Pelas camisetas dele eu tento conhecer o homem de quem eu pouco ouço a voz. Ele fala quase nada, às vezes muito baixo e a trilha sonora a qual somos submetidos é quase sempre mais alta do que eu gostaria. Mas as camisetas dele me colocam de frente com um mundo que conheço, às vezes muito, noutras superficialmente. Em geral, são camisetas de algodão pretas de alguma banda da qual eu também gosto ou um filme ao qual já assisti. Essas foram as nossas primeiras identificações: bandas de rock e filmes do Tarantino.
Todos os dias, às sete da noite, quando a campainha toca, eu tento acompanhar a sua entrada, pela porta mal posicionada da academia, para olhar a sua camiseta e identificar o seu humor, que também varia.
Há mais de um ano frequentamos diariamente o mesmo lugar, às vezes ele me cumprimenta, às vezes parece não querer ver ninguém, e por isso como uma criança pequena que acredita que se não olhar não será visto, ele passa por mim impassível.
Há mais de um ano acompanho as pequenas evoluções e derrotas do jovem adulto de cabelos grisalhos e camisetas interessantes, que tenta ultrapassar algum acidente de percurso do qual eu não sei nada, mas sobre o qual eu penso muito.
São meses de resistências e entregas, assobios ou silêncios absolutos, meses em que se deixa ser manuseado como um objeto quebrado ou se debate como um animal selvagem ferido, que não identifica se é cuidado ou ameaça.
Ele não tem mais do que cinquenta anos, tem um corpo longilíneo, levemente musculoso, mas desacostumado com os movimentos, requisitando ajuda para se sentar na bicicleta ergométrica ou colocar as pernas na cadeira adutora, assim como tirar o casaco ou colocar água em um copo de plástico. Também anda com dificuldades e a escassez de fala não parece ser inibição, mas também a sequela de algum processo limitante.
Há pouco mais de um ano acompanho a delicadeza que um retorno solicita, os investimentos aparentemente infrutíferos, mas que somados, aproximam o corpo dele de agora a um corpo que ele teve ou que ainda terá.
Algumas vezes, flagrei o homem de camiseta de banda alterado com a companheira na escadaria do prédio, porque não queria subir e investir seu suor no processo que às vezes é moroso ou sacrificante. Mas a mulher irredutível, praticamente o arrastava até a sala de ginástica e o entregava a sua treinadora. E, nesses dias, os músculos dele pareciam ainda mais precários. Mas nem esposa nem treinadora o abandonam ou desistem de ajudá-lo a alcançar pequenas conquistas.
Não sei nada do homem de camisetas descoladas com quem convivo há meses, nesse espaço ao qual procuramos para nos reabilitar — a ele o corpo, a mim a mente — mas além das bandas e filmes, sinto que temos o difícil desafio de nos ampararmos na disciplina espartana ou entregarmos nossos destinos a um bote à deriva.
Nos dias em que ele não resiste e parece mais disponível, enquanto pedala a bicicleta que ocupa os mesmos metros quadrados há meses, ele imita pássaros para a treinadora e sorri. Esses também são os dias em que ele passa por mim e faz um aceno, ainda desajeitado, com uma das mãos, mas convicto com a cabeça. Nesses dias ele não resistirá aos comandos, se esforçará até o corpo se abster de continuar ou até a campainha bater e a companheira acenar para que ele se arrume sem pressa.
Nos dias assim, ele está com a camiseta do Pulp Fiction, com a Uma Thurman de franja, segurando um cigarro ou com a da língua gigante dos Rolling Stones, tem o rosto tranquilo, acena e parece sonhar com o que já teve e precisou ser interrompido.
Mas na última quinta-feira, ele não imitou pássaros. Chegou depois das sete, trazido pelo filho, permaneceu por alguns minutos à porta, ouvindo alguma negociação da treinadora e do tutor do dia e entrou sem concordar. A professora o colocou no banco da rosca Scott e foi buscar os pesos, o filho se sentou no sofá da recepção e o jovem senhor abaixou a cabeça e começou a chorar; um choro com soluço, uma manifestação vocal tão alta, que eu ainda desconhecia. Meus músculos também falharam, desestabilizei na prancha.
Como o cérebro apaga gestos tão
cotidianos, como falar o próprio nome sem titubear, subir escadas,
descer da bicicleta ou levantar pesos e preserva a imitação dos
pássaros? Como reaprender um caminho apagado e não se sentir injustiçado todos os dias? Como não odiar o amor que acompanha, mas exige a força que também falha? Como não desistir de retomar um caminho ou fazer um outro, talvez mais precário, mas melhor que esse em que as pernas vacilantes percorre?
Tenho inveja dele que é trazido todos os dias por alguém que o ama e acredita na sua recuperação, tenho inveja porque não sei assobiar, porque não imito pássaros e negocio comigo mesma a minha presença diária na sala de ginástica, sem aplausos ou palavras de incentivo. Tenho pena dele que não pode desistir em silêncio e no escuro sozinho, tenho pena porque sua liberdade de solidão foi sequestrada por um amor dedicado. Tenho afeição por ele porque assisto silenciosa as suas evoluções e, agora, a dor de ser o único capaz de reaprender a levantar as pernas na hora certa e acenar com precisão e delicadeza para a colega que, como ele, às vezes tem vontade de chorar no campo de batalha que ela mesma escolheu.
Ele imita vozes de pássaros, usa camisetas de bandas de rock e, agora, chora no aparelho de musculação; o amor o obriga a tentar e, às vezes, da recepção, o assiste falhar.

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