de dores, estamos ligadas por essa ausência a qual não se acostuma, mas ultrapassa sem nem sabermos como. Despedir-se definitivamente de um dos pais na infância é rasgar partes do álbum que jamais serão coladas. Mesmo que as fotos do ausente estejam expostas, que uma história ou duas de amigos e familiares sempre se repitam nos almoços, não ter a novidade de uma pessoa de quem somos feitos é uma dor que não termina nunca. É como se o tempo nos levasse para longe de alguém que sorri eternamente num porta-retratos; até chegarmos a ser mais velhos que o nosso próprio pai.

  Ela merecia ter vivido a velhice do seu pai, tê-lo contrariado, desiludido, ter sido uma filha ruim, mas a única possível e ainda amada. Ela poderia ter descoberto numa fase, num instante muito específico a fragilidade do seu pai, ter chorado com ele e por ele, ter se afastado e voltado, armada de coragem e amor, tê-lo acolhido. Os filhos merecem a experiência de estender os braços aos pais, quando eles vacilam pelo caminho.
  Os pais e os filhos são feitos dessas confusões, desses emaranhados que, de longe, ninguém desfaz; desses choros, beijos, desilusões e orgulhos. Ela tem oito anos e não terá mais o pai, figura ausente ou não, não importa; não importaria a ela se pudesse escolher. Ela o preferiria ausente por longos espaços de tempo, a não ter uma história com ele. Uma vez por semana ou a cada quinze dias, com pensão atrasada e justificativas constrangedoras, ainda era o pai que era dela e de quem, agora, ela não terá nem a espera.

  Depois dos abraços, dos silêncios, dos degraus que enfrentamos as duas, quis dar-lhe um presente. Eu mesma recebi alguns quando a perda me atingiu quase naquela idade. Receber regalos num funeral foi um tipo de reconhecimento da minha identidade infantil e eu quis dar o mesmo a ela. É óbvio que  uma tartaruga, um gato de pelúcia e um globo de inverno não curaram a minha angústia e desentendimento de morte, mas acenaram para algum lugar em mim. Jamais esqueci de cada uma das felicidades quentes que eu recebi no mesmo dia que perdia páginas irrecuperáveis da minha história. Fui amada e me senti amada; isto é sempre o maior consolo, o caminho mais iluminado quando nos afogamos no escuro. Dei a ela três suculentas delicadas, em três vasos muito pequenos que comprei numa floricultura do centro. Ela gostou, mas quis vê-las juntas.
- Separadas, assim, são bonitas, mas tristes.

  Concordei. E, logo, pensamos num jardim, num pequeno jardim de inverno. Numa bacia velha, com a terra que pegamos emprestada do jardim do prédio, plantamos as três suculentas, lado a lado, cercamos com pedrinhas brancas, que também nos emprestaram sem saber, cercamos com um pouco de grama, colocamos dois bancos da casa de bonecas dela e inventamos de passear e nos sentarmos neles. Passamos a tarde enfeitando o jardim e descansando em dois bancos rosas mínimos, que eu nunca tinha me sentado antes. Quanto mais enfeitávamos o jardim, mais eu tinha vontade de ligar para o pai e dizer o quanto a sua filha era maravilhosa.
  Recriei um jardim em miniatura e fui feliz com ele. Queria dar um pai a ela, queria dar o meu próprio se pudesse; ela só tem oito anos e já experimenta estar jogada ao mar e ser subitamente segura por um bote. Ela não verá os cabelos do pai caírem, embranquecerem, os pelos do nariz e orelha se espessarem, não vai ter com ele conversas leves ou discussões submersas em lágrimas. No álbum, seu pai é aquilo que a sua memória reconstruirá, mas no nosso jardim existe uma plenitude de ar, uma música que ela já ensaia dançar, um lugar que a visitará em dias imprevisíveis.

  Toda vez que eu me lembro do que ganhei quando uma ausência se fez na minha vida, é como se o consolo viesse, de novo, me levantar. Não compensa, nunca compensou,  é claro, a minha falta sempre esteve aqui, cravada como uma marca do destino de uma ausência jamais completada. Mas foi a mínima felicidade absoluta possível naquela vez e noutras tantas. Eu, que não posso devolver seu pai, ajudo com o jardim onde moramos por algumas horas e do qual ela se lembrará um dia. Mesmo quando as águas são muitíssimo fortes, quando as correntes nos carregam para mar aberto, em algum momento ela virá e nos resgatará de um afogamento. Num barquinho branco com letras azuis, a mínima felicidade absoluta nos faz querer nadar até a margem de novo. Ela vem, ela sempre vem.




terça-feira, 18 de julho de 2017

Desde que não queime as letras

   Eu não esperava, nunca tinha acontecido antes.  De todas as vezes que a chama se descontrolou em quase nada me afetou; um arroz queimado sim, um tomate demasiado desmanchado no molho, uma água que evaporou antes de ser chá, nada demais.
- É preciso regular o fogão.
  Ele disse. Mas eu soube muito antes, desde que o fundo da panela passou a ser difícil de limpar. Mas não me afetava em grande proporção. Por isso, fui me acostumando com o fogo que mandava em si mesmo. Gostava de ter uma das chamas imprevisíveis, me identifiquei com os seus começos muito sutis, quase ínfimos e depois, quando não se via, uma labareda sem anúncio, queimando cheia de vida no meu fogão, na minha cozinha, na minha vida. Surpreendendo, queimando, destruindo promessas de refeições tranquilas e submetendo o meu paladar aos novos gostos. Era bom ser acordada, de repente, enquanto lavava uma louça e pensava noutra coisa que não era a cozinha, pelo cheiro de comida ou fundo da leiteira queimada. Ninguém entende, mas era mesmo bom os pequenos incêndios que me libertavam das linearidades.

  Buscava, no fogo que desconhecia, alguma possibilidade de assistir ao inesperado nascendo. Era sempre a minha busca pelo que não existia, mas podia acontecer a qualquer virada de segundo. Ver acontecer na imprevisibilidade de um fogo sem controle uma nova linha na minha vida, que nunca coube numa folha de papel pautada. Irregularidade não é defeito, pensei, por isso não chamei o eletricista para ver o fogão. Não foi por irresponsabilidade, mas por fé muito dirigida àquela que, na minha cozinha, não era perigosa, mas proteção contra a prudência de uma vida assistida de regularidades.
  A chama desgovernada me lembra daquilo que nunca aprendi, para o que eu ainda não tenho um nome e que, mesmo assim, entra na minha vida e arde o quanto pode, sem vocativo definido, sem cidadania, sem indícios muito claros de chegada e, também, sem previsão de término. Posso comer o arroz queimado ou não; posso beber o chá na primeira tentativa ou ter que ferver outra xícara de água.

  Moro numa casa há uma década e não sei quase nada dela, porque prefiro não saber nada completamente. Acho que num mesmo quarto uma pessoa deve experimentar levantar de lados diferentes todos os dias, acordar com todas as variações possíveis de incidência do sol no corpo. Uma cama que não muda de lugar não navega em novos sonhos, não ajuda a despertar os outros sujeitos que dormem em nós.
  O chão arranhado, as paredes marcadas de móveis que não estão mais lá, os pregos sem quadros e os quadros sem lugares nas paredes parecem receber novos inquilinos a qualquer dia. Num domingo à tarde eles chegam, numa terça ao meio-dia vão embora; circulam pelos cômodos, vivem, amam, cozinham, acordam e adormecem na minha cama, cujo sol nunca sabe onde irá encontrar sua cabeceira.
 
   Mas a chama, desta vez, subiu muito mais do que a minha atenção podia abrandar, queimou o fundo da panela, o cozido, o pano de prato, pendurado na tampa do fogão aberto e se alastrou sobre a bancada da cozinha. O fogo queimou um caderno de receitas com as letras antigas das pessoas que eu não posso mais segurar as mãos, estourou um dos vidros da janela, pintou de preto o meu teto e salpicou um pouco do seu calor nas minhas mãos que tentaram apagar o descontrole que eu amei.
  Não foi grave, em quase nada. Mas pedi desculpas ao zelador e a cada vizinho preocupado que encontrei depois do incidente. Eu protegi a irregularidade que poderia ter se alastrado pelos corredores, eu guardei o descontrole da chama e achei que pudesse me proteger da linearidade absoluta na sua inconstância.  

  Eu quero um sono novo por dia, claro, mas não posso correr o risco de desabar um teto por isso. Eu quero sim um gosto desconhecido na comida de todos os dias, mas não posso me envenenar pela novidade.
  Me encanta, me desconcerta, me mostre um mundo que eu ainda não tenha me habituado, desde que não me surpreenda, bêbado, gritando à minha janela às duas de uma madrugada de quarta-feira e acorde os vizinhos. Me fale de um medo seu que eu não conheça, desde que não me surpreenda com a herança dos gritos do seu pai com a sua mãe, com a sua mão dele, no meu rosto dela. Eu quero conhecer a sua filosofia,  desde que não me surpreenda com uma ideia grave de verdade e se esqueça de ser só feliz, se eu discordo.

  Eu quero chegar em casa e encontrar os quadros noutros lugares, tropeçar num móvel que não estava lá quando eu saí. Eu quero descobrir novas taças, copos ou talheres, mas só não me surpreenda com seus toques ásperos, quando eu não quero ser tocada; são sempre ásperos os toques não desejados.
  Eu assumi o descontrole do fogo, eu o vi queimar o pano de prato barato na tampa do fogão, vi alcançar o teto branco, destruir o vidro num estalo barulhento e assustador e chamuscar  um caderno de receitas que eu não posso nunca mais ler inteiro. Não lamento pelo fogo que eu escolhi, mas não suporto não ter mais as letras que eu amei bem mais que a chama.

   Na mão, uma fileira de bolhas que eu não poderei estourar, uma pele enrugada, vermelha, latejante, que me lembra a todo tempo da chama descontrolada que eu deixei morar na minha cozinha . Às vezes é preciso que se queime mesmo, às vezes não há alternativa para saber até onde um fogo alcança, mas o tempo de apagá-lo não pode falhar.
  Não acho que  fica cicatriz, não da chama que eu chamei de minha. O fogão, eu ainda não mandei regular, mas o fogo ainda não tive coragem de usar, não aquele, não agora, ardida de surpresa, dolorida de imprevisto não controlável. Que o fogo me surpreenda, porque não tenho muito medo, desde que não queime as letras que me farão muita falta.





sexta-feira, 14 de julho de 2017

Não bastaram cortinas

   Quando comprou uma cortina azul para sua sala clara demais, ele perguntou para ela se combinava com os móveis, com a parede e com o quadro. Achou-a bonita, porque era azul e voava alto, quando ventava, na sala quase vazia dele. Nunca pensou se combinava. Era um presente para ela que, pela manhã, se escondia da claridade no fundo da sala e à noite se assustava  com a presença dos vizinhos do prédio da frente, compartilhando da sua intimidade.
- Quanto eles terão visto?
    A cortina azul era o gesto material de que ele queria que ela ficasse. Por isso a cortina azul pareceu combinar mais com eles do que com os móveis, a parede ou com o quadro. A cortina na janela da sala era o que ficava quando ela procurava e não encontrava mais  a mesma delicadeza e cuidado do dia em que ele instalou o tecido, protegendo  sua vida privada. Às vezes o quadro estava torto e ela deitada no sofá tinha preguiça de colocá-lo no centro, às vezes não ter muitos móveis que ocupassem a sala muito ampla, dava impressão de que ela própria era vazia, ficava melancólica, querendo que um tapete, uma estante, uma mesa de centro ocupassem suas ausências; mas se consolava com a cortina azul de cuidado dele.

  Mas não foi só ela quem se prendeu ao gesto da cortina. Ele, também, quando se sentia em falta ou afastado dos olhos de felicidade dela, tentava recuperá-los noutros gestos, noutras cortinas. Instalou uma bege, com um tecido fluido como a da sala, no quarto deles, enquanto ela viajava. Surpreendeu-a, na volta, quando perguntou se a cortina bege combinava com o espelho, a luminária e os móveis. Ela achou a cortina triste, pois quando ventava, refletia no espelho e ela se sentia no deserto, durante uma tempestade, perdida em areia e solidão. O sol no quarto sempre foi  menos intenso e nenhuma janela dos prédios vizinhos ficava de frente para a intimidade dela. Gostava da liberdade antiga da janela do quarto, mas a cortina bege era a continuidade da azul; era o segunda vez que ele pedia para ela ficar, sem dizer: fique.

  Nas tempestades de areia do quarto, no azul prolongado do vazio da sala e na melancolia  privada de luz e testemunhas, cortina nenhuma era capaz de ocultar dela mesma a imagem de um quadro para sempre torto. A experiência de viver numa casa que só sentia o amor quando estava na sala  e que no quarto, era já um afeto-remendo, uma tentativa de continuação do que só era inteiro num cômodo, quando a cortina azul era levantada pelo vento, passou a pesar tanto que os voos das cortinas despertavam-lhe inveja e dor.

  Ele não sabendo o que fazer com a casa sem a alegria dela e com o amor que não passava nunca da sala,  fez a tentativa de um terceiro gesto salvífico. Instalou uma cortina branca no escritório. Só  o branco traria de volta o frescor da novidade, dos começos, das histórias que não têm as frustrações do passado, os desencontros, as luzes em falta ou demasia,  o desequilibro na balança do privado e da liberdade. O branco pendurado na janela, traria para a casa a harmonia em falta. A cor branca que combina com qualquer parede, móvel ou amor. O vento branco nos livros, nas duas cadeiras, que começaram grudadas e foram se afastando lentamente, até estarem em lados opostos num cômodo muito pequeno. O vento branco nos porta-retratos, que ninguém nunca mais pegou para trocar as fotos; era o único que poderia trazer à casa, o que os outros dois já não ofereciam. Quando ela chegou ele perguntou o que ela achava.
- Combina?
- A cortina?
- Sim, a cortina branca no escritório.

  - As cortinas sempre combinam. O que não combinam são os o meu atrasos com o horário exato do  seu relógio inglês. Não combinam meus dedos longos com o seu pescoço curto de tensão. Não combinam os meus planos de saltar, voar, cair e subir de novo, com o seus de profundo repouso e inércia. Não combinam os meus spaghettis à bolonhesa com a seu simulacro de massa, feita de abobrinha. Não combina a minha aula de natação com você se afogando em desesperanças que nunca acabam. Não combina a sala vazia da nossa casa, com tudo aquilo que eu trouxe quando cheguei e preferi deixar do lado de fora, porque não se pareciam com nada do que era seu. Não combinam os dias das nossas coragens e os das nossas covardias, a gente nem aparece mais para mostrá-las - nosso problema de agenda. Não conversam o meu juiz e o seu. Meu crime e a sua acusação, minha inocência e a sua defesa. Minha culpa e o seu foro privilegiado.

  - Não combina o solo vermelho do meu jardim com a sua muda de planta estrangeira de raízes frágeis. Não combina o meu rock inglês de uma noite aleatória com o seu futebol de toda quarta-feira. Não combina o seu desejo de que eu fique só pelas cortinas; o seu esforço em escolher as cores dos ventos que entrarão na casa, mas a ausência de preocupação com o vazio da sala que nós nunca conseguimos preencher. Não combina a minha festa pela independência com a sua comemoração pela dominação de um território no jogo que eu nunca entendi.
  As cortinas não puderam esconder o que não gostaríamos de ver agora. A cortina azul da sala foi meu melhor presente, eu sou grata por ela, mas as outras duas foram as continuações de uma coisa já completa. Nós nunca fomos além da sala.

- Fui ficando por uma cortina azul. Quanto esforço não fizemos para não soltar o que não já não era mais nosso, mas que custamos a entender?  Eu não quero mais que o sol não entre na minha casa pela manhã, eu não me importo que os vizinhos me vejam comendo, lendo, chorando, varrendo a casa, aguando as plantas, me despindo, cortando as unhas ou amando. Desisto das cortinas e do vazio de entrar pela porta e não saber mais o que fazer para não ir embora. Não combina mais o seu desejo de que eu fique com a minha sensação de que eu nunca entrei completamente. O quadro torto da parede da sala sempre se pareceu muito comigo. Fique com a cortina que você me deu, se eu a levasse eu levaria todo o amor, mas também o vazio de tê-lo só num dos cômodos da casa. A cortina branca combinou com o escritório, mas não apagou nada, nada. As cortinas foram os seus esforços, os meus eu nunca instalei só na janelas. Ficavam por toda a casa, perseguindo-o, cuidando, ouvindo-o, mas quando falavam, você estava ocupado demais cobrindo as janelas; longe demais para ouvir seus gritos.





terça-feira, 11 de julho de 2017

Descansar do asfalto de todos os dias

   Fechar a porta, três voltas com a primeira chave, mais duas com a segunda na fechadura extra. O gás fechado, o fogão não explode. Nenhuma janela aberta. Deitar sem olhar o relógio, o telefone nunca mais será importante, agora. Ninguém que chamar será ouvido. Os nomes que eu sussurrar inconsciente não poderão escutar.
   Deitar sem previsão de ver o sol. Dormir um sono de perder as meias durante a noite e não me dar conta, nunca mais achá-las, não precisar encontrá-las. Dormir de perder dois ou três encontros, dormir enquanto os sóis  passeiam no céu, sem que eu abra a minha janela de susto. Dormir de perder a hora pela manhã, de não saber onde se está, ao acordar. Dormir e ouvir um latido bem longe, o caminhão de lixo, o portão da garagem batendo, o interfone, o choro do bebê do apartamento ao lado - ele também estranhando o mundo - todo som em outra dimensão; em um ouvido fora do sono. Mergulho profundo, sem instrutor nem máscara, sem pressa de voltar, sem ter medo de não reencontrar o caminho feito; sem migalhas de pão na floresta. Deitar antes de alguma coisa e depois de outra e não saber de nenhuma das duas, não precisar saber. E descansar do medo, com a porta fechada, da pressa que eu não consigo acompanhar, dos seus meninos que crescem e se esquecem de mim.

  Fechar as cortinas, evitar a luz de fora. Descansar do seu litro de chá de camomila, dos seus incensos, confundindo o meu olfato, das suas orações numa língua que você desconhece, das suas meditações que eu não quero mais aprender antes de dormir, da essência de lavanda no travesseiro - eu quero o cheiro do mundo. Dormir até encontrar a paz sem culpa, sem roupa branca, sem cartaz de desarmamento. Dormir e não saber nunca de guerra alguma. E ao acordar, me assustar como o fato:
- O quê, o se humano apontando uma arma para outro ser humano? Mas conte-me como isso veio a acontecer.
 Descansar de ter, a todo o tempo, que provar que o meu nome é este, que a minha idade é esta da certidão, que eu não nasci em outro lugar e que eu posso pagar o que não sei se posso pagar, mas eu compro, porque acho que posso.

  Apagar todas as luzes do apartamento. Dormir e esquecer absolutamente todos os foras da vida. Não. Poder me lembrar dos que foram bons. Melhor. Todos acabam sendo. Esquecer do último fora, porque este é o que ainda não coube direito no bolso, aparece um pouco quando ando, os outros não. Descansar de não me interessar pelas facilidades, pelas gentilezas só porque são gentis, pelos cães que abanam o rabo só porque são cães e têm rabos e de não achar que as vozes muito doces nunca gritam, porque são as que mais ensurdecem quando disparam. Descansar de nunca usar o elevador, de andar todos os dias por uma hora e chegar ao mesmo lugar da partida, de esquecer a direção defensiva e seguidas vezes arranhar os carros, de não ir ao oftalmologista, porque não preciso de colírio. 

  Deixar algumas frestas para luz, não o bastante para me despertarem do sono, mas para nutrir as plantas e aquecer o gato. Dormir no quarto dos fundos, na minha cama de apartamento e parecer estar numa rede de varanda, cada balanço um outro vento. Sonhar que estou no mar, atravessando um oceano num navio do qual eu mesma sou comandante - eu não me dou ordens nem me obedeço. Não me entristeço de abandonar o leme nem mergulho no mar por alegria; só navego, livre, vagante, sem  salvar vida alguma. Fechar os olhos manchados de hoje e viver novos  tempos oníricos: dançar descalça uma valsa infinita na proa e segurar a saia do vestido de musseline azul. Descansar do lugar seguro que é o continente e ir sozinha pelo mar; saber chegar na tempestade, no escuro, no frio, segurando a saia do vestido para não molhar a barra.

  Deixar o telefone ligado, mas sem volume; para me encontrarem, mas não falarem comigo. Deitar hoje e não ter que acordar para ir ao supermercado, visitar a mãe depois do almoço, ligar para uma voz que eu não conheço e concordar com aquilo para o qual  eu não tenho alternativa, não ter que saber as respostas. Saber as respostas e guardá-las para mim, se eu quiser.  Descansar da organização do mundo e aproveitar a desordem que é deitar sem hora para levantar. Dormir uma noite, oito horas, três dias ou até não saber chorar mais, não querer, não precisar e acordar com o rosto inchado de ter dormido sem ter que me levantar. Descansar do asfalto e trilhar sonhos difíceis de se deixarem ser pisados.

  Recolher o tapete novo do corredor, escrito bem vindo e dormir. Abraçar cem desconhecidos nos sonhos, como se os conhecesse. Cair de mil abismos, mexer os pés na cama e ouvir de manhã que isso é porque eu crescia durante o sono. Dormir e acordar com mais de um metro e noventa. Eu nem me meço mais, os abismos não aparecem nos meus sonhos há muito. Dormir com todas as luzes apagadas e não ter suspeita nenhuma de uma vida estranha debaixo da cama. Deitar e descansar de ter postura ereta, de não duvidar em voz alta, de não pedir para parar o carro quando a conversa for demasiado chata, de pensar em mentir e escolher não. Descansar das minhas opiniões por algumas horas.

  Dormir sozinha no colchão caro que eu paguei parcelado e sentir o colo quente da pessoa antiga, as suas mãos no meu cabelo, cantarolar em duas vozes sincronizadas a música que eu nunca cheguei a decorar. Dormir aqui e acordar sonolenta, de pijama de flanela estampada, com os pés de um irmão no rosto, na cama de mola em que eu flutuava a cada virada dele. Alguém abre a porta,  me vê fingindo dormir,  assiste um pouco, porque acha bonito o sono leve de alguém que não tem que acordar agora e, depois, fecha a porta, para que nada possa me despertar do sono, que ela acha que eu tenho.
  Dormir para não planejar, não ter que suportar, relevar ou desculpar, para não preparar um jantar que alguém desmarca antes de eu ter tempo de não fazer. Deitar e descansar da semana, do mês, do semestre e dos anos que eu esquecia que dormir também ajudava a sonhar. Descansar do asfalto de todos os dias e caminhar no sonho, com pés trocados, sem cair.



  

domingo, 9 de julho de 2017

Dos invernos que eu não sei salvar

   Eu não errei a rua, era aquela, mas já era outra. Ele não errou a rua, não era para ele, mas era dele. Eu não errei a roupa, eu suava porque andava, mas me protegia do frio quando parada. Ele não errou a roupa, sentia frio, porque era o que tinha para ele.
  Moro numa rua muito inclinada, todos os dias eu subo, vinda de algum lugar. Não há escapatória, de qualquer lugar que eu venha, eu subo, estou fadada a isto: subir. Já nem sei andar, durante muito tempo, em terreno plano, meus pés não se adequam à facilidade, estranham, rejeitam, tropeçam. Se eu quiser ou precisar voltar: eu tenho que subir.
  Então, mais uma vez, eu subia, porque precisava e queria. Mas ele estava lá, obstáculo quase inerte na parte mais íngreme da calçada. Desviei. Porque custa muito subir e não conseguir chegar, mas fui olhando o que eu não pude pisar. Examinando o que estava na calçada agora, mas que antes não estava.  Eu não errei a rua, era aquela, mas era outra.
  Um pequeno monte em cima de um colchão amarelo, com um cobertor colorido, que subia e descia, conforme a respiração de quem estava instalado bem no alto da calçada. Numa das beiradas do cobertor eu vi sua cabeça grisalha, deitada numa sacola com latinhas vazias. Um homem dormia às três da tarde no pior lado da calçada e não se assustava com os pés que passavam a toda hora bem próximos das suas orelhas. O que faço, homem, continuo a subir? Eu, sozinha, olhava para a calçada. Esperei que ele se mexesse, que olhasse para mim, mas ele só dormia, talvez sonhasse, talvez só descansasse da vida, às três da tarde numa sexta-feira. Eu também quis descansar, talvez assistir ao sono dele tenha sido tudo o que eu precisava na sexta às três.

  Mas ele pouco se moveu, mudou de lado uma única vez, quando as latinhas dentro da sacola fizeram muito barulho, e nem abriu os olhos; ninguém mais passou para eu consultar as horas, ter certeza de quem era três e o dia era sete, o mês era julho e com o ano eu não me importava muito. Ninguém mais passou, quando eu precisei. E eu só quis ver os olhos do homem que dormia na calçada, mas ele não acordou a tempo.  Continuei a subida, não queria descer de novo, mas em pouco mais de duas horas eu passaria pelo mesmo lugar. Talvez ele não estivesse mais lá, talvez a calçada muito inclinada o fizesse se sentir mal, talvez alguém oferecesse um lugar mais confortável para ele dormir.Talvez eu só encontrasse o colchão, talvez nunca ninguém tenha estado lá, talvez fosse eu quem sonhasse às três da tarde de sexta-feira.

  Enquanto eu fechava o portão, vi um grupo no mesmo lugar da calçada onde eu assisti o sono de um desconhecido. Tive medo de que tentassem tirá-lo de lá, sem ter um outro lugar para repousar os seus sonhos.
- Um homem que não sonha não tem nada.
Era eu pensando. Ou que ele não estivesse dormindo, quando eu me despedi dos seus olhos fechados. Desci a rua como se não soubesse dele, como se eu nunca o tivesse visto, nem percebido a espuma amarela no início da minha rua. Fingi surpresa e total desconhecimento. Tive medos diferentes para uma mesma pessoa, alguém que eu não pude acordar do sono, inclusive por não saber o que oferecer. O que dar, quando a falta parece imensa? Eu nunca sei.

  Quando eu desci, o homem estava sentado no colchão,  os dois olhos bem abertos, assustados, sem muito entendimento e o grupo ao  redor dele se mobilizava para tirá-lo de lá - meus bons vizinhos. Conheço metade pelo nome e o restante pelos sorrisos matinais.
  Quase cinco da tarde, dezessete graus e  um nevoeiro que ficava cada vez mais denso. Assisti um pouco da comoção,  ligaram para três números diferentes: no primeiro estavam bem calmos, no segundo um pouco mais nervosos e a terceira ligação foi bastante tensa, a vizinha interlocutora chegou a ficar vermelha. Mas ninguém olhava para o homem no colchão, só falavam dele, do seu estado físico, das condições do colchão e do cobertor, mas ninguém falava com ele, ninguém tinha os olhos voltados para ele. Tentavam mais uma ligação e eu já estava atrasada. Olhei para os olhos do homem e ele estava lá, olhando para mim também. Depois de quase três horas e uma subida angustiante eu via os seus olhos. Pensei em ficar, mas eu não tinha um telefone e ninguém, além do homem do colchão, me via ali também.

  Eu subiria a rua certa mais uma vez e nenhum sono me pararia, nenhuma hipótese de sonho desconhecido seguraria as minhas pernas, nenhuma vontade de ver olhos humanos vindos de um colchão na calçada me acompanharia na escalada noturna.
  Fui embora, mas fiquei pensando na solidão pública do homem espremido na espuma, na calçada, rodeado pelos meus vizinhos faladores. Fiquei melancólica a noite toda, mas no inverno todos ficam mais silenciosos e eu me aproveito bastante do clima para me parecer com todos.
  No termômetro, dez graus. No relógio, vinte e três horas e quinze minutos. Os telefonemas certamente tiraram o homem do alto da calçada, eu subiria a rua, com as mãos escondidas de frio e ausência. Eu que não dei nada ao homem da calçada.

  Eu não errei a rua, mas precisei desviar novamente. O homem deitado no colchão amarelo e cobertor estampado, no mesmo lugar. Mas agora, perto dele, uma senhora pequena, fazendo perguntas, esticando o cobertor, ajeitando sacolas ao redor do homem, que respondia baixo, com medo, mas olhando profundamente para ela. Alguns pacotes de biscoitos, garrafas com água e um copo de café que ela segurava para ele se levantar. Eu nunca a tinha visto, mas pela intimidade e preocupação do porteiro, é moradora do prédio que fica em frente a calçada. Subi mais lentamente, tirei as mãos do bolso e vi um homem ser finalmente visto. Ela não ligava para nenhum telefone, enchia o homem de perguntas e ajeitava o lugar em que ele passou a tarde toda. Parecia uma mãe, que organiza o apartamento do filho caçula. Era autoritária, mas muito terna também. Levantou o cobertor do homem assustado, como a mãe que abre a geladeira do filho:
- O senhor não tem meias não? Nesse frio todo sem meias?
O homem balbuciou algumas palavras que eu não conseguia ouvir. A mulher pediu as meias do porteiro:
- Dá para ele suas meias, Elias. Depois arrumo outras.
O homem demorou a entender.
- Como, senhora?
- Suas meias. Rápido, tira aí, que te dou outras lá em cima.
Ele sentou-se no chão e tirou suas meias. A mulher se abaixou e colocou-as nos pés do homem do colchão amarelo. Dois homens grandes, obedecendo aos comandos rigorosos da mulher miúda.

  O homem na rua, no frio de dez graus. Os pés do homem, agora, com meias. Eu quis me desfazer em lágrimas, lavar os pés dele com elas e secá-los com os meu cabelos, numa Madalena sem salvação. Como eu, às três da tarde não pensei em meias, biscoitos, água ou café? Como meia dúzia de moradores se mobilizaram ao telefone e ninguém se abaixou até os pés gelados? Bastava que as meias encontrassem o frio, bastava que eu desse algum tipo de ternura aos olhos que alcançaram os meus. O amor não tem que ser manso, de voz doce ou muito perspicaz; o entendimento de uma pessoa não é o mesmo de uma compra ou reclamação. Ninguém alcança as ausências todas de pessoa alguma, mas enxergar ao menos uma falta e poder cobri-la pode fazer do chão um lugar menos duro para se viver.
  A mulher de sobrancelhas arqueadas e voz ríspida, aqueceu os pés do homem e me descansou da melancolia de uma sexta infeliz. Eu continuei subindo, estou fadada às escaladas que nunca terminam. Em alguns dias, a paisagem é mais bonita e subir parece não cansar tanto; os meus pés parecem gostar.