domingo, 30 de abril de 2017

Ele vai embora e a rua inteira já sabe

  Pisamos sobre uma ponte instável, passagem suspensa por cordas grossas, sobre uma altura que nem temos coragem de conferir. A travessia pode ser adiada, sucessivas vezes. Podemos achar que o vento, que faz nesta noite, não favorece a inclinação da ponte, que o lugar em que se está, agora, oferece mais garantias e que o outro lado talvez nem seja o que se pensou, podemos, inclusive, considerar a possibilidade de nunca irmos e aprendemos a ignorar as travessias voluntárias.  Atravessar ou ficar não é uma dicotomia simples. Pode-se ir a um outro lado sem atravessá-lo, de fato; pode-se permanecer, atravessado pela mudança que a possibilidade de ir a um outro lado promoveu. Ele vai embora. A rua inteira já sabe que vai. Só ela parece viver a fantasia de que tudo permanece do mesmo jeito.

  Eu soube que ele iria, há meses, mas não contei a ninguém, porque talvez nem ele soubesse. E aí, se eu me adiantasse no comunicado, eu estragaria os dois frames finais, o dele e o dela, sem nunca terem me convidado para ir ao cinema com eles. Eu sei que ele vai, porque não conversam mais como antes, a madrugada inteira até o nascer do dia e depois, acordarem de ressaca para trabalhar e ele levantar mais cedo e fazer o café, sem açúcar, que bebericavam até o ponto de ônibus. Não ouço mais as brigas e os diminutivos abandonaram o apartamento. Ele vai embora, porque ela diz "minha janela, minha casa, meu ar-condicionado, meu gato", quando chama o homem da manutenção ou nas reuniões de condomínio. Ele vai embora porque desde que ela entristeceu, ele passou a olhá-la clinicamente, como uma doença, seus sintomas e tratamento e não mais como uma pessoa com as suas camadas, que ele gostava de descobrir diariamente, de repente; porque passou a vigiar seus passos e não mais alegrar-se ao ouvi-los de muito longe; vai embora porque não compra mais romances ou poesia para colocar na estante, só lê os especialistas que podem curá-la de não ser feliz.
  
   Nos equilibramos numa ponte que balança a cada passo, mas manter-se imóvel também não é a melhor estratégia, porque logo o corpo se cansa e  os músculos retesados, começam a se movimentar em pequenos espasmos, que farão com que a ponte volte a balançar. Desde que colocamos os pés na travessia, ou seguimos para frente ou voltamos para trás não há meios de uma longa espera. Pode-se ir pelo medo ou pela coragem, não sei quando é um passo ou outro. Não é só medo que paralisa ou só a coragem que impulsiona, às vezes, para evitar que os olhos fitem a altura lá embaixo, o passo sai desconcertado e rápido como um raio, o passo vem do medo, para que se acabe logo com o sofrimento da possibilidade da queda. A coragem, às vezes, faz com que a travessia se torne mais longa, dura, os passos se tornam raivosos de terem que encontrar a instabilidade, noutras paralisam, porque assumem o risco de permanecer no desconforto; a coragem pode ser uma sorte ruim.

  Mas ele vai embora e nem sei se tomado de coragem ou de medo e ela parece não saber dos sentimentos que circundam todo o sétimo andar. Ele vai embora porque foi trabalhar na sexta e ela foi a manifestação; porque a tristeza dela limita a relação dos dois, mas não apaga sua militância e isso, ele não diz, o magoa profundamente. Aos sábados, quando o vejo por mais tempo, ele chega na varanda e eu já pressinto seus pés próximos à ponte e ela, que vejo mais vezes às quartas, porque ambas saímos mais cedo do trabalho, vejo completamente distante de qualquer travessia. Ele vai embora e irá só. Não sei se o medo de não curá-la o mantém ou se é a coragem de insistir na sua cura, que o faz não pisar na ponte. Mas ele vai embora e a rua inteira já sabe.
  Não há uma distância marcada, do que seja medo ou coragem ou uma hora precisa para atravessar a ponte, pode-se atravessá-la inteira levada pelo medo. Pode-se nunca atravessá-la pela coragem de permanecer.

  Se eu tiver coragem, devolvo o presente, não aceito minha promoção, viro dissidente e decepciono para não me desiludir. Se eu tiver medo, não olho para as mãos que oferecem qualquer regalo nem para os olhos, não aceito que me promovam, passo a ser conivente e  decepciono para me iludir.
  Se eu tiver coragem deixo de arrastar correntes e assumo a minha vocação de viver na errância do desconhecido, mesmo sob pressão. Se eu tiver medo quebro as correntes pesadas, saio pelo mundo, porque não suportaria qualquer pressão. 

  Se eu tiver coragem, dia dois, quando voltarem de viagem, eu os procuro e falo sobre a ponte, os silêncios que tenho ouvido do apartamento deles e que perturbam o meu sono, sobre ela ser a paciente e ele o cuidador. Eu me ofereço como testemunha, porta-voz e faço, se desejarem, um pequeno, mas bonito epitáfio ou nota de falecimento, passo pela rua, com um megafone, se acharem conveniente, avisando aos vizinhos sobre o fim, que eles já sabem. Se eu tiver medo, dia dois, quando voltarem de viagem, entro no elevador, quando eles estiverem, e falo sobre como meus pais se separaram quando minha mãe ficou doente e o quanto foi reanimadora a mudança do meu pai; ofereço para passar mais uns dias com o gato deles, que tem sido meu durante o final de semana inteiro. Se eu tiver coragem em maio, que começa amanhã, eu não vou desperdiçar vida ou guardá-la para um dia de sol, em feriado, quando o cabelo estiver bonito e eu tiver dinheiro. Se eu tiver medo em maio, que começa amanhã, eu não vou desperdiçar a vida ou guardá-la para dia algum, porque posso morrer e eu tenho medo da morte. Se eu tiver coragem, escapo da morte, engolindo a vida, até a última gota.

  Amanhã eles chegam e eu já me acostumei com o gato. O homem vai embora e todos já sabem. Vai por medo de que a alegria que ela perdeu, ele a tenha matado; vai por coragem de deixá-la sozinha encontrar sua alegria, que não está mais com ele. A tristeza dela não precisa de remédios nem cuidados excessivos, ela  está atravessando, sozinha, a ponte e isto deve doer demasiado. Eu não sei em que ponto da ponte ela está, achava que estava adiando os passos, mas hoje me lembrando do dia em que ela veio trazer o gato, com o batom vinho e o lápis de olho, suspeito que ela acabava de atravessar e ninguém via. Ele vai embora e a rua inteira já sabe, ela já foi e ninguém viu. Só eu e o gato não nos aproximamos da ponte; ele tem sete vidas e eu, suspeito ser dona de mais.







5 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Gerais neste místico 1º de Maio de São José

Prezada Amanda
Perceptora das ligações entre o ser e o estar do mundo

A ponte! A simbólica e inefável ponte, feito a que unia os mundos de Ceci e de Peri. Uma ponte entre dois mundos, de travessia difícil - e quem falou que é fácil ir embora ou ficar? Quem disse que o adeus é fácil, que o olá é fácil? iver é atravessar estas pontes terríveis em tempo integral.

Muito obrigado por esta leitura.

Paulo

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, neste perturbador primeiro de maio de 2017

Caro Paulo,
sou sempre eu a agradecer a sua generosa leitura. Obrigada.
Abraços,ótima semana.
Avante!

Danielle Barbosa disse...

Atravessar ou ficar não é uma dicotomia simples....
��������

Danielle Barbosa disse...

Onde está interrogação leia-se palmas ����

Amanda Machado disse...

Ainda bem que não são interrogações, Dany!!! Não saberia por onde começar...
Beijos!