domingo, 23 de março de 2014

A casa do menino

   Semana passada ele foi à China, disse que foi à China. Ele tem nove anos, mas pegou sua moto e resolveu que queria conhecer outro país. Ele é meu vizinho, quando o conheci era um menininho de cabelos enrolados, sorriso grande, dava os primeiros passinhos e agora foi para a China. A estória que ele conta para sua mãe é longa, cheia de pormenores - os chineses são educados, as ruas são limpas, " - Mamãe, lá não tem um papelzinho no chão!", a compra da sua "máquina tradutora", o valor da diária do hotel escolhido, cinquenta mil, " - O hotel mais caro que eu já fiquei!". E a sua estória me seduz. Paro com o trabalho, a pressa, abandono qualquer vestígio de um humor ruim, não vejo mensagens, não me lembro do celular, vou para China na garupa da sua moto.

  Ambos são muito tímidos, mãe e filho, mal me cumprimentam quando nos vemos pelas ruas, mas a proximidade dos nossos lares, minha audição sempre curiosa e essa necessidade de especular a vida alheia, me faz íntima da família ao lado. Escuto discussões, risadas, palavras amorosas, sinais de uma educação rigorosa, mas repleta de afeto; sou espectadora voluntária de uma família completamente comum, estes são os meus realities favoritos, sem show algum. A imaginação do menino consome, pelo menos, uma hora do dia da mãe e ela não o faz parar, pelo contrário, estimula, pergunta, dá asas ao sonho colorido do garoto e juntas, ainda que nem desconfiem da minha indiscrição, ouvimos peripécias deliciosas improvisadas, palavras nascidas e colhidas frescas. E eu o adoro, perdôo os gritos antes do banho, os desenhos no último volume nas manhãs de sábado, suas manhas, manias e birras; porque ele sonha bonito e me leva para sua viagem, em plena tarde de uma quarta-feira, até então, nada promissora.

  Depois da China, ele passou a morar no quintal; seu pai, um pescador de final de semana, precisou desamassar sua barraca de camping e a montou no quintal, fazia uma semana que o menino residia lá e era divertido: ele inventava proporções irreais, utensílios modernos inexistentes e visitantes frequentes, mesmo que aparentemente ele permaneça solitário. A casa e o quintal são os melhores lugares do mundo, para ele, melhor até do que a China. Ele passa o dia em uma barraca azul e amarela e parece ser aventura mais fantástica da vida de alguém. A mãe leva as provisões, a avó finge perguntar pelo paradeiro do neto viajante e o pai tem deixado de lado as broncas; o banho, o sono, a escola se mantêm na esfera real, mas o resto é por conta dele. Pois sexta-feira, quando ele chegava da aula, viu sua casa ao chão, o pai se preparava para sua empreitada e o menino perdeu sua casa. Chorou muito, alto e exaustivamente, levaram sua morada e uma parte de seus sonhos. Mas, nenhuma dor que perdurasse, o menino não é apegado às contrariedades da vida.  No mesmo quintal, inventou outra estória e daqui já escuto suas risadas.

  A verdadeira casa do menino, fica no quintal e tem paredes pouco seguras, não importa, o menino mora na felicidade. E se, por um acaso, tiram-lhe o que lhe parece de mais precioso, ele chora um pouco e, logo,  constrói novos valores, porque seu verdadeiro tesouro ninguém alcança. Meu vizinho não é o Peter Pan, mas vive em mundo maravilhoso e desafiador, ignora as impossibilidades, fia cada sonho com linhas seguras, mas flexíveis; sua casa azul e amarela não sobreviveria a uma hora de tempestade, mas e daí? Quantos de nós sabem como construir as paredes que mais importam? A casa azul e amarela é a mais imponente e valiosa obra arquitetônica que alguém pode possuir, o menino tem nove anos e já sabe disto, tomara que ele não esqueça.



2 comentários:

Ana disse...

que a capacidade de sonhar nunca nos abandone, é uma das coisas mais humanas que temos e, como se diz na Amélie, estes tempos estão dificeis para os sonhadores...

Amanda M. disse...

Essa frase de Amèlie é das mais certeiras...