quarta-feira, 17 de abril de 2013

O drama dos outros

  Ela é transparente, no melhor sentido, não dessas pessoas que se orgulham das inúteis grosserias distribuídas, em falsos embrulhos de sinceridade. Nem daquelas outras, ainda tolas e imaturas, que têm a necessidade de compartilhar com o mundo, até mesmo com quem não possuem a menor intimidade, o sentimento de cada segundo. A transparência dela é sutil, dessas da ordem dos sentimentos mais profundos. Bastaram duas ou três frases um pouco mais melancólicas nas redes e suspeitei de certa tristeza. Nas primeiras duas frases, optei por ser omissa; é o que temos feito tantas vezes com a desculpa de "dar espaço", não ser invasiva. Até pode ser uma valiosa regra social quando o triste não é  íntimo, mas entre eu e ela não há mais necessidade das tais regras, já estamos em um outro nível. Ultrapassei o limite da boa educação e segui mais adiante no terreno já conhecido da amizade; perguntei e ela respondeu exata, sem rodeios, como só os transparentes fazem. Havia sim uma tristeza.

  Revelou-me pouco, porque a comunicação era virtual e já tínhamos encontro marcado, mas alertou: é coisa boba, que magoou, porque sou dramática, você vai rir quando eu contar.

  Meio da semana, éramos de novo três. O trio do intervalo do colégio, mais de uma década depois e tantos sentimentos permanecem intactos. O  vinho sem taça, a filhinha simpática, o medo do cachorro, a intimidade naturalmente restabelecida. Há relações que crescem como vegetação silvestre, sem necessidade de cuidados  intensivos, só a natureza como adubo. É fácil, é confortável, é tranquilo, basta estar lá, que acontece. Depois do jantar, dividimos revelações como sobremesa, meu paladar guloso ainda saboreia um doce, as outras satisfazem-se de sorrisos. Chega a vez do drama dela, daquele bobo que me faria rir.

  Sua mágoa, embora ainda não superada, já havia se arrefecido. O tempo dá a distância necessária, para sermos mais racionais com relação a determinados fatos. A coisa toda havia se passado em uma mesa de bar, não havia durado sequer um minuto. Desatenção, descuido, uma pequena confusão com as palavras e o drama dela nascia. O amado, em uma conversa descontraída, havia sugerido que a beleza dela era algo mediano. Ofendida ela ainda requisitou explicações; pressionado ele atrapalhou-se mais. Para a infelicidade, de ambos, a comunicação mal sucedida, fez de um simples embaraço, um motivo de melancolia.

  Contou-nos o fato e sorrimos sim, mas como fazem os bons amigos, que quando não são capazes de curar uma dor, compartilham-na, também nos ofendemos e demos toda razão ao seu drama. Porque qualquer drama, seja ele de que natureza, dimensão ou duração é passível de sofrimento e choro. Ás vezes, o que mais precisamos quando nos magoamos é de alguém que valide as nossas lágrimas e não que diga que é bobagem, exagero e que vai passar. Oferecer um ombro para chorar, frequentemente, é mais eficiente do que um lenço de papel estendido ou a tentativa de racionalizar uma mágoa.

  Acho que a questão se resolveu, acho que ambos se entenderam. Seja como for, espero que saiba querida, o que ele quis dizer, mas não obteve sucesso é que a sua beleza é daquelas profundas e delicadas. Não agride, não ofende, não causa atropelamentos, é beleza de luminária chinesa, não de holofotes, ilumina aos poucos, sem cegar. Beleza genuína, sem enganos, sem máscara ou maquiagem. Seu amado te acha linda e não soube dizer. Perdoe o desacerto dele, o talento com as palavras sempre foi mais seu. E caso novos dramas apareçam não os substime, não se sinta boba, sofra o necessário e volte a sorrir como você sempre faz.




8 comentários:

Ana disse...

O tempo atenua tudo e ajuda as ver as coisas com o discernimento necessário:)

Zi Figueiredo disse...

"Às vezes, o que mais precisamos quando nos magoamos é de alguém que valide as nossas lágrimas e não que diga que é bobagem, exagero e que vai passar."

Perfeito =)

Sua sensibilidade é de uma leveza contagiante ^^

Beijos!

Amanda M. disse...

Êêê Zi...obrigada pelo elogio...você sempre tão simpática! Beijos

Amanda M. disse...

E não é?

Ricardo Henrique disse...

Amanda, descobri por acaso este blog, gostei bastante da forma como escreve... texto cheio de pequenas ilustrações e nuances que dão um ar poético e pessoal (aparentemente) à narrativa, mas sem perder a objetividade do tema proposto. É dessa forma que tento fazer no meu blog, as vezes consigo, as vezes não. rs. Voltarei mais vezes aqui.

Amanda M. disse...

Que bom que achou, que ótimo que gostou, Ricardo Henrique!Retribuirei a visita...rs

Kellen disse...

Estamos em 2017 e ainda me emociono sempre que leio.

Amanda Machado disse...

<3