sexta-feira, 26 de maio de 2017

Uma porta aberta que não se abre com uma chave

  Não era a fechadura emperrada, a chave perdida no molho de outras possibilidades de abertura, tampouco o andar errado, o prédio, a rua, o bairro ou a cidade; o país também era esse. Era, para mim, uma porta que sempre esteve fechada, surda para todos os meus gritos, ignorante da minha presença, intransponível para a minha insistência. Não cedia, nunca se abria, mesmo que eu estive desamparada, comovida e sangrassem as minhas mãos. Era um edifício alto, no centro, que eu não sabia nunca por onde subir, os elevadores estiveram sempre em manutenção e a escada era secreta demais para mim, eu nunca encontrava alguém que me mostrasse o caminho dela. Foi, desde o princípio, uma montanha muito alta, num inverno que eu não saberia como ultrapassar. Mesmo que eu insistisse em ficar lá fora mal agasalhada, em algum momento a baixa temperatura me levava para dentro.

  Os dois descem juntos, eu os vejo de relance, não precisaria de mais tempo, porque já decorei os seus rostos. Ele é alto, magro e caminha com o queixo meio inclinado, um tipo que não olha para o chão. Ela é mais baixa, um pouco mais corpulenta e olha para frente enquanto anda, o queixo é reto. São grisalhos, os dois, ele é calvo, ela ainda não, mas o cabelo dela já é bem ralo. Hoje os dois estão vestidos de cinza, vão não sei para onde, voltam antes de ficar muito tarde, porque já ouvi ela dizer que tem medo de andar pela cidade depois que escurece. Vejo-os quase sempre juntos e se, um dia, um deles sai só, procuro em volta o outro que não está. Acostumamos os nossos olhos com as composições, depois de algumas vezes repetidas, porque achamos que sempre estiveram lá: a mulher e o cachorro, o homem e a sua pasta, a mãe e o bebê, o adolescente e a mochila preta, a adolescente e o namorado com a camiseta da banda de rock, meus pés e o caminho errado.

   Eles nunca saem de mãos dadas, mesmo que eu gostasse que saíssem, às vezes parece que nem estão juntos, andam próximos, mas não há uma sincronia nos movimentos deles, ele anda rápido, tem passos largos e ela tenta acompanhar. Ele caminha na frente e olha um horizonte acima daquele em que anda, ela apressa os passos e olha exatamente para linha onde pisa. Ela vê vitrines, ele não olha para os lados. Ele está doente, uma vizinha me disse, e ela o acompanha ao hospital, eu tenho visto. E hoje, pela manhã, ele estava especialmente mais magro e pálido, os dois estavam de cinza e, pela primeira vez, achei-os muito parecidos. São um casal bastante idoso. Não sei se têm filhos, netos ou mais alguém com quem possam dividir as dificuldades de uma doença grave entre os dois, mas sei que saem juntos e mesmo que ele vá  sempre a frente dela, é ela quem dá o ritmo dos dois. Porque se ele se afasta alguns metros, logo para e espera que ela esteja tão próxima quanto esteve a vida toda.  Não se distanciam muito e parece que o espaço dessa distância sempre esteve muito calculado.

   E antes, como terá sido? Antes dos cabelos grisalhos, das mãos afastadas, desse compromisso da velhice de se apararem, antes dos médicos, das pílulas, do emagrecimento progressivo dele, dos moletons cinza de ambos, antes dos cabelos ralos, da aposentadoria, do inverno que faz as articulações doerem mais, das bolsas de água quente, do expectorante de menta. Antes dos medos: de pneumonia, das quedas no banheiro, do assalto à casa ou do golpe por telefone. Antes dos tapetes antiderrapantes, das revistas com palavras cruzadas, feitas pelo meio, das meias grossas com chinelos de dormir, dos pijamas de flanela, do medo constante do esquecimento, da sombra na visão, do copo com água balançando na mão que não é mais tão confiável. Quem eram os dois antes de serem dois?

  São onze da noite e eles ainda não chegaram. Perguntei ao porteiro do prédio deles, quando procurava minha gata, se ele tinha notícias do casal ou da gata. A gata ele não tinha visto, do casal, sabia que o homem estava muito mal no hospital e a mulher não voltaria para casa esta noite, pediu que ele deixasse uma jovem subir e buscar algumas roupas dela no apartamento. Pelo menos não passariam a noite com os moletons cinza. Despedi-me do porteiro, segui meu caminho com o queixo inclinado, será que me afeiçoei demais ao casal que já imito o andar do homem? Chamei a gata, fomos para casa, ela sempre vai a frente, mesmo que sejamos uma composição para os outros. Eu sou a mulher com a gata.

  A porta não se abriu ainda. Tenho dificuldades com a chave, sento na soleira  e começo a chorar, faz tanto frio, os dois velhos no hospital gelado e se ele morrer esta noite? E se eles estiverem com medo, há alguém que poderá ajudar a mulher quase calva a enterrar seu marido? Quem ela será sem ele?
   Meus avós casaram-se aos vinte anos, minha avó morreu aos oitenta e cinco, enterraram meu avô cinco anos depois; por sessenta e cinco anos eles foram uma mulher com o seu marido e um marido com sua mulher. É muito difícil ser por muito tempo alguém e, de repente, não poder ser mais. Meu avô não soube.
  Penso em alguma oração, mas cada frase parece muito distante. Não sei se estou certa em repetir frases que eu nunca mais falei. Não tenho fé, mas tenho medo. A gata ronrona.
- Está frio aqui fora eu sei, mas estamos vivas e somos jovens, sua egoísta.
  Choro mais um pouco, a gata não se assusta. Já se acostumou. Um vizinho abre a porta, me vê chorando e oferece ajuda. Digo que a porta emperrou, que a chave não abre, que se puder chamar um chaveiro eu agradeço, porque saí sem celular.
 
 Ele passa a mão na maçaneta da porta, devagar torce o metal brilhante e a minha casa está lá dentro, quente, iluminada e aberta. A porta nem havia sido trancada. A gata já estava sobre o sofá, eu chorava menos e o vizinho me achava louca. Quanto mais eu gritava em frente a porta, quando mais eu forçava a chave na fechadura, quanto mais feria as minhas mãos, mais eu me afastava do que era meu.
  Eu tentava abrir uma porta que esteve sempre aberta,  repetia orações para a saúde de alguém de quem eu nem sabia o nome completo, chorava pelos moletons cinza e pelos cabelos grisalhos, tudo isso para me afastar do medo das ausências, das portas que se fecharam atrás de nós e nunca mais poderão se abrir. Da solidão deles, da minha, do meu avô, da gata, do vizinho, do porteiro do outro prédio. Só o que me fez dormir depois do medo, foi pensar que a mulher, finalmente, segurava a mão do seu marido hoje à noite, que ela não tinha medo do escuro mais e que ambos olhavam para uma mesma altura, agora. Se a porta não abre, talvez  já estejamos do lado de dentro e a chave só sirva para fazer barulho.



terça-feira, 23 de maio de 2017

Hóspede de uma vida inteira

   Já passa das dez, pedi para que não me buscassem, queria andar um pouco sozinha, me perder quem sabe. E, só mais tarde, pedir ajuda, parar um carro, uma pessoa que tivesse direção e então, encontrar o endereço deles. Mas vieram, porque já passa das dez e a cidade não tem a mesma hospitalidade da casa deles.
- Já passa das dez, que bom que chegou!
- Já passa dos dez, que bom que eu não me perdi.
  São mais de dez anos que sabemos uns dos outros, temos fotos, lugares, encontros, escolhas, danças, copos, desvios, adeuses, músicas, livros e perdas em comum. Eles têm os dois, eu não tenho nem a mim, mas eles me buscaram na rodoviária e virão sempre que o meu ônibus parar aqui. Um tem barba, agora, o outro tem o cabelo grisalho, eu também devo estar diferente, mas eles não falam; talvez nem notem, mas a minha mochila é a mesma de outras vindas. Já passa das dez, já passa dos dez e eu vou dormir na casa deles de novo.

  Poderia ficar num hotel aqui ou em outra cidade, não em qualquer hotel e qualquer cidade do mundo, mas em um hotel e cidade que o meu dinheiro pudesse pagar; eu poderia, poderia sim. Mas eu quis vir para cá, eu quis chegar depois das dez nessa rodoviária caótica numa sexta e ver os mesmos rostos, tão diferentes, deles. Gosto de vê-los sempre e, em alguns momentos, gosto de me ver neles, saber que sabem de mim depois dos dez e de como aqueles olhos ainda me veem.
   E depois, também, gosto de tomar café na xícara deles, de me sentar num lugar da mesa e correr o risco de ser o preferido de alguém e não dizerem, mas ficarem desconfortáveis nos seus novos lugares, tentando se acostumarem com a novidade de uma perspectiva nova da sala. Gosto de sentir a tensão entre eles, que pararam uma discussão no meio para me buscarem na rodoviária depois das dez. Há sempre alguma tensão, algum assunto em suspensão entre as pessoas que se amam, quando recebem alguém em casa. E também gosto de como eles se saem no papel de anfitriões digníssimos nesta vida adulta que eles alcançaram; eu já disse que quando os vi, pela primeira vez, eles nunca tinham usado uma calça social?

  Eu gosto de ir dormir numa cama preparada para mim, num quarto que não é o meu, de tomar um banho, antes, num chuveiro que a temperatura eu desconheço e que a potência da água sempre pode me surpreender, de ouvir barulhos novos, de escutar a louça do vizinho que não é igual a do meu, de não saber em que parte do quarto a luz da manhã vai tocar até eu acordar nem os desenhos que ela fará no piso, em que os pés demoram muito a tocar. Gosto de fingir que sempre estive na casa, de pensar em como seria a minha vida se eu nascesse aqui e não visitasse.
  Qual o lugar da mesa seria o meu? Se eu pudesse morar em todas as casas do mundo. Um dia em cada, eu teria mais mesas, mais vidas, mais desconhecimentos e o contentamento da incerteza calorosa. Eu gosto de tomar café na xícara deles e depois lavar na pia deles, com a esponja e o detergente deles.
- Vocês secam a louça ou deixam escorrendo na pia?

  Não me perguntaram nada do que eu não soubesse falar, alisaram meu cabelo, colocaram músicas antigas, relembraram histórias que eu sei que não aconteceram daquele jeito, mas eu que eu fingi desconhecer, para ouvir mais de  histórias onde eu não estive, mas eles se lembram de mim lá. Abriram a varanda, dispuseram um raio de sol para esquentar os meus pés, silenciaram um pouco o trânsito do sábado com uns LPs de jazz e risadas que incendiavam a sala, o quarto, a cozinha, o banheiro deles e, até, fazia o cão latir. Leram poesia, choraram pelas perdas próximas, deitaram no meu colo e eu não derramei meu choro, porque até isso eles fizeram por mim. 

 Eles conhecem o meu nome, do meu rosto sabem todas as sardas, as pintas do pescoço já não são um  mistério, a minha palidez matinal não se parece com a deles, mas também é familiar, o coque frouxo que uso em casa, o moletom  cinza que compramos juntos, numa feira há dez anos, também é conhecido, o que eles não sabem é que eu os assisto com os olhos mais vidrados do que os do cão quando me viu, pela primeira vez, de manhã. O que eles não sabem é que eu gosto quando a casa está bagunçada, eles estão bêbados e me pedem para buscar água. Eu abro a geladeira deles como se fosse minha, encho a garrafa de novo e coloco em um lugar que eu escolheria. Gosto de vê-los com bermudas estampadas e tênis que não usavam antes, de como são amorosos entre eles e de como ainda me buscam quando o meu ônibus para.

  Mas eles sabem o que eu vim buscar e me deram. São dois pares de olhos  que me perscrutam, sem interrogações, são dois pares de ombros que eu posso regar, se eu começar a chover;  um par de generosidade, memórias e amor que marcamos certo numa prova de múltipla escolha. São dois pares de pés que usaram os mesmos tênis por quatro anos e que, hoje, me guiam pela cidade em que eu nunca me perco, porque escuto as suas vozes. O cão late, tomamos a última taça antes de eu ir para a cama, que não é minha, mas que eu mesma arrumei esta noite. Eu poderia ir para qualquer hotel ou cidade no mundo, se tivesse dinheiro, mas em nenhuma eu me deitaria com tanta felicidade.

  É bom chegar depois das dez e não me perder na cidade. É bom chegar depois dos dez e ser a mesma nos olhos deles. É bom deixar a mala na sala, a mochila em cima de um móvel de madeira escura e ficar descalça o final de semana inteiro.  Hotel só é bom para quem quer dormir e não sonhar. Hotel só é bom para quem não gosta de arrumar a cama.
- Desculpa o incômodo, eu hoje vim para nascer aqui.
  Não moro, me hospedo, não tenho casa, ninguém tem. Depois que abriram a porta eu nunca mais fui embora completamente, porque o meu ônibus sempre para onde me buscam. Depois das dez, depois dos dez, ter um lugar no mundo para nascer quantas vezes quiser é a questão mais importante de qualquer prova. Não fui boa aluna, mas acertei o item que importa.




sábado, 20 de maio de 2017

Uma mulher que usa chapéu

  Eu queria ser uma mulher que usa chapéu,  uma mulher que usa sombras cintilantes, que desenha o
mesmo risco certo, com o delineador, nas duas pálpebras e esconde as sardas do verão, no inverno. Eu queria ser uma mulher que sabe escolher paletas de sombras, cujas cores combinem com o tom da pele, que é fria ou quente - eu não sei qual é a minha -  do cabelo e dos olhos. Queria usar luvas, comprar luvas que combinassem com os meus sapatos, queria trabalhar numa loja de luvas, com luvas; no final do expediente, retocar a sombra cintilante e o delineador, usar o chapéu na saída.
  Eu queria ser uma mulher que ao sentir-se ofendida desse bolsadas no seu ofensor, sem medo, sem censuras, que também gritasse com ele e, depois, com o pequeno público que cercasse a cena. Uma mulher que reclamasse do preço do perfume e guardasse, na bolsa, álcool em gel e lenços umedecidos. Eu queria ser uma mulher com um chapéu.

  Eu queria ser uma penteadeira de madeira, que ficasse ao lado de uma janela alta, numa casa perto de uma igreja, para ouvir os sinos e as conversas dos fiéis depois dos rituais; ter  uma banqueta acolchoada e baixa,  que já fosse quase completamente inutilizada, um móvel decorativo, uma herança afetiva. Queria ser um guarda-chuva na neblina, ser tocado levemente pela água, que deslizasse fina com o sopro do vento e que evaporasse antes de chegar às costuras laterais. Eu queria ser uma mandala colorida, com traços que se entrecruzassem várias vezes e que quem olhasse não soubesse dizer se era feia ou bonita, mas que não conseguisse esquecê-la nunca mais e voltasse muitas vezes até  levá-la para casa, porque não poderia mais viver sem ela. Eu queria ser uma penteadeira.

  Eu queria ser uma mulher que atravessa a cidade numa vespa, com um capacete azul metálico. Uma mulher que morasse, ao menos uma vez, em Milão, sem ter que fazer as malas, procurar pelo passaporte, comprar passagem e passar pela imigração. Queria ser a mulher que deita na sua cama latino-americana às dez da noite e acorda, no dia seguinte, entre italianos - sem estranhar - comendo, bebendo, cantando músicas italianas tradicionais e contemporâneas. Queria ser uma artista e pintar numa tela grande, num cavalete, debaixo de uma árvore num parque francês, o homem vermelho de barba, pernas curtas e blusa listrada que eu vejo todos os dias e que acho a imagem mais bonita da cidade. Eu queria ser as mãos que fariam seu rosto quente e olhos castanhos durarem infinitamente. Eu queria ser uma mulher que atravessa.

  Eu queria ser um cavalo velho, teimoso e insistente de solidão, que corresse todos os dias largas distâncias, que fizesse os seus pretensos donos acharem que não voltaria mais e eu voltaria sempre. Sujo, ferido, sangrando, cansado, faminto, quase morto, mas voltaria porque as patas sempre reconheceriam o caminho. Um animal que não aceita sela e arreio, mas que volta todos os dias por uma escolha que não é sua, mas está nele. Queria ser o coro do chicote, que gritasse todas as vezes antes de tocar qualquer outra pele, por compaixão, identificação e solidariedade. Um chicote que sentisse e compartilhasse da dor do agredido. Eu queria ser um cavalo.

  Eu queria ser uma jovem professora, que não recusasse um convite do desconhecido, na praça às três da tarde de uma quinta-feira  e dançasse com ele, porque sorriu e ela não sabe, ainda, como se afastar de dentes felizes. Um par no meio de uma praça quase vazia, dançando uma música que ela não conhece, mas que não importa, porque ele leva o seu corpo como se ela fosse uma nuvem e que depois da dança ele fizesse uma reverência e se despedissem. Ela voltava para a sala de aula e, enquanto fizesse a chamada, achava que a dança foi o que de mais bonito lhe aconteceu nos últimos meses. E que, por isso, voltasse à praça todos os dias para quem sabe mais uma dança. Eu queria ser uma jovem professora.

  Eu queria ser uma cidade estrangeira, que nunca tivesse nativos, uma cidade com moradores ocasionais que estivessem partindo, chegando ou buscando um lugar que não fosse eu. Uma cidade sem igrejas, escolas, times de futebol, delegacias, tribunais ou associações de qualquer coisa. Uma cidade com circos que se instalavam por algumas semanas, com praias que só eram frequentadas no verão, com uma língua diferente a cada dia. Uma cidade que não se encontraria no mapa, mas que tivesse memória, casas grandes e árvores frondosas. Queria ser uma cidade tão bonita, tão pequena, tão insignificante, tão passageira. Eu queria ser uma cidade estrangeira.

  Eu queria esconder segredos e não achá-los nunca mais, se não quisesse; mas publicá-los quando necessário. Queria descer um rio sem segurar na vegetação das margens, até um banco de areia, um bicho, um tronco de árvore ou um pescador interromper minha descida. Queria atravessar uma rua sem olhar os carros, sair a qualquer hora pela cidade e não ter medo. Queria usar uma roupa bem velha, com o pudor e orgulho que uso um vestido novo. Queria ficar em silêncio por vários dias e mesmo assim ser amplamente ouvida. Eu queria esconder segredos ou publicá-los e, mesmo assim, ser amplamente respeitada. Amanhã eu começo a usar um chapéu e, então, serei uma mulher que usa chapéu; este é só um primeiro passo. A estrada não parece que vai acabar logo.




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Mulheres em trânsito

  Há tantos dias que ela passa, que eu não sei dizer quantos. Não me lembro da primeira vez que a vi, se sempre esteve ou fui eu quem inventou um passado para nós duas. Mas me lembro dela como uma vizinha da casa verde da rua debaixo que me deixava pegar uma rosa do seu jardim, pela grade, no  dia do meu aniversário ou a professora na infância que escrevia o meu nome no quadro, para eu copiar, ela dar um visto e eu voltar para casa orgulhosa de ter um nome que saía da minha mão ou, ainda, a amiga da minha mãe, que fazia tranças no meu cabelo, porque a minha mãe não fazia. Ela é um passado desses, uma memória afetuosa, que poderia ter se diluído na distância, descontinuado na inutilidade ou ter sido  já apagada junto com o giz no quadro, há muito. Mas que passeia, logo ali, volta e surpreende, numa esquina, numa quarta-feira, numa ida ao dentista no horário do almoço. 

  Sempre a vejo no centro, atravessando ruas, andando pelas calçadas, indo ou voltando de algum lugar, nunca a vi sentada num ponto de ônibus, por exemplo, ou esperando, com uma senha nas mãos, numa fila do banco ou por um pão fresco na padaria. Ela é uma mulher em trânsito. Mas já a vi tomando um ônibus, mas assim: em pé e sempre mais rápida do que eu consigo acompanhar, me perco dela todas as vezes. Não sei de onde vem e nunca vejo ela chegar, ela só passa, sempre. 
  O andar é seguro, uma  bengala firme segue na frente e testa o piso antes dela chegar. Nas retas, ela segue muito bem com a sua individualidade e independência, mas nas curvas, às vezes precisa confirmar se segue para a direita ou esquerda, se já chegou mesmo ao prédio que queria. Então, aborda alguém que, em geral, é solícito, solidário e oferece um braço e direção. Ela aceita, temporariamente, que alguém a guie.

  Ela é cega,  não sei se eu sempre soube ou se me acostumei aos poucos com os óculos escuros e a bengala que a protege de alguns sobressaltos. E, hoje, esteve sentada a minha frente numa rodoviária. No banco, ao seu lado, duas malas grandes, que eu não vi chegarem, assim como ela que eu achava que não estava lá quando eu me sentei. Mas que também não estou certa, porque ela sempre aparece quando eu me distraio.  Eu olhava para ela, quando depois de atender ao celular não a vi mais, as duas malas continuavam nos bancos, mas ela, de novo, não estava mais lá. A ligação não era importante, só durou o tempo de eu perdê-la na rodoviária, não queria embarcar sem saber se ela já tinha ido sem as malas. Olhei em volta e ela estava na lanchonete logo em frente, tomava um refrigerante e comia um pastel. Peguei a minha bolsa e quis ficar perto do único rosto conhecido, antes de viajar. Sinto um desamparo antes de entrar em qualquer ônibus; é como se eu fugisse e esperasse alguém aparecer e me pedir para ficar. Viajar é sempre uma alegria triste, uma melancolia de partida, uma expectativa de novidade. Sou sempre muito perdida em trânsito. Não sei andar com a segurança da mulher a quem persigo na rodoviária.

  Ela não sabe quem eu sou, sento no balcão ao seu lado e peço um pão de queijo, a única coisa que eu sei pedir fora de casa. Ela serve seu copo com refrigerante e pela primeira vez eu escuto sua voz. E ela fala comigo:
- Aceita um copo? Bebe comigo. Eu não consigo tomar um inteiro.
  Eu não disse nada, fiquei olhando para as unhas vermelhas dela, apertando a lata de refrigerante e, finalmente, ouvindo a voz de uma pessoa antiga, que nunca soube de mim. Ela pediu outro copo, encheu de refrigerante laranja e me deu, antes que eu conseguisse articular uma recusa ou agradecimento. Nem sim nem não; terminei o pão de queijo com um refrigerante doce e gelado, curiosa para saber como ela escolhia a cor do esmalte.

  Eu queria conversar, mas ela comia pastel e eu não sabia o que dizer. Quando eu achava que sabia, ela mordia, quando ela não mordia, eu não tinha mais palavras. Quando terminei o refrigerante, ela acabou o pastel, se levantou, eu agradeci pela bebida, ela sorriu:
- Obrigada por compartilhar o açúcar comigo.
   E foi ao caixa, sem pedir direção. A bengala encontrou um declive, ela se desequilibrou, deixou a carteira cair, eu a recolhi do chão e entreguei a ela, então, de novo, ela sumiu. Deixou para trás uma moeda de vinte cinco centavos, caída no chão, que eu só encontrei depois e o meu pão de queijo pago. Ainda a vi seguindo para a área de embarque e um funcionário da rodoviária, levando suas duas malas. A bengala ia na frente dos dois e ela andava mais rápido do que o homem e os outros passageiros.

   Viajamos. Eu não fico fora o tempo que eu gostaria. Prestações de conta, satisfações ao analista, boletos bancários, uma gata faminta e um amor me esperam. Pelo tamanho da sua bagagem, ela sim vai ficar mais tempo noutro lugar, mesmo que tenha para quem voltar aqui. Vou sentir saudade, lembrar da rosa que ela nunca me permitiu roubar, do meu nome no quadro que ela não escreveu com o giz azul e da trança que eu sei que ela saberia fazer, mas nunca tocou no meu cabelo. Nosso passado de ausências, nossos olhares enterrados na escuridão, as unhas vermelhas dela batendo no balcão, um refrigerante alaranjado e a moeda de vinte e cinco centavos que eu guardei na minha bolsa, também farão parte do nosso passado. Estreitamos laços, que talvez um dia ela saiba. 

  A mulher que não me vê, não começa um assunto comigo, não segura no meu braço para atravessar a rua nem pede indicações de um lugar que não existe, tateia um corredor escuro e sempre chega no fim. Já eu, me perco no claro, fico reticente depois de dois passos e volto um. Cada uma com suas falhas, limitações e viagens de ônibus. Cada par de olhos, buscando seu lugar e o que a vida pode entregar ou nos negar repetidamente. 
  Para chegar a lugar nenhum, eu encolho as pernas, deixo a coluna ereta e tiro da bolsa um livro com a perícia de um avaliador de raridades. Não levo muito, não sei o que deixo e volto sempre que começo a gostar de outro lugar, não tenho bengala que me previna das quedas nem passos seguros. Mas o doce do refrigerante me acalma e me faz pensar no quanto estar em trânsito é o melhor lugar para se estar. No escuro ninguém vive, se puder viajar e ter um lugar para voltar.




domingo, 14 de maio de 2017

Só um ponteiro não se move mais rápido do que eu

  O ponteiro pequeno corre e atravessa a cidade, ninguém o vê; o médio interrompe um ciclo, marca o
intervalo entre uma coisa e outra, deixa alguém na sala por uma espera; o ponteiro grande assinala o evento alcançável por uma única vez, todos temem o ponteiro maior. Dourado, espelhado, de madeira antiga, com algarismos que aprendíamos na escola e depois, quase não usamos mais ou com símbolos que vemos todos os dias, digitais, de plástico, de fibra de carbono, à prova d'água e de vistas cansadas,  todos, absolutamente, marcam essa dissolução, amanhã é outra coisa, esse ponteiro que está sob o meu pé e que me escapa, escorrega, vai embora sem se despedir, uma esteira infinita que não volta, não para. Todos temem o ponteiro maior, porque não vêm que é no pequeno que a maratona começa e termina.

   Alarme, alerta, acorda, mais cinco minutos, passaram-se vinte: atraso, meio pão, sem café, o lixo eu pego depois, bom di.., cortou o "A", amanhã eu o recupero, antes da porta do elevador se fechar.
- Oitavo, por fa...obriga...
  O ponteiro pequeno interrompe a minha voz, sucessivas vezes,  o médio me leva para o trabalho e só no grande eu sou presença visível. 
- Malditos 5 minutos. Amanhã acordo meia hora mais cedo
  O relógio me desafia, não me espera, mas também não me alcança, me ultrapassa sem me tocar, passa correndo e levanta a minha saia e os meus cabelos, não me pergunta para onde vou ou se eu quero ir junto. Eu o sigo, permanentemente, sem querer. Os três ponteiros assaltam a cidade e não os prendem, o trio assassina sonhos e nunca vão a julgamento, os três ponteiros sequestram e escondem as fotos de famílias inteiras, no fundo de uma caixa, mas não encontram o cativeiro.

  No outro dia, prometo ser mais ágil que o ponteiro médio, já que o pequeno é arisco demais e nunca chegamos a trocar olhares. Um raio de luz quente atravessa a cortina, esquenta o lençol e me desperta antes do alarme.
- Hoje eu não preciso correr. Estou em vantagem.
  Arrumo a mesa, entro no banho, enquanto a água do café começa a formar pequenas bolhas no fundo da leiteira nova, saio do banho,  rego o pó com a água quente. Ouço o homem que lava as escadas do prédio, com o dia amanhecendo ainda, ele canta e eu não ligo a TV nem o rádio. Só ouço o homem entoando os hinos religiosos que eu desconheço. No primeiro gole de café, a gata atravessa as minhas pernas, sobe no meu colo, ficamos as duas silenciosas e quietas, escutando os hinos e as nossas respirações. Levanto a xícara cuidadosa, para não afastar a gata, que me devolve o que sou, quando apartada do trio.
- Amanheci antes de ser acordada, tenho tempo.

  Eu e a gata, na sala, tomando o café, subvertendo as ordens do dia, resistindo à agenda, ao controle, aos três maratonistas que nos tiram da cama e da companhia afetuosa e ancestral uma da outra. Eu e a gata libertas dos olhares, dos emails que eu respondo e ela ignora, dos cães que ela provoca e eu não conheço, dos homens que me massacram e ela não me salva, das alturas das quais ela cai e eu não amorteço as quedas com um colchão. Nós duas, nos desconhecendo depois do café da manhã até o jantar e nos conectando durante as madrugadas.
  Os hinos cessam, as escadas já estão limpas, o céu é claro de novo, a gata pula do meu colo e, de novo, o ponteiro pequeno me ultrapassa, o  médio se aproxima e o grande já aparece no final do corredor. Eu e a gata nunca mais tomaremos este mesmo café. A xícara na pia, o lixo na porta da frente, a gata já saiu pela varanda.
- Bom dia.
Consigo uma voz completa hoje

- Oitavo andar, por favor. Obrigada.

  Em cima da mesa, uma bailarina na caixa de música  não rodopia mais, mas não a abandono, ela está há mais tempo na cidade do que eu, o ponteiro grande apaga as luzes, me faz descer o elevador. O ponteiro pequeno já passou sob os meus pés, tento me equilibrar no médio até em casa. Subo as escadas, agora, menos limpas, abro a porta e eu não olho mais para o relógio. A gata está na varanda, chegou, certamente, num ponteiro médio, deixa seu último olhar para a rua, fecho a porta da varanda. Nós duas nos confrontamos, mostramos nossas marcas de quando não estivemos juntas, lambemos cada uma nossas feridas. Ligo o chuveiro, ela mia na sala, preparo o jantar, ela caminha para debaixo da mesa, levo meu prato, ela sobe no meu colo e não abriremos a porta até o trio arrebentar a fechadura. Escutamos nossas respirações. Amanhã, quando o sol nascer, eu e a gata já seremos outras, mais idosas, menos ágeis, mas ainda resistentes aos três assaltantes antigos. Na nossa casa eles não mandam.

  Pela manhã o telefone toca, os ponteiros pequenos silenciaram uma vida, ninguém os viu, só choraram as batidas de um coração emudecido. Não tomo o café, não tenho vontade, porque o trio arrombou a nossa porta. A gata se senta no meu colo, rego seus pelos com as minhas lágrimas,  ela não se incomoda nem se afasta,  escuta o meu coração e talvez, para ela, baste. Dos ponteiros ninguém comentou ao telefone, mas se lembraram de uma caixa com fotografias antigas em que eu sorria, mas que alguém roubou.
- Foram eles!
  Não posso dizer isso ao telefone, mas eu sei que foram eles.

  Ligo o som, porque hoje eu não vou suportar o silêncio. A cantora sussurra a penúltima palavra da canção e silencia na última, que eu sempre canto por ela. A gata olha para a cidade e eu acho que ela acha que é a dona dela, talvez seja e eu também saiba, mas disfarce. O ponteiro menor modifica a cor dos meus fios de cabelo, o médio me deixa na antessala das médicas, dos dentistas, dos astrólogos, das depiladoras. O ponteiro grande me faz convites, marca reuniões, me dispensa, implora minha presença, ora diz que sou imprescindível ora me faz ficar em frente a uma porta de vidro, sem nada para ler. 
  Só um ponteiro não se move mais rápido do que eu, só eu e a gata o conhecemos e sabemos como ele caminha na nossa sala. O ponteiro pequeno, o médio ou o grande não nos assustam de madrugada, porque ignoramos suas batidas desesperadas na porta.