sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Cessar-fogo...

  Porque mesmo em tempos de guerra é preciso algum respiro. Uma trégua, que seja, para nos lembrarmos, ao menos, como começou tudo: quando as relações passaram de cordiais para a infértil intolerância, quem é o meu inimigo ou o porquê da guerra. Às vezes, perde-se a medida da força, o alvo do golpe, o tempo da abordagem, porque não assentamos as ideias, não deixamos que a poeira se dissipe. E cegos, atiramos para todos os lados, correndo o risco de acertarmos nossa própria tropa.

  Eu ando cansada do barulho dos tiros, dos corpos sem vida, do sangue presente em cada canto, em cada rosto sem expressão. Ando cansada do medo das minas, da potência destruidora das armas, da súplica das mães, do choro dos inocentes. Ando cansada de andar cansada, buscando pouso, segundos de sono e horas de caça ao inimigo. "- Mas quem, afinal, é ele?"

  Cansei, entrego os pontos, abandono a guerra, porque não nasci para armas ou ódio. Sou, como na música da minha adolescência "o exército de um homem só", completamente só, mas muito bem acompanhada. Acabam as estratégias, as táticas de guerra, os planos para a emboscada. Essa noite, eu sonhei com  tempos de paz e acordei serena. Vitoriosa, estendi a bandeira branca. Quem desiste nem sempre perde. Abandonei os inimigos, perdoei cada golpe recebido ou dado e resolvi não empunhar nem arma, nem ódio, nem gritos de ordem.

  Fiquei mais tempo na cama, atrasei o trabalho, adiei a entrega da produção e a chegada do meu pagamento; comi carboidratos à vontade, bolo de laranja e café; assisti um desenho antigo na TV e gargalhei feito criança (E matei as saudades de mim!), peguei o telefone e liguei para alguém com quem há muito não falava, há muito não falo com mais ninguém, eu acho; ouvi cinco CD's inteiros, não pulei nenhuma faixa e fiz um dueto com Maria Bethânia, lindíssimas nós, Maria, se você nos ouvisse...E, depois ainda dancei com Caetano e Martin'ália; chorei com Chico e senti a força de Nina Simoni. Depois do banho, não alisei o cabelo, deixei-o livre, rebelde, insano, as ondas bailando, ocupando os ombros e costas. Repassei a vida em cinco minutos e não caiu nenhuma lágrima; alimentei-me de comida caseira e afeto. Não só desejei um "bom dia" para os vizinhos, como gritei o desejo a quem quisesse ouvir. Eu hoje não pensei em daqui a dez anos ou dez meses ou dez dias, pensei no tempo de agora, nesses milésimos de um segundo que eu vivo, sem sentir a bala atravessando a pele, os ossos e o órgão vital. Não calculei as perdas, nem me orgulhei das conquistas, porque depois de passadas, ambas parecem ter um mesmo gosto. Não avancei nem retrocedi, só estendi o corpo relaxado sobre o sofá do apartamento. Já não quero os desertos, as torres intransponíveis ou mata selvagem, quero só esse subúrbio interiorano e quase pacífico que tenho agora.

  Eu acordei e proclamei a paz e que ninguém duvide que por ela eu volto a qualquer guerra, não hoje, porque hoje, eu sou a própria bandeira branca dançando graciosa nas mãos de algum desesperançoso soldado. Eu hoje fiz o meu exercício de cessar-fogo... hoje não vou à luta, meu exército está dispensado por tempo indeterminado.






4 comentários:

Ana disse...

e como é bom matar-mos as saudades de nós, às vezes perdemo-nos... os teus posts deixam-me sempre, sempre a pensar:)

Amanda M. disse...

Sim, bom é nos reencontrarmos sempre...

Débora Rapacci disse...

Amanda M. disse...

;)