sábado, 15 de setembro de 2012

Quando dei-lhe a mão, eu também me segurava

  Já passavam das 10 da manhã, a apresentação estava marcada para 9 horas. O coral já estava completo, aguardando pelo atrasado maestro, que não atendia minhas ligações. Enquanto procurava-o, tentava mantê-los todos unidos e pacientes, mas paciência ali era coisa para dois ou três cantores. A maioria deles sentia-se desrespeitada, desprestigiada, pelos atrasos sistemáticos do seu maestro. Era um mar de cabecinhas brancas, todos cheirosos, camisetas igualmente bem passadas, as mulheres maquiadas, discretamente, os homens de barbas recém feitas. Não eram somente artistas vaidosos, querendo exibir seu talento, mais tarde eu entenderia que eram homens e mulheres já experientes, desejosos de compartilharem alguma emoção. Enquanto o grupo começava a se dispersar pelo parque, eu conseguia falar com o maestro, pelo celular, que cancelava a apresentação das 9 e confirmava a das 10:30, "menos mal", eu pensei. Dei-lhes a notícia, avisei que iria até os responsáveis pelo local da apresentação cancelada, para explicar-lhes o  imprevisto, que eu fatalmente inventaria, já que o tal maestro, nem ao menos se preocupara em elaborar uma desculpa qualquer. Desculpas formuladas e educadamente recebidas, partimos do parque e fomos para o segundo local de apresentação.

  Antes daquele primeiro contato, horas antes, no parque, nós não nos conhecíamos, eu estava ali para prestar algum tipo de assistência, que até então, eu não tinha ideia de qual seria, mas agora, todos me seguiam como se eu fosse a "chefe" do grupo. Ordeiros, ordenados, alguns bastante metódicos, vez ou outra, me ofereciam alguma sugestão, mas acatavam docemente as minhas decisões. Chegamos ao banco, no centro da cidade, onde o concerto finalmente seria realizado. O local lotado, os senhores e senhoras aflitos e eu, já de manhã, cansadíssima, pelo outro trabalho que eu realizava no período da tarde e noite. Noite mal dormida, pernas e pés, latejando pelas horas de trabalho em pé. 

  Procurei pelo gerente, combinamos que a apresentação aconteceria no segundo andar da instituição, onde circulava a maioria dos clientes, em um lugar já reservado para os músicos. Desci para o primeiro piso, para organizar os artistas e receber o maestro que acabara de chegar. Com os ânimos finalmente aplacados, eu organizava a fila para subirmos a escada rolante, quando eu sinto uma das senhoras apertar meu braço: - Eu não subo em escadas rolantes! - O quê? Eu surpreendia-me. - Não subo, já disse. Nunca subi numa destas, pois eu tenho medo. 

  E faltavam 10 minutos para iniciarmos a apresentação. Eu não obrigaria a doce senhora a enfrentar seu medo, assim, sem algum tempo e preparação. A senhora não tinha só medo, também tinha algum orgulho, pois me disse baixinho, naquele tom que ocorrem as terríveis confissões. Deixei o grupo, dirigi-me ao segurança, procurando por um elevador, disse que um dos cantores tinha "labirintite" e se sentia mal em certas circunstâncias; de nada adiantaria, o elevador estava quebrado. Enquanto pensava em uma outra solução, observo-a de longe, solitária, desolada, no saguão de vidros azuis do banco, linda de cabelos agora azuis, olhinhos brilhantes e esperançosos, a senhora, agora era menina perdida da mãe, sem saber o que fazer. Chamo novamente o gerente, procuro por uma passagem alternativa. - E a escada dos funcionários? O gerente responde que não há um passagem alternativa, sinto que ele me engana, mas não temos tempo mais para argumentações. Um outro funcionário do banco sugere que a "minha" senhorinha não participe da apresentação. Me recuso a ouvir a opinião insensível. Sigo para minha menininha. Digo a ela que a única possibilidade é mesmo a escada rolante, mas eu darei-lhe a mão e nada dará errado. Ela simula uma desistência e eu insisto que tudo dará certo. Ofereço minha mão a ela, ela aperta com força e nos dirigimos a escada, ela para, olha nos meus olhos, bem no fundo e eu consigo ver o seu medo e, de repente, ele passa a ser também meu. Nós o enfrentaremos, repito mentalmente. Em segundos, eu digo:- agora! Ela mexe-se, sobe e a escada faz o resto, enquanto subimos ela treme e depois começa a gargalhar, preocupada me pergunta: - E agora? - Quando eu dizer "agora", de novo, nós descemos. E assim, a senhora tomou o seu lugar e eu na plateia, sentia-me muito orgulhosa dos meus recentes pupilos, especialmente da minha menina. 

  Executaram três canções clássicas belíssimas, das quais só me lembro da beleza, até iniciarem o repertório popular. É verdade que eu tinha algum orgulho, mas também estava cheia de cansaço e desilusão (com a vida que se apresentava a minha frente, com a profissão que eu estava escolhendo), até que eu ouço a já conhecida canção, mas agora de uma forma inédita. Nunca me fizera tanto sentido, "Meu coração tropical está coberto de neve mas, ferve em seu cofre gelado. E à voz vibra e a mão escreve mar...". Um nó na garganta, a face agora estava úmida, era uma terça-feira de manhã, em um banco lotado, e eu ouvia anjos. Quando o coral cantava alucinadamente "Vou partir a geleira azul da solidão e buscar a mão do mar. Me arrastar até o mar procurar o mar" minha menina olhava para mim, éramos cúmplices, superamos um medo, que era dela, mas superamos um meu também, que eu nem sei ao certo qual. Vitoriosas, ambas, deixamos escorregar pelas faces, na plácida dela, na ávida minha, algumas lágrimas de contentamento. Eu não sei o seu nome, nunca mais vi a minha senhora-menina, mas eventualmente sinto-a apertar forte minha mão, como se agora ela me sustentasse e ainda escuto as vozes potentes, naquelas gargantas experientes "Mesmo que eu mande em garrafas, mensagens por todo o mar, meu coração tropical partirá esse gelo e irá...". Foi quando ofereci minha mão e coragem, que eu percebi que o gelo em meu coração se partia. Dei-lhe força e ela ofereceu-me emoção. Que grande terça-feira!




2 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo!!! Tempos de Festival de Musica Colonial, ne?! ;)

Amanda M. disse...

Sisi. ;)