terça-feira, 12 de novembro de 2013

Assim nos perdemos

  Já nem nos falamos mais, há muito não nos vemos e mesmo que finjamos um para o outro, não vê que estamos nos perdendo? Eu perco seus comentários da novela das oito;  você perde quando eu cantarolo alto uma música cafona e faço coreografia, assim, do nada, no meio de uma conversa séria ou interrompendo o noticiário; eu perco suas aventuras amorosas, seus amores eternos de uma noite, perco cada estória nova que você inventa sobre essa sua cicatriz discreta em cima da sobrancelha, perco seu cheiro depois do banho, sua pasta minuciosamente arrumada, seus compromissos cumpridos à risca, em ponto, perco quando faz a barba tão bem feita, que esqueço que tem pelos no rosto, seu jeito engraçado de parecer mau humorado, eu que nunca acreditei nesse seu traço ácido e que sempre o consumi doce, muito doce. E, então, você perde quando eu falo mal de você, acuso-o de mentiroso, ambicioso e frio, desejando, no fundo, que você me surpreenda atrás da porta, que queira tirar satisfações e no lugar de mágoas, risos descontrolados. Você perde minhas idas desastrosas ao cabeleireiro, minhas novas cores de esmaltes, meu dente da frente que quebra uma vez por ano e meu estrabismo supervalorizado, que eu insisto em ressaltar.

  E eu perco você se transformando a cada dia, sutilmente, não como uma lagarta que, de um dia para o outro, nasce borboleta, mas como uma borboleta que ganha um novo traço a cada dia. Enquanto isso você perde meu olhar parado sobre você, um suspiro e a frase (que eu tento fazer soar enigmática): - Você tem mudado tanto!

  Tenho perdido, um pouco por dia, todos os dias, uma nova parte de você; seus gostos novos, suas frases novas, seus sapatos caros novos. Terá você um drink novo? E uma banda nova? Quem sabe uma nova paixão? Novos óculos? E você me perde envelhecendo, fazendo exercícios, tentando uma nova dieta da moda, uma terapia alternativa para os meus medos;  me perde criança, perdida, louca, rindo da minha falta de direção, perde minhas novas manias, minhas novas implicâncias, meu novo corte de cabelo, minha nova receita favorita, meus bolos...você perde cada um deles.

  Queria não te perder mais, queria trazer-te para mim ou fazer parar o tempo; porque temo não reconhecê-lo da próxima vez que nos virmos. Queria que não me perdesse, que não achasse que eu me tornei essa pessoa da noite para dia, queria que visse passo a passo, entendesse as etapas de uma borboleta. Queria que me escrevesse, que dissesse que também sente muito, que também perde muito e, principalmente, que mentisse, que não mudou, que eu não mudei e que logo nos veremos. Confortada, apertaria sua carta contra o peito e dormiria depois de tanta felicidade. No fundo, eu não acreditaria, mas teria a frase, a sua carta e na sua promessa eu me agarraria.

  Temos nos perdido; mais que um do outro, temos perdido nós de nós mesmos. Você escolheu saudade, eu escolhi solidão. Me escolhe agora? Porque eu tenho te escolhido há séculos, nisto eu não mudei. Não pude, não quis, não aprendi como. Queria que me escrevesse, queria que me mentisse, queria mesmo, de verdade, que escolhesse nunca mais me perder.



4 comentários:

Anônimo disse...

E eu chorei, choreeeei...

Ana disse...

E talves seja pior perder alguém que amamos tanto do que perdermo-nos a nós próprios, porque talvez seja a mesma coisa. Talvez nos perdendo de alguém nos vamos perdendo de nós...

Amanda M. disse...

:(

Amanda M. disse...

Acho também. Somos um bocado dos outros a quem "temos"...