Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Quando não for mais maio


   Quando não for mais medo. Quando não for mais noite. Quando não for mais frio, nem longe, nem impossível. Quando o orgulho não for mais meu, quando você não for mais ocupado. Quando não forem mais os voos atrasados ou a chuva que nos pega de surpresa e deixa o caminho pela metade, atrás de abrigo. Quando não for mais a doença dos pais, o cansaço do trabalho. Quando não for mais: depois que terminar o curso, que conseguir o aumento, mais trabalhos ou quando for promovido.

  Quando não tiver mais horário de verão no Uruguai, quando não for mais tão longe ir ao Japão. Quando não for mais o inglês a língua oficial. Quando o golpe falir, quando me pedir desculpas, porque mesmo já perdoado, espero o pedido. Quando o chuveiro esquentar, quando o bombeiro consertar o vazamento da pia. Quando não formos mais touro com ascendente em câncer e leão com ascendente em áries. Quando os olhos do meu gato não lembrarem mais os seus, quando o cheiro da sua casa não for mais o do meu xampu. Quando não for mais ruim levantar cedo, quando não for mais impossível fazer parar a saudade. Quando a minha linha de metrô for a mesma que a sua, quando as nossas correspondências descansarem juntas na mesma caixa de correio.

   Quando eu não errar mais no doce do café, quando o amargo do chocolate agradar a nós dois. Quando eu não ficar com olhos parados como os da minha avó e você perguntar se estou triste e eu responder que preciso descansar das muitas visões. Quando não tocar mais a música que você disse que queria ter escrito e antes de você dizer, eu sussurrar: - Essa é a música que você queria ter feito. Quando os ladrões não roubarem mais do que a atenção, o afeto, o beijo. Quando não falar a verdade parecer mais elegante e delicado do que ser sincero com cuidado.

  Quando o meu time não for mais para a segunda divisão, quando você não for mais centroavante do time das quartas-feiras; quando eu não souber mais onde você está às quartas-feiras. Quando eu não sair mais atrasada, quando Nova York ficar depois da Avenida Rio Branco; quando Virginia se levantar do Rio Ouse e dizer que foi um engano, quando Leonard segurar de novo a sua mão. Quando os peixes que matamos sem querer se esquecerem da morte, quando não for mais tão caro viver.

  Quando não for mais pressa, terapia uma vez por semana sem faltar e o homem que monta os móveis aos sábados e você não pode sair. Quando, finalmente, aprender o lugar das xícaras, não misturar garfos, colheres e facas em um mesmo lado da gaveta, quando a gente tiver um nome para o filho. Quando não for mais táxi de madrugada, depois da briga. Quando não for mais longe a minha casa ou a sua.

  Quando não for mais preciso anestesia no dente, quando o corte no pé, pelo copo quebrado, não sangrar mais. Quando os orgânicos não forem mais caros, quando dezembro não for mais melancólico, quando as promessas não precisarem mais de assinaturas ou palavras. Quando não for mais preciso o cartório, o papel. Quando não for mais desconfiança, nem necessidade de muita certeza. 

   Se não fosse mais medo, cedo ou tarde demais. Se a gente se esquecesse, de repente, das resoluções distantes. Se a gente adiantasse todos os atrasos e atrasasse as incertezas. Depois de maio, se quando não fosse mais maio, a gente resolvesse que não precisa resolver mais nada antes ou depois de qualquer coisa e que em tudo daremos o jeito, aquele que ainda vamos descobrir. Aí então, maio nunca mais seria só promessa. Quando não for mais maio, quem sabe? Quem?






segunda-feira, 21 de março de 2016

Peixes com ascendente em miopia 2.0

  Nasceu e é lindo. Amo-o loucamente antes de qualquer sinalização de correspondência. Não me importa se sorrirá para mim, se quando eu passar estenderá os bracinhos ou me rejeitará. Amo-o com a facilidade que o amor deveria sempre andar: amo distraída, bem intencionada, não esperando nada além do meu amor em si. Amo-o como uma louca solitária destinada a um precipício, sem volta, sem medo, sem racionalização; ninguém para me salvar. Amo com o corpo abandonado ao vento, sem pensar em queda, num voo de um segundo, antes do chão, mas gozando da eternidade enquanto estou entregue ao ar.

  Nasceu míope, o médico contou, vai ser um bebê de óculos e eu o amarei ainda mais por essa extravagância.  Amo-o sem volta, sem direito a troco, amo-o desde o cheiro de desinfetante do hospital, da pomada para assadura, do leite que a sua expiração exala, até o cheiro fresco da sua cabeça molhada, depois do banho. Amo esses olhos ora preguiçosos, ora atentos a um mundo para sempre ininteligível. Amo seu elefante verde pendurado na porta, seu cachorro amarelo no chaveiro da bolsa, a sua camiseta, dizendo que me ama, mesmo que seja presente meu e que eu nunca me assegure desse amor. Nem quero. O amor é meu e já basta.

 Vem meu amor,  seja tudo aquilo que você quiser, fizer ou rejeitar ser e fazer, vem para o meu amor que nunca lhe pedirá nada, não lhe dará conselhos, nem apontará caminhos. Venha no colo da desajustada, da tia caçula da família, venha e deite no meu peito e deixe a sala toda em suspensão, pensando que eu não tenho jeito, não tenho talento e poderei deixá-lo cair ou apertar um braço, uma costela (- A cabeça, apoia a cabeça dele direito!). Porque amo não com um órgão do corpo, um lado do peito, mas amo-o inteira, da unha até a raiz do cabelo. Nunca um corpo esteve tão conectado em suas partes, só para este amor.

  E na sala de espera todos querendo saber o peso, os centímetros de altura, a cor dos olhos. - E se parece com quem? E eu contente do seu signo, você pisciano, meu pequeno sonhador, menino de sensibilidade. Eles querendo um rosto e eu feliz com a astrologia muito apropriada. E, então, seguirei agora pela vida assim: sabendo que existe, que minha alma gosta da sua e a gente vai ter um futuro bem largo. Um dia, vai me vestir com a sua calma infantil, seu desassossego adolescente, seu inconformismo jovem, sua maturidade calma, desassossegada e inconformada.

  Então, meu pequeno maior amor, não me ame, mas encontre um caminho de ser sempre e cada vez mais você: não carregue consigo nenhum cansaço do mundo, não deixe se abater pelo tédio, pela monotonia; seja companheiro incansável do absurdo, não tenha consideração com os que quiserem te afastar dele. Leia poesia, se embriague de vez em quando, não faça exercícios em frente a um espelho, por favor não vá a academias, ande de bicicleta, corra na rua, jogue bola no campo, mas não naqueles de grama sintética. Caia, se machuque, quebre um braço ou os dois, também pode ser o mesmo duas vezes, enlouqueça seus pais, suas professoras, seus avôs, as outras tias, que eu mesma ficarei bem quieta, bem tranquila, sabendo que o machucado vai cicatrizar e o gesso é um charme do qual a infância precisa.

  E  ao se curar dessa miopia, que outras não cheguem nunca a sua alma. Que você olhe para uma mulher e a veja como igual, nunca a julgue pelo que ela veste ou pelas escolhas que ela faz, não a limite em crenças sobre certo e errado, não alimente suas vaidades, disputas de poder; que você entenda também a beleza da vida de um cachorro, um gato, uma mariposa, um cipreste ou um bezerro. Que além dos olhos, você tenha ouvidos para as vozes diferentes das suas, que você acolha-as, mesmo que não fale como elas. Que você não queira invadir os pensamentos de quem amar, mas que aprenda a chegar até eles com calma, sabedoria e gentileza e que, somente a convite do seu par, você se abrigue neles e possa ver como cada um se constrói. Que você  ame, mas não seja um desesperado esperando amor; que você se entregue aos sentimentos, porque é bom, porque nos faz sentir mais vivos, porque nos humaniza sempre mais, mas que você também não se renda se tiver que fazer concessões que o escondam de você mesmo.

 Faço um barco de papel e você ainda não entende o sentido, mas o vê, eu sei bem que o vê; canto uma música bem baixinho e você se acalma, fecha os olhos e dorme quente nos meus braços. Eu arrumo a cama para você, fecho as cortinas e juro que esperei por você a vida toda. Fecho a porta e os meus olhos não precisam mais de lentes, porque você me libertou.

  Meu menino de óculos, sua miopia me ensinará a enxergar o mundo outra vez. Venha com sua tia louca, desabrigada de juízo desde o dia em que você chegou. Não se cure da sua loucura que eu também não me curarei nunca desta minha: de amor que nem sei bem como te dar.



domingo, 6 de março de 2016

Sobre cercas vivas

  Uma parede verde delimita o prédio central, isola-o sem arames, nem tijolos ou concreto, também não há
nenhuma placa ou aviso, mas ninguém ultrapassa. Mesmo que abrir uma fresta não fosse difícil, mesmo que os arbustos nem estejam tão colados, ninguém testa. São centenas de pessoas que todos os dias contornam o prédio, sem nem tentar um caminho de desobediência, um atalho contestador que as façam chegar do outro lado, atravessando o limite vulnerável do verde. A presença da cerca viva é o bastante, ninguém se posta ao lado dela, ensinando que não pode, não deve, que ela é o limite; os corpos até se aproximam, passam bem rente aos arbustos, às vezes tocam as folhas, carregam um pedaço de natureza entre os dedos, mas  é tudo, não há um pé que cruze a linha definida pela vegetação.

  Da minha mesa vejo o muro verde e ele é mais poderoso que todos os outros de concreto espalhados ao redor. Não há restos de spray, nem tinta, nem nomes gravados, marcas de pés fugitivos, não há meninos escondendo o rosto e contando até cem para, depois, descobrir esconderijos; a cerca viva mais intransponível que as vigas de concreto. Mas há um homem.

  Há só um homem que vem ao final da tarde, estende a mangueira de borracha azul, saí atrás de dobras que ele pacientemente desfaz,  antes de  ligar a torneira e jogar a água na fronteira de folhas. A água é a única a irromper com a massa verde inatingível e tomá-la, escorrer por cada folha, até molhar, do outro lado, as paredes do prédio que ela protege. A cerca viva no meio da praça central, divide, mas não separa efetivamente. Cerca olhares, mas não é capaz de evitar uma invasão. É e não é. Não a cruzam, porque não querem, porque entendem e respeitam mais o limite simbólico que o concreto. Num jogo sutil de esconder e exibir o que tem depois dela, a cerca viva é soberana. Nada é mais eficiente que os arbustos frágeis de um limite imposto noutra esfera, que não o da impossibilidade. Atravessá-la é sempre possível, mas não o farão; só a água.

  O homem termina seu trabalho, desliga a torneira e recolhe a mangueira de borracha muito azul. Depois que ele vai embora, a cerca viva fica completamente desamparada de alguma intimidade. Mas, afinal, ela é a proteção; não há vulnerabilidade para quem abriga. Ela brilha verde de novo, um cachorro vem lamber as folhas baixas que ainda estão molhadas, mas nem ele ultrapassa, não é ele é o insurgente. Ainda vejo o cachorro, a cerca viva e alguns corpos que se aproximam dela, mas abandono-os e volto para o trabalho, aos poucos. Um relatório que não passa da terceira linha, um telefone que toca e ninguém atende e a água mineral que acaba de chegar.
- Alguém por favor assina aqui! O entregador impaciente chama.
- Deixa aqui, eu assino.

   Enquanto a assinatura vai aparecendo no papel, penso na parede verde do lado de fora, escrever também é sobre isso: a dúvida constante de saberem mais sobre você do que gostaria ou nunca saberem, de verdade.  A escrita é uma cerca viva, coloca-nos no mundo, sem saberem que fazemos parte do que há fora e dentro. É um eterno jogo de ocultar e exibir. Afastar invasores, sem força, nem matéria ou avisos. Seduzir olhos que não ultrapassam o limite, mesmo que ele seja bastante estreito. Fronteira repleta de vulnerabilidades, mas, ainda assim, intransponível.



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Não sou mais a da fotografia

  Já desaguei toda a mágoa, já enterrei as armas, só mantenho o que ainda me protege, do ataque não faço questão; me empenhei em secar o chão molhado de água e sal; implantei um governo na minha vida e tratei de depô-lo logo em seguida -  agora vivo a anarquia. Já invoquei os deuses, bradei meus mantras, dispensei testemunhas, cortei o cabelo e desatei os laços. Arranquei a fitinha do Senhor do Bonfim do punho, já não acredito em mágicas; fiz o café forte, ao meu gosto e só; consertei a maçaneta; troquei a resistência  do chuveiro e achei bem fácil, sem choques, desliguei a chave certa dessa vez. Rasguei o mapa astral, que encomendei pela internet e só consultei as previsões do clima para a semana, daqui, Madri e Budapeste, as duas últimas talvez eu conheça até o próximo sábado.

  Comecei um curso de mandarim e desisti do inglês, por hora. Visitei minha amiga da escola, a quem você não conheceu, ela teve uma filha há quase um ano e a menina me sorriu. Não tenho visto as mesmas pessoas, fiz novos amigos e tenho reencontrado antigos, acho que faz parte do afastamento me reconhecer em coisas e pessoas que não compartilhamos. 

  Passeei algumas vezes com o cachorro da vizinha e fingi, por um tempo, que eu era a sua dona, acho que já posso ter um outro depois que você levou o que eu fingia que era meu embora. Não sei precisar quando, mas há algum tempo eu larguei atrás da porta um coração vazio de esperança e cheio de raiva por não ter conseguido continuar. Então eu comecei a regar as plantas com mais frequência e elas voltaram a ganhar cor, assisti aos programas sem mudar tanto de canal, deixei de consultar o celular a cada minuto, de responder as mensagens na hora, de roer as unhas, de ter pressa nas filas e de querer atravessar antes do sinal abrir para mim e acho que cada uma das pequenas mudanças me deixaram menos cansada e ansiosa.

  Voltei a dormir mais de 6 horas por noite, de lembrar dos sonhos na manhã seguinte e ficar pensando neles, na cama, antes de me levantar. Tenho sonhado muito. E, principalmente, tenho podido ficar calada, gosto tanto quando não preciso falar. Não tenho olhado para porta esperando alguém chegar, sento no sofá em frente a ela e, na maioria das vezes, me imagino saindo. Mudar a perspectiva da ação, do agente e da direção me parece curativo. Não quero mais o peixes no aquário, vou ficar com estes últimos e, um dia, quando não tiver mais peixes, me desfaço dele. Claustrofóbico isto de manter peixes num quadrado, podia ter levado-os e deixado o cachorro. Última vez que falarei do cachorro, você sabe que esta foi a mágoa mais difícil de me desprender?

  Conheci alguém na semana passada e, ainda, não tive coragem de dizer que escrevo. Não quero que ele me conheça antes de eu conhecê-lo; acho que tenho estado mais cautelosa, medrosa, não sei. Ele não tem cachorros e já achei um bom sinal. Não falarei do cachorro, da porta, do chuveiro, dos peixes e espero mesmo que ele não leia isto. Não sei como evitar ainda, mas aprenderei.

  Sozinha fiz mais do que faríamos juntos, porque eu pensava e fazia, não esperei resposta, nem de palavra, nem de olhos. Fui sendo. E ser é tão completo, por que nunca ninguém me disse isso antes? Por que não avisaram de que eu gostaria tanto de ser, que essa era a melhor parte, mais do que o sono, os silêncios e a visão da minha saída pela porta. Da próxima vez não abrirei mão de ser, nem ficarei com raiva se alguém se ofender com essa minha insistência de existir e só.

  Sabe aquela foto nossa que você levou? Então, eu não sou mais a que sorri do seu lado direito, ainda sorrio, mas não mais do seu lado nem do mesmo jeito. As fotografias não dizem quem somos, elas falam de um tempo, de uma pessoa que muda na hora seguinte do instante congelado. Quando olhamos para uma foto, seja de que tempo for, a pessoa não é mais aquela, é só uma lembrança, uma memória de alguém que já passou. Um álbum de imagens é um relicário de mortos: de tempos, sentimentos, sorrisos e sonhos que já não estão mais ali.  O que eu queria dizer mesmo é que o cachorro sempre foi seu.



domingo, 21 de fevereiro de 2016

Não caber para existir

  Alargar as margens, desafiar os limites, esticar a linha e testar a sua resistência, saber até onde ela é capaz de alcançar. E, depois das insistentes investidas, descobrir o quanto ela ainda é capaz de permanecer, numa espécie de queda de braço improvável para saber quem sucumbirá primeiro. Uns apostam na linha, a maioria resignada, mas o braço resiste, ganha alguma força, porque não reconhece outro movimento, sabe que se sujeitar-se aos limites será irremediavelmente domesticado, liquidado na sua subjetividade; como viver assim? As horas passam, sente as cãibras, os músculos retesados, a ardência nas articulações, experimenta a miséria da solidão na luta, o abandono da paz, o permanente desassossego,  mas como não tentar? Como abrir mão da jornada e aceitar um lugar apequenado se depois da linha pode existir o seu lugar mais pleno?

  O lugar é quente, doce, definido, hospitaleiro, fácil de encontrar e se acostumar a ele. Bastava aprofundar raízes, mirar com gratidão o solo seguro e aprazível e permanecer, sem urgência, sem combates infindáveis, sem perguntas existenciais, só o incômodo com uma ou outra pomba circunstancial. Passagem discreta, sem suspeitas pelas águas claras e calmas de um rio antigo. Sem incomodar, sem deter a atenção para si, sem ter que cavar um lugar, sem a necessidade das mãos na terra. Era soltar os braços moles e respirar a brisa noturna, tomar banho morno e ter conversas sobre o tempo: - Viu como céu está carregado? Mas tá precisando mesmo chover.

  Mas, se para além desse chão macio os olhos sempre buscarem outras paragens, se o conforto do aquecido não for o bastante? Porque uma voz interior chama por um nome misterioso, porque as linhas, mesmo as mais fortes,  prendem um corpo, mas não podem conter o desejo da busca ou porque, num sonho, vislumbrou a possibilidade do encontro com mãos ainda desconhecidas; essas que dariam a volta pela cintura da moça, sem hesitação e a convidaria a ser raiz flutuante. Tiraria seus pés do piso estável, não ofereceria aquecedor elétrico, mas apontaria para a liberdade de correr atrás dos irritantes pombos.

  As fronteiras atrasam a partida, atrapalham os planos de saída, testam a paciência e o empenho dos braços que as desafiam. O tatame seguro convida para ficar, a experiência de um mestre promete que será uma questão de costume; "amor  também é aprendizado e insistência", ele diz. Mas não há  frio, dureza de solo,  vegetação fechada  e imprevisibilidade nas curvas que detenham aquilo que não quer ser contido. Os líquidos escaparão pelas  frestas, o vapor subirá e se camuflará de ar puro, o sólido se quebrará em pedaços e se sujeitará a ser pó algumas vezes, tudo para transgredir as linhas. O que quer que seja essa procura, esses olhos para sempre fincados no horizonte; ela é inevitável e genuína. Convida a querer bem mais.

  Não caber é um aviso das vozes de fora; transbordar é o jeito que a alma encontra para partir em busca da promessa, aquela atrás da linha. Ilimitada é a procura pelo extraordinário. O lugar quente nunca lhe dará aquilo que a perspectiva do horizonte pode oferecer. O braço não cede, ele até se abate um pouco, afrouxa as linhas, mas lembra do destino que deseja para si e se nutre dessa esperança. Não caber nunca é um jeito, ao mesmo tempo, doloroso e privilegiado de existir.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Esse jardim fui eu quem trouxe

  É um adulto, um jovem adulto em frente ao hotel, esperando um ônibus. É alto, postura ereta, cabelos castanhos cacheados e no alto da cabeça marrom, exibe uma  coroa. Dessas de papelão, brinde de um loja de sanduíches; um homem adulto fantasiado de nobreza numa quarta, às cinco da tarde. Primeiro penso que talvez estivesse com um grupo de amigos na lanchonete, colocou a coroa e se esqueceu de tirá-la, mas ele passa a mão nos cabelos, desprende um dos cachos da coroa e a ajeita melhor à cabeça; ele não só sabe que usa uma coroa de papelão, como faz questão de mantê-la firme, ajustada - a solitária dignidade de um rei.


  Entramos no mesmo ônibus, vamos em pé os dois; ele é mais alto e a coroa quase encosta no teto, ele a acomoda, cuida bem dela, tem apego ao seu símbolo. É claro que ele chama alguma atenção, mas os espectadores não são insistentes, olham-no e parecem  achá-lo bem natural, até. A coroa de papel pardo, fosco e instável dá a ele uma imponência improvável, uma coragem de assumir sua meninice de cachos brilhantes. É adulto, universitário e não dá a mínima para os possíveis olhares, essa segurança, certamente, é  o que faz com que pareça comum um adereço inusitado e também é o que nutre de um magnetismo muito peculiar sua figura. Vê-lo tão confortável no papel que ele criou para si, parece alimentar de esperanças cada desejo nosso ainda não assumido, parece dar coragem  para criarmos nossos próprios meios de vislumbrar um reino, onde caibamos com maior justeza.

  Abandono o rei, saio na chuva, e vou ter com a vida plebeia que me espera do outro lado de um estacionamento alagado. Mas a experiência do fantástico não me quer longe. Numa caixinha pequena, uma moça exibe um pequeno jardim. Ela coloca numa caixa os cheiros, a terra molhada, fofa, as pedras que parecem mais brancas sobre a terra escura, raízes, folhas no chão possível. Numa caixa pequena, as cores de Monet, a liberdade de sonho e bucolismo, num diminuto jardim projetado para dar espaço para sua felicidade repousar e dar frutos. Por alguns segundos eu estive no jardim do impressionista. 

  O que ambas as experiências me dizem, é que há sempre uma sede profunda por um lugar que mora dentro. Uma busca por uma parte onde nos reconheçamos, que devolva o que de mais essencial está perdido em nós ou nos apresente aquilo pelo que temos esperado tanto, entre noites sem sono e sonho sem cama. Usando coroas e alimentando jardins em caixas, às vezes parece que viver é mais uma invenção nossa. E certamente é, se tivermos condições de assumirmos nossas criações. A jardineira da caixa e o rei urbano são as expressões mais delicadas de que só quem pode nos salvar somos nós.

  Inspirada pelas criações alheias, eu acordei hoje com um jardim dentro de mim e uma coroa; ninguém há de me apontar na rua, porque não aparentam, mas se chegarem bem perto, talvez, vejam pétalas soltas voando,  sintam o cheiro do jasmim e reparem no brilho suntuoso no alto da minha cabeça. Selo o cavalo branco e acomodo as várias espécies de um jardim, bem aqui dentro. Por muito pouco nos salvamos todos os dias, entre caixas e papel barato, a vida é mesmo muito invenção nossa.





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Ninguém enxerga o topo da própria cabeça

  Quando meu irmão mais velho saiu de casa, minha mãe disse que não duraria uma semana, que ele não saberia viver sozinho, que ele não estava preparado para as dificuldades da vida. Depois, começou achar que no final do mês ele voltaria, ela prolongava os prazos e ele não pensava em regresso. Minha mãe não conhecia meu irmão como ela achava. Depois de anos, ela ainda apostava em uma volta. Minha mãe não só desconhecia o filho, como também ignorava a distância entre meu irmão e o portão da nossa casa.

  Quando meu irmão mais velho morreu, eu estava na escola, fazia uma prova de química e a diretora apareceu na porta, me chamou e me levou até a sala dela, onde minha tia chorava desesperada. Ela tinha os olhos inchados, as mãos tremiam e o seu rosto era quase uma massa disforme, de rímel escorrido, de óleo, lágrimas. Enquanto soluçava, ela tentava retomar o fôlego para me dar a notícia. E eu preocupada com duas questões que faltava serem feitas na prova. A tia levantou, veio na minha direção e só conseguiu sussurrar: - Um acidente. Um acidente com seu irmão.
Eu não esperei uma próxima frase, não quis olhar mais para minha tia. Pedi a diretora para voltar à sala, para terminar a prova. Ela franziu a testa, tentou um abraço, meio frio, meio desconcertado e disse que eu não precisava voltar para a prova.
- Mas faltam duas questões, eu só quero terminar.

  Minha tia continuou na sala, parada, em pé, perto da mesa da diretora, soluçando e eu voltei para a prova. Fiz as ligações de carbono e classifiquei-as. Meu irmão morto e eu paciente com os carbonos. Foi a única prova de química que eu fechei na vida. Nunca saberei se foi por merecimento ou indulgência da professora. Mas desconfio mais da segunda possibilidade, não estudei o resto do ano, embora nunca tenha faltado a nenhuma aula, e passei em todas as disciplinas.  A cada ligação de carbono eu pensava que não tinha mais irmão, que teria velório, que iria num enterro de alguém jovem, de que teriam pena de mim, de que a minha mãe nunca conheceu meu irmão de verdade, mas continuei com as cadeias de carbono, minha lapiseira correu tão rápido quanto cada pensamento meu. Nunca gostei de química, passava mal antes de todas as provas, mas pensar na morte de um irmão me anestesiava. Acho que numa dor muito intensa somos capazes de enfrentar medos menores. Foi assim a vida toda. Tinha medo de algo até me deparar com um desespero maior, então, voltava atrás, resolvia minha paúra anterior e tentava chegar mais perto da outra dor.

  Minha tia não me levou para casa, fomos direto para a capela funerária, quando vi minha mãe, entendi que jamais veria dor maior, ela não conheceria meu irmão. Minha mãe me abraçou disse que iria morrer, que não suportaria. Ela ainda não conhecia a sua própria capacidade de recuperação. Ela resistiu, mesmo que não quisesse, minha mãe não conseguiu nunca se entregar a essa perda. Acho que esse foi sempre seu desconhecimento maior; sua capacidade de ir além do padecer. Nenhum sofrimento nos mataria. Ficamos as duas e meu irmão nunca mais voltou.

 - Mãe, fiz a prova toda.
 Foi a única coisa que eu consegui dizer a ela por muitos dias.

  Dos rituais nunca esqueci, o caixão fechado, as orações, rostos que nunca tinha visto e que pareciam mais necessitados de consolo do que eu. Minha jaqueta de nylon que fazia um barulho insuportável a cada abraço, eram apertões de todos os tipos, com tapinhas nas costas que eu nunca entendi, me sentia um embrulho, um bombom enrolado no papel celofane, que ninguém deixava em paz. Minha mãe intercalava momentos entre choro e olhar parado numa parede de azulejos brancos, eu tentava circular, mas era impedida a todo instante por alguém que sempre chorava quando me via. Lembravam-se dele de uma forma muito diversa da minha - parecia menos humano, menos falível e por isso menos meu  - contavam histórias sobre alguém que eu não conhecia.

  Meu irmão nunca voltou, mas todos os dias falavam dele em casa, minha mãe se dedicava em cuidar da sua memória, tentava se lembrar dos gostos, criava novos, dizia:  - Seu irmão é que ia gostar desse filme, dessa música, desse prato. Seu irmão se casaria, teria três meninos. Ah...seu irmão formado.
No começo, me incomodava, mas depois passei a compreender que assim ela conseguia viver, assim ela permanecia num laço que só ela podia entender. Nunca interferi na sua relação com aquela ausência que era nossa.

  Quando falam da minha mãe sempre se lembram dela sensível, vulnerável e presa à figura do filho perdido, acho que ela mesma ajudava a desenhar essa imagem de si. Mas minha mãe foi, na verdade, fortaleza incansável. Mesmo que não admitisse, ela soube sim continuar.

  Guardei a prova de química por anos e sempre que algum sofrimento me ameaçava eu buscava a prova, olhava para os carbonos e sabia que continuaria. Todas as vezes em que meu peito se abriu, quando senti-me em carne viva exposta ao sol, quanto mais ardeu, eu soube que sempre haveria continuidade; não acabaria ali. A fragilidade diante de uma dor nos permite conhecer o ilimitado da força. É como tomar um café muito amargo e sentir o prazer do gosto, o que falta em açúcar, farta-se em essência; é o café percebe?

  Quando dizem - e falam muito em palestras, livros e toda a sorte de mercadorias de autoajuda -   que ninguém conhece a sua força até ser testado, eu me lembro da minha mãe e da prova de química que eu fui até o final. A verdade é que nunca conhecemos o outro mesmo, como minha mãe ao filho, como minhas tias a minha mãe, mas também nos desconhecemos muito até o momento do salto no penhasco. Ninguém enxerga o topo da própria cabeça e os outros também se contentam muito com o que os seus olhos dizem, como se só eles pudessem nos explicar. Os carbonos foram o desconhecimento menor da minha vida, o que nunca pude compreender foi a morte dele e a nossa vida que permaneceu, mesmo que o portão nunca voltasse a bater.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Não era desamor, era desejo de partida

  Ele poderia ter lido Neruda, sua voz grave, os erres marcados, os contornos sonoros macios, a sua
respiração calma, separando os versos, ritmando as mudanças de estrofes e, depois de um suspiro fundo, era o fim. Ela poderia ter dançando  no quarto, naquela manhã, depois de acordar melancólica escolheria uma música bonita,  passaria os dedos pelo criado mudo, saltaria da cama e ondulando os quadris, levantando os braços acolheria as batidas sonoras. Continuaria  mesmo quando a música terminasse, encenaria muda seu balé improvisado e numa pirueta final, seus olhos buscariam os dele e saberiam que acabavam ali. Poderiam ter recorrido ao tango, fizeram aquelas semanas de aulas há três anos, quando foram para Buenos Aires, talvez se recordassem dos passos, de alguns ganchos que a professora portenha tentou ensinar ou dos dias ensolarados em Palermo Viejo. E então, só depois, o abraço dolorido e o partir.

  Poderiam ter feito uma última viagem para casa da avó dela, comeriam os doces de compota, colheriam as jabuticabas, se fosse época ou mexericas, laranjas também não seria mal e depois de se despedirem da avó, prometendo nova visita, entrariam no carro, poriam numa rádio qualquer e ao pararem o carro antes da linha férrea, uma música começaria, ambos saberiam que as frutas estragariam na geladeira e a visita não aconteceria mais para um dos dois. Talvez consertassem a porta da varanda, adiada nos últimos meses, arrumariam o vazamento da pia e pintariam a cozinha, com o apartamento pronto, teriam uma conversa banal sobre o preço cobrado pelo encanador e se despediriam.

  Deveriam ter ido à Cuba, matriculavam-se naquele curso de cinema, que era mais sonho dele, mas que era também uma vontade dela e, depois, na volta, tomariam cada um, um táxi. Talvez Paris e o Louvre, a viagem de carro pela Toscana, cinco dias entre Madri e Barcelona ou os castelos alemães. Talvez um fim silencioso, partilhado, resignado e nós desatados com afeto.

   Mas não foi. Não é. Foi num arrombo, numa tempestade, numa enxurrada de desencontros, acusações, a ligação interrompida, outras não atendidas, as mensagens não respondidas, os pedidos de explicação impossíveis. As palavras que saem atropeladas e por isso, morrem as ensaiadas e nascem outras num improviso hostil, o rancor que já era instalado, mas antes ignorado, emerge e se espalha pela casa, tomando memórias, planos futuros, pertences em comum. Quem ouve não entende que aquele que fala não rejeita a história, nem a pessoa, mas um futuro nas bases desse presente que parece aterrador. Alguém e a sua tentativa alucinada de escapar do que é agora, talvez possa ser diferente sozinho e depois, quem sabe, até com outro parceiro. No fim, é a pressa mesmo de se desvencilhar, não do outro cuja tarefa agora, em meio a mágoa, já é mais fácil, mas de si sem este outro, essa sim missão duríssima.

  O final do amor que  não recolhe o lixo, não lava a louça, nem organiza as gavetas, não inventa metáforas, não se ilude com poesia; o final do amor que não aguenta mais dois minutos de filme e sai da sala antes dos créditos finais, que não espera mais na fila, mesmo que a sua senha seja a próxima. O final do amor que não espera um pacote turístico, um reparo na casa, nem Neruda ou dança. Não há gentileza e suavidade possíveis quando é um fim. Porque, na verdade, quaisquer que fossem os cenários, cenas, falas ou trilha tudo levaria a um só desfecho: pressa pela descoberta de um lugar que não seja mais este.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da avenida principal é que não virá

   Presa na galeria, chuva fora, calor dentro. Rodeada pelas vitrines com promoção de sapatos femininos, o centro cheio de gente com sacolas, apressados, fugindo da chuva, querendo outro lugar ou esperando por alguém, assim como ela também espera, a galeria é passagem, lugar de encontro e sapatos diversos. Encolhida num canto, perto das sandálias em exposição, saltos altos, brilhantes, sensuais, prometendo pés felizes e ela triste, sufocada e esperando alguém que nunca chega. Ela desvia para um lado para a mulher se aproximar mais da vitrine, ela mesma não viu sapato algum, ainda que estivesse quase soterrada por eles.

  Hoje o dia não era bom: a cabeça latejava, os pés molhados já começavam a gelar, a galeria abafada e o atraso incompreendido. Pensou em ir embora, na chuva mesmo, molhar não era o pior, ruim agora era se sentir negligenciada, apertada e sem perspectiva de partida. Foi para ponta da galeria, esperando algum sinal, alguém que disse que viria logo, mas não chegava. Não se importaria com a espera noutros tempos, mas agora, cada minuto passado parecia uma perda irremediável. - Não chega, não vem e se não for mesmo pra ser? Antevia a dor, sentia um nó na garganta, não pela possibilidade da ausência ou do encontro esquecido, o medo era a chegada com atraso. Ver alguém chegar correndo, depois da partida do voo é ainda mais doloroso do que não vê-la. A angústia era a da perda por muito pouco, da quase-vitória, da partida perdida com um gol no último minuto. Perder por muito é sempre mais consolador.

  Na beirada da galeria, observava a avenida molhada, cheia de sombrinhas coloridas- a rua ficava bonita em dias de chuva assim - tentava ver sob cada uma delas a sua espera, mas ela não chegava. Já torcia mesmo para que não viesse, que não mandasse mensagem alguma, nem tentasse reparar a desordem que o seu atraso provocava. Até que apontou, na larga avenida, o alguém que disse que viria. Já sorria para ela do outro lado, mas a cada passo mais próximo, ela sentia soltar um pouco mais as suas mãos das dele. A cada metro conquistado ao atravessar cada faixa, maior a distância entre as suas vidas. 

- Completamente só. Não há escapatória. Nunca virão a tempo. É preciso não esperar mais. Não esperar que a força de um outro nos ampare na vida.

  O avião partiu, a solidão era inevitável. Ninguém espera pelo tempo que não tem. Estava só e não era triste, era a melancolia de uma revelação que acontecia sem preparo; na rua, no meio da chuva. Não, não foi subitamente que aconteceu, só avistou o que já era instalado. Foi a chuva, os sapatos, os cartazes de promoção, os pés molhados, as sacolas dos apressados que riscavam suas canelas, o clima abafado, as sobrinhas com estampas de animal e o nó na garganta, precisava de tudo isto para saber da sua solidão.   

  Os quinze minutos do atraso de alguém a levaram para a liberdade de saber-se só. Recebeu a sua espera com um abraço suave, não reclamou do atraso, sorriu ao pedido de desculpa, mas o avião havia partido e ela sabia disto.  Não era a espera, não era ela, não era o atraso. Eram ambos, o que sempre, todos nós somos, solitários na dor, unidos justamente pela suspeita de que não há um futuro que caibam nós e eles.

  O que ela viu atravessar a rua não era um futuro ou alguém que se atrasava ao compromisso, era o passado que sorria amistoso, escondendo dela a solidão que também era dele. Da avenida principal, alguém surgiu com atraso e deu a ela a liberdade de um futuro em branco. O nó na garganta não era choro, era grito abafado de medo de uma revelação iminente. Seguiram juntos pelas calçadas molhadas, mas o avião, para sempre, havia partido. Um dia, quem sabe, falariam sobre o voo. Andavam juntos, ela e a sua revelação, que assim aproximada parecia doer menos.



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Onde dói?

  O que busca quando sai apressado às 7 da manhã na segunda e nem toma um café antes de fechar a porta, não acaricia os pelos do gato, mas coloca água e comida e abre a porta da varanda para que ele tenha um dia mais liberto que o seu? O que teme quando não olha nos olhos do vizinho com quem compartilha o elevador, são só os dois, por que o medo dos olhos do outro? O que espera quando não fala claramente o que quer e deposita no outro as expectativas que ele mesmo desconhece que você sustenta? O que não pode perder quando corre em linha reta e não aproveita as curvas, quando segue o fluxo e não para para ajudar alguém perdido no acostamento? Por que não para? Por que não desliza, não derrapa, não duvida?

   Que tempo é este que faz com que você consulte os relógios a cada quarto de hora? Você já reparou que os ponteiros e você já andam bem sincronizados? Perceba os seus 15 minutos contados. O que faz com que você perca a paciência com a caixa que oferece o cartão da loja, enquanto você espera pelo débito ou crédito? Por que o vendedor de gás, o entregador do mercado e o síndico que batem no seu apartamento no sábado de manhã te incomodam tanto ao ponto de você não conseguir voltar a dormir? Aliás, por que mesmo é que o sono tem lhe faltado tanto? Consegue sonhar em alguma hora do seu dia? Quando a reunião fica muito enfadonha pensa em quê? O que se passa dentro de você poderia ser publicado? Ou é estúpido demais, egoísta demais ou vazio? Está vazio agora? Não minta. Mesmo que seja um costume muito arraigado, não minta, admita para você. Ouça você.

  O que espera que pensem seus amigos quando desmarca toda semana a cerveja das quintas-feiras? Por que vai tanto à academia se sempre foi o lugar que menos gostou de ir? Por que não come o pão na chapa da padaria da esquina que sempre me pareceu tão bom? Por que ainda dorme com ela se não suporta mais a suas manias, amigas e assuntos? Por que prefere a estranha virtual com quem conversa muitas noites da semana? O que é próximo te intimida ou cansa?

  Que sentido procura no livro que está no banco do seu carro há semanas, do qual só leu as mesmas duas páginas repetidas vezes? Não entende, não avança ou só não sabe o que procura? Se não sabe, só leia. Fará sentido a certa altura, mesmo que você nunca saiba qual. O que faz você deixar escapar seu momento feliz, quando percebe que é sim um momento feliz e você o destrói porque quer guardá-lo, cristalizá-lo e ele voa abandonando-o na sua racionalidade de homem que precisa datar, fotografar, consumir e colecionar?

  O que pretende quando decide amar o provável, desejar o possível e se entreter com mínimo dos outros, se poderia acolher o seu amor improvável, seu destino utópico e deixar-se ser arrebatado pelo mais profundo do outro? Onde não alcança duraria mais, o que não conhece, nem de nome, amaria mais.

  Por onde anda ao meio-dia de domingo, já acordado? Com algum plano que não seja esperar pela segunda-feira? Onde está o gato? Ele é mais livre que você, não é? Sabe o que ele faz, enquanto você passa os dias fora? Não. Não sabe. Seu gato é um completo desconhecido para você, mas você não é para ele, ele lê os seus olhos, ele sabe que quem é cativo é o homem, conhece a sua infelicidade completa e por isso todas as manhãs, enquanto você abre a porta da varanda ele passa mais devagar, oferecendo seu pelo para que você encoste os dedos e se lembre do que é macio e simples, mas você não entende, você não se abaixa e o gato todas as manhãs recolhe sua compaixão para o outro dia.

  Na terça de manhã vai ao médico que marcou há três meses, quase, sente dor? Onde dói? Se o médico perguntar, vai saber responder? Algum lugar específico? O que fará com a dor que não puder apontar? O gato está no seu sofá a esta hora, o gato não vai embora, mas é mais livre que você que abre a porta da varanda para ele todas as manhãs.



domingo, 17 de janeiro de 2016

Se o vento ainda sopra um rosto

  Há tantas vezes uma linha muito sutil, imperceptível até, que separa uma possibilidade da outra, quando nem imaginávamos escolher. Porque nos soa natural, um passo dado assim a esmo; um pé a achar o espaço para um melhor equilíbrio. Como se o próprio pé escolhesse espaço e tempo. Como se outros passos anteriores não nos trouxesse até aqui ou já não tivéssemos acumulado - e não importa a idade - um repertório variado de caminhos tomados e tantos outros ignorados. Podia não pensar sobre isso. Sempre podemos não pensar, mas isto é também é um tipo de passo. Penso, logo caminho.

  Se as escolhas se camuflam, se travestem de naturalidade, não há muito a explicar sobre elas, não nos interrogam, quase nunca voltamos a pensar em cada uma delas. Porque parecem feitas ao acaso, como se já existissem prontas, antes dos pés.

  Mas a escolha dele é de outro tipo, requisita a gravidade de uma linha rubra, cuja sutileza foi há muito perdida. Ele é tão jovem ainda, com um corpo bombardeado por mudanças drásticas muito recentes. Tento imaginar tudo o que ele tem passado nos últimos meses ou na vida antes da escolha. Nos anos de dúvida, desconforto e pés obrigados a seguirem linhas determinadas por outros. Ambas as trajetórias me parecem demasiado pesadas, especialmente para alguém de olhos tão doces e, ao menos agora, muito tristonhos; olhos de quem é frequentemente interpelado pela sua escolha.

  Seus ombros parecem carregar um mundo de olhares de reprovação; quantas palavras ele não terá precisado recorrer só para dobrar uma esquina? Os olhos pretos e foscos trazem angústias que são muito mais explícitas nas redes sociais do que nos corredores que dividimos. É mesmo uma marca deste nosso tempo de distâncias finitas e proximidades impossíveis.

  Os olhos pretos dele quase nunca se encontram com os meus, mesmo que eu os procure muito. Me incomodava ser preterida, me angustiava tentar me comunicar com ele e não ser recebida, mas afasto os brios e sigo colocando meus olhos na sua nuca morena, esperando que algum dia desses ele se vire, encontre em mim uma possibilidade de reflexo e perceba o quanto temos em comum. O dia em que ele entenda que a sua luta individual, de alguma maneira, pertence a outros tantos, a todos nós. Que ao trair o destino que parecia natural, que ao negar o traçado que determinavam para ele, abre-se a possibilidade de todos compreendermos o sentido de apontarmos o pé para alguma direção. Sem explicação detalhada, muita fenomenologia, só o entendimento puro de que não somos levados, não temos que ser, que o ritmo, a direção são construídas em cada passo, nem antes, nem por outros.

  Quero ainda vê-lo vivendo em toda a sua completude, ser testemunha das suas mãos segurando cada escolha sua, sem tanto drama, sem as interferências opressoras dos que buscam ordenamento e limites para aquilo que não entendem; essa violência dos olhos alheios. Assisti-lo ser quem é sem suspeitas, sem medo, sem a solidão dos incompreendidos. Vê-lo colocando os pés no chão que escolher, mais, saber que ele aprendeu a voar e que respeitaram suas asas. Uma pessoa devia ter o direito de não se explicar, entender-se para si é sempre o bastante. Ainda espero vê-lo avenida afora, tomando o vento da liberdade no rosto, com um andar leve, orgulhoso de saber quem é, obedecendo a um outro chamado, não este que lhe impelem a ser cativo, a uma natureza externa, mas a esta outra que o acompanha dentro.

  Se os seus olhos não encontrarem os meus, minha prece há de alcançá-lo e nos dias mais difíceis, você será consolado e acolhido por ela, mesmo que não saiba. E quando o vento soprar o seu rosto e a vontade de continuar for maior que o peso de toda luta é sinal de que eu e você somos livres e de que não existe escolha errada, só escolhas.

  Eu ainda olho para a nuca dele e talvez ele olhe para uma outra também. Nos desencontros dos olhos, a compreensão também existe. Que as linhas sutis ou demarcadas não nos impeçam de frequentar os lugares que entendemos serem nossos, que ninguém nos indique um lado ou que pergunte sobre a nossa geografia.
Mas se perguntarem, diga a eles que o vento no rosto é a única direção que você obedece; não há outra.



sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Do chinelo que não se esquiva

  Inevitável são as despedidas que fazemos todos os dias, sem nem nos apercebermos delas. Passam por nós, às vezes, muito sutilmente, atravessam as portas sem o mais discreto barulho nas maçanetas, passam astutas por entre as nossas  pernas, não tocam os móveis, nem se atrapalham nas curvas, nos abandonam sem bilhete de adeus. Outras, na fuga, estouram como foguetes, fazem um alarde sonoro muito rápido, até vemos que algo nos deixou, mas os olhos só alcançam o clarão, o contorno disforme de alguma coisa que não se vê. Todos os dias passa por nós algo que precisa mesmo partir. Porque não há mais lugar, porque não podem conviver com outras escolhas, porque não fazem mais sentido repousarem sobre os nossos pés, sem nos deixarem o caminho livre para outros movimentos.

  Todos os dias desabam sobre nós infinitas possibilidades que quase não enxergamos. Porque são escolhas  singelas de aparência, cuja profundidade talvez perceberemos  muito tempo depois, num insight, numa lembrança às três da tarde de um sábado, durante uma conversa banal sobre o clima. Não há como desviar do risco da perda e do desafio do novo, ambos estão entrelaçados conosco desde o nosso primeiro choro até o suspiro derradeiro.

  Há dor, eu sei. De não querer soltar o acostumado, de ter que deixar partir uma companhia muito íntima, de não suportar imaginar uma continuação sem as mesmas testemunhas. Há desconfiança também; sempre. De abrir espaço para o desconhecido, aquele que já nasce para surpreender, desacomodar, desequilibrar os pratos todos. Penso nas duas despedidas do dia, as duas passíveis de entendimento só agora antes do sono, mas possivelmente não são só elas. Talvez haja uma sorrateira sutil que não pude compreender e a fugidia que eu não tenha conseguido enxergar. Mas estarão ambas marcadas na minha história, ainda que eu não queira recordá-las.

  O homem no ponto do ônibus tinha um rosto transtornado, as mãos muito sujas e uma situação de completo desamparo. Atravessava a marquise de uma ponta a outra com um chinelo numa das mãos e o outro no pé, calçado, como se tivesse, o das mãos, arrebentado. No ponto abarrotado de gente muito ocupada, eu seguia seus passos atrapalhados e só na segunda  volta percebi que em cada ponta do circuito ele trocava os chinelos: calçava o que trazia na  mão e segurava o que antes, estava no pé. Não havia problema com o par de calçados dele. O homem repetiu a operação compulsivamente dezenas de vezes, enquanto estive a espera do meio que me tiraria dali. Ainda, ao entrar no ônibus, eu pude ver o topo da sua cabeça abaixada, pegando o chinelo que atravessaria o ponto na mão dele. Eu chorei.

  Não achei engraçada a sequência tão desajeitada e despropositada dele, não tive medo da sua condição mental, nem repugnância pela sujeira incrustada em cada uma das suas unhas, que vi bem de perto por um instante, nem dos dentes pobres. Mas me senti tão identificada com o desamparo dele, tão pertencente ao universo daqueles que não sabem lidar com as despedidas, tampouco com a novidade. Cada vez que ele trocava os chinelos eu sofria com ele. Queria ter dito algo, queria ter me comunicado com ele, mas não pude, porque, no fim, eu também continuo atrapalhada com o meu par de chinelos.       

  Mas homem, acho que algumas possibilidades precisam morrer para que outras sobrevivam sem serem sufocadas pelo ar viciado do antigo. A despedida é, tantas vezes, o melhor caminho. Soltar os dois chinelos no chão e assumir o risco das mãos vazias para sempre. O homem da rua não sabe disto, mas é preciso colocar os dois chinelos em jogo ou suas idas e vindas serão para sempre em vão. Só os riscos permanecem, o resto são chinelos que precisam ser gastos e, algum dia, substituídos.




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A fumaça do cigarro dele

   É a terceira vez que a mesma música toca e nem saímos do quarteirão. São seis horas e choveu muito. "Uma batida na rotatória", a voz do cobrador sufoca o melhor verso do cantor nos fones. A casa já está bem perto, os pés já estão molhados, mas preferi ficar mais tempo, ouvir a mesma música mais duas ou três vezes e aí sim, quem sabe, pedir ao motorista que abra a porta, descer e respirar o ar novo lá de fora. Em modo repeat escuto o verso preferido de novo, de olhos fechados. Quando abro, vejo uma bolha transparente grudada ao vidro da minha janela. Antes de descer, resolvo buscar as mãozinhas ou lábios  que tenham dado a bolha para mim. Procuro-o nas janelas dos apartamentos da avenida, mas com a chuva forte que caiu agora há pouco, todas se mantêm fechadas.

  Alguns minutos depois, descubro uma dezena de bolhas de sabão, nascendo nos fundos do prédio cinza. Sem intervalos, elas são produzidas em alta escala, quase compulsivamente e chegam depois de uma tempestade cheia de força, invadindo o cinza das paredes e do céu de início de dezembro.  Em um canto de uma das avenidas mais movimentas da cidade, bolhas de sabão modificam o cenário pretenso urbano.

  A nuvem de bolhas esconde, por algum tempo, o remetente. A névoa de círculos transparentes mantém ocultado o melhor do engarrafamento. Ainda forço a visão, através do vidro embaçado e tento ver quem me deixa submetida à paciência e contemplação, em uma segunda chuvosa com trânsito arrastado. Cansado de passar o dia preso no apartamento, sem poder ir à rua ou à casa de amigos, talvez a mãe tenha sugerido as bolhas e um filho, agora, descobrisse a simplicidade da morte ao tédio.

  Procurei a criança, quis ver seu rosto alegre concentrado no trabalho de distrair o aborrecido tempo e de ampliar os espaços do apartamento. Procurei um menino do centro da cidade, que brincasse de uma mesma infância que é, ao mesmo tempo, muito antiga e inexistente ainda. Mas à medida que as bolhas começavam a ser mais espaçadas, um rosto adulto aparecia por trás da cortina provisória. Quem soprava o aro coberto de água com sabão era um homem, sem mãe por perto. É provável que a ideia da distração tenha sido sua e o preparo da matéria prima também tenha sido assumido por ele.

  Um homem de quarenta anos, nos fundos do apartamento do qual ele mesmo paga água, luz, sabão, aluguel e condomínio se responsabiliza por uma brincadeira que se libertou da infância e solta no ar o desejo de leveza que é dele. Eu escolhi a música, ele as bolhas. Na prisão dos dias da semana preenchidos de desimportância, no cárcere incólume dos automóveis que nos acorrentam muito mais do que nos levam a algum lugar, na travessia limitada do asfalto e na chuva que nos deixa ilhados do previsível, há de se encontrar alguma liberdade que nos salve; que nos leve a um destino melhor do que o do final da avenida.

  Um homem adulto que soprava bolhas de sabão me detém um pouco mais no trânsito, abafada pelas janelas que me isolam dos pingos que voltam a cair lá fora. Não era por ele. Não era pelo cigarro que ele não fumava. Era a sua escolha, a sua pausa, o abandono da urgência. Eram bolhas de sabão, cuja paternidade era assumida sem constrangimentos. Ele traga mais um pouco de ar, regado à detergente, puxa todo ele até o pulmão se encher e assiste a angústia colorida se desprender dos seus lábios e estourar no gramado vizinho ou se prender ao vidro da janela de uma admiradora.

  Amanhã ou depois, passeio em frente ao prédio, irei a pé, talvez busque o homem das bolhas de sabão na sua varanda dos fundos ou aceite a transitoriedade da poesia nas bolhas e o esqueça. Enquanto o homem liberta sua inquietude  do apartamento do Centro a minha música embala cada incômodo do dia. Vamos como podemos, às vezes, o tempo custa a passar e os espaços são limitados demais, então, abre-se uma janela e uma outra possibilidade pode ser vislumbrada.

  A fumaça do cigarro que ele não fumava chegou até a minha janela e se instalou do lado de fora; agora, acompanha meu itinerário, quando eu descer, respirarei o ar de que ela é feita e, finalmente, as duas instâncias se encontrarão: a inquietude abandonada por ele em bolhas e o incômodo acolhido em mim, pela música dos meus fones.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Não era eu

   Não era eu a atrasada, não era eu quem carregava na bolsa um amontoado de contas com dinheiro pra pagar só a metade delas; a escolha, portanto, não era minha. Não era eu a pressionada pela biologia a ter filhos naturais nos próximos meses, pelos mais velhos a economizar para o futuro, pelos amigos a sair de casa em busca de novos ares. Não era eu quem olhava pela janela do ônibus, na cidade sempre solar e hoje tão cinzenta, buscando fora o que não queimava por dentro. Não era eu.

  Não era a desesperada, cansada, vestida numa malha cinza de ginástica e tênis de cores cítricas, com o cabelo preso num elástico preto, no figurino completamente deslocado do cenário interior; não era eu quem não queria estar atlética hoje. Não era eu quem olhava para os outros bancos e desejava ser a pessoa que ocupava esses outros bancos. Não era eu quem intimamente imaginava que o motorista perdia a direção e seguia infinitamente pelas avenidas da cidade, adiando, assim, decisões, conversas, prestação de contas e admissão de culpa ou absolvição definitiva.

  Não era eu quem olhava para a aliança amarela no dedo magro da mão esquerda e pensava se ela permanecia tempo demais ali. Não era a que sabia que a dor não duraria e mesmo assim, não queria descer no próximo ponto, nem no próximo, nem no depois de todos os próximos. Não era eu quem fatalmente chegaria ao ponto final, desceria do ônibus e pegaria um outro para atender ao compromisso ao qual estava atrelada. Não era a que se questionava se era preciso mesmo manter-se ajustada a tal laço.

  Não era eu quem não pegaria a sombrinha, que enfrentaria os pingos de chuva, atravessando a cidade pelas marquises, invadindo as beiradas de sombrinhas alheias, desviando de poças d'água e afundando os pés em algumas delas. Não era eu quem não queria tomar decisões, mas, ainda assim, corria ao encontro delas. Não era a observada pela mulher em pé, aquela com ar de superior, sorrisinho de lado, contemplando a cidade que só sabia chover, quem me via começar a chorar e talvez não conseguir mais parar. Não era eu a imagem da mulher desiludida, do livro da Beauvoir, que li no começo da vida adulta, por duas vezes, achando-o inédito.

  Não era eu a última a descer do ônibus, tarde da noite, numa alameda desconhecida, sem bateria no celular, pedindo informação ao motorista e chamando um táxi para me levar em casa, morta de medo e constrangimento. Não era eu a me perguntar no carro, se teria dinheiro para a corrida, se teria casa ainda, se voltaria à academia, teria um filho no próxima primavera ou se atiraria a aliança em algum bueiro da rua.

  Não era eu quem tinha abandonado as aulas de francês, porque a pós-graduação aumentaria o salário, nem o buldogue alemão na casa da mãe, porque o apartamento novo era pequeno, antes tivesse permanecido no velho, onde o cão a fazia sorrir. Não era a mulher dos mil sapatos, sem ter lugar para usá-los, nem a mulher de trinta amores, que guardava duas ou três memórias realmente amorosas. Não era eu essa mulher. 

  Não era eu a que duvidava, protelava, amargava uma decisão que já estava tomada há tempos, mas ainda difícil de assumir. Não era a mulher da roupa de ginástica que não precisava de aeróbico algum, mas correr, correr em direção e não mais contra. Não era eu aquela que quando chegasse em casa não falaria sobre o clima, nem a chuva que atrasou o trânsito, mas perguntaria: - Quanto tempo ainda temos para o nosso sonho?

  Não era eu a triste do último banco do ônibus, a melancólica,  a chorosa do tênis chamativo ou a decidida, a consciente dos sucessivos abandonos próprios, a desencantada que queria arder de novo. Não era eu a observada pela outra que talvez se identificasse e quisesse vir ao meu consolo. Não era eu a mulher do ônibus, na segunda, mas podia ser. Sempre podemos ser o alguém do outro banco, que não quer muito chegar em casa tão rápido.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eles que não desmoronam

  Que não voltam atrás nunca,  já saem de casa com uma decisão tomada, que não se desviará nem com os apelos, as considerações ou perspectivas que não sejam as das suas janelas. Eles que não duvidam nunca, que pisam com os dois pés em qualquer solo, sem olhar para baixo, sem se preocuparem com os deslizes, os declives e obstáculos, sem conferirem o mapa.  

  Que só respondem em juízo, cujas assinaturas são firmadas em cartório e asseguram seus relacionamentos por contrato. Eles que precisam de testemunhas, de veracidade dos fatos, que não acreditam em fábulas, boas estórias, que não reconhecem no fantástico uma parcela de si, eles que evitam a todo custo o absurdo - como se viver já não o fosse. Que são os únicos merecedores, são também os injustiçados, os que sempre pagam o pato, porque, eles dizem, confiaram em quem não deviam e deram mais do que receberam; eles que anotam na agenda cada segundo de tempo que acharam dedicar ao próximo.

  Aqueles que se dizem pacifistas, mas provocam até o outro estourar a bomba que trazem consigo, para depois lamentarem: - São uns descontrolados esses outros.
  Eles que não se deixar convencer por bons argumentos, que nem sequer ouvem a voz que não é deles, que balançam a cabeça e parecem interessados, mas que, no fundo, já agarraram sua própria verdade. Eles que não atravessam a rua sem um motivo definido, que não demoram na frente dos cardápios, que na fila para um pedido ficam impacientes com a dúvida alheia. Eles que não choram por uma foto rasgada, não se culpam por terem chegado depois da hora e perdido os olhos brilhantes de alguém, no segundo que faltaram. Que não pedem perdão pelas escolhas erradas, que não se arrependem nunca do caminho escolhido, que nem se demoraram numa encruzilhada. E dizem sempre,  que não gostariam de estar em outro lugar senão este; que nem ao menos, imaginam outros lugares e vidas.

  Eles que não despertam do lado errado da cama, que não rejeitam as refeições depois de uma notícia ruim na TV, que não atropelam palavras, que não matam suas vontades, mas alimentam-nas cada vez mais, para quem sabe um dia satisfazê-las. Eles que não rompem definitivamente e, depois de segundos, voltam atrás, já curados do ressentimento. Eles que não gaguejam na apresentação, que não se enrubescem depois de um elogio ou esquecimento, eles que não suam ou choram de gratidão.

  Eles que não trocam os nomes, não esquecem as datas, que marcam de verde cada compromisso cumprido. Que  não perdem nos ônibus os fones de ouvido; nas mesas dos consultórios, não esquecem os óculos; que nas salas de cinema, os celulares não tocam. Eles que não parecem perdidos, que não pedem informações aos desconhecidos, nem molham a barra da calça nas poças d'água em dias de chuva. Eles que se cercam de certezas, que desprezam os indecisos, que só conhecem o caminho feito a cabo, sem paradas antes do final, curvas inesperadas ou a desistência assumida.

  Eles que não conhecem o sentido do renascimento, porque têm medo da morte; que estão sempre na direção para evitarem os atropelamentos pelas incertezas, que dirigem seus carros sem pararem no amarelo dos semáforos, que não sucumbem aos artistas do asfalto e passam por eles sem nunca olhá-los pelos vidros escuros.

   Eles que não desmoronam e que, por isso, são os mais tristes; que não conhecem a vida que desmancha por entre os dedos e, mais tarde, se refaz como escultura na areia, ganhando forma, para, sem saber quando, voltar a cair. Eles que não desmoronam, cimentaram os olhares dos outros e os próprios, pavimentaram os terrenos movediços do qual a vida se alimenta  e sofrem muito por não saberem que depois que uma onda nos desmancha na areia, é possível que no próximo dia de sol algum par de mãos nos levante como um castelo fabuloso. Eles que não desmoronam, não conhecem a felicidade de se dissolverem e depois voltarem sólidos, líquidos ou um ar sem direção. Eles que evitam o que não conhecem, não poderão experimentar outros estados.



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A xícara de café que não se move

 Ela passa um pano em metade do balcão. Faz o trabalho por partes, para não incomodar, para ser minimamente percebida. Alguém tira um pé e ela limpa enquanto o pé ainda está no ar; segue os passos, acompanha xícaras levantadas, copos afastados, coreografa suas ações no espaço apertado, ritmada pelo que os outros dão a ela. Retirou meu copo já sem água e eu nem vi, talvez guardasse uma última gota, mas agora é tarde. Meu copo  deve estar lavado na cozinha ou já na mesa de outro e eu ainda, lamentando pelo último gole, que talvez nem restasse.

  Nunca a tinha visto, não sei se é nova aqui ou se o seu trabalho de passar desapercebida a escondeu por algum tempo. Não é ela quem recebe ou serve os pedidos, mas é quem organiza a cena, que na invisibilidade, equilibra pratos, passa panos e ajeita xícaras. É ela, desconfio, que coloca no pires da xícara do expresso o sequilho mínimo que adoça o amargor do fim do café. Agora que a vi, que acompanhei seus movimentos tão delicados, demasiado exatos e surpreendentemente precisos, não consigo imaginar mais o lugar sem ela. Agora é tarde; eu a vi. Não há como voltar atrás e tentar apagá-la de cada pedaço do pequeno café. As flores em cima das mesas, deve ser ela quem corta os seus caules muito grandes, retira as pétalas amassadas e coloca uma a uma, num buquê muito modesto, nos vasinhos transparentes. As toalhas de papel do lavabo e o sabonete líquido cheiroso também deve ser ela quem os repõe.

  Meus cafés esfriam, tomo-os pela metade, peço uma segunda água, bebo, agora sim, até a última gota e disfarço, enquanto assisto-a retirar duas xícaras, um copo e uma garrafa de vidro sem nenhum barulho. Contemplo a dança que ela insiste em esconder, percebo as nuances, as curvas entre as mesas, os dois passos para direita, os dois para a esquerda, um  mais longo para frente, a subida na meia ponta e o corpo espremido contra a parede, para o garçom passar. Depois, assisto seu rasante ao abaixar no balcão de mármore antigo, com as minhas duas xícaras, o copo e a garrafa. A cena é toda dela, embora eu nunca tenha percebido-a antes.

  O espaço, aos poucos, se esvazia, em menos de uma hora  fechará, já fui avisada. Peço a conta, mas me incomoda a única xícara na mesa dos fundos, ao lado do balcão. Ela já estava lá quando cheguei e a moça, sempre tão atenta não a recolheu. Por duas vezes, levantou-a, passou o seu paninho azul, por debaixo dela, mas não a levou embora. Não pode ser por desatenção. A xícara que permanece, guarda o segredo da moça.
 
  Uma xícara igual as outras, branca com o logotipo rebuscado do café, mas que não é recolhida, que é esquecida propositalmente, mantida feito a relíquia de um ente morto, intocável. A xícara que não se move, me chama, atormenta minha curiosidade e me faz ir até ela, antes de pagar pelos cafés que tomei pela metade. Finjo olhar um dos quadros da parede atrás da mesa da xícara restante, só para me aproximar. No fundo da xícara branca um resto de café, um dedo talvez, porque quase se vê o fundo, ameaço imitar a moça e recolher, levar até a cozinha, lavar e colocar a única xícara no seu lugar, mas me constranjo já pela indiscrição da minha observação levada a cabo.

  Pago a conta. Cruzo a bolsa pelos ombros e, ao fundo,  perto do balcão, na mesa da xícara que não se move, a elegância de uma moça: pernas cruzadas, antebraços sobre as pernas e sua invisibilidade, tomando um dedo de café frio. A bailarina do café guardou um último gole para ela. Talvez tenha feito o mesmo com a minha primeira água.

  Aqui, quem sorve a última gota é ela; o poder dos derradeiros goles é todo da moça do café. Discreta e delicada é dela o trabalho das despedidas. Saio como ela passou toda a tarde, sem ser notada. Atravesso a galeria escura, quase vazia, enquanto dissolvo na boca o último sequilho doce da cafeteria e penso que as despedidas doeriam menos se fossem assim: delicadas, sorrateiras, livres de mágoa e quando ninguém mais assistisse. Os adeuses deveriam pertencer àqueles que sorvem os líquidos sem o barulho constrangedor dos lábios na borda das xícaras ou do ruído da louça nas mesas. As despedidas pedem silêncio e suavidade. Despedir-se deveria ser sempre um ritual solitário, suave, mas também decidido. Tomar todo o conteúdo da xícara, pacientemente lavá-la na pia mal iluminada e nunca mais olhar para trás. Assim, sem cacos, sem barulhos, com o drama todo tragado de uma só vez.


domingo, 25 de outubro de 2015

Agora, já pode olhar para baixo

   Pede um expresso na loja do centro, olha para frente, enquanto o café não chega e o som do sino de uma igreja ao fundo, marcando as horas, ritualizando os eventos religiosos deles e os mais íntimos dela e por mais longe que esteja, não há meios de não ouvir suas batidas; o próprio coração parece reconhecer o som e bater em sintonia, a respiração, de repente, também faz parte da orquestra. Biologia alguma explicaria um corpo que obedece a um som imaginário. Quarteirões há muito abandonados, ruas das quais não guarda mais os nomes, só os cheiros - do pão quente, do café recém coado, da vala com o esgoto a céu aberto da rua sem saída, do hortelã e da salsa na entrada do mercadinho - alguns rostos e o remoto som do sino que a persegue, avança mais do que o próprio caminho e vai a frente, anunciando que nem tempo, nem distância, nem desejo muito convicto podem mesmo apagar decisões antigas, escolhas perdidas, nem as cenas, as falas, os gestos ou as imagens impressas na alma.

  Era pequena quando o sino já ecoava nela, no começo, era só no sono. Enquanto dormia, num sonho chegavam as batidas,  o som longínquo não incomodava, pelo contrário, acalentava, fazia companhia e, por isso, dormia mais leve. Depois começou a acompanha-la também durante o dia, enquanto brincava, tomava banho, se vestia ou aguardava o jantar. Olhava para os lados, buscava nos olhos dos outros a cumplicidade do som, que nunca veio; e então, soube que o sino era só dela e nunca seria compartilhado. - Talvez os outros tenham outros sons, este é meu.

  Se a magoassem, a contrariassem, negassem a ela o que achava de direito, tinha um choro que parecia infinito. Deitava na cama, sofá ou chão e achava que era o fim; tudo terminaria em choro. Mas nada, os fins não vêm em choro, desconfio. Depois de alguns minutos, antes que o rosto secasse por inteiro, levantava de onde estivesse, saía pela porta e já estava curada. Mas nunca saiu sozinha, o sino a seguia. O incômodo que a fez chorar não era esquecido de súbito, só não se prendia muito a ele, entende? Num choro muito demorado, muitas oportunidades eram perdidas, a de sorrir, por exemplo. Ouvia o sino e, logo, a mágoa era lembrada, mas escolhia seguir, inclusive retomando os laços com os afetos que a feriram.

    Então, quando dizem a alguém, com muito medo de altura, para não olhar para baixo, desconfio da eficácia do conselho. Olhar para frente não diminuirá a altura, tampouco fará esquecer do perigo da queda. Os sinos continuam a tocar, nada é capaz de silenciar um som que nos acompanha. Segurar firme e seguir, mesmo com medo, me parece a melhor decisão.  Fechar os olhos, imaginar caminhos livres e menos tortuosos ou ocultar o antigo não durará muito, o som nos diz que a altura existe. Então, olha, olha sim. Mesmo com medo. Olha; porque a possibilidade da queda não é a certeza dela. A altura é um risco, mas também o impulso para a subida, uma sombrinha para o equilíbrio na corda bamba.

  - Já são seis horas!
  O sol resistente no horizonte, uma gota de suor por baixo da blusa escorre do colo até a cintura. - É a hora da Ave Maria. Abaixou a cabeça em respeito e, finalmente, olhou para o chão. Da altura que tem medo, mas que precisa enfrentar, nunca se esquece, nem deixa de olhar. Os sinos chamam para o final do café. Vira a xícara e retoma a travessia da corda. Pronto. Agora segure firme e olhe para onde os olhos quiserem ir.


sábado, 17 de outubro de 2015

De uma visão para nunca mais voltar

  Podemos passar anos repetindo um mesmo gesto, praticando uma mesma ação ou exercício, tomando aquele já conhecido caminho, nos alimentando de um mesmo prato, tomando sol às dez da manhã e dormindo às nove da noite, porque parecia nos dar algum prazer, segurança, algum tipo de conforto, ao qual nos acostumamos muito. E, às vezes, porque nem sempre acontece, num dia ou outro, as mesmas situações parecem levar a experiências outras, para  as quais nunca nos preparamos. E o que era familiar e prazeroso, parece nos abandonar abraçados ao nosso  desencanto, desapontamento ou desconforto lancinante. E na própria repetição, um dia, algum mecanismo se rompe, o ciclo se abre, as engrenagens, de repente, emperram e nos obrigam a um outro exercício, que não o automatizado. Na confusão dos parafusos soltos, a reflexão vem nos cobrar respostas. Dura, ela rompe com o aparentemente instalado para nos fazer renascer em uma outra direção, onde tudo é provisório e as respostas mudam conforme a direção dos ventos. Onde as ideias são os moinhos; os inimigos quixotescos.

- Por que é que eu sempre fiz isto? Como pude me habituar a esta situação?

  Talvez nem fosse tão agradável assim, tão desejada ou voluntária, mas bastou o argumento de alguém, um pedido  vindo de uma pessoa pela qual temos tanto afeto, que nos tornamos  fiéis escudeiros das suas vontades. E tantas vezes bradamos que o desejo é genuinamente nosso, quando, no fundo, sabemos bem que não é verdade.

- Vamos sim. Todos vão. Você acabará gostando também!
- Faça por mim, em nome disso que estamos criando.
- Vai ser bom, você vai ver!

  Não vai, não foi, mas continuamos, seguimos com mecanismo em ação, para que ele não pare justamente em nossas mãos. E, o mal-estar que se instalaria se eu não aceitasse? E se eu não levar adiante? Se resolver recusar, por quanta mágoa eu serei capaz de me responsabilizar?

  Mas, então, há um dia, que o irrefletido nos cobra coragem, requisita-nos uns olhos autorais e aquilo mesmo que não era lá escolha muito nossa, mas também não nos custava nada, passa a doer, a ferir muito uma parte  interior a qual ocultávamos para que alguém gostasse mais do que podíamos ser e não daquilo que já éramos.

  Era um calor insuportável, desses de não ter remédio possível. Onde a água da piscina cega, a água do mar é salgada demais e queima a pele exposta ao sol da tarde. Era um programa que eles faziam quase sempre, especialmente nos finais de semana ou férias do pai, agora, os dois eventos aconteciam simultâneos e eles seguiram para lá. Era uma espécie de sitio, onde o empreendimento ficava, tinha um lago artificial, um restaurante e  um parque infantil com tanque de areia, duas gangorras, três balanços e uma casinha com escorregador.

  Gostava de lá por causa do balanço, principalmente, porque estava sempre vazio e não precisava lutar por ele contra ninguém. Saía e voltava quantas vezes quisesse e o balanço, ao menos um, estaria sempre vazio. E gostava de lá, também, porque os irmãos a deixavam em paz, os gritos da mãe se perdiam no espaço muito amplo e o pai parecia mais calmo, bem humorado, às vezes dava dinheiro para ela escondido, para que comprasse um sorvete no meio da tarde. E na volta, eram homens felizes com os seus troféus e uma mulher descansada da rotina de casa. Os sorrisos deles eram valiosos para ela, e nem suspeitava o porquê.

  Então, quando chegaram, ela foi para o balanço vazio, sentou com a sua certeza de alegria coletiva, ao menos na volta, num domingo. De longe, olhava para os irmãos, perdidos entre fios de nylon e anzóis e, pela primeira vez, viu quando o irmão jogou a isca na água e puxou um peixe. Sabia o que todos ao redor do lago faziam lá, via os peixes mortos no isopor com gelo que o pai levava. Comia-os no restaurante e depois, durante a semana em casa, mas nunca tinha observado o processo. Mal tinham chegado e o irmão do meio assassinava um peixe. E depois do primeiro, não conseguiu mais evitar os olhares para cada elemento que perdia a vida no anzol. Era doloroso assistir a mortes tão apreciadas. O pai, a mãe e os irmãos disputando cardumes inteiros. Quem sabe se eram uma família também? E vendo-os assim no lago, com os olhos de caçadores, achou-os estranhos, feios. - Meu Deus, não quero ser castigada por isso, mas como são feios meus irmãos!

  Não balançou, ficou sentada, desgostosa da revelação: - um tanque abastecido de peixes feitos para morrer. Não era pelo balanço, nem pelas canções no carro, nem para aplacar o calor, não era para a felicidade, nem pela unidade da família, vinham pelos peixes! Mais: vinham para matar os peixes... Quando a chamaram para almoçar, ela fingiu não escutar, esperou que todos se afastassem das suas armas, juntou coragem e quis olhar, ter um momento sozinha com aquelas vidas interrompidas entre gargalhadas e gritos efusivos de "eu consegui". Abriu o isopor que o pai deixou perto do lago e viu dezenas de peixes metálicos, prateados, esverdeados, rosados alguns ainda muito pequenos. Filhote, será? Teve pena, se sentiu culpada e com muita raiva de nunca ter se atentado para o que acontecia ali. Porque se vendeu por um balanço. Porque  foi convencida por um sorvete, uma volta de carro e gentilezas familiares. Odiou a família.

  E na massa brilhante de corpos, viu uma cabeça escamada buscar algum ar. Podia salvar uma vida. Tentou resgatá-lo, mas o peixe escorregava das suas mãos. A massa gosmenta atrapalhava o trabalho e o tempo era urgente. Tentou pegar a caixa de isopor, mas estava pesada, deu um primeiro chute e ela se aproximou da margem do lago, deu mais dois chutes, a caixa virou e rolou  até a água. Alguns corpos ficaram pela margem, outros boiaram e, talvez, algum deles tenha voltado para morrer ou lutar pela vida mais uma vez.

  Ainda entretida pela caixa amarela revirada, boiando no lago, escutou seu nome num grito e uma correria que seguia atrás dela. Não fugiu, esperou que a alcançassem. A mãe foi a primeira.
- Por que você não pode ser alegre como seus irmãos? Por que não se diverte como as outras crianças?
- Porque não consegui, mãe. Eu não pude.
- Não. Você é estranha, egoísta e má. E se continuar desobediente não vai casar nunca. Quem vai querer ter uma família com alguém que não sabe se divertir?
E nos olhos parados da mãe, quase serenos, ela achou que ainda encontraria compreensão.
- Mãe, os peixes também são uma família. Tinha filhotes no isopor, mãe.

  Irritada a mãe não entenderia o que se passava com a menina agora. Em sua maternidade limitada, que só enxergava os três filhos, a mãe não foi receptiva. Logo o pai e os irmãos chegaram e ela sabia que ninguém podia entendê-la.

  Mais corpos metalizados boiavam  no tanque, agora. No silêncio da volta, no espaço vazio do isopor, nos rostos contrariados, sem sorrisos ela entendeu a ameaça da mãe. Ela tinha razão, não se casaria e a maternidade ilimitada nunca lhe daria filhos só dela. Escolheu para sempre a família de peixes.

  Era isso. A mãe tinha razão. E, bastou uma mirada diferente do balanço costumeiro e a vida nunca mais voltaria a ser a mesma. Não a dela. Jamais.

  

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A dona da chama

  Eu podia não ter visto, podia nunca ter notado ou, ainda que soubesse, ignorado, mas os acontecimentos, os detalhes, os segundos planos, os lugares que os nossos olhos passeiam não obedecem à vontade, estão muito mais submetidos a uma necessidade nossa, mesmo quando não sabemos delas. Eu a vi e tenho acompanhado a sua missão, vivido um pouco das suas noites insones e partilhado, ainda que ninguém saiba, do seu ritual particular.
 
  Começou há  quatro noites passadas, quando uma luz mínima entrou pela janela do meu quarto, era tão pequena, tão pouco perceptível, que eu nem, ao menos, tive a curiosidade de procurar a sua origem, não fechei a pequena fresta da cortina, nem esperei que se apagasse; só dormi. Na noite seguinte, a luz de novo entrava no quarto e pensei que talvez fosse a lâmpada da rua acesa ou de algum vizinho, alguns minutos deitada, somente supondo. A luz não me incomodava, não atrapalhava meu sono, nem me revelava o que eu desejava esconder, quando apagava a luz do meu quarto, mas me chamava, acho. Como se ao não procurá-la eu perdesse algo muito valioso. E por isso, levantei, abri a cortina e busquei o lugar de onde o  fio de luz partia.

  Era tão delicada, tão pouco evidente que eu demorei algum tempo para entender a morada da luz que me solicitava. Do outro lado da rua, da casa que eu só conheço o cachorro, a piscina cercada por um muro de azulejos transparentes e o repertório musical das festas no final de semana, pela primeira vez, eu vi um dos seus moradores. E a luz que entrava no meu quarto foi o que me despertou para a existência da mulher da minha rua. Vi o seu perfil alaranjado pela chama de uma vela, é morena de cabelos na altura dos ombros,  parecia vestir uma camiseta de dormir e estava em frente a luz que me buscou na cama. Silenciosa, eu acho - porque não vi os seus lábios mexerem - ela cuidava da chama de uma vela. No escuro do meu quarto eu a observei por algum tempo, pensei sobre os motivos da manutenção do fogo, das intenções que fazia e até da fé que a mantinha em frente a vela. A luz que me chamou, a desconhecida que eu acabava de tomar conhecimento da sua existência, o fogo que me surpreendia e, finalmente, a  cena que me enternecia adiaram mais o meu  o sono e demorei muito a abandonar meu posto de espiã. 

  Nas duas noites seguintes a pequena chama veio me visitar, ela está aqui dentro agora, e tenho visto o mesmo perfil, que às vezes se põe de frente, mas nunca me vê e que persistente olha para a chama pequena, como se dela uma vida inteira dependesse. Não sei explicar o porquê, mas a vela acesa nas últimas noites, na casa de uma desconhecida, tem me dado tanto, tem me confortado mais do que todas as luzes acesas da cidade, se elas de repente, se iluminassem para mim.

  Não sei por quem ou o porquê, a mulher cuida da chama, se dedica tantas horas a mantê-la acesa e colore tão melancolicamente o seu perfil, durante as últimas noites. Seu cão me diria se pudesse. Às vezes, penso que talvez seja  por um familiar doente ou por ela mesma, acometida por alguma enfermidade, talvez uma dúvida ou dívida, quem sabe? Depois, menos grave, penso em alguma prova difícil que algum dos filhos fará. Minha mãe acendia velas quando fazíamos provas na escola. Quando minha irmã fazia faculdade em outra cidade, ligava para ela para pedir que acendesse velas em quase todos os finais de semestre. Tantas vezes a vela da minha mãe me deu coragem para, ao menos, comparecer à escola, sabendo que o ano era perdido, que eu não conhecia absolutamente nada da matéria e nem mesmo tinha estudado. Não era fé na religião, nas intenções ou qualquer coisa de místico, a vela da minha mãe acesa em cima da geladeira azul era a sua crença em mim, não era o fogo, era o amor que me encorajava a tentar, mesmo que o fracasso fosse inevitável.

  Agora, nas últimas noites, a chama de uma vela tão longe, de uma desconhecida, cumpre o mesmo papel da chama da vela que brilhou tanto na minha casa: despertar uma fé, confortar um medo, iluminar o caminho escuro e tortuoso que é o da tentativa sem sucesso, das falhas já sabidas desde a partida; mas a estrada precisa ser cumprida, o fogo diz. A luz de uma vela que não se apaga, os olhos vidrados na chama e o perfil alaranjado de uma mulher insone me ensinam que a confiança e a fé em alguém, é o que de mais bonito o amor concede. Que a vela dela seja tão duradoura quanto a da minha infância. Que a oração dela seja ouvida aqui, mais do que em qualquer outro lugar e que as suas intenções de pedido, graça ou agradecimento sejam atendidas na mesma medida da sua dedicação ritualizada. Eu hoje, não dormirei antes do sol sair, ficarei em vigília com ela, sem ao menos saber ao que pedir ou agradecer; meus olhos serão do fogo que a mulher da minha rua sustenta tão fervorosamente. 

  Eu poderia jamais saber da mulher do outro lado da rua, poderia não ter permitido que a fina chama da sua vela perturbasse minhas noites, poderia não lembrar da minha mãe e da geladeira azul da minha infância, poderia não me deixar atravessar por uma cena na primeira vez que a vi, nem voltar outras noites a uma casa sem convite dos donos, mas como já disse, não é escolha, é necessidade tantas vezes obscura. Uma chama sutil cruzou meu quarto e entrou na minha alma, que buscava luz na madrugada; agora eu não ando mais no escuro. Não nas últimas quatro noites.