sexta-feira, 13 de julho de 2018

Muito magra para ter um filho, muito gorda para ter um homem

  Muito inteligente para ser bonita. Bela demais para ser esperta. Muito jovem para saber. Velha demais para aprender. Muito independente para ser acompanhada. Vulnerável demais para ir sozinha.  Muito vaidosa para as teorias e descobertas na Ciência. Desalinhada demais para os jantares e colunas sociais. Muito sensível para suportar o peso. Ambiciosa demais para ser afetada. Muito ensolarada para entender abismos. Soturna demais para fazer sorrir.
  Muito maternal para ser desejada. Sensual demais para ser respeitada. Roupa curta demais para não querer ser vista; roupa muito comportada para a idade.
- Que roupa você usava? Fazia o quê sozinha, na rua, uma hora dessas? Era inevitável isso.

  Muito sociável para confiar um segredo. Solitária demais para desejar intimidade. Muito responsável para largar tudo e vir agora. Passional demais para querer ficar para sempre. Muito tagarela para ser ouvinte atenta. Silenciosa demais  para saber o que lateja dentro. Braços muito longos para a blusa cobrir o punho; braços curtos que não ficam bem de mangas três quartos.
  Muito irredutível para dizer um sim. Disponível demais para negar a proposta.
- Por que não casou? Por que não durou? Por que continua com ele? Com uma mulher, só porque não conheceu um homem de verdade.

  Muito volúvel para tomar decisões importantes. Irredutível demais para conhecer outras perspectivas. Muito limitada para ver além. Livre demais para se comprometer. Muito louca para compartilhar uma mesa, uma cama, uma poltrona de ônibus, uma vida. Imperturbável demais para surpreender na mesa, na cama, numa poltrona de ônibus, numa vida.
  Muito magra para carregar um filho no ventre. Gorda demais para conquistar um homem. Muito desesperada para passar por um processo longo de adoção. Tranquila demais para acharem que quer mesmo um filho.
 - Não quer ter filho? Mais um filho? Não terá ninguém com quem contar. Nunca mais vai ter sossego.

  Muito dramática para aceitar rotinas. Inabalável demais para expressar suas emoções. Muito doce para ouvir verdades. Muito ácida para dizer verdades. Muito alta para usar calças skinny. Estatura baixa demais para vestir calças flare. Muito consumista para poupar. Econômica demais para aproveitar.
  Muitos traumas para ser saudável. Passado tranquilo demais para fazê-la forte. Muito curiosa para suportar o que não tem resposta. Desinteressada demais para refletir.
- Por que sorri? Por que a cara fechada? Não entendo como suas emoções são tão inconstantes.

  Muitas marcas para desenhar uma história nova. Inexperiente demais para escrever um livro. Muito arisca para ser conquistada. Cativa demais para conquistar. Muitas acnes nas maçãs do rosto para sair sem maquiagem. Cabelos grisalhos demais para não pintar. Muitas decisões equivocadas para perdoar. Indecisões demasiadas para seguir em frente.
  Muito rancorosa para esquecer. Generosa demais para se vingar.
- Você o confrontou? Você o magoou? Ele não faria isso se você não o deixasse nervoso.

  Muito crédula neste mundo que não merece confiança. Desconfiada demais para se entregar. Muito abnegada para realizar seus sonhos. Egoísta demais para construir sonhos em conjunto. Muito fagueira para ter problemas. Melancólica demais para ter boas lembranças. Muito batom vermelho para quem não quer nada. Maquiagem de menos para quem está interessada. Muito atrasada para planejar. Adiantada demais para terminar.
  Muita cerveja para para seu o rim pequeno. Sóbria demais para sorrir.
- Você bebeu? Nem um copo? Não devia ter bebido. Devia ter bebido pelo menos um pouco.

  Muito ocupada para desejar um bom-dia. Disponível demais para não responder ao boa-noite. Muito profunda para ser leve.  Superficial demais para se deixar afetar pelo mundo. Muito discreta para um apartamento com cortinas floridas e almofadas com estampas tropicais. Alma colorida demais para uma sala em tons pastéis.
  Rios de afeto a serem contidos; quilômetros de palavras a serem calados. Transborda.
  Desertos de empatia que acumularam sede; estradas desabitadas que ensinaram a falar só. Atravessa.
  Muito mulher para ser amada. Amada demais para ser entendida. Muito, pouco, demais, alguma, nenhuma. Toda.


4 comentários:

Sofia de Buteco disse...

Pleno! Obrigada por esse texto....

Amanda Machado disse...

Obrigada, Amanda! <3

Professora Pauliane Godoy disse...

Como não amar? 🤷❣️❣️❣️❣️

Amanda Machado disse...

Que bom que gostou, Pauli! <3