domingo, 12 de janeiro de 2014

E, então, um homem chora

  Facilidade maior é a do esquecimento das belezas prosaicas e por isso, acreditar que todos os dias são iguais. Quando um evento de proporção e arrebatamento imensuráveis acontece, a gente não esquece: cometa, furacões, grandes tempestades, ou, mesmo, dor aguda, perdas significativas ou vitórias muito esperadas, nascimentos na família e o anúncio de grandes mudanças. Tudo é facilmente acessado anos, décadas depois, com requinte de detalhes, como se fora ontem o grande acontecimento. Mas as belezas cotidianas, essas, quando não passam completamente desapercebidas, recebem seus quinze segundos de contemplação e partem para o universo das grandiosidades desprezadas.

  O ano mudou há pouco, as resoluções já seguem proteladas, esquecidas ou com grandes dificuldades de ação, esqueço que há menos de duas semanas eu assistia deslumbrada o nascer e morrer dos últimos dias do ano. Esqueço do cheiro da flor noturna, esqueço do melhor som da vida, o das risadas, ora escandalosas, ora baixinhas, internas. E, de repente, a mesma sensação do ano passado, do anterior, do anterior ao anterior...E se nada mudou? E se o que mudou não fizer diferença alguma? 

  Aqui em casa, arranjamos um calendário de pedra sabão, artesanato de uma dessas cidades históricas, ele tem números correspondentes aos dias do mês, desenhados em cubos esculpidos, delicadamente, nas pedras, e os meses em retângulos que ficam abaixo dos cubos. Temos ele há três anos, é o mesmo, com uma ou outra rachadura, resultante de alguns incidentes. As mãos da casa é que o modificam diariamente, se alguém esquece, e esquecemos bastante, o dia no calendário não muda, fica o mesmo por dois, três, quatro dias, até que alguém se lembre de atualizá-lo. As mãos mudam os dias, mas o calendário é ainda aquele que comprei, de pedra dura, escura, inflexível. E ele  me lembra que os dias, no fim, são os mesmos e que a grande diferença está somente  nas mãos que modifica os números e não propriamente nos números.

  Hoje o dia é outro, do calendário de papel arranco a folha e jogo no lixo, aparece um novo número, brilhante, recém colhido do pé, vem cheio de promessas, de possibilidades e de belezas a serem descobertas. Mas a dinâmica do calendário de pedra é outra, me levanto melancólica do sofá e mudo um número no calendário mais duro, não há nada a ser descartado, viro o número que ainda usarei no próximo mês. 

  E só então, sento-me à mesa, mas antes de saciar a fome, um homem maduro chora à minha frente e é bonito, porque as suas lágrimas regam o dia seco e duro. Não resisto e também choro. Hoje é o dia mais bonito do meu ano, porque alguém chorou na minha frente. Hoje não é igual a dia algum, porque um homem chora no antepasto e eu o amo. As águas salgadas cessam e vamos à salada, minha fome era outra e foi saciada, não queria comida, precisava era de sentimento. O dia das belezas prosaicas chegou e eu fui lembrada não pelos calendários, mas pelo próprio acontecimento. Já não importam os planos, as mudanças, os dias ou as mãos que os modificam. Minha fome foi saciada por um homem maduro que chora feito criança e que eu amo. E só por esta beleza já valia meu brinde do almoço.





4 comentários:

Lili Cheveux de Feu disse...

Que lindo texto, Amanda! Especialmente "no fim, [os dias] são os mesmos e que a grande diferença está somente nas mãos que modifica os números e não propriamente nos números.". Acho que estamos com sentimentos parecidos hoje. :)

Beijinho.

Ana disse...

Eu acho que, não sendo uma pessoa de choro fácil e de exteriorizar sentimentos sei sempre quando tenho cumplicidade com alguém porque choro fácil perto dessa pessoa, mostro-me como sou sem medos, o amor também é isso. No caso dos homens é ciltural terem de ser os durões, ainda bem que isso cada vez mais é coisa do passado, até porque acho que as mulheres por muitas razões acabam sempre por ser as mais duronas, aturámos muito ao longo da história e fomos criando anticorpos, e quanto ao ano novo, eu gosto mais do dia novo:) dá mais esperança;) beijo

Amanda M. disse...

Obrigada Lili! Bom se sentir "compartilhada" no quesito sentimento!rs

Amanda M. disse...

Verdade Ana, acho que chorar diante de alguém requer muita cumplicidade...por isso a cena me parece bonita. Sim, os dias novos me parecem trazer menos responsabilidade e mais possibilidades que um ano inteiro...