terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O último baile antes do próximo banho

   Às vezes, é só entrar com os dois pés na água e o rio raso é calmo e acolhedor. Molhar todo o corpo é fácil e sem lutas; o mergulho longe da margem, onde a água é mais límpida e transparente, não causa medo, nenhuma escuridão demora nem o completo silêncio angustia. Água e corpo se encontram sem disputas; não há esforço. O banho é um longo despertar, de sussurros tranquilos e cheiro de café; é um acordar lento, aos poucos afastando os sonhos e impregnando o olfato, a audição e a visão com a materialidade e a concretude do outro lado da cama .

  Noutras vezes, basta um pé se aproximar da água e a corrente avisa que não será pacífico molhar a cabeça. A água não se entrelaça ao corpo, ao contrário, expulsa-o, ora afasta-o ora aproxima-o com rispidez, formando círculos, redemoinhos que exigem dos músculos toda a potência para o corpo não ser submerso neste fundo de rio e a alma não ser tragada pelo universo líquido; é um despertar sobressaltado e nervoso.

  O rio intranquilo de hoje é no mesmo lugar do remanso de ontem, o corpo disposto está sobre os mesmos dois pés que reconhecem o caminho, mas estranham muito o movimento. Não há meios de saber sobre o encontro da água com o corpo até estarem um diante do outro.
Num dia de clima bom e tempo a ruir, de rio agitado, que rejeita o que sou, não há muito a fazer. A natureza exerce a insubmissão que é dela, posso recolher os pés, voltar para a casa com o cabelo seco e a desistência da intenção de banho.

   Quando o rio não admite meu corpo nas suas entranhas, quando mergulhar exige um esforço que eu não posso empreender, não insisto, invento outras modalidades de descanso. Ontem, eu enchi um barco de flores e não o enviei a lugar algum. Deitei entre elas, fiz delas meu rio, anexo do meu corpo, minha alma saída de mim. As flores no barco e ele longe da agitação, que batia em outro lugar. Recebi a visita de um sono leve, entre estar acordada e não estar, uma preguiça fresca, um agrado que me dei sem planejar.
  No barco, inerte,  de flores reli uma história que escrevi  sobre um tempo antigo, nela não tinham homens que mandavam nem mulheres que obedeciam, era uma narrativa curta, trinta e duas páginas onde cabia toda a criação do mundo. Eu a escrevi para mim, nunca a mostrei a ninguém; mas todas as vezes em que a releio, descubro uma informação que eu não tinha.

  Ontem, depois que o rio pareceu-me demasiado inquieto para um mergulho duradouro, tive mais tempo para resolver as pendências adiadas. Foi, então, que cometi alguns assassinatos, calorosamente premeditados. Matei dois arrependimentos e um amor, que há muito, vazio, já não tinha serventia, a não ser produzir ecos dentro de mim. Bastou, basta. Nem precisei me levantar, amasiada com  a coragem, aceitei a insegurança da completa ausência, sem as minhas vozes duplicadas, sem os disfarces das risadas e aplausos forçados.
  Não enfrentei o rio, mas, finalmente, me desprendi de um outro medo, que é o de não saber o que fazer com um bolo inteiro, quando se queria só um pedaço. Tornei-me um centauro, metade mulher, outra metade cavalo e investi com a minha espada contra o que me ocupava com raízes, mas nunca faria sombra, quando eu precisasse descansar. Bastou o amor solitário cair e os dois arrependimentos agonizaram junto dele.

  Com os dedos ainda quentes do sangue, abri os espaços em mim e limpei os restos de memória salpicados no chão, desde o último carnaval; os confetes que as minhas mãos lançavam na minha própria cabeça, enquanto eu esperava meu par, que nunca chegou.
  Antes da completa limpeza, usei o salão para dançar vinte ou trinta músicas, marchinhas, sambas-canção e me despedi de cada pedaço de lembrança, soprando o confete para longe. As danças sem par, eram irregulares e livres, soltas de marcações e cuidados com os pés alheios. Dancei, cantei, bebi, sorri e não me lembrei de esperar, sentada na cadeira de desolação, por mais ninguém; estavam mortos os que adiaram a minha alegria.

  Mas, depois de um dia distante do rio, o próximo mergulho não vai ser evitado  por muito tempo. Nos últimos dias tem chovido muito, então é possível que o nível fluvial também tenha aumentado e os fluxos de água não são pacientes.
  Então vou esvaziar o barco de flores e carregá-lo até as margens do rio, ficarei nele até ter condições de entrar sozinha na água. Vou arrastar os corpos dos mortos até o meio e, se as águas estiverem incontroláveis, é possível que sejam levados pela correnteza. Depois, subo, nado, resisto e, cansada, sinto a água limpar até os meus dedos sujos de decisão. O baile, o banho, a água calma e os fluxos ferozes, o mergulho, todos  acontecem num instante, mas se repetem todos os dias.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Por onde passa o teu coração que já não faz mais barulho perto da minha porta

   Por onde passa a água daquele rio, que lavava as roupas que você nunca mais usou, que só em fotos antigas sobreviveram limpas? Passa por onde o caudaloso rio que molhava os pés das crianças, teus irmãos, em cima dos cavalos, corrente de água que puxava-os com toda força e eles resistiam? Por onde passa a sinuosa e barrenta curva, cujas margens tomadas pelas raízes seguras deram a vida de volta ao teu pai afogado?
  Por onde passa o silêncio longo do deserto no inverno, que nem a chuva alcançava? 
  Por onde passa o começo das noites de escuro amarelo da lâmpada fraca que atraía os insetos e quase nada iluminava?
  Por onde anda a tua saudade que não se comunica mais com a minha que, independente, vive de outras imagens que talvez não se pareçam com as quais eu me impregnei para você se lembrar quando quisesse? Me cobri da vida que era tua, para que você nunca a perdesse. Mas, e agora, por onde passa a tua memória, já que não por mim?

   Por onde passa a avenida que tua vida construiu longe da minha casa? Tem os mesmos postes de luz dos teus sonhos que eu conheci ou sonhou com outros, inimagináveis em mim?
   Por onde passa o prédio alto em que você decorou um apartamento todo cinza, com vidros transparentes e tapete de trama industrial que nenhuma mão tocou?
  Por onde passam as pessoas da casa antiga, que não estendem mais as roupas num varal comprido, não molham as plantas, não aparam a grama ou chegam com os seus rostos miúdos por entre as grades da janela, quando batem palmas? Por onde passa o teu medo de não as ver mais? Ainda o tem ou a coragem o libertou das familiares faces?
  Por onde passa a tua covardia, agora que não a revela mais para mim? A quem diz, quando está vazio? Há um alguém para isso?

  Por onde passam as deidades dos domingos que nos amedrontavam e nos acolhiam, num mesmo banco, lado a lado? Por onde passa a nossa fé, agora que nenhum de nós canta mais o hino na língua que nos ensinaram? Por onde jorram as águas dos batismos, os incensos dos dias de meditação e penitência, as pétalas macias das coroações as quais não assistimos mais? Por onde anda a tua alma que não compartilha mais os ritos, não se comove com os textos, não se abre para o não-visível? Quando tem uma dor sem remédio, você ainda chama alguém, olhando para o céu? Ou saca uma receita da sua gaveta e, anestesiado, dorme para não chorar? O mistério ainda o estimula ou só angustia? 

  Por onde passam as mulheres que trabalhavam na fábrica de malhas que fechou? Que postos ocupam agora, ainda serão passadeiras, arrematadeiras, debrunhadeiras?  E a mulher que não sabia fazer outra coisa que camisetas, tem notícias dela? Por onde passam as pessoas que passavam por nós e não passam mais? Ou nós é que deixamos de passar por elas?
  Por onde passa a tua memória olfativa, que cheiro tinha a casa que você morava, a tua mãe, a tua avó, que cheiro tinha o teu quarto, quando apagavam as luzes amarelas? O cheiro tinha mais força, quando as imagens eram silenciadas? Que cheiro tinha a alegria? Tinha um cheiro, não tinha? Se lembra ainda? Para você também ou é só para mim que o mundo é um mercado popular tomado por aromas?

  Por onde passa a paixão arrebatadora, dolorida e, também, redentora que não bate mais por quem achávamos que nunca cessaria? Por quem bate, agora, então? Pelo homem meio estrábico do escritório ao lado, pelo vizinho castanho ou pelo gentil par de dança que chegou no mês passado e nunca pisou no teu pé?  Por todos ou nenhum? Como ter a certeza de que ainda baterá por alguém? Do mesmo jeito ou de um outro modo? Se menos intenso e caloroso, ainda valerá a pena? Como saber se não é uma invenção para distrair-nos da verdade? Não é tarde para arriscarmos? Ainda podemos ir, nos entregarmos e cairmos, se for o caso, e voltarmos saudáveis, de novo, sem grandes sequelas? Você aprendeu a resposta?

  Por onde passa a tua mão, agora? Que cinturas, silhuetas e curvas, elas descobrem? Que cabelos afagam, que outras mãos apoiam?
  Por onde passam os fios grossos dos teus cabelos, que fronhas eles invadem, que ralos entopem, em que pentes e pias eles se perdem?
  Por onde a tua ilusão passa, agora que você é quem gostaria de ser? Por onde os teus novos sonhos viajam, se o rio não tem mais a água que afogava e salvava teu pai, molhava os pés dos teus irmãos, lavava tua roupa com a espuma das mãos da tua mãe e regava tua esperança de voo?
 Por onde passa os incêndios dos teus amores, as dúvidas da tua fé, o silêncio das tuas noites e os cheiros da tua memória, se você não se lembra de quem as guardou para você?

  Por onde passa o que eu sou, quem eu quero ser, se eu sempre me ocupei de lembranças, histórias, dores e confissões que não eram minhas, para devolvê-las, quando precisassem? O que eu faço com aquilo que eu deixo vazio para caber tudo do outro, depois que preenchem, buscam quando podem?   Por onde passa a minha abandonada saudade, que quase não se encontra mais com a sua, e que precisa ser inteira, devolvida para si novamente?
  Por onde passa o teu coração que já não faz mais barulho perto da minha porta, mas que me chamou para sair de casa tantas vezes e que, por isso, eu aprendi a gostar de ser livre?  Por onde passa o teu legado sentimental que alargou o lugar dos meus afetos para caberem os seus? A tua história é só tua; toma.  O meu espaço vazio precisa ser do que é meu, agora.




domingo, 7 de janeiro de 2018

O outro mundo que não vemos

  Há um universo  invisível pelo qual passamos todos os dias e que, talvez, seja ele justamente esse muito que nos sustente. Conjunto de coisas ignoradas que ilumina a nossa existência,  espaço onde as nossas vozes ecoam, a manivela que conduz os nossos passos, a força que alimenta os nossos movimentos e que enche os nossos olhos de orgulho e esperança para nos manter visíveis neste mundo que conhecemos.
  Existe um mundo desperdiçado em beleza e aprendizado; um mundo do qual participamos sem saber, atravessamos sem entender, impactamos sem nos responsabilizar. Um  mundo outro que talvez nos ampare neste que vemos, tentamos entender e ao qual chamamos de nosso, como se fôssemos os únicos a fazer parte dele ou, até, que seja ele quem nos obedeça, com a nossa ciência, história e cultura herdadas. Achamos pertencer a um mundo e termos ele, porque desconhecemos outros tantos.

  Cotovelos se esbarram na loja de conveniência e os olhos não alcançam os outros olhos, almas forjadas em mesmas leituras, músicas, desejo de luta e sonhos que trafegam os mesmos caminhos, mas que nunca se declaram, porque não sabem uma da outra. Numa papelaria, um mesmo caderno de capa de couro passa pelos dois pares de mãos, nenhum dos dois o leva, mas uma mão esteve sobre a outra por alguns segundos sem nunca saber.     
  Dois carros se cruzam no trânsito da cidade finita e em cada um deles uma dor de mesmo porte que poderia ser suavizada se não fosse o desconhecimento dos motoristas dos carros com vidros enegrecidos e fechados sobre bancos que não são os seus. Pontes, macas de hospitais, cadeiras de cinemas, elevadores, escadas rolantes e de emergência, pontes, calçadas, filas no banco, correios,  uma figura desconhecida no fundo de uma foto nossa, um arquipélago de encontros que acontecem sem que as personagens possam ver. Estamos lá e eles também estão, mas é um mundo de invisibilidade e cegueira ignorada.

  Caminho na calçada do outro lado da rua  de um edifício sobre o qual quase nada sei, só que existe, tem quatro andares e é amarelo. Instalado na janela do andar mais alto um homem que reflete, na manhã de domingo, sobre aquilo que pode ver. Eu não olharia mais vezes para a figura se não visse, tão concentrado quanto ele, três pombas sobre o seu telhado, na mesma direção que o homem. Os quatro movimentos de pescoço estão perfeitamente sincronizados, as pombas e o homem movem suas cabeças num mesmo sentido, num mesmo segundo. Os quatro olhares iluminam alguma paisagem que, do lugar onde estou, eu não posso saber, porque estou limitada pela minha visão atada ao solo.

  Olho para os quatro e tento compreendê-los. A expressão do homem eu até posso ler, não é grave, sem susto ou encantamento, é pacífica e, talvez, um pouco entediada. Mas as expressões das pombas passam ao largo do meu entendimento; as enigmáticas pombas parecem olhar para os mesmos pontos que o morador do prédio baixo da avenida esvaziada aos domingos, mas são pombas, com olhos de pombas, numa altura superior ao do homem e à minha e não esboçam reações que eu possa ler.
  As pombas são um outro mundo que eu desconheço. Mas eu as vejo, diferente do homem que compartilha com outros três seres de uma mesma visão e não sabe.

  Do alto da sua janela amarela um homem olha um mundo abaixo dos olhos das pombas, um mundo onde elas não estão, em que elas não existem, porque ele não pode vê-las. O que as pombas veem e homem não pode? Elas sabem dele, enxergam o topo da sua cabeça e, distraído, ele acha que está só.
  De repente, passo sob a visão do homem, ele me vê, mas não enxerga, sabe de mim, mas me desconhece completamente. Ele vê uma mulher de malha na manhã de domingo e eu vejo um homem com uma xícara numa janela amarela com três pombas ignoradas sobre o seu telhado. As pombas também se voltam para mim e eu não sei o que elas podem ver. Mais? Menos do que o homem? O que as pombas pensam sobre mim? Somos cinco seres partilhando uma geografia, mas não um mesmo universo.

  Eu também pousei sobre um telhado e vi uma mulher amar sem medida e não ser compreendida, correspondida, minimamente, com a elegância e o afeto que todo ser vivente disposto e apaixonado merece, mas ela não sabe que eu estou sobre a sua cabeça. Eu sou a sua pomba, companhia do seu tédio de domingo e nada posso fazer além de olhar seu amor desacompanhado, caminhando para uma solidão terrível, que é esta: a de amar ilimitadamente a quem cujos olhos estão noutra direção. Sou uma pomba no telhado de uma mulher, um animal  sem arrulhos, sem manifestações, só olhos vidrados e fidelidade de presença.

  Um homem pousado na janela amarela do apartamento no alto de um prédio e a sua ignorância sobre as pombas no seu telhado; uma mulher andando pela avenida, contemplando quatro seres no alto de um prédio e se perguntando sobre o que não é visível, mas devia ser. Como alcançar o que só as pombas veem? O homem acha que olho para ele, olho também é verdade, mas sinto terrivelmente pela sua ignorância sobre os outros mundos, tenho pena da nossa limitação humana.
  O que a pomba sobre a minha cabeça vê e não me comunica? Nunca saberei, nunca saberemos. Mas o outro mundo que não vemos é aquele único que me interessa.



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Santa guerreira contra o dragão da dúvida

  Primeira manhã do ano, estranho silêncio de feriado pós-festa. É segunda-feira, mas parece a primeira quinta depois do carnaval. Silêncio duradouro dos que dormem, mergulhados nas profundezas oníricas, dos que se recuperam dos excessos: de álcool, ritmos, desejos, sabores, promessas, dos mil perdões antes da meia-noite. Ausência de movimento e vozes dos que acordam, mas se viram para o outro lado e voltam a dormir, dos que procuram o celular, sem nenhuma mensagem nova, por um hábito adquirido há menos de uma década, mas já entranhado e que, sem novidades, também retomam o sono.
  Os cães também não latem, exaustos pelo prolongado medo dos fogos, o portão da garagem não se abre ou fecha, ninguém chega ou sai, o prédio na primeira manhã do ano é um sereno repouso coletivo; ninguém chama, ninguém se move; nenhuma urgência ou pressa.

  Primeiro dia do ano e eu quero me levantar sem cerimônia, não sei se posso. Já me virei na cama algumas vezes e inventei continuações para as partes de sonhos dos quais eu consegui me lembrar, mas o silêncio perturbador da manhã do dia primeiro me tira da cama. Sem  rituais, vou ao banheiro, lavo o rosto do ano passado, seco com a toalha que troquei na última noite do ano que acabou; o sabonete do ano novo sai do mesmo vidro do ano que não é mais.
  Cuidadora do sonos alheios, piso macio no chão e procuro uma leiteira sem fazer barulho. Pó, lata de açúcar, filtro de papel, tudo em silêncio. Meu primeiro gole de café, do ano recém chegado, é cuidadoso e solitário. Visto a roupa, calço o tênis com a mesma diligência de um dia comum de qualquer ano, quero pisar com os mesmos passos de ontem a avenida que, possivelmente, ainda sonha com o ano que começa. Passo na cozinha para mais um gole de café e há um outro alguém desperto, sussurramos um bom dia e ele me pede para esperá-lo. A manhã de ano novo, sem rituais, me dá a novidade da companhia.

  Descemos as escadas em silêncio, nos alongamos e, logo, inauguramos a avenida calada com os nossos pés sonolentos. O primeiro dia de um ano numa avenida quase vazia. Bem poucos podem testemunhar a nossa disposição, há somente uma padaria, uma banca de jornais, dois supermercados abertos e o bar da esquina com um grupo de homens que bebem no balcão e, na mesa do lado de fora, um homem sozinho despeja a cerveja no copo. Dois cães marrons, sem latir, perambulam pela calçada, cheiram restos da festa da noite anterior, um gato na janela do apartamento, em cima do mercadinho, se estica e  um ônibus sem passageiros trafega sozinho pelo asfalto inteiro. Esta é a minha visão, a da minha companhia eu não sei, talvez seja completamente diversa, ele tem vinte centímetros a mais, vira bem menos o pescoço enquanto caminha e não sorri, quando o observo. Eu acho que sorrio, algumas vezes.

  Atravessava a penúltima rua, quando escuto alguém me chamar, a desconhecida se aproxima, eu vou diminuindo a intensidade da caminhada e espero que ela me alcance. Já me aborda pedindo desculpas, sorri e coloca as mãos na frente dos lábios. Tem um rosto de loucura generosa, de bondade, uma mansidão na voz. Olhos de ternura e medo. Meu primeiro encontro do ano; dia um do ano que começou à meia-noite. Lenço estampado de flores pálidas na cabeça, um anel em cada dedo das duas mãos, unhas curtas, sem esmaltes, corpo franzino e voz de calmaria. Diz que está perdida e abaixa os olhos constrangida pela sua condição. Quer saber de um cruzeiro.
- Tem um por aqui, não tem?

Em frente à igreja de São Jorge, empunhando um ramo de alguma coisa verde. Dedos longos, ornados por anéis brilhantes, que falam tanto quanto as palavras que saem da sua boca, eu caminhando uma mesma rota de muitas anos, ela sem saber o exato destino da sua busca.
 - Cê me desculpa, eu sempre vou lá, mas hoje eu não acho o lugar.
 Ela perdida, eu impedida de ajudá-la com a sua localização. A minha geografia é precária, as tentativas de prestar informações são quase sempre fracassadas, mas a minha vontade é profunda, embora desajeitada.
- Um cruzeiro, aqui? Eu nunca vi.
Eu tentando me lembrar de algum cruzeiro por ali e os olhos bondosos dela, esperando a minha memória se acender. Ela ansiosa pela promessa de uma fogueira redentora e eu sem conseguir alastrar sequer uma fagulha de luz quente.

  Começo a desconfiar do seu bom rosto, da sua voz macia. E se esse cruzeiro for de um outro tempo ou se ele nunca existiu? Se a mulher estiver enganada de ano, de lugar ou de sentidos? Se os olhos de loucura, forem de loucura genuína? Eu quero encontrar o lugar que ela busca, mas eu nem sei se ele é possível.
  Minha companhia, que já ia bem a frente, volta e tenta ajudar. Aponta para a banca e um táxi:
- Eles devem saber.
 Atravessamos com ela, mas não esperamos a resposta. Abandono a perdida e sigo com as minhas passadas antigas, mas continuo a olhar para trás, até o pescoço se recusar a virar mais, desconfiada da sanidade dela e arrependida da minha limitação. Avanço no trajeto, mas me paraliso na culpa pelo estado da desconhecida a quem não ajudei em nada.
E tão bons eram os olhos dela.
- Deus abençoe vocês.
Ela falou, enquanto a deixávamos. Nada me constrange mais do que um desejo forte desses, quando eu sou fraca com alguém.

   O cruzeiro, senhora, eu não sei onde fica. Estamos tão perdidas  e pedimos desculpas igual. Eu saio grávida de futuro de casa e já sinto o feto escorrer pelas pernas no meu primeiro encontro do ano.
   No primeiro dia e eu percebo que também estou perdida, mas não queria estar em nenhum outro lugar; que nativa estúpida eu sou. Logo eu, que na virada do ano pedi uma passagem só de ida, logo eu, que se pudesse faria as malas e me abandonaria sozinha no ano passado.
  Primeira manhã do ano e eu tão perdida de um cruzeiro, que eu não sei se existe, quanto a outra mulher; primeira manhã do ano e eu desencontrada de tudo o que corre na normalidade, duvidando da procura alheia.
   Voltamos à casa, agora menos silenciosa, tiro o tênis e me lembro do cruzeiro.
- Ele existe. Ela não é louca.
  Não conto à companhia, talvez ele não entendesse o meu compromisso de iluminar uma memória de caminho.
   Em frente à igreja de São Jorge, empunhando um ramo de alguma coisa verde, cavalgando numa montanha de candura, uma mulher luta contra o dragão que é vergonha de não saber chegar. Eu caminho sem destino, sem perguntas, enquanto ela se aproxima da sua busca, envolta pela dúvida exposta, mas com pudor.
- Duas ruas acima, vire à esquerda,  desce e entra na primeira rua à esquerda, de novo.
É lá o cruzeiro dela, que eu não soube apontar; finalmente o fogo! Para o meu, ainda não acendeu nenhuma faísca, mas seguirei tentando.




quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Quero desaparecer dos seus registros

  Quero que você esqueça o meu endereço, que não ultrapasse as linhas da calçada em frente ao meu
edifício, que não cumprimente mais o porteiro e não pergunte aos vizinhos como eu estou.
  Quero que desapareça os meus detalhes da sua memória: pálpebras, linhas de expressão, poros, orifícios, pele, cílios, cores da íris.
  Quero que não se lembre mais da placa do meu carro, do meu CPF, meu aniversário, dos horários das minhas vitaminas para evitar os resfriados.
  Quero que você não saiba mais das minhas falas, palavras preferidas, vocabulário adquirido, do sotaque nem dos tons da minha voz.

  Quero que não saiba mais das minhas pontuações, que não corrija mais as minhas vírgulas nem peça para eu usar mais exclamações. Quero que tudo acabe em ponto final e as reticências não pontuem mais nenhuma história nossa.
  Quero que se afaste do meu dia a dia e que do cotidiano saiba do mundo inteiro, mas nunca mais do meu.
  Quero que não me reconheça quando eu passar na sua rua, que não guarde as cartas que chegarem para mim no seu CEP e que a senha dos meus cartões você apague do seu celular, que fui eu mesma quem as colocou lá.
  Quero que uma muralha intransponível se instale entre a minha vida e a sua e que os nossos dois países nunca mais se comuniquem com diplomacia, mas também não declarem guerra; só se ignorem serenamente.

  Quero que você risque as dedicatórias dos livros que eu te dei, que queime os cartões e os bilhetes que eu escrevia chorando e assinava com um tua, em maiúsculo.
  Quero que você não entenda mais o meu dialeto, que não se recorde mais do meu passado nem da minha gente.
   Quero que quebre os meus amuletos, que jogue fora os restos de perfume, as caixas de incenso e as pedras energizadas de Santiago de Compostela e São Tomé das Letras. Quero que não me devolva, mas também não fique com as músicas que eu oferecia à você todos os dias; esqueça-se delas,  todas de uma só vez.
  Quero que não use os mesmos lençóis, toalhas, cobertores ou qualquer objeto que compartilhamos, mesmo que fossem seus antes de eu passar por eles, quero que você se desfaça deles, enrole-os em uma trouxa e envie à doação. 

  Quero que disfarce a sua surpresa, se por um acaso destes, sentarmos na mesma fila do cinema e que não se perturbe mais com a minha perna inquieta numa cena de suspense. Quero que finja não me ver, se ficarmos muito próximos numa fila para o banheiro ou estacionamento, que não fale mais alto e não queira ganhar minha atenção.
  Quero que você envelheça sem me mostrar seus fios brancos na sua barba, quero que não me sufoque não me agrade, não me surpreenda, não me agradeça, não me ame, não cozinhe mais milhos verdes e me espere para comermos juntos.
  Quero que os botões da sua camisa, que  se soltam, rolem pela calçada, desapareçam e ninguém mais os guarde, porque no meu bolso já não cabem mais.

  Quero que a sua mão não busque a minha e que os seus problemas não me peçam mais luz. Quero que você se resolva, se analise, se melhore e não me peça para fazer avaliações do seu estado, quero que não me confie a sua saúde emocional, o seu bem-estar mental e os estados do seu coração tão forte.
  Quero que você assuma os seus vícios, que não se esconda dos seus traumas, que não me chame aos seus dramas, porque são seus e eu nunca fui capaz de fazer melhor do que só você pode.
  Quero que a sua metade já esteja dentro e que a sua pressa em se resolver não o atrase ainda mais para o encontro com a maturidade que já o espera em frente à sua casa, com a porta fechada.

  Quero que os meus compromissos não estejam mais na sua agenda, que os  roteiros que planejamos juntos sejam perdidos. Quero que as cidades não sejam mais nossas, assim como o céu, o mar e as montanhas; vamos devolver, definitivamente, o que nunca foi nosso.
 Quero que as minhas plantas estejam em outra casa e que o cachorro tenha mudado de nome, porque era eu quem o chamava o dia todo.
  Quero que aos domingos você não vá correr pela avenida que eu o levei para se exercitar pela primeira vez; que os nossos, meus e seus estejam muito bem organizados. Não precisa me devolver nada, eu não quero, mas abandone o que era nosso, por favor, em qualquer esquina dessas.

  Quero que não se ofenda com os meus pedidos, que não se magoe com as minhas linhas, que não se decepcione com a minha decisão. Quero que não se arrependa, que não me culpe e que nos perdoe na sua oração. Quero que você esqueça, que melhore, que não me leia, que não me veja nunca mais com os seus coloridos olhos companheiros.
  Quero que você amanheça a cada dia mais brilhante, que cresça, que se fortaleça, mas eu não quero estar para ver; quero que me ignore o resto da sua existência.
  Quero que não me chame, não fale o meu nome nem diga quem eu fui um dia. Eu quero desaparecer da sua sala, cama, filmes, imagens, história e dos seus registros, eu quero não existir mais para você, quem sabe assim eu consiga apagá-lo também.