quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Quando um amor morre

  
   Quando o amor morre, não há volta possível; futuras cordialidades são até possíveis, afeto e bom humor, depois de depois de amanhã, também, mas ressuscitar um amor falecido não é nunca possível. Pode-se fazer nascer um outro amor, pela mesma pessoa, mas é um outro, entende? Sendo você e o outro também novos outros. O amor que morreu esse não volta nunca a viver.

  Quando um amor morre, a vida toda assume novas proporções, cama, colchão, pizza ficam todos muito grandes, perde-se a mão no tempero, sobra comida na geladeira, não há mais surpresas, o que deixou ali há dois dias e não comeu, continuará ali intacto; o trajeto da casa para o restaurante favorito torna-se extenso demais, as filas são longas sem a companhia, a mensagem de celular, o pensamento perdido no amor que era vivo.

  Quando um amor morre o sujeito precisa encontrar um novo jeito de viver, porque o amor morto devolve você a você mesmo, todinho; você passa a ser dono do seu corpo, pensamento, tempo, problemas e alegrias. Um amor quando morre, deixa você ocupado demais com você mesmo. E agora o que eu faço com tudo isto? 

  Quando um amor morre a gente quer ocultar o corpo, prefere não ter testemunhas, é diferente do simples término de um relacionamento, a gente não quer nem mesmo um ombro ou ouvido amigo. A triste constatação de um sentimento morto requer muita discrição. O amor acabou numa quarta-feira à tarde, mas o atestado de óbito vem 3 meses, um semestre depois. Amigos, parentes ou curiosos não foram convidados a velarem o corpo, por vontade mesmo dos viúvos em questão, o luto só cabe ao casal. E quando recebem a notícia da morte do amor, os amigos perdem o rumo por alguns segundos, tropeçam na escada rolante, perdem-se no shopping, na rua, no bar. Quando o amor de alguém próximo morre, sentimos a esperança se afastar, a crença nos finais felizes se distanciar um pouco. A dura constatação da finitude do sentimento abala até os, aparentemente, mais incrédulos. 

  Quando um amor acaba, algum anjo chora? Um cupido se desespera? Algum deus castiga toda a  humanidade com uma onda gigante, uma avalanche destruidora, uma tempestade brutal? O que de grandioso acontece quando morre o amor? 
  Um poema nasce, uma música é composta, um tango é a alegoria para o amor que morre:sério, circunspecto, sensual, duro, definitivo. O amor que morre tem na arte sua homenagem maior. Um escritor ordinário faz uma dedicatória especial ao sentimento morto: dedico esta crônica ao amor que morreu hoje às 12:45, na cidade de Altamira no Pará, Joana e Everardo depois de 12 anos, 30 amigos e 2 brigas não se amam mais; dedico também ao amor que morreu ontem em Manaus, Luiz e Bianca depois de 1 ano e 5 meses, 60 garrafas de vinho e 4 viagens enterram o sentimento e não são mais um do outro; dedico ao amor que morreu em Istambul, no dia 05 de maio de 2010, Renato e João acordaram de uma noite tranquila de sono e não encontraram mais o amor em casa, fizeram cartazes, anúncios para o jornal, contrataram um detetive, mas jamais encontram o corpo, embora já desconfiassem desde o início que o desaparecido estava já morto.

  Quando um amor morre o que fazem os casais com os seus "em comum"? Os amigos em comum, serão de quem? Os discos, os livros, imóveis, arquivos no computador, o computador quem pagou? A mobília, os cachorros e os filhos? A empregada ficará com quem? O salão, o restaurante, o parque, a cidade, o país que era nosso, com quem ficará? O constrangimento de não dividirem mais casa, intimidade, afetos. Os olhares trocados entre os fracassados de um amor morto. Não quero, não posso revê-lo até cicatrizar a dor do luto. E cicatriza um dia?

  Amores que não prosseguiram, morrem de velhos; de desnutrição; frio; acidente fatal na estrada, por imprudência do motorista, pista escorregadia ou desrespeito às placas e avisos; falência múltipla dos òrgãos; infecção generalizada; gripe mal curada ou morte natural. Um amor morreu hoje, outro morrerá amanhã, alguns morrerão antes mesmo de nascerem, abortados por indivíduos pouco corajosos. E quando um amor morre nem ao menos temos o Sam para pedirmos que toque "As time goes by", seria bonito se uma canção nos consolasse.

  Quando um amor morre, um outro nascimento é sempre possível, uma nova vida, casa, visual, até um outro amor novo. Mas, não esqueceremos jamais que em algum lugar, num dia de verão, um amor morreu. A vida até continua, mas o amor, este está morto. Descanse em paz, amor. O Vinícius já havia previnido-me, foi eterno enquanto durou. Cuide-se e apague a luz ao sair, por favor.








4 comentários:

Carla Machado disse...

Vinícius sempre tem razão: que seja eterno enquanto dure.

Amanda M. disse...

E eu que nem gostava da frase dele...;)

Ana disse...

e quando o amor morre mas continua a dor passados uns anos? é muito complicado, principalmente quando vemos que o outro continuou, refez a sua vida, e o outro continua "empancado", à espera sei lá de quê... eu j+a estive bem assim... estou melhor mas a saudade do que ficou ainda bate, principalmente quando ouvimos aquela músca ou assistimos a uma situação especifica, qualquer coisa que nos faz lembrar, que ninguém mais percebe e que talvez o outro já nem se lembre...
ficam as boas memórias, essas são nossas e ninguém pode tirar:)
beijinhos

Amanda M. disse...

Um bom amor converte-se em boas lembranças...afinal uma boa herança é necessário, depois de uma morte tão triste.