quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Feliz daquele que sonhou

  No ensino médio tive um professor de biologia que eu adorava, a matéria já era há muito uma das minhas favoritas, mas a dinâmica que ele imprimia à disciplina, fazia-a quase mágica. Anos depois, sem nunca mais ter estudado biologia eu ainda me lembro dele, quando leio alguma matéria na área de saúde. Ele célula, ele sistema imunológico, ele músculos, ossos ou tecido epitelial, suas vozes múltiplas, suas expressões faciais que representavam cada ponto da matéria. No final do curso, em uma despedida nada melancólica, ele nos fala sobre vocação e escolhas profissionais, temas que à época inquietavam uma turma a poucos passos da universidade e, especialmente, a mim que suspeitava caminhar para um escolha equivocada. Ele começara seu depoimento com a confissão de um sonho irrealizado: - Queria ser ator. Mas a vida me levou para um outro lado e eu recebi grato a profissão que hoje me realiza.

  Antes disto, quando tinha nove anos, fui colega de turma de uma menina que andava quase o tempo todo em meia ponta de balé, pelas dependências do colégio. Fazia plié, passé, tendu ou seja lá o que fossem, porque nunca frequentei sequer uma aula de balé, mas à época, ela parecia-me uma profissional. Mantinha uma postura perfeita a aula inteira, tinha gestos finíssimos e delicados e o coque no cabelo era digno de uma Ana Botafogo. A coreografia que ela desenvolvia a cada ida à lata de lixo, era um espetáculo à parte, a sala inteira silenciava, a professora contemplava e por muito pouco não a aplaudíamos. Um dia, no recreio, quando conversamos pela primeira vez, ela contou-me que o seu sonho era ser bailarina, mas assim como eu, ela jamais pisara numa escola de balé. Filha de uma lavadeira, criada sem a presença e o auxílio paterno, aluna de uma escola pública na periferia, com poucos recursos materiais, assim era a vida da bailarina sonhada. Passei a admirar ainda mais cada passo dela, cada coreografia improvisada. No final do ano, as turmas faziam uma apresentação para a escola toda, a professora nos deixou escolher a temática e o tipo de arte que preferíamos. Insisti em dança, convenci boa parte da sala e vencemos, depois sugeri uma música: "Bailarina" do Chico Buarque a a professora adorou. Ninguém desconfiava mais a ideia tinha sido detalhadamente premeditada. A nossa bailarina da lata de lixo, dançou esplendorosamente e para um público bem maior no final daquele ano. E ela chorou, quando foi aplaudida. Eu nunca mais a vi ou contei o caso para alguém, mas jamais me esqueci da beleza de se ter um sonho realizado; ainda que por cinco minutos, ela foi bailarina sim.

  Acho que nunca nos afastamos, de fato, dos nossos sonhos mais remotos. O  professor-ator, que por mais distante que acreditasse estar do seu sonho, fazia de cada aula uma atuação brilhante e a bailarina que nunca precisou de técnica alguma para nos fazer acreditar no seu sonho, são dois personagens que lembro sempre quando quase me deixo corromper pelo cinismo que a realidade atual tem tratado cada sonho infantil.

 Cada pessoa é um construção infinita de sonhos e esperanças. Projetos que escondemos atrás da porta, porque em um dado momento nos envergonharam, nos decepcionaram, pareceram tolos demais, ilusões demasiadas, mas que vez ou outra, nos surpreendem, nos reencontram. Melhor do que ter um sonho ou a realização dele é quando um sonho nosso nos encontra e nos chama a vivê-lo, mesmo que por cinco minutos.



2 comentários:

Ana disse...

Há pessoas fantásticas, que passam na nossa vida e nos marcam, mesmo que nunca mais as vejamos. Passados anos lembramo-nos delas, do privilégio que tivémos em ter partilhado momentos com essa pessoa. Pessoas que são feitas de sonhos e que nos inspiram:)

Amanda M. disse...

Sim. Ver que os sonhos podem não morrer dentro de uma pessoa é muito inspirador!