quarta-feira, 26 de junho de 2013

Só me dê o seu silêncio

  Não fale, por favor, não ocupe preciosos espaços com os excessos da fala. Não me fale de você, não me pergunte sobre mim; ouça mais quando não digo, porque eu o conheço mais através do que você cala, esconde, acorberta, suprime. O subentendido é quem me explica você. Não queira parecer inteligente para ninguém, quem é, quase nunca parece. Não queira me entender através das minhas opiniões manifestadas, as que omito são as que verdadeiramente me revelam, são elas que você deve escutar, mesmo que eu nunca diga. Revele-se sim, porque viver é frequentar outros mundos e deixar que os outros frequentem também o seu, mas não se esconda no conforto das palavras conhecidas, já ditas tantas vezes, porque desgastadas elas perdem o seu real sentido. Me dê silêncio; o seu.

  Encha meus dias de silêncio acompanhado, porque lá fora tudo o que tenho encontrado é um desafinado barulho solitário; palavras que confundem, mentem até sem querer. E fala-se tanto, muito a todo o tempo, que os pequenos embustes travestem-se de grandes verdades. Não me diga, só cale-se comigo.

  A maior declaração de qualquer afeto é muda. O amor emudece, as paixões tiram os sentidos das palavras, as amizades tornam a fala dispensável. As relações mais profundas se estabelecem e só se prolongam no silêncio. Só a intimidade permite o calar confortável, descarta a necessidade de preencher todos os espaços com palavras. Dizer sem som, amar com os olhos, comunicar-se através da sutileza do sentir. Quem sente não busca nas palavras explicação, porque encontra-a no próprio sentimento.

  Quero  encontrar um texto inteiro, uma epopéia, um livro, em um só gesto, sem letra alguma, sem verbo, sem ponto. Só gesto simples, sem ensaio, nascido de improviso em minha homenagem, em nossa. Ou uma música sem instrumento, sem melodia, dois corações sem sincronia, som mais honesto. Não me diga, silencie e me deixe calada. Desligue o som, esqueça a voz.

  A avó amada quase nunca dizia, o avô pequeno também não e eu amava o silêncio deles, sabe? E eu era amada pelo que eu não escutava. E eu chorava, na infância, quando era obrigada a falar, sabe o porquê? Porque eu sempre existi mais no silêncio. Falar sempre me feriu e agora, parece que escutar  tem me roubado os melhores sentimentos.

  A palavra falada é o último recurso, nunca o primeiro. A palavra só cabe no final; nos inícios faltam as palavras, sobram os suspiros; nos meios as palavras são dispensáveis, porque conhecemos a intimidade, adivinhamos pensamentos; mas quando os olhos, o corpo, os gestos, nada mais explica, então aí sim, cabe um "adeus". Então, antes da palavra, sente-se, não me conte como foi seu dia agora, não me pergunte sobre o meu, não ligue a TV, não atendemos a porta, não buscamos água ou comida, nos alimentamos um pouco do nosso silêncio compartilhado, porque isto também é vida. Porque este é o nosso presente para os ouvidos de todo o mundo; o nosso silêncio é bonito; escuta.




5 comentários:

Sandra Fantauzzi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sandra Fantauzzi disse...

Aquilo que cala,fala mais alto ao coração.Não é mesmo?

Ana disse...

Costumam dizer que não há nada mais esclarecedor do que um silêncio entre duas pessoas que não seja desconfortável. O silêncio é uma faca de dois gumes, com umas pessoas é uma angustia com outras o paraíso:)

Amanda M. disse...

Boa, Sandra!Concordo contigo! Sobram palavras, onde falta sentimento e elas faltam quando há muito a ser dito.

Amanda M. disse...

É bem isto que acho. Só se esta confortavelmente em silêncio, quando a intimidade é tanta, que não requisita palavras...