sábado, 16 de dezembro de 2017

Sob a sombra de um bonsai

  Um bonsai é como qualquer outra árvore,  precisa de luz solar, poda, água e, às vezes, adubo. A frequência de cada um é determinada pela espécie e, até, pelas características individuais de uma árvore. As árvores não são uma coisa só; são diversas em necessidades, produtividade, forma. A especificidade do bonsai, com relação à árvore, é só o tamanho. Um bonsai é uma árvore que cabe na mesinha de centro e, talvez por isso, precisa de olhos muito atentos às delicadezas dos seus pedidos. Um bonsai é um sussurro. Eu não soube como cuidar de um, talvez de árvores em quintais eu soubesse. Parece-me que quanto menor, maior a entrega. Para cuidar de um bonsai, eu teria que aprender, antes, a não ter pressa, saber escutar silêncios e a não esperar nunca pela sua sombra.

  Não é o seu primeiro recomeço, todas as outras tentativas foram a promessa de uma última, mas nenhuma, ainda, logrou o sucesso de derradeira. Não é a primeira vez que desenha uma linha imaginária sob os pés e segue os primeiros passos sem olhar para os lados; para não desequilibrar-se. Nem é a primeira que força um sorriso, parece otimista e ri de si, para não perder-se em tristezas.
Não é a primeira vez que troca de sapatos para aprender novos caminhos.

  Volta nu, quase sempre. Sem dinheiro, falido de laços, rompe com os cenários, personagens e narrativas da página virada, porque seus recomeços chegam com pesadas canetas que ele pressiona contra as folhas novas. Chega sempre afastado de esquinas antigas, que ainda o chamam, mas que ele resiste em reconhecer seu nome. Quando volta, traz sempre uma muleta que o ajuda a sustentar os joelhos nas primeiras descidas. Teve o peixe, numa das vezes, e se esqueceu dele no aquário sujo, sem comida e sob os raios da luz direta com a janela da cozinha aberta em menos de um mês; vinte  e seis dias e estava morto o seu peixe e acabado o seu recomeço. Ainda lembro-me, com saudades e lamento, do peixe amarelo na água turva.

  Teve outra vez, que cruzou o portão com um hamster. Gaiola, roda, ração, brinquedos coloridos e promessa de vida longa para o roedor com quem desbravaria seus inéditos começos - aventura partilhada - mas que desapareceu dentro do sofá numa liberdade, nada vigiada, em um mês e meio. Chamamos o hamster branco de Tomás e gritamos seu nome por dias, enquanto rasgávamos o sofá inteiro. Perdeu o Tomás, o único sofá da casa e a promessa de recomeço venturoso.  Também teve  a vez do  livro sagrado, que atirou do décimo terceiro andar, quando não conseguiu entender seu texto.  Teve a namorada, uma segunda, uma terceira, uma quarta e depois nem o número soube; mulheres que atraídas pela sua errância, arrependimento, pés quadrados  e olhos marrons tentaram resgatá-lo das suas perturbações cíclicas. Pelas mulheres, pelo Tomás, pelo sofá e pelo peixe, ainda sinto muito.   
   Dessa vez saiu com um bonsai. Já são mais de vinte semanas que ele e o bonsai dividem um mesmo teto. Escolheu o melhor lugar para sua pequena árvore, colocou-a no centro da sala e da sua vida. Como das outras vezes, deposita firmemente suas esperanças de recuperação no êxito da sua parceria.
- Precisamos manter o bonsai.
  É o meu primeiro pensamento da manhã e o mais recorrente dele, pelo dia todo, desconfio.
  Logo que o vi, pela primeira vez, com a arvorezinha nas mãos, eu suspeitei que seria o fracasso mais certo, ainda que quisesse que fosse mesmo sua muleta mais firme, sua possibilidade mais plena de reescrita.

  Mas ele e o bonsai são feitos um para o outro, tenho achado. Ás vezes, chego ao apartamento às três da tarde e uma luz irradia no meio da sala, sobre ele, que diminui a amplitude do seu olhar e aumenta sua profundidade a cada dia, para alcançar a companhia que o sustenta, mesmo que não tenha mais do que trinta centímetros.
  Nunca vi um jardineiro mais leal,  disposto e entregue. Ele conversa com a voz pequena das raízes da árvore, entende o som do chacoalhar mínimo das suas folhas, poda, molha, leva ao sol, protege do vento da noite e tem se sustentado tanto quanto os troncos delicados dela. Ele é um homem que entende a língua do seu bonsai. É raro, é autêntico, é de uma beleza comovente o encontro das suas mãos, antes inábeis, com os galhos curtos e finos da arvorezinha-redentora.

  São absolutamente encantadoras a cenas que eu tenho podido assistir nos últimos cinco meses, mas invejo-os.
  Embora torça por ele, queira muito bem ao bonsai, goste de plantas e o ame, para sempre. Invejo-o porque eu, tão dedicada, tão preparada, tão determinada, não consegui manter um bonsai na minha sala por muito tempo; nunca compreendi a delicadeza das suas necessidades. E invejo o bonsai também, muito, talvez mais do que o jardineiro porque eu, tão dedicada, tão preparada, tão determinada, não consegui manter os pés quadrados em linhas menos tortas. O sussurro foi demasiado efetivo para alcançar seus ouvidos e coração. Mais do que uma voz certa, o volume.

  Trinta centímetros de flora e ele, agora, tem outra chance. Enquanto as esquinas gritam o seu nome, ele se ocupa do sussurro na mesa de centro da sua sala. Acabou o peixe e a sua mudez aquática, o roedor e a sua voz aguda e agarrada, as palavras sagradas e a sua opulência que afugenta, foram embora as mulheres com suas vozes apaixonadas de maternidade errada e o jardineiro, agora, resiste sob a sombra do seu bonsai. Que ela dure, que ele dure. Que só morram de velhice esses dois. Ele é um homem como todos os outros homens do seu tamanho, mas a delicadeza da sua alma cabe numa mesa de centro. Quanto menor, maior a entrega.



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pensei em sermos acasos

  Pensei em sermos aves, enquanto os outros esperam o pouso dos seus aviões, apertados numa poltrona cinza,  com o serviço de bordo em um sorriso engessado da comissária. Pensei que com as nossas asas modestas abertas em um céu ilimitado não chegaríamos rápido, mas podíamos ir longe e bem alto. Pensei em termos a visão das coisas que não queremos para nós, mas em nós; guardá-las na nossa caixa de memórias. Pensei em pertencermos ao céu, ao espaço, ao que não tem paredes, móveis e cadeados.
  Pensei também em viajar de trem, moto ou veleiro. Viagem que não tivesse um destino pronto, exato, hotel marcado, atrativos de postais obrigatórios, mas que tivesse música, suspiros e encontros. Pensei em férias que não acabassem, mesmo na cidade, trabalhando e nos ocupando, também, em sermos felizes.

  Pensei em sermos carnaval em agosto, natal em maio, páscoa em novembro. Comemoração sem o peso dos avisos, confirmações, sem as exigências protocolares dos rituais. Só um vestido, um perfume, uma bebida, um prato, música e uma dança, disso você bem sabe a importância. Pensei em convidar somente os mais próximos: a moça da farmácia, o zelador daquele prédio que sempre me cumprimenta, a menina do 201, porque ela gosta de festas e traria balões e alegria, o viúvo da rua de baixo, a estrangeira que divide a mesa conosco quando vamos ao mesmo café. Pensei em fazer alguns convites a mão e ir entregá-los pessoalmente, frente a frente, gente a gente. Pensei em comprar um vinho, taças novas, nada caro, mas novos, sabe? Com cara de festa. Pensei em colocar algumas luzes coloridas no coqueiro do jardim, um tapete vermelho na porta de entrada, o que acha?
  E sermos festivos em plena terça-feira à noite. Sem amigos secretos, ocultos, invisíveis; só conversas madrugada a dentro. E acordaríamos mais com sono do que de ressaca.

  Pensei em não corrigirmos mais os textos que não são nossos e nem com os nossos sermos tão metódicos, deixemos para o editor as questões ortográficas, brinquemos mais de escrever, sem permissão dos pais; na lama, no caos, na subida do balanço, na escalada secreta aos muros altos e árvores frutíferas. Pensei em não julgarmos mais as decisões que precisam ser tomadas ou adiar as nossas escolhas. Pensei em sermos mais leais, menos escorregadios, mais tranquilos e menos desesperançados; mesmo nesses tempos de agora, que mais exigem das nossas crenças.
  Pensei em experimentarmos mais sabores, compramos menos enlatados, embutidos, massas prontas e aprendermos a ter paciência com os livros de receitas. Pensei em corrermos mais riscos, ensaiarmos menos e deixarmos o roteiro mais aberto ao improviso; para sabermos mesmo se somos bons atores.

 Pensei em procrastinarmos apenas a dobra do guardanapo, a virada da página do romance, a despedida no domingo à noite, o final dos dias. Pensei em irmos deitar como se fosse o nosso último dia na Terra, dormirmos como se a noite fosse eterna e acordarmos como se a manhã fosse o nosso nascimento; todos os dias experimentaríamos a morte, a eternidade e o começo de tudo. Seria bom, não seria?
  Pensei em ouvirmos Beatles de novo, porque a música deles parece sempre nos encontrar, já reparou? Fujo, corro, mudo da vitrola para o stereo, do stereo para o MP3 e celular e eles sempre aparecem do nada: numa travessia displicente entre a zona sul e a zona norte, numa ida ao cabeleireiro, no corredor do prédio do trabalho. Eu escovando os dentes e, de repente, escuto Norwegian Wood. Acho que os Beatles gostam da gente.

  Pensei em  não sermos mais cruéis nem por ironia,  por vingança ou necessidade; nunca. Nem comentário, nem pequenas notas nos nossos artigos, nem em mensagens de grupo, nem em pensamento. Pensei em sermos mais limpos, mais generosos, verdadeiramente mais ternos. Antigamente ternura era tão mais fácil, lembra? A gente passava em frente a uma casa e as pessoas dentro delas, das janelas ou atrás dos portões, sorriam com os olhos para gente; as pessoas davam laranjas, goiabas ou pitangas, em sacolas, quando voltavam da casa de parentes na roça; resgatavam o nosso gato, quando ele fugia, enviavam cartões de natal e desejam um bom domingo, todo domingo. Eu lembro de gente que, até, pedia desculpa por qualquer coisa.
- Desculpa qualquer coisa, viu?
Era terno isso, não era? Lembra?

  Pensei em andarmos descalços, em casa sempre e fora dela, quando fosse possível. Aterrar os dedos, a sola dos pés e os calcanhares àquilo que nos mantém, nos carrega, nos conecta ao espaço em que habitamos. Sem solados, saltos, cadarços, sem meias, sem mesuras. Pés no chão, achatados, nus; despudorados e desbravadores no chão, pelo chão.
  Pensei em chorarmos mais em público, a última vez que eu fiz isso, há duas semanas foi tão libertador e, ao mesmo tempo, pareceu tão peculiar. Se fizéssemos mais, as pessoas acostumariam logo e depois, ninguém se constrangeria de se emocionar em público; é tão bonito, sabe? Eu acho. Pensei em não nos negarmos às emoções nem entre desconhecidos; é um jeito de não sermos mais estranhos uns aos outros.

  Pensei em não lermos mais as previsões astrológicas, no final do ano, sobre o ano vindouro; não em deixarmos de acreditar nelas, mas não sabermos delas. Só não vermos, a cada mês, as possibilidades de prosperidade se esvaírem. Viagem para o exterior, amor correspondido, herança inesperada, fortalecimento de amizades, cuidados com a saúde e promoção no trabalho não cabem nos nossos doze meses, não assim, tão bem organizados e dispostos.
  Pensei em não fazermos aquela tatuagem, marca-signo de uma profundidade que já nos ocupa, antes mesmo da pele em tinta. Pensei em avançarmos duas casas e não recuarmos mais no jogo, aprendermos a perder sem adiarmos nenhuma jogada. Pensei em sermos mais acasos, menos certezas e, mesmo assim, nos responsabilizarmos pelo que o outro lê, enquanto ainda escrevemos. Pensei em ouvirmos mais Beatles e usarmos mais as nossas asas.   



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Os rinocerontes não usam tênis

   Os tigres caminham com precisão; são silenciosos, elegantes e ágeis. Os tigres se movem, pelas savanas, objetivos, preparados; em passos que marcam a terra, sem afundá-la. Andam como homens de negócios, com seus sapatos italianos: poderosos, soberbos e eficientes. Os passos de um tigre são mais temidos do que o próprio tigre; suas patas chegam antes dos dentes. O discreto barulho da sua aproximação devora mais do que a sua boca. Entre um passo rigoroso e outro, a possibilidade iminente de um salto perspicaz sobre uma presa que, antes dele, ninguém mais viu. Os movimentos do tigre são o que fazem dele um tigre; a linguagem corporal no reino animal é inescapável. Todos os tigres se movem como um tigre; qualquer tigre se moverá como todos os outros tigres, senão não sobreviverá à selva.

  Dez da manhã:
- Muito cedo para almoçar, já um pouco tarde para caminhar. Mas se não me movimentar agora, mais tarde pode chover, o telefone pode tocar, pode faltar água, gás, posso receber ou querer ser visita. Vou já!
  Tênis e sol amarelos, calça e fones pretos, camiseta, boné e céu azuis. Filtro solar, playlist nova, relógio, dois reais para a cocada da padaria, na volta.  
  Aos domingos, especialmente, meu corpo reclama por liberdade. Não sou um tigre, não me movo sequer com o mínimo da sua certeza, mas enlouqueço se não posso me mover. Quase perdi o juízo, por completo, uma ou duas vezes em que estive impossibilitada.
- Nunca mais.
  Foi a minha promessa.

  Caminho pelo mesmo itinerário há anos; porque conheço seus obstáculos, os buracos, as dificuldades de acesso, as falhas nas calçadas e também porque sei das suas belezas, os três ipês, as duas praças, as cinco casas antigas, o prédio ao final da rua, de janelas largas e varandas rústicas, onde um dia vou morar. Já mudei de caminho algumas vezes, mas pareço trair um costume, um hábito que é meu, mas também da rua, ela também me espera. Eu sei, eu personifico os lugares. Sinto que são meus e que sou deles; tenho amor e sou amada por um apartamento, uma esquina, um banco debaixo de determinada árvore. Tenho medo e sou rejeitada por um beco, uma rotatória, um quintal com arbustos densos e baixos.

  Até as pessoas com as quais encontro se repetem. Algumas eu só conheço de relance entre passos muito apressados ou uma corrida ofegante. E só encontro-as quando estou com a mesma malha e tênis, sempre acho que não me reconheceriam em um universo que não fosse esse, em que eu não estivesse de pé e ativa. Elas sabem de mim pelo meu andar. Como o tigre que tem a sua identidade marcada pela maneira como se move. Hoje, só tive dois desses encontros, porque o horário habitual  de caminhada não é esse, mas sorriram e como a rua, pareceram também sentir a minha falta.
  Eu estive leve, alegre, desajeitada também, para um recomeço, mas andei tranquila e pacífica como uma vaca no pasto ou uma garça no remanso de um rio.
  Mas ao seguir para a padaria, um desconhecido se movia pela mesma calçada que eu. Um homem com uma cadeira; dessas que fazem conjunto numa mesa de jantar. Com uma das pernas no chão, ele arrastava a cadeira, onde tinha o pedaço da outra perna escorado. Entre a meia perna e a cadeira, uma toalha azul dobrada.

  Uma toalha azul para amortecer o impacto, uma toalha azul macia, entre o acento da cadeira e a perna cortada. Recente ou não. Acho que amputação era recente porque ainda estava enfaixada. Eu senti dor, não pela amputação, mas pela condição que ele tomava para si.
- É um tigre esse homem! Que certo, que objetivo! Determinação nas raízes.
  Mas tentei não olhar. Passar como se nada me afetasse, como se um homem com meia perna amputada, arrastando uma cadeira fosse completamente natural nesta selva. Tive medo de não saber ultrapassá-lo, diminuí a intensidade dos passos, tentei tomar distância e, principalmente, não ter pena.
 - Ele não vai falar comigo, ele não me conhece. Não pertencemos a mesma espécie. Eu sou uma garça de volta ao pântano.
Lembrei.

  Mas ele disse, ele se virou para trás, onde eu estava e sorriu com a plenitude de um domingo de sol. Depois, me desejou um bom dia e eu corri. Corri o mais rápido que os meus pés puderam arranjar de improviso. De susto, de curiosidade, de surpresa e, especialmente, pena. Pena por achar que eu era a garça.
  Entrei na padaria, não queria vê-lo mais. Não agora, não em frente a uma dificuldade dele em absoluta superação e tantas minhas, ainda desconhecidas. Comprei a cocada, esperei ele estar mais afastado e corri, de novo.
 - Uma garça esse homem. Que alegria, que leveza, num remanso imperturbável e alheio aos movimentos fáceis da vida e aos olhares perturbados de compaixão.  

  Os rinocerontes caminham com a dificuldade de um corpo muitíssimo pesado. Os rinocerontes carregam o peso da sua fealdade, da sua estranheza enrugada e cinza. Os rinocerontes se movem como podem, não da maneira mais agradável ao olhar. São pesados por natureza, por uma decisão que antecede ao nascimento deles; os rinocerontes não usam tênis amarelos, solares. Os rinocerontes, mesmo ameaçados de extinção,  sobrevivem com o seu andar pesado. Somos da mesma espécie, eu, o homem da toalha e o rinoceronte, eu nunca fui garça. Corro até ao rinoceronte da meia perna amputada, diminuo a intensidade dos meus passos, mais uma vez, agora para aproximar-me dele.
- Bom dia! Quer um pedaço?
-Cocada? Adoro.
  Volto para casa com meia cocada e com os passos que a natureza deu a mim. A rua fez-me muita falta e eu a ela, penso, e as pessoas nela também sempre fazem. Não importa como movem-se os rinocerontes, o crucial é que eles nunca estão estáticos.  



sábado, 9 de dezembro de 2017

Eu sei quando a lua não me ilumina

   Eu sei quando vai dar errado. Não sou menos ou mais esperta por isso, só sei.  Em frente ao mar antes mesmo de uma onda se formar, eu sei exatamente onde ela se quebrará. Que é violenta, incontrolável, densa e que vai me levar até ao fundo, me puxará até à superfície e depois de ter me arrastado até alto mar, vai me abandonar. Eu sei porque um anjo terno e muito discreto, senta-se ao meu lado, enquanto ainda estou na praia, e sussurra numa voz melodiosa e exata:
- Não é. Não vai dar pé.
  Ouço sua voz de calmaria, amoleço um pouco, ameaço segurar nas suas asas e pedir que ele me leve, mas não chego nem a olhá-lo nos olhos. Continuo; reta, definitiva e entregue, meu corpo encontra a água, segundos depois do meu pensamento ser dela. Eu sei quando vou me afogar.

  Eu sei quando vai chover, o céu denuncia, o vento traz a notícia; antes da chuva o seu cheiro em anúncio. Nuvens cinzas, cheias de decisão de queda; rajadas de ar balouçantes, árvores comemorando a vinda da visita; luzes e barulhos antes da sua chegada. Eu sei quando a precipitação se aproxima da minha rua,  mas arrisco-me ao deixar as janelas abertas, a porta da varanda fechada para o gato, as roupas no varal. Lanço-me sem bote, sem salva-vidas, sem um guarda-chuva forte a toda possibilidade de aguaceiro. Eu sei quando uma tempestade virá para molhar meus livros, tapetes, sofá, camisetas, calças jeans e os pelos cinzas de Otelo.

  Eu sei quando não aperto bem a mangueira do gás de cozinha, porque coloco um pouco de sabão no encaixe e vejo uma bolha mínima quase se formar, mas limpo a espuma antes de qualquer certeza. Fecho a cozinha, sob a ameaça de uma explosão, continuo plácida, organizada e resignada a mover as engrenagens da secreta vida doméstica no apartamento que é meu reino. Eu sei quando o gás não está seguro, mas deixo o cheiro invadir os corredores do prédio e algum vizinho vir bater à minha porta, cansado, entediado e ríspido com o meu descuido. Eu sei quando não estou segura e só fecho a porta da cozinha, atrás da minha suspeita. O perigo que não vejo, não me abate.
  Eu sei quando o fogo queima. Em frente a fogueira, eu vejo cada pedaço de madeira ser tomado pelo fogo laranja e vermelho, ser consumido em poucas horas e virar um amontoado de pó cinza desvalido; ainda assim, eu deixo as labaredas tocarem os meus pés. Eu sei quando sou uma ameaça e também sei quando vou ser queimada.

  Eu sei quando as frutas não estão na época, mesmo assim, deixo o feirante me enganar. Ele é quem aperta, mostra o lado mais rosado da fruta e a embrulha para eu levá-la para casa. Nega-me um desconto, porque melhor do que esta não vou encontrar, ele diz. E eu volto para casa com uma fruta fora de época e o desejo de tocar com a língua o doce e o macio de uma fruta que é ainda não é para este tempo. Chego em casa, descasco a dureza que a encobre e descubro que não tem doçura, maciez e, tampouco, é palatável. Volto suada, com menos dinheiro e desacreditada dos homens da feira. Eu sei quando sou enganada, mas deixo-me iludir.

  Eu sei quando tudo irá desmoronar.  Vejo as vigas tremerem, o reboco ceder, sinto o cheiro dos tijolos e do cimento que não foram capazes de sustentar uma construção; mesmo assim, eu fico sob o teto instável, suspeito e exposto. Porque a casa não vai mais embora de mim.
 Eu sei quando estou vazia, mesmo assim fico parada na porta, dizendo a quem entrar:
- Bem, muito bem sim. Obrigada
  Obrigada o quê? Bem, como? Mas como explicar uma falta sobre a qual nem se compreende. Alguém que foi embora, uma morte, mãos que se soltam em uma multidão, desencontro por causa de um atraso no voo, aparelhos desligados, desistências antes do caminho, tudo isto sabe-se o que perdeu ou que não se teve. Mas um vazio sem nome, sem data na agenda, sem marcas de lágrimas no papel de aviso, não é nada; ou é, sem ser. Eu sei quando o teto vai desabar, sei quando há um espaço de ausência, num lugar que se recusa ao eco, mesmo assim eu não abandono o lar falido e não me ocupo da ausência sem nome. 

  Eu sei quando a lua não me ilumina, sinto a distância continental entre a sua luminosidade e a minha pele; admiro o seu halo redondo, resplandecente e não sou capaz de alcançá-lo nem com o coração. Vou dormir no escuro interno, sem medo, sem nem chorar uma vez. Mas, antes, programo o timer das luzes de natal lá fora e alguma coisa vai brilhar depois das dez.
  Eu sei quando um sol se apaga dentro de uma pessoa e quando eu só tenho pernas para ir ao seu socorro, ainda assim, eu corro. Dou o que tenho. Eu sei quando estou no completo breu e preciso ir para cama sonhar com a luz e sei, também, quando alguém se apagou e eu só tenho um pequeno fogo inútil para encontrá-la, mesmo assim eu vou.

  Eu sei quando o futuro chega, vejo as casas sendo demolidas, assisto aos prédios ganharem as alturas, sinto mais os joelhos na corrida e vejo o quanto os cabelos perto da nuca embranqueceram.  Mesmo assim, me sento na poltrona de estampas desbotadas, agarro o álbum de fotografia mais antigo e já amanheço, encolhida, noutra época, noutro ano, noutra aurora alaranjada. Mesmo assim, não troco de roupa para o outro ano, não mudo o perfume nem compro uma poltrona nova ou chamo o estofador para um orçamento.
  Sigo sabendo, eu não me salvo por saber. Eu também não explico o que eu sei, porque é um saber muito empírico. Eu sei quando a lua não me ilumina, mas mesmo assim, eu continuo a sair à noite, a voltar para casa de luzes apagadas e a encontrar o buraco da fechadura da porta, cujo teto instável me protege de não ser apagada na minha própria escuridão.






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Devolva a minha letra, o meu nome e o marcador de páginas

  Não combinaram os astros, os planetas regentes, os itinerários astrais, tampouco os terrestres. Não sincronizaram os nossos passos, não comunicaram as nossas rotas. Eu esperava de um lado e você se atrasava, vindo de outro; você começava uma música e eu continuava com outra letra. Desafinamos. Desatamos em linhas que pareceram muito frouxas desde não sei quando. Mais uma história que ninguém conta.
  Não dividimos os pertences, nisto estivemos compassados.
- Cada um guarda o que é seu e no que tivermos dúvidas, perguntamos.
Nisto eu confiei, mais do que em qualquer outra palavra sua. Mas, nisto, perdi meu livro daquela escritora italiana. Queria que me devolvesse o livro. Nada demais. É só porque tem a minha letra, uma resenha breve de cada conto nas duas últimas folhas e verso da capa e um marcador de página antigo, que estava com ele quando comprei. Está escrito Débora no marcador, olha aí, mas é meu. Veio com o livro que comprei usado.
  Devolva o meu livro, que eu devolvo o seu par de meias que eu trouxe por engano.

  Não operaram milagres por nós dois, nem seu evangelho nem minha mãe do terreiro nos salvaram do desencontro final. Nenhum santo, nenhuma metafísica,  nem ato de contrição ou novena,  nenhum céu, nenhuma história budista  nos ensinou a continuar. Nem Cosme e Damião nem Iemanjá, ninguém intercedeu pelo nosso lar. Nem o pajem com alianças, nem o pajé com as suas ervas e as nove luas puderam nos fazer dois em um. 
  Se devolvesse a minha fé, eu devolveria cada uma das suas dúvidas, que eu trouxe junto com as suas meias.

  Não descobriram a cura, nem remédio ou vacina. Não detectaram nenhum sinal de anormalidade. Não convocaram uma junta médica, não houve prescrição de  terapia que nos poupasse dos traumas. Não marcaram consultas de controle para a cada três meses, não auferiram  nossas pressões nem mediram a glicose. Não pediram tomografia das nossas cabeças e nenhum teste cardíaco, quando abrimos a porta pela última vez. Não se ocuparam em pensar em nós, ninguém ofereceu uma cirurgia corretiva ou, pelo menos, uma anestesia ou morfina para que fizéssemos a passagem sem dor.
  Queria que devolvesse a minha alegria de natal e eu devolveria seus gostos musicais e cinematográficos, que eu escondi dentro de um dos pés da meia.  

  Não descobriram estrela que mudasse os nossos destinos do mapa. Nenhum planeta novo que mudasse nossas regências. Nenhum eclipse aconteceu no último dia, nada que nos impedisse da última palavra, que nos chamasse à rua, que nos deixasse estupefatos e de susto, por medo, nos perdoássemos e resistíamos. Nenhum cometa, nem superaquecimento das águas, nenhuma mudança brusca nas marés; nada. Nem choveu, acho.
  Quero devolver seus elogios, porque soam como cobrança, uma pressão por ainda não ter sido o que você disse que eu era. E você me devolve a solidão completa, a liberdade de não me sentir em débito com o sentimento de outra pessoa. E, é claro, o par de meias irá junto, num só pacote.

  Não nos deram o bebê que planejamos. Não perpetuamos nossa espécie dissonante. Não fomos ao pediatra nem acordamos de madrugada embriagados de amor e sono. Não nos encantamos com os olhos de alguém feito de nós, não nos sentimos desesperadamente responsáveis pela vida de uma outra pessoa feita de nós. Não decidimos um nome, não compramos um berço, não fomos à praia antes das dez da manhã ou choramos quando uma voz pequena balbuciou as primeiras sílabas. Mesmo assim, não nos despedimos estéreis. 
  Quero devolver seu choro intervalado, que eu ainda escuto, quando atravesso uma noite muito longa. E queria que me devolvesse as minhas duas mãos que se entrelaçavam no seu pescoço todas as vezes em que você se salgava; eu preciso que elas me entrelacem agora. Do par de meias também não me esqueço.

  Não fundaram um novo lugar, não criaram ainda um outro modelo de sociedade, que coubessem os nossos sonhos. Não nos tornaram menos individualistas, menos consumistas, menos egoístas, menos ressentidos, menos infelizes ou menos competitivos. Não socializaram o nosso amor; capitalizaram-no e venderam-no a um valor que não pagaria nem os nossos sapatos que usamos para ir embora. Fomos demitidos de nós, porque não produzíamos em larga escala a um custo baixo.
  Quero devolver os cinco quilos que ganhei, enquanto estivemos juntos e um par de meias velhas, que ficaram entre as minhas coisas. E queria muito, se pudesse, que me devolvesse o meu sono pesado e a minha energia matinal para ir para a natação todos os dias.

  Não fizeram por nós, o que nós não conseguimos. Ninguém apareceu quando eu liguei para o resgate, ninguém recebeu os nossos bilhetes escondidos nos pacotes de pão, ninguém suspeitou que éramos um desastre natural silencioso e lento e que um dia irromperíamos na sala; civilizados e feridos.
  Quero devolver a amoreira que plantamos juntos no sítio dos meus avós. Eles morreram, venderam o sítio e a amoreira só se espalha. Quero devolver os seus planos futuros, que ainda tento acompanhar mesmo de muito longe; eles nunca me pertenceram.
   Por um acaso, o meu livro sobre a rua amarela ainda mora na sua prateleira? Se estiver com você, devolva. Devolva a primeira página com o meu nome, data e cidade, a minha letra, meus pensamentos,  a minha leitura e o marcador de livros da Débora, que é meu há muito. Se quiser o par de meias eu os tenho em meu poder, devolva o livro e ninguém sairá mais ferido.