sábado, 6 de maio de 2017

A inaplicabilidade do amor

  Eu não preciso dele para tomar um sorvete, não preciso dele para fumar um cigarro ou abrir um pacote de chicletes de menta.
  Não preciso dele para arrumar a cama, nem para fazer meu café, cuidar da panela no fogo também não. Não preciso dele para encontrar uma cidade, não preciso também para fazer o meu próprio destino nem preciso para resolver meus problemas no condomínio.
  Não preciso dele para achar um lugar no estacionamento, para colocar o carro na vaga mais difícil nem para pagar o ticket na máquina do rotativo.

   Se ele está ou não, eu acordo pela manhã, faço pranayamas, antes da ioga, faço uma caminhada até a rua do supermercado, passo pelas duas bancas de jornal e eu não preciso dele para nada disso.
 Não preciso dele para arrumar as gavetas, a bagunça da casa, a minha vida completamente desorganizada, a minha agenda espalhada nos post-its, calendários diferentes pelas mesas, agendas eletrônicas e de papel; vida fragmentada em dias, horas e bilhetes. 
  Não preciso dele para ouvir uma música ou para pedir uma música, conheço uma música nova por dia, um artista a cada semana e não me parece vir dele. 
  Não compro um litro de leite com ele e me devolvem moedas de troco; não pago as prestações do carro, do apartamento ou do celular novo com um cartão com o nome dele.
  Ele não tem mãos que me auxiliem nos afazeres domésticos, não varre a casa, não tira a poeira dos móveis, nunca lavou uma vidraça no meu apartamento, não seca a louça nem guarda,  não planta couve, não colhe o café, não mói a cana.
  Não me dá um diploma universitário, não  nos salva da miséria, dos esgotos abertos, da crise monetária ou hídrica, não garante a minha estabilidade financeira, tampouco profissional.

  Não dá as respostas da prova num papel por debaixo da carteira, não escreve com uma letra bonita a matéria da aula que eu não fui, para me emprestar depois. Não assina o meu nome na lista de presença, não me poupa das notas ruins ou celebra as muito boas.  Ele não avalia meu desempenho ou me entrega um boletim.
  Não leva o meu cão ao veterinário, não me impede de chorar muito porque ele está doente; ele não proíbe as despedidas. Pelo contrário, às vezes, apressa, intensifica, dramatiza os adeuses.
  Ele não diminui a fila do banco, não marca o dentista,  o médico nem cabeleireiro, em lua crescente. Não pinta as minhas unhas de escarlate aos sábados, não desenha minhas sobrancelhas nem oferece uma massagem para os meus pés.
  Ele não evita que eu me molhe nas chuva, não interrompe os relâmpagos ou trovões, não seca a minha varanda depois de um temporal; ele não me protege da natureza nunca, ele não mede os meus medos.

  Ele não é um número em um documento meu, que eu preciso achar, porque guardei muito bem, não é um carimbo na imigração, não é uma recomendação no meu testamento; ele nem é herança escrita.   
  Ele não traz o outro lado do mundo para mais perto, porque eu quero estar lá e não gastar muito tempo. Ele não deixa de contar os minutos, horas, dias, meses, anos, ele não colore de preto um cabelo grisalho.
  Ele não tricota uma blusa de lã para aquecer no inverno chuvoso de maio, não refresca o calor do Rio em janeiro, não me informa sobre a previsão do tempo antes de eu arrumar a mala para a viagem do feriado.
  Ele não me teletransporta até a minha cama, depois da última aula da quarta-feira; ele não pede ao motorista que me espere dois minutos nem se coloca na frente do ônibus até eu chegar. 

  Mas se tomo sorvete quando ele está, não é chocolate, creme ou limão siciliano o sabor que as papilas gustativas alcançam, é uma profundidade de memória que tem um aroma, sabor, cor e textura que não cabem numa geladeira.
  Ele não organiza, mas alegra minha agenda; ele não para o calendário, mas constrói tempos diversos ao convencional, em que os minutos pareçam horas ou os anos pareçam dias
  Se eu arrumo a cama que ele bagunçou, faço-o satisfeita, ritualizo cada dobra do lençol e afofo, minuciosa, os travesseiros que ele amassou.
 Preciso dele para ter uma música favorita, duas três, trinta e sete canções inesquecíveis que o ouvido dele me apresentou.
Ele não varre a casa sozinho, não tira o pó, não seca a louça, não lava as janelas , mas quando ele está, tudo é menos esforço e mais dança.

  Ele não leva o meu cão ao veterinário,  não me isola da saudade, mas aperta a minha mão, quando eu choro de dor na despedida.
  Ele não me salva da água da chuva, dos relâmpagos nem dos trovões, mas me dá o consolo de assistir aos clarões de um lugar seguro e, mesmo molhada, achar as manifestações da natureza de uma beleza incrível e de força inspiradora.
  Ele não traz o outro lado do mundo para mais perto, mas o instala  dentro, se eu precisar do que tem lá. Ele não carimba meu passaporte, mas me coloca no banco da frente nas viagens que ninguém mais poderá ir.

   O amor não justifica o meu voto, não escolhe um candidato melhor, não me protege de ouvir as promessas que eu sei que nunca serão cumpridas. O amor sequer se candidata a um cargo. O amor é apartidário, o amor não é tirano ou democrático, ele é um todo que só pode ser anárquico.
   Não é aplicável, não é obrigatório, nem evita a morte ou uma doença hereditária, mas é fundamental, porque não é preciso, mas completamente transformador. Depois de tê-lo uma vez, nunca mais sobrevivo apartada dele. Não é um regalo de alguém para mim ou um privilégio que eu dedique a uns poucos, ele é meu, em mim, uma lente que escolhe o que ampliar nas pessoas, coisas, casos. A inaplicabilidade do amor é o que faz dele indispensável. Eu não preciso dele para dobrar camisas numa fábrica, mas preciso para que ao dobrar camisas numa fábrica durante muito tempo não subtraia a vida em mim.



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Gerais, oito deste maio de 2017

Prezada Amanda

A singularidade deste texto que nos presenteia é que faz um processo exclusivo sobre o amor, livre da paixão. Que bom!

A paixão, do Latim PASSIO, é o sofrimento, e é incrível que pessoas que sofrem acreditarem que amam - nisto sua linha de condução é indubitável.

Um abraço

Paulo

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, 08 de maio de 2017

Caro Paulo,
Que privilégio de leitor! Era exatamente esse o amor que eu evocava no texto, universal e sem aprisionamentos. Grata, sempre!
Abraços, uma ótima semana!

Débora Rapacci disse...

Que lindo! Adoro seu blog! Abraços ❤❤❤

Amanda Machado disse...

Que linda! Obrigada, Débora...por vir, gostar e ainda dizer. Abraços <3