quarta-feira, 22 de novembro de 2017

No deserto sem nome

   Todas as vezes em que ele chega à praça, há o afastamento. Os que já o conhecem, fazem expressões de desagrado e se viram de costas para ele. Quem o ouve pela primeira vez, se surpreende, tenta compreendê-lo, por alguns minutos, e acabam por desistir. Deixando-o só com o seu destino, sua narrativa confusa, suas emoções, saltando do livro marrom com letras douradas para ninguém.
  Paletó azul desbotado, no calor de quase dezembro, camisa de seda branca, com o colarinho já amarelecido, suor guardado no lenço de pano que ele passa nas têmporas de tempos em tempos. É um homem de mais de setenta anos, suponho, e uma vitalidade na voz, que se só o ouvisse, imaginaria-o bastante jovem. Mas fui ter meus olhos nele primeiro; não tive a chance do engano.

  Ele com sua oratória no parque central, enquanto os funcionários do serviço de iluminação testam as luzes para decorar o prédio, os comerciantes devolvem o troco, as crianças saem da escola e entram na fila para comprarem pipoca e seus pais com pressa, com o carro estacionado em uma vaga proibida; as pessoas passam a todo instante, vão para muitos lugares, se cumprimentam, se olham ou não, conversam, esperam, desistem, odeiam pagar contas e entrar em filas, espantam o cão, esbarram suas sacolas nas pernas de desconhecidos, pedem desculpas ou só puxam com mais força suas alças, reclamam do trânsito, jogam o panfleto da vidente no chão e ele, plácido, na calmaria desbotada do paletó azul, escolhendo palavras. Conectando ideias que eu não consigo alcançar, mas que tenho feito o esforço, pelo tempo livre involuntário, pela identificação com a sua sorte ou talvez pelo  confusão do discurso, que eu tento organizar em mim.
   Minha última saída. Salvação...essa é a palavra mais repetida do repertório dele.

  Ele chega e o parque está lotado, possivelmente, já sabia a hora em que teria mais possibilidades de ser ouvido. Acabada a escola, os pais passam com os filhos, os professores correm para não perderem o ônibus e não se atrasarem para a próxima aula na outra escola, os secretários escolares andam em grupos, os diretores respiram; acabada a hora do expediente, homens atravessam o parque, mulheres ajeitam suas bolsas na frente dos corpos para não serem roubadas.  A hora, o lugar - o mais central da cidade - o figurino, os gestos, a iluminação atrás dele, o lenço, o livro, nada é por acaso. Existe uma intenção muito estudada ou, ao menos, instintiva ou empírica. Nada é improvisado, nada é casual nas cenas que eu assisto há dias. Mas o que mais me chama a continuar a vê-lo e a ouvi-lo inteiramente, com todas as partes do meu corpo, é a sua insistência nas palavras, esta sim, tem atravessado mais que os meus tímpanos.  

   Há, a todo o tempo, gentes no parque, mais gente que circula do que se mantém. E essas vozes transeuntes gritam, assobiam, cantarolam, falam mais alto do que ele; a maioria, o ignora, mas ele sobe sete degraus do prédio público e discursa como se falasse a um auditório muito atento. Hoje choveu e eu não estive lá, mas sou capaz de acreditar que ele estivesse no mesmo lugar, com um guarda-chuva talvez, insistindo, laborioso com as palavras que saem e não encontram outros destinos. É um homem de fé, percebo. Não pelo cristo que ele proclama, mas pela convicção que empreende em cada sílaba, em cada som. Ao deitar, escuto a sua voz no travesseiro, sonho com as palavras dele, chegando em um barco e me salvando de um afogamento em mar alto. Sempre sonhei com afogamentos, mas ser ajudada por palavras de um desconhecido ainda não tinha me acontecido em sonho.

  Mas ele está só. É irremediavelmente sozinho depois que começa a falar. Talvez o aceitassem calado, talvez não o rejeitassem se ele não subisse os sete degraus da escadaria, não passasse o lenço tantas vezes na face, enquanto o discurso segue, mas ele sobe, fala e é sozinho.
  Como o homem da banca de jornais não se mostra solidário? Também compartilha palavras, num outro universo, mas são palavras. Como as professoras da escola não param, por alguns poucos minutos? Elas conhecem o vazio da fala sem escuta, da palavra sem um pouso.

  Falar é um deserto profundo. Depois de estarmos lá não há volta, só vazio e solidão. Se a voz não chega ou se chega diferente, a frustração do universo de areia e sol vai nos acompanhar sempre. Ser ouvido é uma glória que eu não estou certa se ele persegue. A fala dele é a sua salvação. O seu cristo é feito de verbos, pronomes, substantivos, adjetivos e suor.
  Sonho com ele há três noites, em duas, só sua voz apareceu no sonho, com as palavras num barco que me tirava da água. A salvação ecoava...
  Mas na última noite, a de ontem, enquanto eu era imersa pela água, era ele quem vinha no barco, mas calado não me estendia mão. Eu me afogava sem suas palavras.

  A palavra é o seu deserto; não ser ouvido é o seu destino. No deserto sem nome, eu não estou mais só. Tem alguém no mundo que também fala para ninguém. Às dezenove horas, todos os dias, eu estou lá para ouvi-lo, agora. Até eu alcançar a salvação nas palavras dele, até eu não ter que ir mais ao parque a essa hora ou até ele terminar sua travessia. Porque a minha parece bem mais longa, não parece terminar logo. No deserto sem nome, ele ainda; eu, por muito tempo.



domingo, 19 de novembro de 2017

Às vezes, um amor só não serve mesmo para amar

  Um homem coube num poema. Encantador ele ficava na folha, antes branca, agora  escrita. Seus olhos negros, inspirando os versos, sua voz rouca, cadenciando frases,  que contornam outras frases, criando espirais de beleza etérea. Sua estrutura óssea, furando o papel e atravessando o próximo poema que não era sobre ele; agora é, também. Suas sobrancelhas grossas, sublinhando os títulos, suas unhas quadradas, desfolhando mistérios publicados. Suas dúvidas e desistências, costurando a lombada de um livro artesanal. Suas ideias brilhantes, iluminando as ilustrações da capa.
   O Homem-poesia, atravessando as páginas, pisando em nuvens de letras, ocupando as linhas e enchendo de lirismo um poema que era nada antes dele. Vai embora o homem e o poema fica; na estante, no aparador, na mesa de um café, na página de um livro que ele nunca vai ter nas mãos. Obrigada ao homem que viveu no meu poema e depois foi embora.

   Um amor cabe numa música nova, recém descoberta. Ou antiquíssima, que volta a ser trilha constante nas tardes de intervalo do trabalho e noites de junho. Camisa  de estampas que dançam, pés morenos descalços, mechas de cabelo soltas nas orelhas frias. Um amor que serve ao corpo flexível, um amor-bailarino que ensina os ritmos e dura até as pernas fugirem do salão. O homem sonoro, que serve às danças no meio da cozinha, a mão na cintura, aos pés sincronizados e olhos mergulhados na minha alma que se dobra aos sons e palavras entremeadas.
  A condução amorosa de um estado de inércia para uma euforia dançante. Um homem que mora no repeat do aplicativo do meu celular. Obrigada, moço, por durar uma coreografia inteira da Bossa nova que eu não escuto tantas vezes mais.

  Às vezes um amor serve aos sonhos, às narrativas oníricas ou pensamentos que acompanham no elevador.
- Quem terá sido antes do nosso encontro? Quantas voltas sob a lua, até me encontrar? Buscava a minha mão ou uma outra? Por que não soltou a minha, antes de eu escrever uma história para ele? Sabia ele que eu escrevia? Quantos mantras conhecia, antes que eu ensinasse os que eu aprendi na ioga?
  Um amor também serve para desviar caminhos. Se antes ia por uma estrada, o amor ensina um  atalho, uma rua que nunca fez parte do itinerário costumeiro. Um amor que mostra novas geografias nos mapas que eu nunca tinha aberto antes. O amor que desloca os mesmos cenários e expõe outros novos, escondidos. Obrigada ao homem que me convidou para conhecer uma vila que eu ignorava existir e que, agora, escolho para morar, sozinha.

  Às vezes, um amor serve para refletir uma imagem sorridente no espelho do banheiro; um amor para fazer de quem ama outra matéria; se antes, opaca, agora, brilhante.
  Não interessa se é recíproco, o quanto de cada um tem no tubo de ensaio, tampouco o tempo de duração da experiência. O nome das soluções, a raiz do mistério, se a ligação é covalente simples ou dativa  não é mais importante. A investigação inibe a fluidez; o método afasta o verso. Se é ouro de tolo, difícil saber porque não vai consultar perito nenhum; é precioso igual. Obrigada, moço, porque me ajudou a me ver mais brilhante nos dias nublados, em que em espelho nenhum eu me reconhecia. 

   Alguém que sabe coisas que eu não sabia e não saberia, porque não conhecia esse alguém. Um amor serve para desafiar a aprender coisas novas: o que significa a tatuagem em sânscrito? Qual a origem do sobrenome? O cenho franzido é desaprovação ou miopia? Dois terços de tinta branca com um de azul marinho, é a melhor mistura para chegar a um azul céu?
  Um amor que serve para  destacar qualidades que, antes, ninguém nunca soube e  que nem eu me lembrava se tinha. Para desafiar impaciências adormecidas, com atrasos, mentiras, telefones mudos e silêncios conciliadores. Serve para enriquecer o vocabulário com palavras há muito inutilizadas. Obrigada, homem, pela companhia dos dias e pelos passeios em rios transbordantes, sob a lua cheia.

  Às vezes um amor serve ao sono, durmo muito bem com o calor de um outro corpo, com os pelos e a  respiração que inundam o quarto de quentura, presença e conforto. A insônia vai dividir outras camas, enquanto Morfeu me visita com mais frequência.
  E o despertar ganha outro sentido,  abro os olhos, descerro as cortinas, tomo o banho morno da manhã com mais energia,  porque há alguma felicidade que quer sair à rua.
  Obrigada ao pensamento repetido que me adormece e acorda. Mesmo que não dure muito, já é um pouco de saúde na cidade adoecida de desamor.

  Um amor e as suas múltiplas funções. Um amor que serve para conhecer outros mundos, para reconhecer o próprio, para ultrapassar memórias ruins, para ajudar a ouvir vozes internas confusas, para estabelecer contatos com outras civilizações. Um amor que ajude a me molhar em outras águas, chover em outros solos, aprender a nadar com outros peixes.  Escrever, ouvir, ver, cheirar, ler, abraçar, sonhar, descobrir, desafiar, deitar no ombro, dividir a comida, a história, o medo, a alegria. 
   Às vezes,  um amor só não serve mesmo para amar.  Mas um homem coube numa poesia e nas páginas fechadas ele não morre sufocado, o amor-eternidade em um livro que alguém lê.





sábado, 18 de novembro de 2017

Com que linha se costura um útero?


   Ela se mexe, levanta a mão e vou até ela, vou sempre. Se não me chama também não vou, sou só uma resposta para os movimentos de angústia dela e ela também é assim nos meus. Se dou dois passos para trás, ela não me pergunta o porquê, responde e acolhe os meus afastamentos e, também, aproximações urgentes. Seguro a sua mão, está fria e o rosto é mais pálido do que eu estou acostumada a ver; com uma das mãos apertando a minha e a outra segurando o lençol, zonza, me pede água.
- Ainda não pode.
Eu disse.
- Eu sei. Estava te testando.
  Rimos da tonteira dela,  gargalhamos da esperteza dela. E eu vi que agora estava tudo bem. Numa camisola azul de abertura nas costas, de cabelo preso, sem maquiagem, descobertas as sardas no nariz e no queixo e na calmaria química da qual voltava, parecia mais jovem. Sua mão fria na minha, seus olhos amarelos de alegria lenta e, aos poucos, ela voltava de um sono forçado.

  - Tenho medo de cair.
Ela disse, com a voz mais firme do que quando pediu água.
- A cama é alta, mas também é larga. Não tem perigo, não vai cair.
Tentei mantê-la calma. Ela sorriu de olhos fechados e com a voz sonolenta, explicou:
- Não tenho medo da cama, tenho medo de cair...só de cair. Na vida.
 E voltou a dormir.

  Por que ela sempre faz uma revelação muito dura e depois vai embora? Porque depois de uma frase lancinante se muda de país, desliga o telefone, troca de mesa, vai ao banheiro ou se vira para o canto e dorme? Por que ela deixa uma questão profunda e volta para areia, enquanto eu ainda estou no mar? Por que me pede para acender o seu cigarro e pula do carro, enquanto eu procuro o isqueiro? Por que atira a flecha e se embrenha na mata, antes de ver se alcançou o alvo?
Agora já não parece tão vulnerável quanto antes. Tem sede e tem mistério.

  Ela virada para a parede, eu sentada em frente a sua cama.
- Quem caiu mais vezes?
  Pergunto para o sono pálido na cama alta. Eu  não tenho medo de cair. Engraçado. Nunca tive. É um instante involuntário, é fácil, é rápido e só dói quando o corpo encontra o solo, uma dor aguda, que às vezes termina antes do grito sair. Cair é natural, é passivo. É imprevisível, irrefletido, não pede ciência nem fé; é só a entrega ao saber que não há o que fazer. O levantar, sim, é dificultoso. Exige decisão, esforço, impulso determinado ou equilíbrio corajoso.
   Ela abre um pouco os olhos e eu continuo a conversa que a sua condição interrompeu:
- Tenho medo de me levantar.
- Quê? Como?
- Nada. Pode voltar a dormir.
- Eu vou. Vou dormir tudo que eu conseguir.

  - É um cirurgia simples. É como fazer a barra da calça, só que vai ser no meu útero.
Foi assim que ela me explicou ao telefone, quando me pediu para estar com ela.
- Não quero outra pessoa; só você para ir à costureira comigo.
  E riu, fingindo não estar preocupada. Não perguntei muito, embora tivesse algumas questões que gostaria de saber, como: com que linha se costura um útero?
  Seis da tarde e ela não acordou, ainda. Não sei se quer ser mãe, não sei se quer que eu seja a sua, hoje. Olho-a dormir como minha mãe devia fazer quando eu adoecia. Pelo menos, essa é a imagem que tenho: a de ao acordar de uma anestesia, minha mãe estar me olhando, segurando um prato de sopa.

  Queria tomar um sorvete, caminhar, dormir depois do almoço e observar a cidade de dentro do ônibus. Queria nadar, comer doce de laranja cristalizado e segurar o bebê da vizinha, enquanto ela abre o carro e coloca a cadeirinha. Queria ir à farmácia e escolher sabonetes para pele oleosa. Queria lavar o cabelo e ir dormir com ele úmido para deixar a fronha fresca. Queria fazer café, terminar um texto, passar pelo catálogo de filmes, comendo pipoca e  não ter escolhido nenhum, depois de já terminado o último milho. Mas estou faminta, no silêncio de um quarto de hospital, segurando a mão fria de uma mulher com o útero recém costurado que tem medo de cair. Como terá sido a costura no útero dela? O médico me explicou sobre a intervenção, uma cerclagem, as chances de uma futura gravidez, os cuidados nos próximos dias, mas não me disse com que linha ele costurou um útero.
Enquanto ela dormia, eu conversava com a costureira dela e ele tinha mãos muito finas, dedos longos, unhas bem aparadas e a voz calma de um artesão que acabara de remendar uma mulher que talvez queira filhos.

  Temos mais de trinta anos. Começo a desconfiar que talvez eu precise também costurar meu útero. Às vezes eu odeio ser mulher, noutras vezes não sei achar ruim nem quando dói. Às vezes queria estar noutro lugar, às vezes acho perturbador não poder estar aqui.
 Com que linha se costura um útero? Com que linha se costura uma espera que talvez fique para sempre sentada num banco, olhando para a esquina? Com que linha se costura o destino da gente, aguardando o destino do outro que nem sabemos se existe? Que linha eles usam para deixar o útero dela mais seguro e adequado para receber um vida?  Que linha a salvará de uma queda?
  Por precaução, levanto a grade da cama e cochilo na cadeira, enquanto ela dorme com uma linha transpassada dentro dela.
- Levantar é que é o nosso medo. Cair não dura.
 Eu falo, enquanto a preservo de um tombo. Ela já pode beber água se quiser, mas agora que pode, prefere dormir à matar uma sede.








quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O tapete verde da porta de entrada

   Depois que eu dei a última volta na chave, depois que eu amarrei o cabelo, depois que eu entendi que eu não tinha mais nada do outro lado da porta que eu acabava de fechar, depois que mergulhei no escuro do nunca-mais-aqui e chamei um motorista para buscar minhas duas malas, eu quis chorar. Não era dor, não era medo, não era o peso das duas malas com tudo o que eu tinha no apartamento -  que é quase nada - dentro. Era o abandono voluntário do incômodo das correntes que eu não entendia quando comecei a arrastá-las, era alívio, era também lamento. Eram lágrimas de passagem, abertura de caminhos, desfecho sem testemunhas. Aliás, grandes tristezas precisam de espaço, de um par de olhos que mira-as por dentro, não de fora.
  Depois que eu desci as escadas e tirei as duas chaves das portas de entrada do prédio, do chaveiro com a Torre Eiffel e as devolvi ao porteiro, eu senti que entregava um tesouro que nunca me pertenceu. Então, eu entrei no carro e não tive mais lágrimas nem vontade de choro. Eu tinha outro lugar, um endereço do qual eu ainda não tinha decorado o cep, mas tinha um tapete que alguém deixou na porta de entrada.
- Será esquecimento ou herança ofertada de mudança?

  Em cada casa que eu morei, acho que em todas elas, eu sempre encontrei uma espécie de souvenir deixado pelo antigo dono. Minha mãe todas as vezes em que via algum destes objetos esquecidos, jogava fora ou devolvia ao síndico, porteiro ou zelador, tinha uma superstição de que os objetos podiam carregar energias ruins.
- Quem depois de se mudar deixaria más energias grudadas num pote, num prendedor de cabelos, num vaso de planta seca?
  Se eu chegasse antes dela, eu sempre guardava. Era o meu presente de boas vindas. Energia nenhuma me negou a alegria de estabelecer uma conexão com o antigo morador da casa que, agora, era minha. Era um presente dele para mim.

  Agora, tenho um tapete. É bonito, até. Talvez não fosse exatamente um modelo que eu escolheria numa loja de tapetes, porque é oval e eu, geralmente, escolho tapetes retangulares para ficarem mais colados à porta e é verde, que é uma cor que  nunca é uma primeira opção.
  Tenho um tapete na casa que eu ainda não moro, estou num carro sem chorar, subindo uma rua que ainda não é completamente familiar,  levo duas malas e um chaveiro sem chaves, só uma torre desgastada, descascada, que talvez eu devesse ter abandonado no apartamento que eu acabei de deixar para trás, junto com um futuro, uma desilusão e um sonho que eu não sabia como carregar.

  Estico um pouco as pernas antes de descer, treino-as firmes dentro do chão do carro, para ter certeza de que não falharão quando eu saltar, estão em um estado novo agora, numa liberdade, quase errância, e poderão levar-me ao chão se eu não mantiver alguma vigília.  Escolho o pé direito para dar o primeiro passo e fico preparada para o salto.
-  Sim. Estou pronta. Au revoir!
  O motorista abre a porta, mas antes que eu a segure, ele a deixa se fechar de novo em cima da minha mão, eu grito, abro a porta, me atrapalho com as pernas e o meu primeiro pé a chegar ao chão é mesmo o esquerdo. A vida nos leva a fazer toda a sorte de planos, nos orienta a sonhar e fazer dos doces sonhos, planos firmemente traçados, mas uma porta se fecha antes da hora, um dedo apertado lateja, um grito sai e, de repente, a vida é essa bagunça de planos desfeitos na porta de um prédio do qual eu nem sei o cep ainda.

  Desço com alguma dignidade, o motorista me pede desculpas, mas acontece que hoje não há culpas. De ninguém é a culpa, tudo é o instante que tem que ser, que o destino possibilitou acontecer ou não.
- Imagina, não é sua culpa.
  Não é minha também, não foi uma falta de vontade, de vigilância, de entrega, nem amor faltou, que eu sei. Não da minha parte e de nenhuma outra, até o porteiro daquele prédio eu amava, a síndica, a vizinha que dava festas toda vez que eu precisava acordar cedo. Amei tudo e a todos, talvez quase tudo e a quase todos. Amei-o e amei o amor que ele tinha para mim e o que eu tinha também. Mas nos mudamos, antes de eu esvaziar o apartamento e de ter um endereço, eu já não morava mais lá; e essas foram as correntes dos últimos meses.

  O amor mantém as marcas do outro na nossa vida para sempre, mesmo quando nos mudamos um do outro; a paixão mantém-nos num espaço mínimo, completamente entrelaçados, sem nem sabermos que perna é a nossa ou que passo nos pertence, por algum tempo; mas são os sonhos que atam uma relação, que dão substância e possibilitam raízes saudáveis a ela. Mas os sonhos também variam de tessitura e longevidade, alguns duram mais do que a própria decisão de realizá-los. E ficam espalhados pela casa, escondidos nas gavetas, grudados nas teias de aranhas, nos cantos, detrás dos quadros, sobre portas ou basculantes, são esquecidos porque estiveram sempre distantes, foram projetados para fazerem as raízes se abastecerem de nutrientes básicos, por um longo tempo, e mais nada. Outros duram um quase nada, uma viagem, um carro, um filho concebido e as raízes se alastram muito rapidamente e vívidas, para depois, definharem até sucumbirem. 

  Meu tapete verde está na porta, subi decorando o cep, já posso pedir que me mandem correspondências. Giro a chave na nova porta e abro um sonho que me acompanha, sonho que é meu e me mantém longamente vívida. Deixo as malas no chão, abro uma janela que me mostra  a rua e estico minhas raízes.
   A constatação aterradora, primeiro, e depois libertadora,  de que o outro não é a minha resposta e, mesmo que eu quisesse muito, me esforçasse inclusive,  eu não sou a resposta  dele. A minha resposta nunca foi  única, definitiva e incontestável e eu também não serei essa resposta na vida de ninguém.
  O sonho ficou na sala do apartamento vazio, abandonado debaixo da janela, no quadrado iluminado que um dia foi o mais feliz desta cidade e de qualquer outra no mundo. A herança pode doer, mas pode também encher de esperança. Que o próximo casal, os moços, as moças ou a pessoa sozinha que tiver a chave do 701, o encontre e queira cuidar dele. O sonho que ficou no apartamento é o meu tapete verde de boas vindas ao novo morador.







segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A noite de domingo é só para os sobreviventes

   Eu vou escrever sobre ela muitas vezes ainda, vou escrever até não saber mais se é sobre ela, se é sobre mim ou sobre todas as pessoas que nunca partem de mim.Vou escrever para ela não ser esquecida, vou escrever para que ela não desapareça, vou escrever mesmo que eu saiba que ela não precisa de Penélope alguma para tecer a sua existência diurna. Vou escrever sobre ela, sobretudo, para me lembrar sempre dos seus olhos negros, doces e gentis de todos os dias. Vou escrever porque ela leva seus afetos até a estação, se despede de cada um deles com um beijo e volta para casa para cuidar do jardim, guardar a louça e varrer a casa. Vou escrever, porque não sei quase nada sobre o seu passado, vou escrever pelo que ela é agora.
  Vou escrever, porque ela não desmorona num temporal, não é tragada pela terra num abalo sísmico, porque ela não se afoga em si, não se apaga durante um vendaval. Vou escrever porque ela tem duas mãos frágeis e é forte, tem um andar demorado e é sempre precisa, porque ela é uma sobrevivente e isto me parece muito.

 Vou escrever, porque eu não posso libertá-la da dor de existir, enquanto todos estão indo embora. Vou escrever, porque não posso diminuir a sua solidão de viver em uma casa de quatro quartos, com  três camas  vazias. Vou escrever porque não a amparo, se ela se desabriga no meio da noite, não seguro a sua mão, se uma sombra de medo bate à sua porta. Vou escrever pelo café que não divido com ela, pelo pão único que ela busca na padaria todos os dias, pelas rosas que ela cuida, corta, coloca no vaso em cima da mesa da sala e, depois, troca a água até morrerem. Vou escrever porque ela é a deusa da vida no seu microcosmo, ela é quem alimenta, mata a sede e enterra os corpos, depois de esvaírem-se para o eterno. Vou escrever por culpa, identificação, admiração absoluta. Porque mesmo que eu não saiba quem ela é, enquanto escrevo descubro um pouco.

  Quase todos os dias eu miro seu par de olhos iluminados, atentos e muito pretos; vejo seu sorriso, contido nos lábios finos, mas muito expansivos nos olhos apertados e bochechas rosadas saltadas, que me cumprimenta tão docemente, que eu chego a suspeitar de alguma importância da minha vida nos dias dela. No ano passado, por alguns meses, eu tive que suportar a sua ausência. Olhava para sua janela, onde ela passa as tardes acariciando os pelos pretos da sua gata, para o jardim, onde ela organiza todo o ecossistema, olhava para a porta, onde ela ajeita o tapete a cada entrada e saída de visitantes, para o portão, em que ela fecha e abre os cadeados com a perícia de um carcereiro experiente e ela ainda não estava.
  A sua última companhia de todos os dias havia deixando a terceira cama vazia, há pouco, e suspeitei que, por isso, ela não voltaria à casa. Sozinha, debilitada, envelhecida e, ainda, resistente às ofertas que as construtoras fazem pela casa da família. Lamentei pela partida da irmã dela; comovi-me,  profundamente, pelo laço que não dividiriam mais numa mesma dimensão. E, depois, pensava diariamente no que ela, remanescente, sentia depois de mais uma despedida.

  Esperava não vê-la, eu já a tinha escrita e lamentava por ser tudo o que eu tinha dela.
- Mas é alguma coisa, ao menos.
  Eu me consolava, enquanto passava pela frente da sua casa. Mas, renascida, ela voltou para suas rosas, para os caramujos e minhocas no jardim. Foi assim que a reencontrei: de cócoras sobre a grama, com as mãos sujas de terra marrom e um chapéu de palha com um laço com estampas da fitinha do Senhor do Bonfim, o mesmo sorriso e olhos.
  Três meses de luto, de silêncio, de casa vazia, para mim, e ela agora cuidava do que era dela. Firme, doce, resiliente, gentil e com as mãos na terra.  Foi esse o meu reencontro esperado, nada de fogos, abraços emocionados, nenhuma palavra comovente, nenhuma confissão de que eu escrevo para que ela viva; nada. Separadas pelas grades cinzas da casa, nos cumprimentamos e ela voltou para os meus dias.

  Aos domingos, pela manhã, ela vai à igreja, sozinha ou acompanhada por alguém que a encontra descendo a rua com dificuldades e se oferece para ajudá-la; às vezes, a vejo quando saio para correr. À tarde, vejo-a na varanda,  com um vizinho ou visitante e ela sorri sempre. Mas nas noites de domingo eu não conhecia sua rotina - durante a semana sei que assiste às novelas, enquanto borda.
  Hoje, subindo mais tarde, a vi na janela, olhando para  o céu.  Não sei se é o costume dos domingos...olhar o céu. Mas ela olhava, silenciosa e sem nenhuma sombra de sorriso nos lábios, olhos ou bochechas. Olhava, respeitosa, melancólica, mas firme. 

  Escrevo para ela, enquanto suas ausências são refletidas na lua. Escrevo porque seus olhos voltados para o céu, ficaram ainda mais brilhantes.
  Escrevo porque uma irmã com quem viveu, ao menos, cinquenta anos, deixou para trás uma cama vazia, um quarto abandonado, todo o serviço doméstico, as confidências de meio século,  roupas que não cabem em mais ninguém, o difícil compromisso de ir até o fim sozinha e a penosa noite de domingo, quando não passam nem as novelas.

  Eu tenho gostado de pensar na sobrevivência como uma dádiva errante. Um presente tão bonito quanto sem utilidade; uma obrigação embrulhada em papel laminado com laço brilhante, sem cartão algum. Uma missão última, sem ninguém para conferir o seu desenrolar. Única soldada atravessando o campo minado. Ser a última  a ser levada pela derradeira lava de um vulcão. A seleção darwiniana postulou que os mais fortes sobreviveriam, mas ninguém pode saber, de fato, quem é o mais forte. Não antes de todos irem. Talvez nem ela apostasse assim na própria fortaleza.
  Gosto dela, admiro a sobrevivência. Ela, a última a regar o jardim, a oferecer limonada ao entregador de gás, a resistir a especulação imobiliária e, finalmente, a apagar a luz e ir dormir num domingo de noite solitária. A noite de domingo é a granada que não cabe em qualquer mão. A noite de domingo é só para quem carrega a sobrevivência como fardo e bandeira.