domingo, 15 de outubro de 2017

Nós sobreviveremos a nós

  Eu nunca a enxerguei gata. Não como um animal comum a quem eu devesse domesticar. Quando chegou, já era adulta, madura, tanto ou mais do que eu. Nela eu não poderia mandar, mas também nunca quis, de fato, não veria justiça em ordenar. Quando a recebi, assumi todas as possibilidades às cegas, doenças, manias, costumes que não se ajeitariam com os meus, até o relógio adverso veio junto. Mas não reclamei, ela também me aceitou com o desconhecimento do meu histórico. Quando fiquei de cama por algumas semanas, pela primeira vez, talvez ela tenha se assustado com o meu estado de dependência e vulnerabilidade, mas foi firme e assumiu os pés da minha cama com olhar protetor e atenção desmedida. Não foi à rua, enquanto eu estava de olhos abertos, uma só vez. Eu que não conto visitas, não pude negar à memória, as horas que ela dedicou à desconhecida dona adoecida.  Eu nunca olhei para ela e vi uma gata, como ela nunca me estranhou humana. Talvez porque fôssemos ambas adultas e vividas suficientemente para querer catalogar olhares.  Desde a primeira vez que nos vimos, éramos duas vidas, atravessadas por passados misteriosos. Eu já era eu; ela era ela. Duas adultas dividindo um apartamento mal localizado e muito bem  iluminado em um bairro próximo ao centro. Eu que sempre quis ter uma gata, a recebi  sem exigências, tinha um cartão de vacinas e mais nada. Eu estou me preparando para perder o que eu nunca tive.

  Nós nos aproximamos e nos descobrimos sem pressa, alheias às urgências de fora, andamos muito devagar ao encontro uma da outra; paramos muitas vezes, entramos em desvios, observamos o céu, as paragens, os que corriam e rimos, sozinhas, da lonjura que nos afastava, sem nos cobrar proximidade. Com a gata eu soube dividir espaços, músicas, comidas, ausências e depois, afeto. Ela veio silenciosa, discreta e com histórias agarradas no fundo das pupilas, algumas eu tentei adivinhar, muitas eu inventei e acho que ela fazia o mesmo com as minhas. Eu nunca pensava nos seus donos anteriores, nas casas que ela gostou de frequentar, nos braços que a seguraram e nos muitos que a libertaram, ela é mais livre do que eu, acho que teve relações mais desprendidas e saudáveis do que as minhas. Mas pensava no corte cicatrizado da sua barriga. Acidente, cirurgia, maus tratos? No último mês, depois do conforto dos cinco últimos anos de aproximação, conheci mais um aspecto da gata, sua insuficiência renal é progressiva e irreversível. O corte da barriga era a história que eu não queria conhecer.
- Não chegará ao natal.
  A profissional me alertou e a cada feriado eu me sinto mais dela e menos minha. Eu que nunca quis ser dona da vida dela, ameaço vigiar e protegê-la da morte.

  Terça-feira, deixei-a sozinha, recolhida no seu lugar preferido da casa, que antes era o meu. Fui ao centro comprar seus remédios, pagar contas e tentar trocar olhares com outros seres viventes, não escolhi categoria, gênero, espécie; fui atrás de vida, fervilhante potente, nova, movente. Pelas ruas, vendedores ambulantes, oferecendo uma raquete para dizimar pernilongos, mosquitos e toda sorte de insetos voadores que o calor atrai. Eu detesto as raquetes, detesto o calor com o som desses aparelhos de tortura. Todo início de estação, sinto o incômodo do barulho abominável de uma cerca elétrica portátil. Mas os vendedores parecem proliferar, as raquetes não acabam nunca. A cada dez metros, o barulho dos raios assassinos, erguidos em promoções de queimas de estoques, que sempre são repostos.
  Quis fugir da rua, quis não pensar na morte de cada inseto eletrocutado, quis não deixar a gata só, quis não perdê-la, agora, neste feriado. Eu me acostumo com a morte, sei da sua existência, gerada em cada nascimento, mas o som dela me assusta sempre. As raquetes têm esse som. Eu ouvia a morte. Voltei para a gata e não disse nada sobre o som que me apavora.

  Os olhos se fecham, a existência se apaga. Ir embora é o inegociável da vida. Mas quando a brevidade assopra, é mais que um frio ruim na espinha, um embrulho no estômago e um embaraço na voz, é consciência dolorosa de um apagamento próximo. Eu sei como é morrer, sei quando fecham os olhos e eles não se abrem mais, já testemunhei o mistério algumas vezes, mas não me acostumo com os avisos que chegam no vento. A gata morrerá e parece saber disso, tem sido mais carinhosa e frequenta mais o meu colo, como se marcasse a vida dela em mim. No último ano, ficamos mais em casa, fugimos bem menos.
- Estamos velhas.
Eu disse muitas vezes e ela pareceu concordar.

  Da minha mesa de trabalho, luto com as palavras que me fogem, com as que derrapam da minha tela, com as que aparecem e não cabem numa oração ou período. Eu luto contra o cansaço, as dores, as horas que me pressionam, as ordens que eu preferia não obedecer, eu luto, inclusive, contra as desesperanças plantadas no meu pensamento. Tomo café, chá, água, como bolo, maçã, sanduíche, cenoura e luto muito. Enquanto uma frase não chega, olho para ela e percebo que ela também tem lutado.
- Que forte é você!
  Magra, envelhecida, com menos força e disposição, a gata não silencia. Mia, grita, ronrona e acho que suspira. Ela não está vencida e me inspira a não ir dormir antes da hora. O que me faz merecer tantas despedidas ou não merecer quase nenhuma, mesmo que eu tenha tantas? Por que o encontro, a permanência e depois a partida?

   Eu amo a vida que se apagará antes do natal. Aprendi a me interessar pela sua presença, mais do que pelo tempo que ela passava fora, pelo seu presente, mais do que ela já havia vivido sem mim. Dividimos nossas lutas,  respondemos num  instante igual ao chamado a continuar, mesmo no caos, mas as rabanadas, possivelmente, não mais. A gata de quem sou cativa, não me libertará com a sua morte. Quem serei eu, depois dela? Quem eu já sou, desde a primeira vez que nos vimos e eu não a enxerguei gata?  O medo dos relâmpagos era meu, quando eu a segurava nas tempestades. Os meus pés é que eram acariciados pela maciez e quentura dela. O mistério maior sempre foi o meu; ela foi mais sincera e aberta.

  Quero ser outra, quando o espaço da sala não for mais ocupado por ela. Quero usar vestidos floridos, me levanto e vou até o armário.
- Não tenho nenhum vestido estampado com flores. Como posso?
 Chorei pela primeira vez na semana. Não usarei vestido florido amanhã, ainda. Ela sobreviveu ao feriado da quinta. Nos encaramos na sala mais horas, coloquei-a no meu colo e esperamos a noite nos acolher; fujonas-notívagas-senhoras. Eu sobreviverei à sua existência humana e ele carregará a minha felina. Nós sobreviveremos a nós, porque é o destino, porque soubemos que não acabaria, desde que cruzamos nossos olhos, vindos de outras épocas.



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os lenços de papel, não tem mais

  Finalmente abandonou-o. Demasiado atrasada ou  adiantada no tempo dos outros, mas pontualíssima no dela.
- Não dá mais!
   A Capitu, a traidora, a desleal, a que abandona o barco como um rato, num naufrágio. Insensível com quem abandona, não se despediu, não arrumou lentamente mala alguma, não deixou bilhetes espalhados pela casa, nem uma carta emocionada em cima da cama; só fugiu. Sorrateira, desviou  dos adeuses, abriu e fechou, ela mesma, todas as portas, não olhou para trás. Não levou chave, nem cópia, não voltaria mesmo. Decidida, seguiu o descaminho do qual ela é completamente dona e do qual, às vezes se perde, tentando um lugar de certezas partilhadas. Não bateu o sapato na calçada, quando chegou do lado de fora do portão. Vai levar no fundo do solado tudo o que tiver nele impregnado. Ninguém sai completamente ileso e puro de história nenhuma. Não fez nenhuma mala, mas a bagagem está lá, posta nos seus ombros, poros, gestos e pelos. Pode ser que num dia ou noutro, perca  partes dela, se desprendam, se despedacem, desbotem, desgastem, mas alguma herança sempre permanece. O sapato pisa em terra nova,  mas maculado de passado; nódoa profunda. Ela não vai mais voltar.

  Escolheu a poltrona da janela, nunca mais vai viajar no corredor, se puder evitar. Para respirar melhor, ver a paisagem, sonhar com as casinhas ao longo da estrada, inventar personagens para elas e histórias para cada parede de tijolo vermelho. Olhar cavalos - que bonitos eles são - ver pássaros, cães, bicicletas, viandantes e crianças, todos em busca de algo. Do vidro, vai ver os pingos, se chover; os raios, se cair uma tempestade; o sol, se o sol sair; as nuvens mudando de lugar, se o vento carregar. Ela não volta mais.

  Olha para o relógio e não há mais pressa, urgência de voltar ao que nunca foi dela, ao compromisso com a casa da lamúria.
  Que se acerte só, não pode mais acompanhar, aquilo do qual não compartilha. Se amofinou com uma canção que não podia escrever a segunda parte - nem gostava da primeira pronta - cedeu amor à dor incessante, dedicou-se a assoprar levemente as feridas de alguém que ela não pode curar, porque não é o sopro que sara. Ela não vai mais voltar

   Descansada da dor que não era dela, mas que dividia para abrandar o peso - confundiu afeto com carregar sacolas de pedras. Liberta das paredes brancas que esperam por um quadro que não vem, porque os senhorios nunca respondem se pode ou não fazer mais buracos. Solta da coreografia maçante de uma dança que já conheceu começada em outros tempos. Desprendida, finalmente, das marcações de cena, as quais nunca decorou. Demitida do cargo estável de ouvidora dos lamentos, traumas, dúvidas, patologias e reclamações gerais - falta d'água, salário atrasado, nariz entupido. Ela não voltará.

  Ex-colecionadora de lágrimas, desce do ônibus, encosta no muro e enxuga o pranto recolhido, não o segura, mas não se afeiçoa a ele também. Cantarola uma bossa, tem vontade de comer biscoito de polvilho e tomar um picolé de limão.
  Entorna refrigerante laranja na mesa da lanchonete da estrada, procura pelos seus lenços de papel na bolsa e limpa sua bagunça colorida e brilhante ao sol. Sóbria de esperança, a cada quilômetro rodado mais distante da ressaca de todos os dias. Nem sede, nem dor de cabeça, nem enjoos. Ela não vai mais voltar.

  Não vai mais dobrar lençóis de elástico, chorar sobre o amor líquido derramado. Não vai  mais dar conselhos ao telefone. Não irá mais  à farmácia todo dia cinco. Não vai mais ler poemas para o sono do outro vir, viajar no corredor e pendurar a toalha que não é dela. Não vai mais torcer para nenhum time, não vai ter que  procurar o controle da TV para abaixar o volume. Não vai mais se submeter ao silêncio ao sair mais cedo ou chegar mais tarde, porque o sono do outro é precioso. Não vai se limitar
 Não vai mais tirar a cebola do molho, passar pano no ladrilho do qual nunca gostou, deixar de colocar uvas passas na salada, comprar guarda-chuva duas vezes por ano, porque sempre perdiam o dela. Ela não vai mais tentar compor letras para as músicas prontas dele. Ela não volta mais. 

  A Capitu traiu o sorumbático pacto, tomou um ônibus e aproveitou para sonhar, enquanto não dormia. Rompeu sua relação com a tristeza, com os casos infelizes, com as pessoas enamoradas das suas próprias dores, com o presente desolado e o futuro desesperançado. Traiu-os. Abandonou-os, sem despedidas escritas, só sinais sutis antigos.
  De uma melancolia absoluta para um contentamento coordenado sindético. Se voltar a chorar, é choro próprio, autoral, sem dividir composições. Mas os lenços de papel, não tem mais, foram mergulhados em líquido muito doce e alaranjado na lanchonete. Ela irá mais, bem mais.



sábado, 7 de outubro de 2017

Trinta bocas abertas e nenhuma palavra que seja minha

  Trinta portas para a rua, um molho de chaves e nenhuma se encaixa. Em cada fechadura, trinta opções de saída e nenhuma é real. Não saio daqui se não for pela janela, fresta nas paredes ou telha quebrada.
  Trinta poetas cativos em uma biblioteca que nem a luz visita. Trinta livros na prateleira mais alta, que ninguém se esforça para alcançar. Trinta almas desassossegadas punidas com o distanciamento do mundo. Para quê poesia, se não tem quem as lê?
  Trinta esperanças vazias, esperando um novo refil, uma sorte que aponte na esquina, uma nova promessa que chegue com o sol. Trinta cortinas de musseline, dançando com o vento da manhã, esperando a notícia.

  Trinta sonos intranquilos ao final de um mês, nenhum saldo para os próximos trinta dias; os sonhos não dormidos nunca mais terão a chance da cama. Há de se esperar novos, para novas noites.
  Trinta desconfianças, escondidas de vergonha pela incerteza. Se amo confio, logo não amo se desconfio ou confio e nem é amor.
  Trinta frios sem nenhuma blusa de lã; mãos geladas, peito vulnerável ao vento, a resistência na friagem deixa o corpo menor, ainda mais fragilizado.
  Trinta blusas e um calor de dezembro, guardar os casacos para o próximo inverno ou carregá-los pelo deserto que só acaba no final de março?

  Trinta álbuns de família e ninguém vem mais aos domingos; aperta os olhos para ler as indicações atrás de cada foto. De lápis claro, nomes de lugares, pessoas, eventos e, numa delas, uma frase de Manuel Bandeira. Numa das páginas, um grupo com roupas claras, levantando um copo, na outra, uma noiva com o sorriso forçado, depois, o aniversário de uma criança emburrada e na última página, fotos de uma figura cortada, alguém que não mereceu mais ser lembrado. Quem seria o misterioso na praia, na sala de uma casa em frente à TV, com um cão aos pés e do lado da mesma moça de sempre? Quem é a moça de cabelos pretos que arrancou do álbum da família uma desilusão?
  Trinta certidões e nenhum nascimento, casamento, nenhuma morte. Um cartório que registra o cachorro que ladra, um copo que cai, um acidente sem feridos, um telefonema da empresa funerária na hora do almoço.
  Trinta bombas numa guerra a qual nenhum soldado queria ir de verdade. São moços que fantasiavam com o heroísmo dos filmes, com a retórica das justas leis. Que lei é realmente justa?

  Trinta finais de semana e ele não vem mais. Desde o terceiro devia ter desconfiado, mas precisou de mais vinte e sete para entender que os sábados e os domingos não são de mais ninguém além de seus.
  Trinta sinais de que já haviam se distanciado, descumprido as promessas, rompido os cadarços tênues, mas a mesma cegueira para um fato ao qual se recusa ver, pode se repetir mais vinte e nove vezes. 
  Trinta vazios existenciais e um filósofo, procurando livros na biblioteca; não olhando para o lado, não ouvindo as lamentações, não segurando mãos e não compreendendo o que é ser gente.

  Trinta promessas não cumpridas de uma nova conduta; só mais esse ano que eu vou tentar, só mais esse número que eu vou arriscar, mais essa desistência antes do final, só mais esse copo e vamos para casa.
  Trinta realizações não prometidas; um novo corte de cabelo, uma casa recém pintada, um blues feito na madrugada de quarta-feira, um perdão, antes de apagar o abajur.
  Trinta escolhas ameaçadas pelos conselhos de alguém a quem se respeita, pelo bom senso, pela opinião da maioria, pela influência das pesquisas do Ibope.

  Trinta músicas melancólicas e uma cantora de voz grave, que não erra nunca o alcance da nota. 
   Trinta danças sem a última parte da coreografia, interrompida por um passo imprevisto, que não cabia no justo espaço entre os dois bailarinos.
  Trinta alunos enfileirados, em uma sala de tacos soltos no chão e desenhos de papai Noel em folhas de seda para a professora, em pleno outubro.
  Trinta alegrias de desconhecidos, que contagiam e por um minuto nos coloca em comunhão, numa impressão de pertencimento ao coletivo e à alegria que ele invoca.

  Trinta bilhetes em cima da mesa e em nenhum eu li o que eu buscava. Trinta papéis amarelos dentro de um bloco sem folhas em branco e nada se identifica com  aquilo que eu quero dizer agora.
 Trinta painéis atacados em um museu, porque os corpos estão nus e ninguém mais suporta uma vida sem máscaras, sem  polêmicas falsas, sem oportunismos.
 Trinta bocas abertas e ninguém fala nada que eu possa compreender esta noite. Trinta línguas que só sabem o português e nenhuma palavra que seja minha; que eu quisesse falar ou ouvir.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

O filho de cada uma

  Não somos amigas antigas, mas também não tão recentes. Não veio aos poucos se instalando com o tempo, como outros chegaram, já carregava na mochila a intimidade alegre da qual eu nunca fugi. Dividimos sanduíches,  livros, pequenos vícios, muitas músicas, confidências  e opiniões sobre um universo que não se esgota; de coisas que eu sei e ela não, que ela sabe e eu não e de coisas que nós duas aprendemos sem saber. Trouxe seus traumas, sonhos, lembranças vividas e algumas imaginadas, dramas, coração partido, ironias, paixões platônicas e outras não, rebeldia, subversão, tudo sem pudores, sem medo de ser julgada pela interlocutora desconhecida. 
   Ela ressignificou a rota da minha confiança, não encontrou barreiras, placas de proibições, avisos ríspidos ou senhores sérios, solicitando os documentos. Passou tranquila por fronteiras abertas e ocupou o que sempre pareceu ser dela. Não somos parecidas, complementares ou qualquer outro clichê sobre amizade. Somos duas mulheres de idades, estilos, referências, experiências e caminhos diversos; quase opostos, mas dispostas a conhecermos os lados  distintos de cada uma.

  Algumas vezes, cumpro um exílio voluntário das palavras faladas. Prefiro ler, escrever e ouvir, a ter que emitir o que desejo manter calado ou em voz muito baixa e ela entende. Não se afasta, mas também não me convoca a falar. Traz, para os meus dias de silêncio, as vozes de poetas, músicos, escritoras ou das sábias das ruas. Compartilha notícias do mundo do qual eu me afasto, traduz a balbúrdia que eu não compreendo, ilumina as páginas que eu escrevo, rega a minha sensibilidade com os seus gostos e me estende a mão, quando eu decido atravessar a ponte.
  Da mochila vinho de veludo, ela saca as cenas que eu não pude ver, enquanto eu descansava minha alma das imagens, tira a receita de algum bolo que eu vou gostar de fazer, quando estiver com fome e os cartões postais de algum amigo dela que viaja pelo mundo. Ela divide o que é dela e também o que ela é.

  Eu também já sei lê-la, percebo quando seus olhos ficam distantes, quando a velocidade das palavras fica muito amena e quando o seu coração comprime o estômago, deixando-a afastada do apetite habitual. Reconheço suas luzes se apagando, seus pés apontado para direções diferentes um do outro, suas mãos inquietas e unhas na boca.
  Sei quando ela vai se ausentar e continuo esperando-a no lugar de sempre; não meço seus atrasos, não me apego às impontualidades de quem custou muito a vir. Sinto falta da sua energia, mas também admiro sua recolha ensimesmada, olhando o mundo, paciente, numa cama de desilusão, em frente a uma janela escancarada para o amanhã.  Temos nos conhecido mais, nestes dias estranhos de uma e da outra; temos nos reconhecido mais, cada uma com os seus sacos de pão, suas sacolas com detergentes e sabão em pó e sonhos embrulhados em papel pardo reciclável. 

  Nos últimos meses temos nos despedido, um pouco por dia, porque ela vai viajar e ficaremos por algum tempo em geografias descoincidentes. Estranhamos no começo, mas não lamentamos demasiado. Os encontros nunca nos abandonam. Mas na despedida de ontem teve choro, surpresa e algumas vidas em suspensão. Descobriu-se grávida, pediu-me segredo e conselhos. Não contei a ninguém, mas não me pediu que não escrevesse, acho que ela sabe e até deseja que eu escreva. Tem medo e eu a entendo, tem olhos brilhando e eu quase entendo. Tem medo de não entender a maternidade, de ter que ser e não saber ser responsável por outra vida. Medo de dar a luz a alguém de quem desconhece gostos, escolhas, tipo sanguíneo e necessidades futuras. Apreensão de partilhar com o mundo o que certamente será a parte mais importante dela.
- Mas se os nossos filhos fossem nossos, seria uma destruição, um tédio.
Eu disse.
-  Que sejam dos outros, que discordem do nosso bom gosto e tenham o próprio deles.
Tentei um consolo.

 Mas, para além dessa inquietação de aventura nova, seus olhos brilham quando fala de uma possibilidade de família, de outro par de olhos acompanhando descobertas, belezas, sustos e indignação. De alguém que crescerá dentro dela durante bem mais do que quarenta semanas; possivelmente nunca pare. Minha amiga espera um filho, ainda em segredo, e viajará sozinha para um lugar onde não tem raízes que a amparem nos dias de tempestade, onde falam uma língua que o seu coração ainda não reconhece - não xinga, não sonha, não faz declarações com ela -, com uma cultura sobre a qual só conhece amenidades e seu maior medo é de não ser boa, não ser competente para o papel que a chama. Não falou em não querer ter seu filho ou não viajar; não falou sobre responsabilidade solitária. Seu medo é o mais valente e o mais humano; tem o medo de não amar a quem já ama. Ela é a minha coragem-inspiração.

  Pediu meus conselhos.
-  Chame-o de Esperança, ao menos quando estiverem sozinhos, se não quiser registrá-lo com um nome menos tradicional, e não me chame para madrinha, chame alguém que vá fazer uma poupança para ela ou ele. Eu conto histórias, faço dormir e até as poesias eu faço, se não conhecer outra pessoa. Levo ao cinema, ao circo, dou banho e cuido dos machucados nos seus joelhos. Não coloque brincos ou coloque se quiser, amamente ou não, prolongue a licença ou não; procure uma creche ou não.  Publique fotos dela ou não, em caso de doença recorra a ciência de ponta ou aos costumes tradicionais. Tenha-a de parto humanizado, em casa, no hospital ou com cirurgia marcada, com numerologia e mapa astrológico favoráveis. Faça um chá de bebê ou de fraldas e eu vou ou não faça nada e eu também irei. Mas por favor, chame-o de Esperança.

  O que ela não sabe é que também espero um filho, muito antes dela ou não, talvez ela também já esperasse anos antes de me contar, e o meu também vai se chamar Esperança. Me ligou há uma semana e disse que estava vazia, hoje está cheia de vida, não sei o que dizer. Estive vazia ontem e,  hoje, tenho a completude da Esperança; nossos filhos. Que instável é navegar neste planeta; sabemos das ondas, mas nunca nos acostumamos muito aos solavancos de dentro do barco.
  O destino surpreende, com a chegada de uma nova vida, com um encontro que durará para sempre ou com a partida de alguém de quem aprendemos a não querer nos afastar. A vida surpreende no vazio, que, de repente, fica muito ocupado e na plenitude, que em segundos, se esvai como a água, depois de abrirem uma comporta. Nada dura tanto que nos deixe completamente ocos ou absolutamente fartos. A Esperança dela vai nascer no próximo semestre, a minha talvez nasça, talvez não. O filho de cada uma tem a gestação da qual necessita. Minha amiga, antes vazia e fixa, está cheia e vai viajar.



sábado, 30 de setembro de 2017

Nós nunca lavamos os cabelos que gostaríamos

  Há um universo indócil, inconstante e completamente cego, entre aquilo que fazemos e o destinatário final de cada ação. Um alvo é apenas uma possibilidade discreta entre outros pontos que uma flecha pode alcançar. Não salvamos ninguém.
  Num mundo ideal, a seta sempre chegaria até o círculo vermelho; certa, exata, firme e segura. Sempre no tempo desejado. Num mundo de justiça, ninguém esperaria muito depois de um pedido de ajuda. Era só olhar para o lado e pronto: o desespero acompanhado alcançaria a calma. Num mundo ideal, nossa vulnerabilidade não nos adoeceria, não nos envergonharia, ao contrário, seria só mais um pouco de nós disponível ao mundo. Rendidos às vicissitudes, mas não submetidos a elas.

  Ajeito a toalha, encaixo o pescoço no lavatório, fecho o livro e estou certa de que não vou mesmo salvar ninguém. Mas não posso ir embora e deixá-lo no escuro. Eu mesma já saí, algumas vezes. Sem uma vela acesa, sem corrimão, confiando na sorte, com a esperança dos pés encontrarem o destino, sem precisarem dos meus olhos. Ele também deve estar andando há muito no vazio de luz e pode saber sair, mas eu quero estender a lanterna.
- Quente ou fria?
- Pode ser fria.
- Que corajosa!
- Nada. Água fria é melhor para o cabelo.
  A água chega morna e eu não reclamo, talvez ela tenha preferido me proteger da água muito gelada que sairia da torneira. Lá fora venta, eu já tremi de frio e ela resolveu que eu não merecia mais deste inverno no sábado pela manhã. O barulho da água no plástico do lavatório, o morno dela no cabelo, os movimentos circulares dos dedos para esfregar o xampu, o sono que se levantou da fronha, contrariado; o livro quase cai das minhas mãos.

  Ela não me salvou, mas não me deixou enfrentar um frio desnecessário. Fez, por mim, uma escolha que eu não soube fazer. Não fez o meu caminho, não me poupou das dúvidas ao ler as placas, não apontou o lado certo, mas deixou a porta aberta e uma fresta de luz me acompanhará nos primeiros passos. As luzes chegam de onde não sabíamos poder esperar. A ajuda voa, sobrevoa, circunda o desconforto da gente e oferece abrigo, quando o caminho é tortuoso.
  Pergunto sobre a mãe dela, que esteve doente e ela suspira. Disse que ela não está bem, que o tratamento é um paliativo somente e que queria lavar o cabelo dela antes de vir trabalhar, mas ficou com pena de acordá-la.
- A noite foi difícil para ela.

  Ela queria lavar uma outra cabeça agora, mas enxagua a minha, faz massagens, escolhe a temperatura mais amena da água e me distancia do frio que tem feito lá fora. Sinto a culpa por não ser dona do cabelo que ela gostaria de tocar; sinto pena da brevidade soprar no pescoço da moça que lava o meu cabelo. O entendimento da finitude apavora, porque não morremos quando o outro morre, porque o gesto não o segue, mas fica, esperando sempre alguém que caiba nele. Por isso, perder um filho é trágico, porque não alisamos a cabeça deles, mais, nem encontramos outras cabeças como a do filho. E o cabelo da mãe dela, quem substituirá?
  Num mundo ideal, teríamos sempre tempo de lavar os cabelos de quem amamos. Num mundo de justiça os gestos de afeto sempre encontrariam o destinatário escolhido.

- Eu não vou salvá-lo.
  Ela torce o meu cabelo na toalha e eu sigo para cadeira mais alta; resignada com a minha impossibilidade.
  Num mundo ideal, nossas diferenças seriam complementares e não nos afastariam nunca. Num mundo justo, passaríamos pelas crises e cresceríamos a partir delas. Teríamos sempre o tempo do erro e depois dele, o aprendizado, o pedido de desculpas e o acertar recorrente. Num mundo sonhado, meu sol em touro nos traria calma e o seu em áries nos aproximaria dos riscos. Num mundo impossível, teríamos chances de nos reencontramos com saúde, sorte e disponíveis para tentar de novo. Num mundo imaginado, nossos afetos não se perderiam de nós e nossa insistência bastaria para que a desistência deles partisse em fuga.   

  Num mundo possível, chegamos tarde para última sessão, não ligamos se o outro não liga e a senha acaba antes de chegar a nossa vez. No razoável mundo em que vivemos, nossas perspectivas diversas nos levam para cantos opostos da sala, sua voz aguda não soa bem no meu ouvido acostumado aos graves e eu não poderei salvá-lo nunca.
  Neste mundo próximo, lavamos os cabelos que chegam ao nosso lavatório e a nossa ação nunca encontra o alvo primeiro.

  Nós passamos a vida tentando recuperar um gesto que não tivemos antes ou um afeto que não recebemos. Gosto de todas as cores de olhos, gosto quando me encontram ou se, por um acaso, desviam e depois me buscam com profundidade.  Mas os olhos pretos, não sei o porquê, sempre me enternecem mais.
  Eu sempre busco me redimir do que eu não tenho culpa. Sei, eu não vou salvá-lo, isto é certo, mas recusar uma mão, enquanto ele se afoga eu não faço mais não, porque no final, eu acabo indo embora nas mesmas águas em que o outro afunda suas esperanças. Nós nunca lavamos os cabelos que gostaríamos, mas continuamos levantando cedo, para tentar encontrar a cabeça que precisa de nós.