quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Para onde foi aquele olhar que você não me deu?

   Esperei. Enquanto não chegava, dei voltas no quarteirão, disfarcei a espera com um cigarro na mão, depois descasquei e cortei cebolas, amassei alguns dentes de alho - dois pequenos -  busquei tomates no mercado, fervi a água, mas o olhar que eu pretendia não chegou até aqui. Esqueci do sal, mas tinha manjericão, um pouco de salsa e azeite espanhol. Esperava, me ocupava, cozinhava, mudava a música, fumava um cigarro e até abri um vinho; quem sabe, relaxada, ele não chega? Quem sabe, distraída, ele não me acerta?

  Não veio, não chegou, nunca foi para mim. Comi a massa, guardei o resto do vinho e o cigarro que eu nunca fumo, continuarei não fumando, joguei-o inteiro no lixo. Lavei a louça, apaguei a luz da cozinha, porque não virá, mas não chorei. Eu ia dormir consolada de não ser o destino certo, de estar num caminho que o olhar não vai  chegar. Estendo o lençol na cama, ajeito os travesseiros e não reclamo. Talvez o olhar, que não foi para mim, noutro lugar faça mais sentido, encha a vida de outro alguém, seja melhor correspondido. Nunca sabemos mesmo onde vão parar as correspondências que não nos chegam. Um número errado, uma letra mal escrita, um carteiro em um mal dia, qualquer deslize e o destinatário vira outro ou não encontram ninguém. Correspondências sem dono encontram novo destino no fundo de uma caixa com outras cartas perdidas, são esquecidas entre panfletos na mesa do porteiro, brincam nas mãos de uma criança sedenta de rabiscos ou rasgos, morrem na poça de barro em dia de chuva, em qualquer lugar.

  Todas as coisas nascem para alguém, penso. Todas têm um destino de início. Podem nunca alcançá-lo, podem ser interrompidas na jornada, desprezadas quando chegam ou comemoradas noutras mãos e isso não será ruim; chegam a algum lugar e o modificam, ao menos por alguns minutos. Saem para ser um regalo, um aviso, um pedido para alguém, mas aninham-se noutro colo; talvez no de alguém que precise mais, que saiba ler melhor o que a carta diz.

  Ontem, no final da tarde, me chegou um poema, não era para mim, não reconheci a letra, nem o nome do remetente. Chegou num engano desses, enquanto eu esperava a outra coisa, com a ideia de um cigarro sendo tragado e  não tendo ainda começado a preparar o jantar. Chegou o poema e era tão meu, mesmo não sendo. Tão próximo ao que eu vivia, ainda que falasse de unicórnios, serpentes e tempestades de areia, que eu nem pensei em devolver. Não era para mim, eu sei. Mas acabou sendo. Os versos, ocupando os espaços vazios do olhar que não me deram.
  Eu lia o papel, enquanto colocava a música, depois, decorei os primeiros versos e repetia-os, descascando a cebola. Avancei na leitura e cortei as cebolas em pedaços bem miúdos, porque não gosto do barulho que os pedaços grandes fazem, enquanto são mastigados. Amassei os dois dentes de alho e chorei com o verso que falava de uma resistência. Antes de ir ao mercado, buscar os tomates, dobrei o poema e o coloquei no bolso da calça, saí pela rua, protegida por uma carta, acompanhada de  palavras destinadas a outra pessoa, mas que agora eram minhas.

  Depois do mercado, quando a água estava no fogo, eu pensei na pessoa a quem se destinava o poema que era meu. Não me interessava o remetente, este eu não conhecia mesmo. Mas em qual casa o papel deveria pousar? A mulher tem um nome parecido com o meu, mas mora noutro andar. Por que eu nunca a vi antes? Por que mandam um poema para ela, se faz tanto sentido para mim? Por que falam a ela, o que eu ouvi com tanta entrega? Será que os destinos errados não acabam certos? E se ela não se interessasse por ele tanto assim? Se não fizesse para ela o sentido que, para mim, ele faz agora? Era um roubo ou uma justiça o poema agora ser meu?

  Jantei em frente ao poema, bebi o vinho recitando-o na cozinha para mim. Esqueci do que não tinha chegado e mesmo depois de me lembrar, não lamentei, eu tinha um poema, um papel que não era para mim, mas explicava que os destinos ensaiados na partida não são sempre o lugar da chegada. Lavei a louça, desliguei a música e fui dormir abraçada ao papel que era da outra. O sono foi bom, o poema passou inteiro no sonho: unicórnios, sereias, dragões e ventos. Tudo no poema era eu. 

  Hoje eu acordei e deixei a carta junto das outras correspondências do prédio. Refiz o envelope, porque o outro estava rompido. Esperei o zelador chegar e fazer a seleção cuidadosa que ele sempre faz. Ele pegou a minha carta, olhou o nome, que se parece com o meu, mas não é e a colocou em um pilha, parece que a moradora viajava. Fiquei, de longe, acompanhando o poema que me salvou a noite, querendo-o para mim, de novo, mas desejando também que alguém se encontrasse nos mesmos versos. A carta chegava ao seu destino, mesmo que eu a tenha maculado antes, devolvia-a quase inteira. Mas o olhar que eu esperava não chegou. Talvez tenha encontrado outro apartamento, talvez você nunca tenha o lançado. Não sei, não saberei. O carteiro da rua é recente, sou tímida; não ficarei confortável em perguntar a um desconhecido, se alguém, por acaso, não enviou um olhar com o número trocado. O lugar de todas as coisas tem um destino muito próprio, enquanto fazemos o jantar ele se encarrega de entregar as cartas.




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