segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Do extraordinário

   Os olhos parados da mulher madura denunciam a longa espera, dessas esperas tão arrastadas, que  de repente, se esquece o motivo da expectativa. Dois mares profundos, sem a beleza da ondulação. Nada é mais triste. Queria eu ter o poder de tirá-la dali, daquela quietude enferma, uma doença sem nome e sem remédio e que de sintoma só a calmaria constante das suas águas. É segunda e seu cansaço já é de quinta. E essa sua espera que parece ser mais antiga que a própria vida. Primeiro precisava esperar pela felicidade de ir à escola; depois da escola primária, a verdadeira realização da adolescência, porque nada deveria ser mais alegre que a juventude; mais tarde, a expectativa pela vida adulta, trabalho, casamento, dois filhos saudáveis, até  parecer completa; até entender que entre parecer e ser, havia o obscuro túnel da expectativa.

  Os olhos parados da mulher esperavam por qualquer coisa que os atraíssem, que os surpreendessem, que respondesse as suas perguntas tão remotas, que justificasse uma espera tão dolorosa. Que, finalmente, a recompensasse por tamanha teimosia. Enquanto todos já tinham ido para cama, apagado as luzes, ela impassível, dura, forte esperava pelo sinal. Os olhos desgastados pela expectativa, pouco respondiam aos estímulos mais próximos, estavam voltados para o vazio do corredor distante, para a porta fechada, para as grades cerradas e muros quase intransponíveis. Olhos acostumados com o impossível que recusavam  as facilidades das aberturas.

  A mulher de olhos parados repetira, sem se dar conta, a leitura da "Mulher desiludida" de Beauvoir. Na terceira vez em que o leu achou que aquilo fosse um sinal. Lembrou da mãe já morta, da irmã distante, da filhinha que saíra de casa com uma imitação tosca de uma tiara de princesa e até da vendedora de cosméticos de qual há pouco se despedira. Todas esperavam como ela ou ela era a única que permanecia nessa espera? E se a mulher desiludida fosse ela?

  Os olhos daquela que um dia pretendera ser Capitu, na peça da escola, e desistira do papel, em favor da irmã mais nova, essa sim que desejava desde pequena ser atriz, agora olhavam para o que não fora. Arrependida pela concessão que fizera, pelo brilho do qual abriu mão, pelo desejo que nunca soube reconhecer. Livre do passado, continuava perseverante, embora sem tanta paixão, pelo que viria, pelo que de extraodinário a vida lhe devia. A mulher de olhos pacientes, boa filha, aluna esforçada, esposa leal e mãe afetuosa, mulher ajuízada e irmã generosa merecia que a sua espera tivesse algum sentido. 

  Noite de segunda-feira e o extraordinário que não chega, que não a liberta de si, nada para apascentar sua alma intranquila, nada que a salve da dureza de esperar. Atrás dos olhos parados, a inquietude da interrogação: - E se nunca acontecer? E se for só isto? Ofereço-lhe um copo de água, ela aceita, bebe e agradece, sem me retribuir sequer com um olhar, ocupado demais com o futuro. Naqueles mares, só a expectativa por dias melhores. Hoje é segunda e o tempo não me pareceu mudar. O extraordinário pulsa a sua frente, naquela mesma sala e ela nem vê.




6 comentários:

Ana disse...

Às vezes estamos tão embrenhadas nas nossas coisas e nas nossas preocupações, tão certas que a vida está parada e nunca vai andar que nós próprios deixamos de a ver. Também precisamos estar disponiveis para ela, eu acho!
beijo

Sandra Fantauzzi disse...

Sua personagem parece ser uma burguesa que vive às custas de marido.Tá fora da nossa realidade.Num país como o nosso,poucas podem se dar ao luxo de uma vida tão contemplativa...A maioria tem que lutar pra se sustentar,criar os filhos.São tantas as dificuldades que não dá tempo de ficar esperando,esperando...Mesmo com todo tipo de frustração,a vida pede urgência.

Amanda M. disse...

É verdade, Ana! É que por vezes nos confundimos com parecer e estarmos verdadeiramente disponíveis. ;)

Amanda M. disse...

Obrigada por compartilhar sua percepção, Sandra. E não tenho certeza que a mulher a quem me refiro fosse concreta quando o texto aconteceu, mas como o blog (no caso eu) não tem compromisso algum com fatos jornalísticos. O inventado, aqui, passa a ser real quando escrito. Agora é tarde, a mulher que escrevi foi criada e existe sim, neste e em qualquer outro país em que ela desejar viver. Ela é tão real quanto qualquer outro personagem, como uma elefanta que queria ser bailarina,por exemplo. Concordo quando diz que a vida pede urgência, mas discordo que a contemplação seja menos importante. Contemplar não é somente um exercício passivo é bem mais transformador do que muitos outros processos aparentemente dinâmicos. Sustentar um filho é mesmo muito importante, tanto quanto contemplá-lo.

Sandra Fantauzzi disse...

Como dizem os Titãs:"A gente não quer só comida.A gente quer comida,diversão,ballet."Mas a preocupação com a sobrevivência ainda é grande.

Amanda M. disse...

É mais ou menos isto mesmo, Sandra! Beijo ;)