Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de março de 2016

Não vamos sair antes das luzes se acenderem

   Esqueceu-se de um encontro nosso marcado de véspera. Liguei, mandei mensagem, mas só recebi suas desculpas quando eu já estava em casa, muitas horas depois. Nada demais, a amizade é antiga e a falta tinha sido esta única. Não suspeitei que era um sinal. Mas depois dessa ausência somaram-se outras, confusões com os dias da semana, anotações perdidas, frigideiras esquecidas no fogo ainda aceso, letras de músicas que cantarolava sempre, nomes de pessoas muito próximas, reuniões, enredos dos livros e filmes favoritos, compromissos profissionais,  as senhas todas, de cartões, de emails, de cadeados. Até a situação toda parecer tão desesperadora e ela esquecer-se de sorrir.  A memória é chave que nos mantêm no mundo; só nos apercebemos disto, quando ficamos trancados de fora.

  Foi um incêndio na vida dela, que começou com pequenas faíscas; como todo fogo arrasador. Apagávamos uma, dormíamos tranquilos e no outro dia outras tantas recomeçavam, até não termos mais água, estratégias, nem vigilância que fossem mesmo eficientes. O campo sendo tomado pelo fogo, ela no meio e nós todos, às margens, gritando por socorro, incapazes de evitarmos a combustão. Não era uma mais fase, não era emocional, não era mais engraçado. Era ela perdendo os horários, os dias, os nomes, o vocabulário e o que sempre me pareceu mais aterrador, suas memórias, seu passado.

  E logo vi uma pessoa inteira ser  fragmentada em um cérebro e suas impossibilidades. As zonas preservadas e as impactadas, estas últimas sempre pareceram dominar a cena. Uma parte de alguém tão brilhante, tão indispensável na sua incompletude agregada, vulnerável às investigações médicas. Devassada nos consultórios, nas cantinas dos hospitais, nas conversas entre amigos, nas reuniões familiares. Ela, pela primeira vez, assistindo a um jogo do qual não entende as regras. Passiva, parece não conseguir nem escolher um time para torcer. Ela perdida no meio do incêndio que ninguém consegue apagar.

  E mesmo quando ela está longe, dói muito. Porque o cheiro da mata queimando não desgruda mais das minhas narinas. Vou para casa e sou acompanhada, a cada metro do caminho da volta, por uma centena de imagens que não se afastam.  Revejo cenas inteiras, pessoas e seus cheiros, encontros que me desestabilizaram, desencontros que me levaram a lugares melhores, mãos que me buscaram, meus pés se afastando ou fincados num mesmo piso, as cores dos quadros dos quais gostei, as paredes cinzas que precisei suportar, as palavras que recolhi e as que ignorei, os ventos, as portas batidas, as cortinas que abri e tudo mais que não me larga; senhas que me abrem para mim. Sou cercada pelo que sou o tempo inteiro, minhas memórias não me deixam só, nem quando tento expulsá-las; sou eu e não me perco, mesmo quando há confusão e desespero. Eu estou sempre para mim. Cheia de mim. Mas e ela?
 
  Ela está se esquecendo. Dos dias, dos nomes, dos sonhos, dos remédios, das promessas, do banho, das palavras, de pentear os cabelos, dos quadros e paredes; esquece-se de quem é. Eu sei. Não há ainda um jeito de parar, seguro cada momento dela para quem sabe um dia, poder devolver a quem sempre foi assídua nas minhas memórias.

  Está na sala agora. Veio para mais um exame e diz, num lampejo de pura lucidez, que a cada luz que acendem nos seus olhos, uma lembrança se esconde. Coloco as mãos dela nas minhas e combino que depois da consulta iremos ao cinema. Ela não se lembrará disso, antes mesmo de encontrar o médico. Mas era o nosso programa favorito. E mesmo quando o filme era muito ruim, nunca abandonamos uma sala de cinema antes dos créditos finais. Esperaremos até o último frame, até acenderem as luzes e dizerem que é o fim. Talvez sermos expulsas da sala, quem sabe. O filme pode melhorar a qualquer instante, sempre me fio a isto. Ela esquece um pouco a cada dia e eu lembro por nós duas, a cada passado perdido no fogo; tenho achado que a minha memória nestes tempos se alargou para abrigar a dela também.




quarta-feira, 2 de março de 2016

No terceiro dia de março

   Das cortinas estampadas não sentiremos falta, nem do sofá cinza grafite, tampouco do carpete marrom, das paredes com flores douradas e do prédio verde desbotado também não. Mas do que se passava lá quase sempre é preciso lembrar; como se a memória nos mostrasse o caminho do afeto, do laço. Somos a partir de algo que fomos juntos. E, as colchas de retalho, as guerras de almofadas, a cidade que construíamos, no quintal, com brita e areia roubadas do vizinho, a garrafa de vinho quebrada e a culpa difícil de ser compartilhada.

   Subíamos os três juntos, quase sempre vindos de lugares diferentes, mas a volta tinha que ser em trio, era exigência da casa. Fomos quase sempre fraternos na saída e na volta, mas sempre vindos de outras direções, de  lugares em que cada um de nós se encontrava ou, ao menos, tentávamos. As saídas se tornaram mais e mais compridas e as  voltas cada vez mais espaçadas. Crescer é também ver muitas distâncias se alongarem.

    Tinha dia de não reconhecer neles nada de mim, olhava fundo, buscando alguma memória daquilo que nós três fomos e nada. Parecia uma chamada ao telefone que nunca se completava; discava várias vezes um número que parecia certo e nada. Ficava sem a comunicação, andava atrás de uma caneta e bloco de papel, talvez a escrita chegasse onde a voz não podia. Mas, então, eu caía, não de uma altura bem baixa, não como quem tropeça, mas caía de quase fim, de achar que nunca mais levantaria e era só erguer cabeça, que prontas, estavam as mesmas mãos brancas, cheias de pintas que eu tinha largado na saída. Irmão é uma extensão daquilo que você nem sabe ser, desaparecem no grito, mas sempre socorrem na queda.

  As cortinas desapareceram, o sofá mudou de cor algumas vezes, até ser trocado definitivamente, o carpete desgastou e o prédio verde nunca mais o vimos. Mas ele sempre volta, em cada chegada partilhada ele volta com um verde mais vivo, assim como as cortinas e o carpete cheirando ao vinho que nunca tomamos. O que nos faz gostar de um lugar quase sempre não é o que temos nele ou sabemos dele, o que nos prende a um lugar é pensar na ausência do que conhecemos, se estivermos fora. É o risco da perda, mesmo que o temos já não nos satisfaça, que nos aprisiona no conhecido. Por isso, permanecemos tanto mais no vivido do que no caminho para outros lugares. E, por isso também o adeus é simbólico, muito mais figurativo do que concreto, porque coexistimos numa dimensão passada que não abandonamos nunca. Vivemos sempre aqui e lá; divididos no tempo, habitantes fragmentados.

  A partida só se prolongou no tempo, haverá a volta sempre. Nós três subindo a rua. Ninguém diz de onde veio, o que fez, o que viu. Mas das experiências diversas nos desprendemos para sermos três; os mesmos da saída.  No terceiro dia de março, todo ano, eu sinto o cheiro do vinho derramado no carpete, o vento bate na cortina estampada, que roça a minha perna e eu, preguiçosa, me demoro no sofá grafite. As mãos que sempre vieram, mesmo quando eu não as reconheci, trocam o canal da TV e passam as folhas de um livro que eu ainda não li . No terceiro dia de março eu volto à casa que eu nunca deixei. Vivemos sempre nessa despedida que forçamos a não reconhecer. O lugar de onde se veio é demorado, por isso nunca chegamos a lugar algum, estamos sempre na partida.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Não era desamor, era desejo de partida

  Ele poderia ter lido Neruda, sua voz grave, os erres marcados, os contornos sonoros macios, a sua
respiração calma, separando os versos, ritmando as mudanças de estrofes e, depois de um suspiro fundo, era o fim. Ela poderia ter dançando  no quarto, naquela manhã, depois de acordar melancólica escolheria uma música bonita,  passaria os dedos pelo criado mudo, saltaria da cama e ondulando os quadris, levantando os braços acolheria as batidas sonoras. Continuaria  mesmo quando a música terminasse, encenaria muda seu balé improvisado e numa pirueta final, seus olhos buscariam os dele e saberiam que acabavam ali. Poderiam ter recorrido ao tango, fizeram aquelas semanas de aulas há três anos, quando foram para Buenos Aires, talvez se recordassem dos passos, de alguns ganchos que a professora portenha tentou ensinar ou dos dias ensolarados em Palermo Viejo. E então, só depois, o abraço dolorido e o partir.

  Poderiam ter feito uma última viagem para casa da avó dela, comeriam os doces de compota, colheriam as jabuticabas, se fosse época ou mexericas, laranjas também não seria mal e depois de se despedirem da avó, prometendo nova visita, entrariam no carro, poriam numa rádio qualquer e ao pararem o carro antes da linha férrea, uma música começaria, ambos saberiam que as frutas estragariam na geladeira e a visita não aconteceria mais para um dos dois. Talvez consertassem a porta da varanda, adiada nos últimos meses, arrumariam o vazamento da pia e pintariam a cozinha, com o apartamento pronto, teriam uma conversa banal sobre o preço cobrado pelo encanador e se despediriam.

  Deveriam ter ido à Cuba, matriculavam-se naquele curso de cinema, que era mais sonho dele, mas que era também uma vontade dela e, depois, na volta, tomariam cada um, um táxi. Talvez Paris e o Louvre, a viagem de carro pela Toscana, cinco dias entre Madri e Barcelona ou os castelos alemães. Talvez um fim silencioso, partilhado, resignado e nós desatados com afeto.

   Mas não foi. Não é. Foi num arrombo, numa tempestade, numa enxurrada de desencontros, acusações, a ligação interrompida, outras não atendidas, as mensagens não respondidas, os pedidos de explicação impossíveis. As palavras que saem atropeladas e por isso, morrem as ensaiadas e nascem outras num improviso hostil, o rancor que já era instalado, mas antes ignorado, emerge e se espalha pela casa, tomando memórias, planos futuros, pertences em comum. Quem ouve não entende que aquele que fala não rejeita a história, nem a pessoa, mas um futuro nas bases desse presente que parece aterrador. Alguém e a sua tentativa alucinada de escapar do que é agora, talvez possa ser diferente sozinho e depois, quem sabe, até com outro parceiro. No fim, é a pressa mesmo de se desvencilhar, não do outro cuja tarefa agora, em meio a mágoa, já é mais fácil, mas de si sem este outro, essa sim missão duríssima.

  O final do amor que  não recolhe o lixo, não lava a louça, nem organiza as gavetas, não inventa metáforas, não se ilude com poesia; o final do amor que não aguenta mais dois minutos de filme e sai da sala antes dos créditos finais, que não espera mais na fila, mesmo que a sua senha seja a próxima. O final do amor que não espera um pacote turístico, um reparo na casa, nem Neruda ou dança. Não há gentileza e suavidade possíveis quando é um fim. Porque, na verdade, quaisquer que fossem os cenários, cenas, falas ou trilha tudo levaria a um só desfecho: pressa pela descoberta de um lugar que não seja mais este.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Do lado de dentro da calçada

  Sete da manhã e homem no final da rua ajeitando os restos da mudança de alguém, escolhendo o que serviria para ele e o que continuaria na calçada para outra seleção minuciosa ou iria para o caminhão da limpeza urbana. É um homem bastante jovem, carrega uma sacola e avalia cada objeto abandonado com a perícia  de um profissional experiente. Pensa no que vale a pena reaproveitar, no que já está muito degradado e até naquilo que poderá carregar sem ajuda. Entre sofás, colchões, xícaras sem par, luminária, seus olhos decretam futuro ou descarte; cabe a ele sozinho a tomada de decisão, o juízo final dos restos da vida de alguém. Passo por ele, ensaio um cumprimento, mas ele está obcecado pelos artigos, nem me vê,  os olhos grudados na prateleira imaginária de um mercado sob o sol brilhante.

  Sigo o itinerário acostumado, mas levo um pouco do jovem homem comigo: seu desejo de consumo se realizando às 7 da manhã, as escolhas que poderia fazer, as possibilidades que as ruas oferecem, pois,  possivelmente, ele saia de casa todos os dias com a imprevisibilidade do que irá trazer consigo. E, penso na capacidade que temos de validar ou descartar algo, porque o tempo requisita, porque os espaços modificam. O sofá pago a longas prestações agora é analisado pelo homem, um porta-retratos é colocado na sacola, algumas pastas são abertas, segredos talvez sejam violados, tudo isto pelas mãos solitárias de um rapaz que conhece as memórias abandonadas de uma cidade, que talvez nem o reconheça.

  A música dos meus fones para e eu escuto o homem na rua deslizar as mãos por objetos que talvez, um dia,  fossem muito importantes para o dono, mas que agora é lixo, descarte, está sujeito a profanação de outro alguém qualquer. A importância de algo é mesmo cambiante; nada dura o tempo de um olhar já cansado, sedento de novidade e frescor. Há uma incapacidade persistente em olharmos para uma coisa e não vermos só a coisa, mas revisitarmos os sentimentos que nos fizeram amá-la. Alguém perde suas memórias e um homem de boné as resgata, a seu jeito, sob a sua ótica.

  Durante a corrida, avisto o homem vindo com as suas escolhas, na avenida cheia de cinza e carros, ele segue em sentido contrário ao fluxo e, pelo acostamento, empurra um carrinho de plástico colorido, com uma boneca sem um dos braços. A sacola não está tão cheia, mas tem sorriso e presente para uma filha talvez. Passo por ele e vejo a delicadeza com a qual ele segura o carrinho e a fantasia de uma filha, talvez já traga no brinquedo aquela outra que o aguarda em casa.

  O valor das coisas é mesmo muito fluido e variado: hoje é, amanhã não mais. Mas a sua direção quase sempre aponta para um simplicidade inexplicável,  num objeto de segunda mão, abandonado na rua; num regalo singelo bem intencionado; num gesto, palavra ou acolhimento inesperados. Ou, como quando meu pai e eu caminhávamos pela rua e ele passava a mão sobre os meus ombros e me puxava para o lado de dentro da calçada; a cena é prosaica, costumeira, mas era o amor maior do mundo e eu já sabia disso. O jovem rapaz me devolveu a cena antiga e repetida dezenas de vezes. Trazer para perto de si o que se ama, proteger e revisitar o sentimento primeiro é que dá o real valor ao que não poderemos nunca abandonar na calçada.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Incendiária

  Não era arrependimento disfarçado, não era um projeto de vingança pelo irrealizado, nem era desejo de  fuga. Mas uma visão, ainda incompleta, de recomeço sem muita carga das histórias passadas, sem a sombra das falhas ou dos sucessos que agora pareciam sem sentido, sem o olhar muito arraigado dos outros que diziam o que ela era e ela acreditava que era aquilo que viam. Era um sonho de partir sem nome que soubessem, sem os trejeitos e as respostas que esperavam que partissem dela. E se não esperavam, podia criar novos jeitos. Reinventar o que era e não podia saber.

  E na visão que se repetia sempre, abriria a porta com muito jeito, a cada volta na chave, o corpo esquentaria um pouco mais, não era incômodo, era aconchego, era a proximidade com uma decisão muito acalentada, era o calor da vida abrasadora que circularia nas entranhas e daria força e coragem. Depois que a porta se abrisse, entraria suave, mas pisadas firmes, com resolução e caixa de fósforos nas mãos, abandonando todos os medos. O  litro do inflamável  ficaria à porta, à espera, sem pressa de arder e instalado como um marcador da volta. Seguiria lenta pela casa, lívida, se despendido sem lágrimas do que diziam ser dela, mas ela rejeitava a condição de permanente; de pronta. Perscrutaria cada canto, assistindo uma existência que ruiria, no lugar dela. Abriria portas, gavetas, descobriria os esconderijos que ela sorrateiramente colecionava - ali sim, talvez tivesse um pouco mais dela - para facilitar o trabalho seguinte, ela areja o ambiente. Saboreia lentamente a plenitude do abandono escolhido.

  As fotos, os livros - aquele com a página dobrada que nunca terminaria, não aquele - os copos sujos na pia, os lavados na bancada, as garrafas de bebida pelo meio ou fim - quase nenhuma permaneceu intacta - as três plantas na cozinha - uma espada de São Jorge e duas bromélias - o revisteiro de palha, as três cadeiras altas, o Buda, o São Francisco e o quadro de Shiva na parede do corredor. As quatro ou cinco cenas que se revezavam a cada porta aberta - uns inícios, uns finais, algumas incompreensões. Tudo poderia ser vencido, o fogo era a cura, o remédio, as horas economizadas com o analista, as centenas de noites insones; as chamas eram a libertação, enfim.

  Depois da passagem pela  casa inteira, voltaria ao combustível repousado na entrada e molharia cada parte revisitada, como num ritual: lento, paciente e cheio de devoção. O líquido que caía sobre cada coisa - objeto ou lembrança - era a uma definição, um fim, o passo para o outro rumo, novo, sem vestígios impregnados do abandonado ou possibilidade de recuo. Acenderia o fósforo, largá-lo-ia na trilha molhada, preparada para o término.

  O  fogo se alastraria por cada memória, cada visão equivocada de si, fundamentada nos olhares dos outros. Éramos nós e as nossas sortes perdidas, talvez valesse um resgate improvisado de uma só coisa da casa, algum patuá, uma imagem, um livro, um nada para dar mais materialidade à despedida e o fogo queimando atrás. Um caminho a ser descoberto, limpo, livre dos excessos, logo mais adiante.
 
  Não era escolha, não era a intenção de uma justiça ilícita, de uma resposta irracional.  Era fogo ardendo, saltando de dentro  do corpo, saindo das mãos, aterrissando no concreto e destruindo as marcas de um  não-ser. O fogo queimando atrás e a chave na porta rodando cada volta, com a suavidade de quem acaba de nascer. Chegar ao mundo depois do fogo, pela desordem da correria atrás, pela confusão da fumaça, pelo calor da brasa; agora é um início, aquele sem nome, sem os enredos muito conhecidos. A incendiária tem no fogo o seu renascimento cumprido.





quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

No rio do esquecimento

   Entrar no rio, de corpo inteiro. Molhar os pés, buscar aos poucos o lugar mais fundo, sem insegurança, pisando firme, confiante na procura. A água fria alcançando os joelhos, molhando as coxas, entrando nos vazios, ocupando cada um dos espaços, a água invadido o que no corpo é ausência.  Onde não existir carne, a água fará as vezes de fração de corpo. O rio e a pessoa, um começando onde o outro acaba; sem separação, sem limite. Incorporados. O suave e o grave; o úmido e o seco; a vastidão e as pequenas coisas.

  No rio, mergulhada nele, submersa naquilo que era longe e agora é dentro, é parte, se despir do passado, para receber o porvir. Abandonar na correnteza as despedidas dolorosas nos aeroportos, rodoviárias ou nas marquises dos botequins vagabundos, onde dividíamos as cervejas. Afogar o lenço bordado da avó, que nunca vamos usar, é só relíquia no fundo da gaveta, ocupando espaços, amarelando o linho, esvaziado de função; molhar definitivamente o livro, em que a leitura se recusa a avançar. Afundar os conselhos de quem insiste em escrever um romance no qual recusamos interpretar as personagens. Submergir as fantasias de carnavais passados e inundar sambas-enredo que deviam ter se limitado à avenida, mas insistimos tanto para fazer a alegria durar o ano e por isso carregamos um samba que toca muito triste agora; encharcar a secura das palavras, aquelas mal ditas, as nunca ouvidas, as que não puderem ser verdades, só desejo.

  Mergulhar o corpo inteiro, banha-lo nas centenas de lembranças abandonadas, nas próprias e nas dos outros, que também passaram pelo mesmo rio, deixar que elas atravessem a pele, invadam poros, orifícios, que detenham a respiração por longos e redentores segundos e depois partam. Um mergulho definitivo de cada medo, no próprio medo, para assim quem sabe curá-lo. Afundar os pensamentos muito cristalizados, quase imutáveis, levar à água as limitações, os preconceitos, as verdades absolutas e os sensos todos, o primeiro deles a ser afogado é o comum. Abandonar nas águas os infindáveis e indesejados ciclos, os clichês, os acostumados lugares, modos, gostos. Lavar a vergonha das irrealizações, os pudores com os próprios sentimentos, abandonar sob a água os vícios, os traumas, as contas em dívida, aquelas que nunca poderemos liquidar.

  O batismo providencial, no rio, para abrir espaços, desocupar prateleiras sentimentais, para ouvir o futuro apontando no corredor com os seus saltinhos barulhentos, descobrir novos rostos, gente que ainda não conhecemos e que precisamos muito saber quem são e elas saberem de nós. Para correr novos riscos, cair noutros lugares, sentir outras dores e estabelecer novos consolos.

  Molhar os cabelos e sentir a memória quase se esvaziar, manter só o essencial: algumas pistas do que fomos, do que já pensamos e apenas alguns indícios do turbilhão que sentimos. Esvaziar o cofre e desapegar dos cadeados, arejar para receber. Esquecer do antes para lembrar do que está vindo, do que passará pelo mesmo rio um dia ou que ficará incrustado e que nenhuma água, mesmo com toda força, lavará.

  Mergulhar para, finalmente, deixar a correnteza levar tudo o que prende, sufoca e ocupa sem serventia. No rio do esquecimento, abandonar toda a dor para que ela saiba passar, enquanto ficamos. E então, levantar do mergulho, sacudir os cabelos, abrir os olhos, buscar as margens e nascer para a vida que nos espera no solo. No rio do esquecimento, tentamos deixar aquilo que nunca nos deixou.



domingo, 25 de outubro de 2015

Agora, já pode olhar para baixo

   Pede um expresso na loja do centro, olha para frente, enquanto o café não chega e o som do sino de uma igreja ao fundo, marcando as horas, ritualizando os eventos religiosos deles e os mais íntimos dela e por mais longe que esteja, não há meios de não ouvir suas batidas; o próprio coração parece reconhecer o som e bater em sintonia, a respiração, de repente, também faz parte da orquestra. Biologia alguma explicaria um corpo que obedece a um som imaginário. Quarteirões há muito abandonados, ruas das quais não guarda mais os nomes, só os cheiros - do pão quente, do café recém coado, da vala com o esgoto a céu aberto da rua sem saída, do hortelã e da salsa na entrada do mercadinho - alguns rostos e o remoto som do sino que a persegue, avança mais do que o próprio caminho e vai a frente, anunciando que nem tempo, nem distância, nem desejo muito convicto podem mesmo apagar decisões antigas, escolhas perdidas, nem as cenas, as falas, os gestos ou as imagens impressas na alma.

  Era pequena quando o sino já ecoava nela, no começo, era só no sono. Enquanto dormia, num sonho chegavam as batidas,  o som longínquo não incomodava, pelo contrário, acalentava, fazia companhia e, por isso, dormia mais leve. Depois começou a acompanha-la também durante o dia, enquanto brincava, tomava banho, se vestia ou aguardava o jantar. Olhava para os lados, buscava nos olhos dos outros a cumplicidade do som, que nunca veio; e então, soube que o sino era só dela e nunca seria compartilhado. - Talvez os outros tenham outros sons, este é meu.

  Se a magoassem, a contrariassem, negassem a ela o que achava de direito, tinha um choro que parecia infinito. Deitava na cama, sofá ou chão e achava que era o fim; tudo terminaria em choro. Mas nada, os fins não vêm em choro, desconfio. Depois de alguns minutos, antes que o rosto secasse por inteiro, levantava de onde estivesse, saía pela porta e já estava curada. Mas nunca saiu sozinha, o sino a seguia. O incômodo que a fez chorar não era esquecido de súbito, só não se prendia muito a ele, entende? Num choro muito demorado, muitas oportunidades eram perdidas, a de sorrir, por exemplo. Ouvia o sino e, logo, a mágoa era lembrada, mas escolhia seguir, inclusive retomando os laços com os afetos que a feriram.

    Então, quando dizem a alguém, com muito medo de altura, para não olhar para baixo, desconfio da eficácia do conselho. Olhar para frente não diminuirá a altura, tampouco fará esquecer do perigo da queda. Os sinos continuam a tocar, nada é capaz de silenciar um som que nos acompanha. Segurar firme e seguir, mesmo com medo, me parece a melhor decisão.  Fechar os olhos, imaginar caminhos livres e menos tortuosos ou ocultar o antigo não durará muito, o som nos diz que a altura existe. Então, olha, olha sim. Mesmo com medo. Olha; porque a possibilidade da queda não é a certeza dela. A altura é um risco, mas também o impulso para a subida, uma sombrinha para o equilíbrio na corda bamba.

  - Já são seis horas!
  O sol resistente no horizonte, uma gota de suor por baixo da blusa escorre do colo até a cintura. - É a hora da Ave Maria. Abaixou a cabeça em respeito e, finalmente, olhou para o chão. Da altura que tem medo, mas que precisa enfrentar, nunca se esquece, nem deixa de olhar. Os sinos chamam para o final do café. Vira a xícara e retoma a travessia da corda. Pronto. Agora segure firme e olhe para onde os olhos quiserem ir.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

A dona da chama

  Eu podia não ter visto, podia nunca ter notado ou, ainda que soubesse, ignorado, mas os acontecimentos, os detalhes, os segundos planos, os lugares que os nossos olhos passeiam não obedecem à vontade, estão muito mais submetidos a uma necessidade nossa, mesmo quando não sabemos delas. Eu a vi e tenho acompanhado a sua missão, vivido um pouco das suas noites insones e partilhado, ainda que ninguém saiba, do seu ritual particular.
 
  Começou há  quatro noites passadas, quando uma luz mínima entrou pela janela do meu quarto, era tão pequena, tão pouco perceptível, que eu nem, ao menos, tive a curiosidade de procurar a sua origem, não fechei a pequena fresta da cortina, nem esperei que se apagasse; só dormi. Na noite seguinte, a luz de novo entrava no quarto e pensei que talvez fosse a lâmpada da rua acesa ou de algum vizinho, alguns minutos deitada, somente supondo. A luz não me incomodava, não atrapalhava meu sono, nem me revelava o que eu desejava esconder, quando apagava a luz do meu quarto, mas me chamava, acho. Como se ao não procurá-la eu perdesse algo muito valioso. E por isso, levantei, abri a cortina e busquei o lugar de onde o  fio de luz partia.

  Era tão delicada, tão pouco evidente que eu demorei algum tempo para entender a morada da luz que me solicitava. Do outro lado da rua, da casa que eu só conheço o cachorro, a piscina cercada por um muro de azulejos transparentes e o repertório musical das festas no final de semana, pela primeira vez, eu vi um dos seus moradores. E a luz que entrava no meu quarto foi o que me despertou para a existência da mulher da minha rua. Vi o seu perfil alaranjado pela chama de uma vela, é morena de cabelos na altura dos ombros,  parecia vestir uma camiseta de dormir e estava em frente a luz que me buscou na cama. Silenciosa, eu acho - porque não vi os seus lábios mexerem - ela cuidava da chama de uma vela. No escuro do meu quarto eu a observei por algum tempo, pensei sobre os motivos da manutenção do fogo, das intenções que fazia e até da fé que a mantinha em frente a vela. A luz que me chamou, a desconhecida que eu acabava de tomar conhecimento da sua existência, o fogo que me surpreendia e, finalmente, a  cena que me enternecia adiaram mais o meu  o sono e demorei muito a abandonar meu posto de espiã. 

  Nas duas noites seguintes a pequena chama veio me visitar, ela está aqui dentro agora, e tenho visto o mesmo perfil, que às vezes se põe de frente, mas nunca me vê e que persistente olha para a chama pequena, como se dela uma vida inteira dependesse. Não sei explicar o porquê, mas a vela acesa nas últimas noites, na casa de uma desconhecida, tem me dado tanto, tem me confortado mais do que todas as luzes acesas da cidade, se elas de repente, se iluminassem para mim.

  Não sei por quem ou o porquê, a mulher cuida da chama, se dedica tantas horas a mantê-la acesa e colore tão melancolicamente o seu perfil, durante as últimas noites. Seu cão me diria se pudesse. Às vezes, penso que talvez seja  por um familiar doente ou por ela mesma, acometida por alguma enfermidade, talvez uma dúvida ou dívida, quem sabe? Depois, menos grave, penso em alguma prova difícil que algum dos filhos fará. Minha mãe acendia velas quando fazíamos provas na escola. Quando minha irmã fazia faculdade em outra cidade, ligava para ela para pedir que acendesse velas em quase todos os finais de semestre. Tantas vezes a vela da minha mãe me deu coragem para, ao menos, comparecer à escola, sabendo que o ano era perdido, que eu não conhecia absolutamente nada da matéria e nem mesmo tinha estudado. Não era fé na religião, nas intenções ou qualquer coisa de místico, a vela da minha mãe acesa em cima da geladeira azul era a sua crença em mim, não era o fogo, era o amor que me encorajava a tentar, mesmo que o fracasso fosse inevitável.

  Agora, nas últimas noites, a chama de uma vela tão longe, de uma desconhecida, cumpre o mesmo papel da chama da vela que brilhou tanto na minha casa: despertar uma fé, confortar um medo, iluminar o caminho escuro e tortuoso que é o da tentativa sem sucesso, das falhas já sabidas desde a partida; mas a estrada precisa ser cumprida, o fogo diz. A luz de uma vela que não se apaga, os olhos vidrados na chama e o perfil alaranjado de uma mulher insone me ensinam que a confiança e a fé em alguém, é o que de mais bonito o amor concede. Que a vela dela seja tão duradoura quanto a da minha infância. Que a oração dela seja ouvida aqui, mais do que em qualquer outro lugar e que as suas intenções de pedido, graça ou agradecimento sejam atendidas na mesma medida da sua dedicação ritualizada. Eu hoje, não dormirei antes do sol sair, ficarei em vigília com ela, sem ao menos saber ao que pedir ou agradecer; meus olhos serão do fogo que a mulher da minha rua sustenta tão fervorosamente. 

  Eu poderia jamais saber da mulher do outro lado da rua, poderia não ter permitido que a fina chama da sua vela perturbasse minhas noites, poderia não lembrar da minha mãe e da geladeira azul da minha infância, poderia não me deixar atravessar por uma cena na primeira vez que a vi, nem voltar outras noites a uma casa sem convite dos donos, mas como já disse, não é escolha, é necessidade tantas vezes obscura. Uma chama sutil cruzou meu quarto e entrou na minha alma, que buscava luz na madrugada; agora eu não ando mais no escuro. Não nas últimas quatro noites. 



domingo, 13 de setembro de 2015

Sob a ditadura da impossibilidade

  Não permito que depois de cada livro meu que você encostou, tenha deixado o seu cheiro, as marcas invisíveis do seu dedo e que eu  as recolha de cada palavra, como se houvesse faxina possível para limpar seus longínquos rastros. Não permito que todas as vezes, para sempre, em que eu fechar o olhos em meditação a sua imagem seja sempre a primeira a me visitar, minha lembrança mais antiga, mesmo que nem seja tão remota.

  Não permito que os lugares, as pessoas, as histórias dos desconhecidos, os gostos novos e redescobertos, os cheiros frescos ou cristalizados, os sons, da rua, da natureza, do meu corpo requisitem a sua memória; - Será que sentiria o mesmo que eu, se ouvisse, sentisse, saboreasse, ouvisse ou olhasse?

  Não permito a amplitude dos gestos, o riso livre, a piada estúpida, os ponteiros do relógio ignorantes da  dor que não reconhece,  nem a falta de luto, depois da constatação de que passou. Era vendaval que se dissipou, depois de cair a tempestade. Não permito que tenha pena, desgosto ou  culpa quando a decisão de partir começar a sondar seus planos. Não permito nenhum abandono sentido, heroico.

  Não permito rogar teu nome quando, num ato falho, chamar por alguém que em nada se parece com você e me envergonhar pelo engano, pedir desculpas e fingir que da minha boca saiu um nome qualquer sem significado algum. Não permito desconcertos, arroubos e confusões públicas sob o pretexto de fragilidade ou perda afetiva. Não permito que conheçam as águas que me arrastam, nem a larva quente que me soterra no irreversível.

  Não permito que o céu estrelado e a lua cheia invadam minhas noites de verão e se instalem como um teto de afrescos que recontem a história que eu não quero rememorar. Não permito que eu ande, mesmo que pelo menor dos tempos, arrastada, desabitada de um lado, uma face, outra perspectiva. Só permito parecer inteira, mesmo que me custe muito as várias emendas e reparos.

  Eu não permito que faça poesia ecoar dentro de mim e depois fugir com cada verso, deixando meu coração estilhaçado em mim. Não permito que as suas canções continuem me perseguindo mesmo quando, há muito, sua voz se calou por aqui. Não permito o esquecimento, a superação mágica, nem a tragédia da conformidade depois da partida. Mas elogio o drama, o rancor, o desespero de quem um dia viveu e agora suspira pelo irremediável, pelo que tem fim, pelo que talvez nunca tenha sido o que se pensou ser. Pela construção solitária de um sonho que só pode vingar se for partilhado.

  Não permito  que as festas que eu dediquei a você, ainda circule como notícia de quem julga que os fogos eram demasiado bonitos para uma passagem perecível demais. Não permito que comparem, opinem e despejem suas conjecturas disfarçadas de consolo, amizade ou empatia com aquilo que ninguém assistiu com as lentes que só eu tive.

  E por não permitir é que faço de mim o único lugar que nunca pode abandonar de fato. Escuta, você nunca foi embora. Você continua a permanecer por aqui. De certo é que meu coração nunca se enganou; deu amor, tantas vezes, a quem não pode retribuir com a mesma dignidade ou devoção, mas sempre escolheu a quem muito dele precisava. Portanto, continua seu esse mesmo amor, eu não permito que me devolva o que ficou para sempre inutilizado. Aos outros darei outros, mas este é seu. Somente seu. E eu permito que leve-o com você e que continue morando ainda em mim. 

  E fica estabelecido isto: de que nas minhas leis ninguém é obrigado a ser infeliz ou submeter-se a elas se não quiser, nem mesmo eu. 



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Ainda é cedo, hoje pode ficar mais na cama

  Há dias, a maioria deles que nem suspeitamos no seu início, que se instalarão para sempre num cesto bagunçado de memórias. Pedaços pequenos de linha, novelos pela metade, outros pouco gastos, quase inteiros, que coloridos, se misturam num mosaico de lãs diversas e que, em alguma medida, são complementares. Em um emaranhado de diferentes cores, tamanhos e padrões, cada linha nos levará a uma narrativa muito particular e que misturadas contarão uma história maior; uma trajetória inteira dentro de um cesto de lã.

  O despertador tocará, tomará um banho morno como todos os outros da semana, escovará os dentes, tomará um café preto e duas torradas, lamentará  a neblina do lado de fora, alimentará um cão, escreverá um bilhete e não suspeitará que ele jamais será lido pelo destinatário. O dia começado mecanicamente, anos depois será repassado nos seus detalhes mais ordinários: que roupa usava mesmo? Foram duas ou três torradas? Terá sido com geleia, manteiga ou requeijão? Como exatamente escrevi no bilhete que depois rasguei? A retomada inútil seguirá por dias e no cesto de restos de lã, a torrada é um fio marrom.

  E se na tentativa de lembrança de cada detalhe, entendesse a explicação para o desfecho? E se ao lembrar do gosto do café, pudesse por uma catapulta mágica, ser levada a um tempo ultrapassado, perdido em detalhes?

  Porque acordou e não sabia que era o dia, aquele aparentemente comum, que colaria  tão fortemente a sua memória por décadas afora. Porque não sabia que a partir de um só acontecimento, naquele dia,  tudo de ordinário na manhã prosaica passou a ser fortemente resgatado. O  café, o frio no rosto, os sorrisos e as caras fechadas pelas quais passou, o ascensorista do elevador e a sua gravata insistentemente retorcida, os gerânios na mesa do escritório ao lado, a voz aguda da secretária nova em seu bom dia festivo, a bolsa colocada sobre a mesa, o computador ligado, o toque do telefone e a notícia. E, então, as palavras difíceis, de um interlocutor desconhecido, que jamais se escondem, se apagam ou desbotam minimamente, mas que a cada distância aumentada de tempo e espaço, mais fortes e encorpadas  se tornam. Como pode a voz de um alguém a quem nunca conhecemos, definirem os rumos de uma história inteira? A voz no pedaço de linha vermelha: grave, contundente, para sempre destacada no cesto.

  Há dias, outros, talvez em menor quantidade, que já acordamos determinados a guardarmos restos dele no cesto de linhas. Dias que uma conquista será comemorada, um afeto oficializado, um acordo efetivado. Linhas voluntariamente  selecionadas e que por isso, acordar já é especial. Nada será mecânico, nada passará imperceptível aos olhos que sabem que cada detalhe da manhã, da tarde e noite adentro será rememorada tantos anos depois. Por isso o banho é outro, o gosto do pão é sentido para ser lembrado, a ração do cão medida no pote, também alimenta o dono. Um tempo presente, pensado para ser revisto no futuro: três tempos distintos, que coexistem, ao menos num dia.

  O cesto bagunçado de memórias tem disto: pedaços de linhas imprevisíveis e restos de lã selecionadas. Ambas contam a história de uma existência inteira. Novelos maiores que terminam abruptamente, pedaços mínimos de linha que demarcam mudanças determinantes, linhas que trazem uma história suave de inícios, meios e finais. Todas contam os dias que serão para sempre revisitados.

  E na segunda gelada de feriado, ao desligarmos o despertador, uma voz de cor azul de um passado remoto e lugar indeterminado, virá nos acolher: "Ainda é cedo, hoje pode ficar mais na cama". E não importa se as grandes mudanças dos dias memoráveis, se os acontecimentos destacados numa agenda ou as surpresas definitivas de um dia começado ordinariamente estarão demarcadas nos fios,  serão os detalhes de cada dia que saltarão na confusão das lembranças enoveladas.  



quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Nau de ausências

   Quando pequena, ainda, às vezes sentia que tinha uma falta muito interior a ser preenchida. Não era ausência de sentimento, objeto ou pessoa específica, era um oco que não sabia do que era feito. Era como se entendesse a existência de um buraco, mas desconhecesse a matéria ausente. Crescia e a medida que os espaços se ampliavam o eco também parecia ser mais urgente. Um grito para dentro e toda a estrutura estremecia. A falta, o oco,  o eco, a descontinuidade de um algo que a acompanhava. Não buscava solução, não compartilhava a sensação com ninguém, levava com ela o inexplicável. Por vezes, o que a gente tem mesmo é o sentir. Então, a gente dorme com ele, acorda com ele, toma banho, se alimenta, conversa, compara, escreve, se entristece e  se alegra, sem se apartar dele, como um patuá, um signo, uma marca ou cicatriz que só dói, um pouco mais, em véspera de chuva. No mais, fica lá acanhado, junto da dona, sem latido, sem incômodos maiores.

  Tinha quase doze anos quando soube da existência dele, a vizinha de uma amiga tinha comentado e a amiga quis saber: - É seu avô, o velho da casa do pinheiro?
A cidade nem era tão pequena que se pudesse conhecer todos os habitantes, mas no bairro, se não conhecesse de nome, lembrava por alguma referência. O pinheiro, perto da praça, era o lugar preferido no bairro. Sossego, verde, sombra e visão centralizada. A casa em frente ao pinheiro era amarela e velha e tinha sim um velho que ela via sempre na janela. Mas, avô? Não. Avô não podia. Parente a gente reconhece de sempre, já nasce e ele está lá, é de vida, de um começo que a gente entende só mais tarde.

  Voltou para casa e achou muito engraçado ter um avô que não sabia: - E se fosse? Se o velho da casa do pinheiro fosse o marido que a avó nunca falava? E se o pai da mãe e dos tios dela fosse o homem da casa amarela? Precisou de certa reflexão até a pergunta. Pensou se valia mesmo investir seu tempo numa investigação infrutífera, descabida. E se falasse do avô que diziam morto e a mãe se lembrasse da orfandade e se ferisse com a memória? Mas, pensava depois, que talvez o avô perdido era vivo, morasse na rua de baixo e ela por um cuidado com o sentimentos da mãe perdesse a chance de vê-lo de mais perto. Na queda de braço entre a sensatez e a curiosidade, a segunda ganhou com larga vantagem, mas ainda sim, a primeira precisava dar certo equilíbrio à empreitada.

  Depois de duas noites e um dia e meio, abordou a mãe com uma lição de casa simulada: a árvore genealógica. A atividade já repetida algumas vezes, desta vez seria dirigida, se fixaria na personagem da sua curiosidade. Falavam muito pouco do marido da avó materna e quase sempre que o nome era citado, outro assunto atropelava a menção. Largos espaços da infância da mãe e dos cinco tios eram guardados, pulavam décadas de assunto e minha avó era a única figura heroica que eles gostavam de render honrarias. Começou a árvore pelos bisavós, quando a mãe falou o nome do avô a menina lançou a primeira pergunta: - E seu pai morreu em que ano, mãe?

  Ela engasgou, repetiu a pergunta em voz baixa e pediu para olhar o caderno:
 - Morreu quando?  - Hum...pede data aí, é?
 - Não, mãe. Não pede. É curiosidade minha. Meu avô morreu quando mesmo? 
A mãe não mentia. Tinha muita dificuldade em inventar qualquer desculpa. Atendia vizinha chata, arrebanhava inimizades. Tudo por não saber inventar história melhor que a verdade.

  Tentou desconversar, pediu que terminassem logo, ensaiou começar outros assuntos que forçassem uma mudança de rumo da situação. Até que pressionada, pela vilania curiosa da própria filha, caiu num choro que quase fez a menina desistir do intento. Ela abraçou a mãe, levou água, uma colher de açúcar, chamou a vizinha do lado, consolou-a o quanto sabia,  mas não desistiu. Voltou, de novo, com o assunto que suspeitava mais a cada minuto ter algum sentido e descobriu, um pouco surpresa e outro tanto muito certa, que o homem do pinheiro do bairro era o avô que pensava, até três dias antes, ser finado. A mãe pediu que menina não falasse com a avó, nem com os tios que ela sabia do avô. Pediu que não o procurasse nunca. E chorou como se fosse órfã de verdade e o pai morresse ali, neste instante.

  Tinha um parente que  sempre via e não sabia da existência, porque matavam ele do álbum, das lembranças, das histórias da família. O velho da casa amarela, em frente ao pinheiro, era sangue seu, memória da mãe dela, um marido que avó nunca falava e que os tios se redobravam nos cuidados de omiti-lo da infância. E  se o oco da menina fosse o velho debruçado na janela? E se a sensação de descontinuidade fosse a falta dele? Não respeitou o pedido da mãe, duas horas depois da lição inventada e  inacabada, com razão, buscou a parte escondida da sua história. Bateu na porta da casa amarela e o velho a atendeu, pediu que ela entrasse, se sentaram e assistiram a novela juntos. Não falaram nada. Só viram novela e ela foi embora.

  Passou a visitá-lo todas as terças e quintas, depois do balé. Ele esperava-a na varanda e eram avô e neta recentes, sem necessidade de apresentação. Ele nunca perguntou sobre a filha, a mãe dela nunca perguntava pelo pai e a avó fingia não saber dos contatos da neta com o passado que ela escolheu extinguir. Nos primeiros meses, em volta, havia incômodo e descontentamento com os encontros. A insistência da neta parecia traição. Quando ela leu, na escola, o enredo de rivalidade dos Montequio e dos Capuleto ela se sentiu Julieta. 

   Mas, acontece que numa história de rancores que parecem há muito cimentados, vez ou outra, uma estrutura se abala, uma raiz nova luta para nascer e o que parecia instalado, de repente, muda o curso. Nos encontros desaprovados por mágoas muito antigas, a menina juntava histórias, colava partes importantes desencontradas e, aos poucos, devolvia ao álbum da família a parte recortada do retrato. Todos os dias, sem preparo algum, sem nunca saber, ela perdoava os rancores de duas gerações antes dela, ajudava um velho a se reaproximar de seu sangue e debaixo do pinheiro em frente a praça do bairro, uma colcha era finalmente remendada.

  O Homem da casa amarela só teve vida por mais oito anos, depois da descoberta, conheceu outros netos, abraçou os seis  filhos, cada um a seu tempo, sem pressa, tomou o café da mãe da menina e sentou no mesmo sofá que avó, pelo menos, mais uma dezena de vezes.

  A ausência sentida antes, ela nunca me disse se foi, de fato, superada. Não soube se o oco se completara com o avô ou se o eco ainda a acordava no meio da noite. Mas, do que soube mesmo, foi que a herança que ela rejeitou receber da mãe, a traição capitaneada por ela foi a redenção de uma infinidade de outras ausências.

  Não há existência que esteja livre da desconfiança de uma falta. A todos nós, sempre, haverá um espaço a espera de matéria que o complete. A ousadia  de Julieta foi romper com uma nau de ausências que buscavam um porto. Ela pulou e buscou socorro num bote inseguro e incerto, ultrapassou ondas gigantescas e reescreveu histórias pavimentadas sobre mágoas para, assim,  tecer novos rumos em material mais flexível. Uma colcha velha, remendada sob um pinheiro, por um par de mãos muito velhas, mas suavizadas pelas perdas e outro par jovem, estimulado pela busca de completude durará mais que qualquer dureza cimentada.  



domingo, 9 de agosto de 2015

Do abacateiro, só não quero o fruto

  Passar pela orla de pinheiros na entrada, atravessar os corredores brancos, desviar dos mesmos obstáculos de sempre, não errar as curvas, não esquecer nenhuma parte do caminho, mesmo quando a ausência é a visita mais frequente. Alguns passos repetidos são mais fáceis que outros, as referências colam na memória e mesmo que  faltasse luz, ainda que os minutos passassem como relâmpagos, a lembrança continuaria leal: vem por aqui, desvie do aparador da recepção, vire à esquerda, saia pela porta dos fundos, encontre o abacateiro e depois, o banco de cimento de três lugares. Não há equívocos, os olhos reconhecem, os pés desfilam seguros, só o coração é que segue em sobressalto contínuo. Não nos acostumamos nunca a isto.

  Todas as vezes em que a visito é assim,  passamos alguns minutos em alegria pelo reencontro, outros numa nostalgia por um passado que não pudemos compartilhar e alguns tantos, de silêncio pelo desconforto do desconhecimento e impossibilidade de comunicação. Tento encontrar nela algo que justifique a minha insistência em repetir os caminhos, em não esquecer como se chega, entra, senta-se ao lado, despede-se e vai embora, prometendo sempre voltar. 

  O abacateiro que nos abriga não é do nosso quintal, mas acho que fingimos ser, por isso nos instalamos ali desde o começo. Pergunto se a blusa é nova, digo que o cabelo está bonito, se a tratam bem - e disto sempre me arrependo, porque ela balança a cabeça em um sim, mas os olhos negam e eu sepulto sua distração neste segundo mal calculado. Somos distantes, distintas, mas não consigo escapar ao compromisso da tentativa. Talvez numa dessas visitas eu a compreenda, ela me receba com menos limitações e eu a ouça com mais cuidado, talvez num minuto calado desses ela me revele algo que preencha minha busca e traga mais consolo aos seus dias cercados de paredes brancas e pinheiros altos. Há dias em que me pergunto o porquê da minha insistência, deixo de ir até lá, desisto de qualquer aproximação e pareço não ser atravessada por sentimento nenhum: nem culpa, saudade, preocupação. Mas depois, o abacateiro aparece nos meus sonhos e eu sinto um chamado que eu não sou capaz de traduzir, mas obedeço do jeito que sei. Não compreendo do que somos feitas, se temos algo que nos conecte, verdadeiramente, se venho por ela ou pela árvore que ocupa meus sonhos.  

  Depois do silêncio insistente, da tarde que se esconde no escuro, me despeço sem emoções aparentes. Ela me leva até a porta, da qual jamais esqueço e voltamos cada uma ao que temos de mais íntimo, sem necessidade de esforço. No caminho da volta, reconheço meu medo e, no momento seguinte, tento negá-lo, todas as vezes que eu tive medo de ser algo, acabei sendo. Como um aprendizado: - Tá vendo? Não é tão terrível assim! Você é capaz de suportar.

  Talvez minhas visitas me façam perder o medo desse destino, desmistifique um sofrimento que não é só dela  e leve meus passos e memória noutras direções  ou esteja me preparando mesmo para este. É como se a negação aproximasse mais o medo. Não corra. Não adianta ignorar a sua voz que ele se faz ouvir a quilômetros de distância.

  Diminuo a pressa, jogo um beijo do outro lado do portão e ela sorri. Não tenho para onde correr, senão para o destino que se constrói a cada escolha, se vim parar aqui não foi pelo abacateiro, mas pelas raízes que ambas compartilhamos noutros quintais. Não importa se não sabíamos uma da outra, durante tanto tempo, o fato, agora, é que nossos caminhos se cruzaram e eu saberei dela para sempre, mais do que dos corredores e das alamedas de pinheiros; minhas pernas descobriram as curvas depois do meu coração saber da sua vida e do meu compromisso com ela. Distantes, distintas, mas carregando alguma seiva em comum. Do que tenho mais medo, me aproximo. Do que me aproximo, passo a temer cada vez menos. Na próxima visita roubarei um abacate e darei para ela, como um sinal da minha reconciliação com meu medo e uma promessa de que dela jamais me desprenderei, mesmo que as respostas nunca cheguem.



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Num segundo olhar, o que faltava, sobeja

  De repente, de um lugar limite em que se está, perdido de perspectivas outras, instalado numa ausência de promessas, vemos uma janela se abrir e, depois dela, outra, e logo, uma infinidade de caminhos possíveis  se instalam a nossa frente, caminhos antes não imaginados, se tornam disponíveis ao avanço desejado. Como numa magia, uma esperança de que não é preciso nos mantermos estáticos, presos a esse mundo onde não nos reconhecemos. E esta talvez seja uma espécie de descoberta, de vislumbre de liberdade. E, a partir dela, vamos além. Superamos a falta e corremos em direção ao infinito que sobeja.

  Contou-me de um tempo em que vivia numa casa afastada do povoado, onde a noite era de uma escuridão profunda, onde os dias demoravam muito a passar e que se sentia, especialmente depois das 6 da tarde, solitária, desconsolada, incompreendida das pontas da trança apertada, ao dedo do pé no chão de terra. E sentido-se desassistida, pensava em pular no rio que passava no quintal de casa, afogar sua solitude de menina nas águas indulgentes  que margeavam a casa. Só queria pular no rio, acabar com aquela angústia toda, encher de umidade aquela aridez de sentimento, prender com uma pedra a escuridão muito firme das noites e deixá-la no fundo para sempre. Não sofria de falta de afeto, mas tinha como marca comum, de outras crianças do seu tempo e região, a penúria de uma comunicação muito equivocada, da falta da linguagem; de toda ela, escrita, falada, sentida, de olhos que a fizessem querer ficar. E isto é, tantas vezes, a grande fatalidade do mundo, abandonamos ou nos deixamos abandonar não pela ausência de algo, mas por não termos sabido dele a tempo.

  E quando o desconsolo latejava o coração, quando estava prestes a não suportar mais, saía pela porta dos fundos, atravessava a horta, descia o monte de terra, soltava o corpo, quase sem direção, e ia ter-se com o rio familiar que passava pelo terreno da casa. E bastava chegar na sua beirada, que o medo, a incompreensão, a escuridão das noites se dissipava, olhava para rio e desistia de entrar, olhava para o rio e sentia-se finalmente consolada. As águas avermelhadas abrandavam o desassossego, acarinhavam os cabelos, que desconheciam mãos, embalavam as esperanças de um outro lugar, onde a vida fosse menos seca e as horas menos apercebidas. 

  Muitas vezes, onde achávamos que nos perderíamos é o lugar do nosso encontro, bastava sempre um segundo olhar, uma vontade invertida e ela tornava a ter vontade de vida. Não esteve só; nunca o rio a deixou perdida em uma dor, encontrava  afago na água barrenta e seguia. O mesmo rio que a incitava ao término, era o motivo maior da continuação. Na segunda olhada as forças já estavam restauradas e ela voltava a ser feliz como antes. Que riqueza é ter um curso d'água detrás de casa e nele renascer sozinha.

 Olho para ela e vejo essa força de rio, essa busca e encontro de passagem nos lugares mais ermos, nos terrenos menos favoráveis, seu jeito é silencioso e, outras tantas vezes, implacável, aprendeu com o rio que passava no seu quintal a não desistir. E nela, que tanto ainda desconheço, enxergo uma bendita herança, a marca deixada pelo rio barrento e consolador. Nada escapa à vida, ela mesma é quem nos recompensa daquilo que não pode nos oferecer. Bastava  ver o rio e o afeto que não tinha não faltava mais. 



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sob um estado pacificado

  Nos lugares onde nunca vamos, nas coisas que não temos ou nas pessoas que não somos, mora o maravilhoso. Nas varandas decoradas que ninguém usa, nas sacadas apertadas dos apartamentos, onde ninguém toma  café da amanhã aos sábados ou divide uma garrafa de vinho ao final da tarde, nos carros que ninguém dirige, por não ter um bom lugar para estacionar, nos chapéus que ficam no fundo do armário, aguardando uma ocasião em que o seu uso seja mais comum, nos avós adoráveis ou maridos sensíveis que os outros não sabem do valor, o nosso desejo se manifesta.  Ilusão de felicidade completa, de que se fossem nossos, saberíamos bem deles. 

  Um homem passa de jaqueta azul do outro lado da rua com seu cão amarelo e só de vê-los passar uma brisa de satisfação sopra as ventas do meu desejo. Quero o cão, quero a jaqueta, quero a serenidade e o rio de calmaria que os dois vivem; acho que vivem, na verdade. Do meu lado, uma adolescente passeia lépida com o seu amor, o rapaz é alto e se curva todo para olhá-la nos olhos e ela pequena se alonga para sentir o cheiro do hálito de menta dele. Quero a esperança do sonho do casal de amantes jovem, quero o mesmo tempo que permanece  infinito para eles, nesse momento. Uma sacola esbarra no meu braço e uma senhora de muitas rugas sorri, jovem, para os carros que param para ela passar; aproveito seu desfile elegante e atravesso junto com ela. Quero o exibicionismo garboso, a alegria com cor de serenidade que a mulher traz junto às suas sacolas de feira. No carro prata, no sinal fechado, uma mulher penteia os cabelos pretos, retoca o batom brilhante e cantarola a música pop americana. Eu quero ser embalada por essa canção sossegada de quem não feriu ninguém, não roubou, não mentiu, nem matou nunca sentimento nenhum na vida; quero a boca desenhada sem pressa.

  Dos sentimentos que não podemos saber, só suspeitar, colocamos muita fé, investimos muito crédito. Como se ter cachorro amarelo, jaqueta azul, amor juvenil, graça madura e batom, com fundo musical, fossem as reais razões de um estado que é, somente, da ordem da alma. 

  O menino não tinha varanda, carro na garagem, nem chapéu no fundo da gaveta,  morava no apartamento muito frequentado, com mulheres que falavam alto o dia inteiro, que levavam suas revistas com modelos de vestido, debaixo dos braços e tecidos estampados, embrulhados no papel e demoravam um dia e meio para escolherem aquele que fariam. Morava no apartamento sem sacada, com luminosidade rara e que em tempo de chuva abrigava os varais com roupa cheirando a amaciante, as roupas úmidas atrapalhando a brincadeira, bagunçando cabelos e colorindo a casa, roupas sobre as cabeças dos moradores, os pares de pernas flutuando sobre o sofá, a mesa de jantar; as mangas sem braços, acolhendo as visitas. A campainha era estridente e tocava a todo o tempo, os filmes ficavam quase sempre pelo meio, quando alguém mais velho trocava o canal.  Era uma casa com varais, com pessoas o tempo todo, as vozes, mas nada disso era capaz de roubar a calmaria, a serenidade que era um estado de sentimento. A paz que nunca pede lugar, que não depende de jaquetas azuis ou cachorros amarelos, que existe, mesmo na balbúrdia.

  E enquanto me perco nos outros, no brilho que não é meu, encontro meu estado de paz. E quase sinto o cheiro do amaciante das roupas que secavam pelo apartamento. Eu tenho uma varanda bonita e tomo meus cafés de sábado nela e vejo a tarde ir embora, regada a taças de vinho. A varanda que trago em mim não requisita concretude, pelo contrário, pede mesmo é nuvens de sonho. Sob um estado pacificado atravesso a rua e avanço para a felicidade que é visita sem exigências. 




quinta-feira, 23 de julho de 2015

Para vencer o inverno, sono tranquilo

  Acordo hoje depois de seis horas de sono, mas é como se tivesse dormido seis dias ou seis semanas. Não, dormi, ao que me parece, por seis redentores meses. Acordo depois de um semestre inteiro hibernado e ninguém percebe minha ausência: nenhuma mensagem na caixa postal, nem carta no correio, sem notificação judicial ou aviso, nem conta recebo. Passo seis meses em sono profundo e nada no meu mundo me solicita. Nem a data do calendário se solidariza com o meu exílio voluntário nas terras de Morfeu, pois só conta um dia na minha viagem que durou,  numa  contagem minha, mais de cem.

  Acordei descansada, com menos urgências, mais leve; acho que fiz jus ao seis meses de entrega completa ao repouso. E enquanto dormia, quitei dívidas, livrei-me de dúvidas antigas, fiz as pazes com a tranquilidade da qual, vez ou outra, me afasto e tive toda a sorte de sonhos. Reencontrei com a juventude de meus pais, revi a infância dos meus irmãos, beijei as mãos do avô e da avó, visitei a antiga venda e ouvi as tábuas do chão rangendo enquanto eu entrava, fiquei dividida entre o suspiro rosa e o doce de amendoim e acabei escolhendo o segundo. Sonhei com a minha franja recém cortada grudada na testa pelo suor, com o anel de pedra lilás que eu nunca soube precisar quando perdi. Com a bandeira hasteada no pátio da escola e a vontade de ir ao banheiro adiada pela solenidade, com a prova marcada para a qual eu nunca estudei. Sonhei com o meu desleixo com o futuro, com o nó na garganta, enquanto eu recitava poesias em público, com o trecho da música que eu mais gostava, "preso às canções, entregue as paixões (...)". Sonhei com o canário amarelo da nossa casa e as cascas do alpiste no chão da varanda, com a camisola de algodão e babados brancos, com o livro de uma italiana e a sua rua, com o menino loiro de olhos grandes que eu esperava que um dia me amasse muito. 

  Vi uma vida passar, como uma narrativa no ecrã,  sem angústia nenhuma, sem nenhum ressentimento ou traumas maiores, sem ansiedade para o fim, sem necessidade de apego a partes dela e me perdoei - perdões sucessivos -  por tudo aquilo que não fiz. Se não por falta de coragem, por incompreensão da necessidade de estar disposta para a vida, acima de qualquer pretexto. Assisti, como se outro vivesse a minha história e não eu; e a partir de uma perspectiva diversa fui mais flexível, menos severa. Deixei que passassem por mim, sem nenhum grito, pedido de pausa, desejo de avançar ou apagar. Só assisti. Escutei todas as vozes, as músicas de cada cena, os sons que me pareceram familiares, senti os gostos, revivi sabores e deixei que os cheiros invadissem meu quarto, minha cama, meu sono. E acordei sem cansaços, sem medidas, sem horas passadas ou compromissos perdidos. E só despertei, depois de reconciliada com a memória.

  Para avançar os dias frios de julho, para ultrapassar as dificuldades de um agosto que se aproxima, para vencer as tormentas que nos alcançam no  inverno, o melhor que se tem é visitar os abismos do sono, reencontrar-se em lugares antigos, reviver gostos, gestos e os sons arraigados - frequentemente emudecidos - e perdoar-se sempre.  Dormir é viver em tempo inverso,  encontrar-se para dentro; acordar é vontade de futuro e desejo de encontros fora de si. O sonho do qual gosto mais é aquele que ainda não tive; por ele é que desperto depois de cada sono comprido. E numa noite de sono tranquilo, o inverno da alma se aqueceu.




quarta-feira, 8 de julho de 2015

Rota de encontro

   Andando pelas ruas vazias do domingo gelado, desertas de gente, da afobação do trânsito habitual, da impaciência das horas. Esquece o motivo da fuga, o dia da semana, os anos passados. De repente perdida, de repente andando como se não tivesse um caminho, casa, hora. De repente oito anos, espalhando com os pés as pedrinhas soltas do asfalto, tem os braços frouxos, largados pelo quadril, músculos elásticos que se movem e fazem-na se abanar, não de calor, porque faz muito frio, mas de alegria repentina, de felicidade de infância. Não carrega blusa, bolsa, carteira, identidade não tem,  cartões tampouco, é só um corpo solitário, livre de trajetória, desatado dos dias, agitando-se pelas ruas vazias de outros. Era assim também quando saía para buscar pão, para o café da tarde na rua de baixo. O caminho era feito sob uma eternidade de horas, descer a própria rua era uma sucessão de outras viagens; ao compromisso do pão na mesa às cinco da tarde, ausentou-se dezenas de vezes.

  Reencontrada a infância de pernas e braços sem limites, de um tempo que não é demarcado pelo relógio, do esquecimento daquilo que requisitará resolução, leva as mãos nas grades do muro baixo da casa da esquina, mas não consegue tocá-los, tenta mais uma vez e depois outra, dobra os joelhos e, antes dos dedos sentirem a friagem dos ferros, o entendimento, o desamparo de não ter oito anos, nem buscar pão para o café da tarde. A mãe não estará na esquina irritada pela demora, nem terá que devolver troco algum. Os cento e oitenta centímetros que a afastam do chão lembram-na, para sempre, de que é grande e de que não pode estar perdida.

  E no desconsolo de ser grande sentiu frio, olhou para o outro lado da rua e viu um homem, achou-o suspeito e teve medo, ele passou sem nem olhar para ela, lembrou da previsão do tempo e o céu cinza e achou que a chuva não demorava a cair, está longe de casa, sem pão ou dinheiro, sozinha e vai chover. Crescer é, de repente, ter medo, ser limitada pelos receios. A volta agora é urgente.

  Terminado o caminho, há uma comunicação que precisa ser feita,  algo que precisa chegar a um outro alguém, mas não se sabe como. Porque as palavras confundem, o silêncio perturba, os sinais passam desapercebidos, o subentendido ofende. Há coisas aqui que ninguém mais vê, precisamos, então, traduzir para uma linguagem  que o outro reconheça, como fazem com a linguagem de videntes para o braile, possibilitar o acesso. Mesmo sabendo que nenhuma tradução conseguirá reproduzir a essência mais profunda de uma obra escrita, nem quem lê a obra original consegue captar o que o autor desejaria, nem o próprio autor consegue ler nas suas palavras o que sentiu quando escreveu. E, nesse infindável círculo de linguagem perdemos todos, mas o esforço da comunicação ainda assim deve ser feito. É um fardo isso, sei. Mas é o que é.

  Não há mais grades da sua altura; crescer é constatação também. Além de medo e  enfrentamento: -Hoje é preciso uma tradução, hoje alguém vai me ler e eu quero ser acessível.

  Na volta, não há espera materna, mas chuva forte caída sobre os ombros. Não trouxe consigo joelhos feridos pelas quedas na corrida, nem calça rasgada pelos escorregadores de madeira descuidada, nem restos de flores roubadas na praça ou jardins de vizinhos, nem desculpas inventadas pelo atraso  ou sorriso desdentado e brilhante. Desencontrou-se com a infância e veio adulta para casa. Não há café da tarde a sua espera, mas um compromisso do qual não pode fugir; para a verdade não há rota de fuga. A grade do muro da casa da esquina lembrou-lhe de seu esquecimento premeditado. "Crescer dói", o médico da família advertia, "os ossos sofrem com o impacto do desenvolvimento", é preciso doer, não alcançar as grades e se sentir desconsolado para, finalmente, encontrar-se consigo e o seu compromisso. É preciso dizer, ao menos é preciso tentar dizer.





segunda-feira, 29 de junho de 2015

Sobre um tempo que não sei

   Saio de casa mais tarde do que gostaria, conto os minutos no relógio de pulso emprestado, como se lutar contra eles salvasse-me a vida. Para cada quilômetro uma meta a ser batida: hoje só quero ir mais rápido do que ontem. Esqueço o frio, mal ouço a música, coleciono semáforos vermelhos e só dialogo com as setas dos automóveis,  a pedrinha no tênis fura a meia, fere o pé, mas só vou perceber quando já estiver no chuveiro. Eu não tenho medo, não tenho medida, passo mais rápido do que qualquer ponteiro, durante cinquenta e sete minutos, eu engano o tempo. Os segundos são mais lentos que os meus passos, eles até tentam, mas não me acompanham.

  Na chegada para o derradeiro quilômetro, uma frase no para-choques de um caminhão me desestabiliza, leio: "O passado não passou". Minha visão tem me enganado um pouco, especialmente se a distância é longa e a caligrafia do artista é muito desenhada. Não tenho certeza do que está escrito, mas estou segura do que eu leio. O passado não passou...o passado...

  Muito pouco do que vivemos está mesmo inscrito neste tempo de agora. Cada passo sentenciado hoje foi-me dado ontem, não sou resultado de nenhum outro tempo se não do passado. O corpo tem memória, dizem. Há dois dias que voltei a correr e mesmo que eu me canse muito e queira desistir são os meus pés que me levam mais a frente, são eles que me lembram do caminho e ritmo, cativa, só obedeço. Não me perco, mesmo que quisesse, o corpo comanda: direita, corra mais um pouco, agora é descida, segure o ritmo, desça a calçada, espere o sinal, siga em frente, mais forte, inspire, solte o ar. Não sou eu quem falo é a outra que aprendeu o caminho e, experiente, é quem me guia agora. Mesmo que escolhesse ignorá-la sua voz não calaria, ela diria: levante-se e eu continuaria deitada, mas só a escolha em não obedecê-la é que seria minha. O passado não passou. É ele quem insiste com os meus pés.

  A vida é esse constante exercício de lembrar e tentar esquecer. Na memória frequentemente requisitada buscamos no passado o que não somos capazes de compreender enquanto acontece: - Mas o que eu disse mesmo naquele dia? Que palavras usei? Como começamos? Qual o lugar em que nos perdemos? Não sei, acabou. Não interessa mais.
  E nesses dois passos para trás e um para frente, vamos seguindo submissos a um tempo que só é passível de entendimento quando não podemos mais voltar atrás. Mas é a partir dele que os nossos passos aprendem os caminhos. Não mudamos o que passou, mas  mudamos, a partir do que se passou, se não rejeitarmos a  voz que vem de um outro tempo.

  Chego em casa, alongo os músculos, quase  automaticamente, lembrança dos tempos de balé, pego a toalha no varal e cheiro longamente suas tramas, sempre cheirei as roupas, toalhas, fronhas e lençóis, meu olfato é mais antigo do que eu,  antes do banho me olho no espelho e tenho mais de trinta anos, sorrio com a constatação e volto a ter três. Do passado não desgrudamos nunca, no para-choques do caminhão a vida de todos nós está impressa: o passado não passou. Passamos nós, mas a voz de outros tempos não nos abandona. A noite está estrelada, antes de fechar as cortinas, olho para a luz que já não existe, mas que brilha sobre as minhas janelas.

  A memória é a única tragédia que pode nos salvar de nós mesmos. Na fotografia da estante, lado a lado, uma menina de vestido azul, com o dedo na boca e uma jovem de cabelo chanel, vestida de beca são as únicas que conhecem os caminhos tortuosos ou venturosos que os meus pés já pisaram, no sorriso delas, compreendo: vai ficar tudo bem. Sobre um tempo que não sei, aprendo cada dia um pouco mais e mesmo quando acho que desconheço a voz de outro tempo sussurra para me ensinar, então deixo que ela fale.    



domingo, 31 de maio de 2015

O abraço era a ponte

   Lembrei da história hoje à tardinha, enquanto assistia pela janela do apartamento à  jovem avó da minha rua, passeando com sua neta. Empurrava um carrinho colorido, tão terna, calma, segura, tão entregue ao seu  papel mais recente de avó, sorrindo ao mundo, facilitando a passagem da pequena pela rua irregular, sorridente à vida, solícita as novas existências, cumprimentando desafetos diários e esquecendo-se das inquietações cotidianas. Imagino que quem a viu tão transformada, sentiu vontade de alegria semelhante ou, ainda, sentiu a mesma alegria só por assistir a cena. Tocada pelo instante pensei na relação que já têm e possivelmente não sabem, especialmente a menina risonha de pouco cabelo que aceita o colo de qualquer desconhecido. 
 
    Minha avó quando ficou doente se esqueceu do mundo, não sabia nada de ninguém, não havia meios de fazer-lhe lembrar-se de passado algum. Repetíamos nossos nomes, grau de parentesco ou histórias que ela mesma um dia contou, mas quase qualquer informação escapava-lhe, ela tinha as próprias recordações, em nenhuma delas eu estava. Do dia que sofrera o AVC até o dia que voltou para casa, ela não sabia mais de mim; nem de ninguém; esqueceu dela mesma. Falavam que o AVC deixara-lhe com sequelas, mas só hoje sabemos do seu mal. Minha avó muito ativa, quase incansável, acostumada aos serviços diários mais extenuantes, em poucas semanas, perdeu os movimentos das pernas, de uma das mãos, a capacidade de andar e as lembranças dos seus últimos cinquenta anos. Vê-la tão frágil partia o coração da família inteira, mas imagino que perder-se, mesmo sem estar aparentemente consciente do esquecimento, era muito mais duro para ela mesma.

  Depois do esquecimento, minha avó perdeu suas características mais marcantes, antes calada, discreta e muito doce, passou a usar palavras que nunca ninguém ouviu dela e tornou-se agressiva quase; antes calorenta, deu para a sentir muito frio, vivia agasalhada, pela primeira vez na vida aceitava as calças compridas - minha avó usou vestido durante toda a vida que teve o comando - meias de lã muito grossas, chinelos de pano horríveis e uma confusão de mantas colocadas sobre as pernas atrofiadas pelo descanso obrigatório.

  Mesmo que não soubesse quem eu era, eu jamais desistia de me apresentar, explicar-me a ela e, principalmente, reconquistar o seu afeto; nunca desisti de tentar fazê-la lembrar-se do nosso laço, pelo contrário, me empenhei ao máximo para isso. Ela reclamava muito de um frio que parecia inerente à ela, no seu desamparo de quem não sabe quem é, minha avó era só frio e solidão, mesmo sob a abundância de cobertores e gentes a todo tempo ao seu lado. O frio de minha avó era mais perene que a sua memória. Vez ou outra, ela lembrava do fogão de lenha há muito destruído, pedia que a levassem até o calor que a sua barriga acostumou a sentir. Mas não tinha mais fogão. Tudo o que ela desejava não existia mais e o que havia sobrevivido ao tempo, sua doença a fez ignorar.

  Nas suas crises de frio intenso, eu chegava até a ela, enroscava bem os meus braços no seus ombros e pescoço  e perguntava: - Vó, assim esquenta? Ela procurava os meus olhos e, ainda sufocada pelo meu excesso sorria, dizendo: - Melhor que fogão de lenha. Eu jamais pude aquecê-la o quanto precisava, mas nunca deixei de tentar. Ela jamais pediu que a estranha a soltasse; minha avó não me reconhecia, como eu gostaria, mas ela sempre compreendeu a linguagem do  meu abraço. Só depois de muito tempo eu entendi que no abraço, a memória da avó voltava. O frio era o esquecimento, o afeto sua lembrança.

  Despeço-me da avó recente, fecho a janela para a rua e desejo que, a dupla que assisto,  tenha muito tempo para se lembrar e, quem sabe, se esquecer, se inevitável for, mas que tenha sempre algum lugar para guardar cada memória. Fez frio hoje e a avó não recebe mais o meu abraço, mas lembro-me de cada um deles e me sinto confortada. Eu dava abraço e, mesmo que não soubesse, a avó finalmente me reconhecia.



sábado, 2 de maio de 2015

Os dias bonitos sem sol

  No décimo primeiro andar sou a terceira a chegar, as outras duas mulheres, que acabam de se conhecer, me olham, uma delas sorri, mas continuam o assunto. A menos receptiva parece desabafar sobre algum problema, enquanto a mais solícita e sorridente a ouve calmamente e me fita. As relações de amizade, antigas ou recentes, duradouras ou efêmeras quase sempre se sustentam muito assim, da necessidade de um e da disponibilidade de um outro. Arriscado é quando os papéis nunca se invertem e o necessitado nunca muda de lugar. 

  Em quase duas horas de conversa, ambas se mantiveram na mesma postura da minha chegada: a emissora aflita e a receptora serena. Falavam de filhos, vez ou outra a ouvinte também conseguia expressar sua opinião. Compreendi, entre as várias histórias seguidas e conectadas,  que a filha da mulher falante faria uma viagem de intercâmbio e ela era contra. "Muito nova, mulher, frágil, imatura, cabeça de vento", era como ela justificava o seu temor. Para dois segundos depois, falar do quanto a conquista da garota a orgulhava: "Filha de pobre, esforçada como ninguém e inteligente, muito inteligente e sensível, a melhor...". Só nesse instante, passei a gostar da mulher que falava tanto, porque vi medo e amor entrelaçados; era materno e justificável, ainda que muito injusto com escolhas que ela jamais poderá ser responsável.

  E acho que este foi o instante da outra mulher também gostar mais da sua interlocutora e desejar salvá-la de uma ilha de sentimentos que ela parecia conhecer. As relações de amizade se fortalecem nas identificações, quando percebemos que o outro fala uma língua se não igual, ao menos muito parecida com a nossa e, também, nas projeções, quando pensamos ser possível salvar o outro de uma estupidez que já cometemos.

  A mulher de ouvidos tão disponíveis tinha um nó na garganta e eu o senti aqui, depois das primeiras frases dela. Olhando para teto, de uma sala sem janelas, como se apreciasse um céu de verdade,  num suspiro comprido, que eu reconhecia de outros lugares e noutras pessoas, seus olhos se encheram de alguma lembrança que jamais poderemos alcançar. Ela falou sobre o filho do meio, que desde pequeno queria ser astronauta, que achava engraçado, bem bonitinho, um menino muito sonhador, mas que mesmo crescido continuava muito "aluado", que tinha muito medo também que os filhos se afastassem dela. Mas que, agora, todas as noites, sonhava muito que filho era um astronauta. - Ao menos saberia o lugar em que ele estava.

  No décimo primeiro andar uma mulher é, finalmente, calada pela dor maior que a sua; no décimo primeiro andar duas desconhecidas me ensinam algumas perspectivas em que o amor pode ser visto.

  Uma olha para o céu imaginário e pensa se ele, de repente, não está na lua. A outra olha para o celular, vê uma mensagem da filha e acho que responde. Sonho que ela a mandará para a lua ou qualquer outro lugar que a filha escolher.

 As asas dos outros, são o que de mais preciosos eles têm. A mulher que vê beleza em um dia sem sol confecciona as asas de um filho perdido, daria o filho dela de volta se pudesse, seria sua filha se isso diminuísse sua dor. 

  O amor tem medo, mas  liberta, a lua é um caminho bem próximo, às vezes. Os dias são bonitos mesmo sem sol e o céu é possível no décimo primeiro andar numa sala sem janelas. Já as asas dos outros, devemos, mesmo que doa, deixar que os ares tomem conta delas.