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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Incendiária

  Não era arrependimento disfarçado, não era um projeto de vingança pelo irrealizado, nem era desejo de  fuga. Mas uma visão, ainda incompleta, de recomeço sem muita carga das histórias passadas, sem a sombra das falhas ou dos sucessos que agora pareciam sem sentido, sem o olhar muito arraigado dos outros que diziam o que ela era e ela acreditava que era aquilo que viam. Era um sonho de partir sem nome que soubessem, sem os trejeitos e as respostas que esperavam que partissem dela. E se não esperavam, podia criar novos jeitos. Reinventar o que era e não podia saber.

  E na visão que se repetia sempre, abriria a porta com muito jeito, a cada volta na chave, o corpo esquentaria um pouco mais, não era incômodo, era aconchego, era a proximidade com uma decisão muito acalentada, era o calor da vida abrasadora que circularia nas entranhas e daria força e coragem. Depois que a porta se abrisse, entraria suave, mas pisadas firmes, com resolução e caixa de fósforos nas mãos, abandonando todos os medos. O  litro do inflamável  ficaria à porta, à espera, sem pressa de arder e instalado como um marcador da volta. Seguiria lenta pela casa, lívida, se despendido sem lágrimas do que diziam ser dela, mas ela rejeitava a condição de permanente; de pronta. Perscrutaria cada canto, assistindo uma existência que ruiria, no lugar dela. Abriria portas, gavetas, descobriria os esconderijos que ela sorrateiramente colecionava - ali sim, talvez tivesse um pouco mais dela - para facilitar o trabalho seguinte, ela areja o ambiente. Saboreia lentamente a plenitude do abandono escolhido.

  As fotos, os livros - aquele com a página dobrada que nunca terminaria, não aquele - os copos sujos na pia, os lavados na bancada, as garrafas de bebida pelo meio ou fim - quase nenhuma permaneceu intacta - as três plantas na cozinha - uma espada de São Jorge e duas bromélias - o revisteiro de palha, as três cadeiras altas, o Buda, o São Francisco e o quadro de Shiva na parede do corredor. As quatro ou cinco cenas que se revezavam a cada porta aberta - uns inícios, uns finais, algumas incompreensões. Tudo poderia ser vencido, o fogo era a cura, o remédio, as horas economizadas com o analista, as centenas de noites insones; as chamas eram a libertação, enfim.

  Depois da passagem pela  casa inteira, voltaria ao combustível repousado na entrada e molharia cada parte revisitada, como num ritual: lento, paciente e cheio de devoção. O líquido que caía sobre cada coisa - objeto ou lembrança - era a uma definição, um fim, o passo para o outro rumo, novo, sem vestígios impregnados do abandonado ou possibilidade de recuo. Acenderia o fósforo, largá-lo-ia na trilha molhada, preparada para o término.

  O  fogo se alastraria por cada memória, cada visão equivocada de si, fundamentada nos olhares dos outros. Éramos nós e as nossas sortes perdidas, talvez valesse um resgate improvisado de uma só coisa da casa, algum patuá, uma imagem, um livro, um nada para dar mais materialidade à despedida e o fogo queimando atrás. Um caminho a ser descoberto, limpo, livre dos excessos, logo mais adiante.
 
  Não era escolha, não era a intenção de uma justiça ilícita, de uma resposta irracional.  Era fogo ardendo, saltando de dentro  do corpo, saindo das mãos, aterrissando no concreto e destruindo as marcas de um  não-ser. O fogo queimando atrás e a chave na porta rodando cada volta, com a suavidade de quem acaba de nascer. Chegar ao mundo depois do fogo, pela desordem da correria atrás, pela confusão da fumaça, pelo calor da brasa; agora é um início, aquele sem nome, sem os enredos muito conhecidos. A incendiária tem no fogo o seu renascimento cumprido.





sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Do chinelo que não se esquiva

  Inevitável são as despedidas que fazemos todos os dias, sem nem nos apercebermos delas. Passam por nós, às vezes, muito sutilmente, atravessam as portas sem o mais discreto barulho nas maçanetas, passam astutas por entre as nossas  pernas, não tocam os móveis, nem se atrapalham nas curvas, nos abandonam sem bilhete de adeus. Outras, na fuga, estouram como foguetes, fazem um alarde sonoro muito rápido, até vemos que algo nos deixou, mas os olhos só alcançam o clarão, o contorno disforme de alguma coisa que não se vê. Todos os dias passa por nós algo que precisa mesmo partir. Porque não há mais lugar, porque não podem conviver com outras escolhas, porque não fazem mais sentido repousarem sobre os nossos pés, sem nos deixarem o caminho livre para outros movimentos.

  Todos os dias desabam sobre nós infinitas possibilidades que quase não enxergamos. Porque são escolhas  singelas de aparência, cuja profundidade talvez perceberemos  muito tempo depois, num insight, numa lembrança às três da tarde de um sábado, durante uma conversa banal sobre o clima. Não há como desviar do risco da perda e do desafio do novo, ambos estão entrelaçados conosco desde o nosso primeiro choro até o suspiro derradeiro.

  Há dor, eu sei. De não querer soltar o acostumado, de ter que deixar partir uma companhia muito íntima, de não suportar imaginar uma continuação sem as mesmas testemunhas. Há desconfiança também; sempre. De abrir espaço para o desconhecido, aquele que já nasce para surpreender, desacomodar, desequilibrar os pratos todos. Penso nas duas despedidas do dia, as duas passíveis de entendimento só agora antes do sono, mas possivelmente não são só elas. Talvez haja uma sorrateira sutil que não pude compreender e a fugidia que eu não tenha conseguido enxergar. Mas estarão ambas marcadas na minha história, ainda que eu não queira recordá-las.

  O homem no ponto do ônibus tinha um rosto transtornado, as mãos muito sujas e uma situação de completo desamparo. Atravessava a marquise de uma ponta a outra com um chinelo numa das mãos e o outro no pé, calçado, como se tivesse, o das mãos, arrebentado. No ponto abarrotado de gente muito ocupada, eu seguia seus passos atrapalhados e só na segunda  volta percebi que em cada ponta do circuito ele trocava os chinelos: calçava o que trazia na  mão e segurava o que antes, estava no pé. Não havia problema com o par de calçados dele. O homem repetiu a operação compulsivamente dezenas de vezes, enquanto estive a espera do meio que me tiraria dali. Ainda, ao entrar no ônibus, eu pude ver o topo da sua cabeça abaixada, pegando o chinelo que atravessaria o ponto na mão dele. Eu chorei.

  Não achei engraçada a sequência tão desajeitada e despropositada dele, não tive medo da sua condição mental, nem repugnância pela sujeira incrustada em cada uma das suas unhas, que vi bem de perto por um instante, nem dos dentes pobres. Mas me senti tão identificada com o desamparo dele, tão pertencente ao universo daqueles que não sabem lidar com as despedidas, tampouco com a novidade. Cada vez que ele trocava os chinelos eu sofria com ele. Queria ter dito algo, queria ter me comunicado com ele, mas não pude, porque, no fim, eu também continuo atrapalhada com o meu par de chinelos.       

  Mas homem, acho que algumas possibilidades precisam morrer para que outras sobrevivam sem serem sufocadas pelo ar viciado do antigo. A despedida é, tantas vezes, o melhor caminho. Soltar os dois chinelos no chão e assumir o risco das mãos vazias para sempre. O homem da rua não sabe disto, mas é preciso colocar os dois chinelos em jogo ou suas idas e vindas serão para sempre em vão. Só os riscos permanecem, o resto são chinelos que precisam ser gastos e, algum dia, substituídos.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Não era eu

   Não era eu a atrasada, não era eu quem carregava na bolsa um amontoado de contas com dinheiro pra pagar só a metade delas; a escolha, portanto, não era minha. Não era eu a pressionada pela biologia a ter filhos naturais nos próximos meses, pelos mais velhos a economizar para o futuro, pelos amigos a sair de casa em busca de novos ares. Não era eu quem olhava pela janela do ônibus, na cidade sempre solar e hoje tão cinzenta, buscando fora o que não queimava por dentro. Não era eu.

  Não era a desesperada, cansada, vestida numa malha cinza de ginástica e tênis de cores cítricas, com o cabelo preso num elástico preto, no figurino completamente deslocado do cenário interior; não era eu quem não queria estar atlética hoje. Não era eu quem olhava para os outros bancos e desejava ser a pessoa que ocupava esses outros bancos. Não era eu quem intimamente imaginava que o motorista perdia a direção e seguia infinitamente pelas avenidas da cidade, adiando, assim, decisões, conversas, prestação de contas e admissão de culpa ou absolvição definitiva.

  Não era eu quem olhava para a aliança amarela no dedo magro da mão esquerda e pensava se ela permanecia tempo demais ali. Não era a que sabia que a dor não duraria e mesmo assim, não queria descer no próximo ponto, nem no próximo, nem no depois de todos os próximos. Não era eu quem fatalmente chegaria ao ponto final, desceria do ônibus e pegaria um outro para atender ao compromisso ao qual estava atrelada. Não era a que se questionava se era preciso mesmo manter-se ajustada a tal laço.

  Não era eu quem não pegaria a sombrinha, que enfrentaria os pingos de chuva, atravessando a cidade pelas marquises, invadindo as beiradas de sombrinhas alheias, desviando de poças d'água e afundando os pés em algumas delas. Não era eu quem não queria tomar decisões, mas, ainda assim, corria ao encontro delas. Não era a observada pela mulher em pé, aquela com ar de superior, sorrisinho de lado, contemplando a cidade que só sabia chover, quem me via começar a chorar e talvez não conseguir mais parar. Não era eu a imagem da mulher desiludida, do livro da Beauvoir, que li no começo da vida adulta, por duas vezes, achando-o inédito.

  Não era eu a última a descer do ônibus, tarde da noite, numa alameda desconhecida, sem bateria no celular, pedindo informação ao motorista e chamando um táxi para me levar em casa, morta de medo e constrangimento. Não era eu a me perguntar no carro, se teria dinheiro para a corrida, se teria casa ainda, se voltaria à academia, teria um filho no próxima primavera ou se atiraria a aliança em algum bueiro da rua.

  Não era eu quem tinha abandonado as aulas de francês, porque a pós-graduação aumentaria o salário, nem o buldogue alemão na casa da mãe, porque o apartamento novo era pequeno, antes tivesse permanecido no velho, onde o cão a fazia sorrir. Não era a mulher dos mil sapatos, sem ter lugar para usá-los, nem a mulher de trinta amores, que guardava duas ou três memórias realmente amorosas. Não era eu essa mulher. 

  Não era eu a que duvidava, protelava, amargava uma decisão que já estava tomada há tempos, mas ainda difícil de assumir. Não era a mulher da roupa de ginástica que não precisava de aeróbico algum, mas correr, correr em direção e não mais contra. Não era eu aquela que quando chegasse em casa não falaria sobre o clima, nem a chuva que atrasou o trânsito, mas perguntaria: - Quanto tempo ainda temos para o nosso sonho?

  Não era eu a triste do último banco do ônibus, a melancólica,  a chorosa do tênis chamativo ou a decidida, a consciente dos sucessivos abandonos próprios, a desencantada que queria arder de novo. Não era eu a observada pela outra que talvez se identificasse e quisesse vir ao meu consolo. Não era eu a mulher do ônibus, na segunda, mas podia ser. Sempre podemos ser o alguém do outro banco, que não quer muito chegar em casa tão rápido.



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eles que não desmoronam

  Que não voltam atrás nunca,  já saem de casa com uma decisão tomada, que não se desviará nem com os apelos, as considerações ou perspectivas que não sejam as das suas janelas. Eles que não duvidam nunca, que pisam com os dois pés em qualquer solo, sem olhar para baixo, sem se preocuparem com os deslizes, os declives e obstáculos, sem conferirem o mapa.  

  Que só respondem em juízo, cujas assinaturas são firmadas em cartório e asseguram seus relacionamentos por contrato. Eles que precisam de testemunhas, de veracidade dos fatos, que não acreditam em fábulas, boas estórias, que não reconhecem no fantástico uma parcela de si, eles que evitam a todo custo o absurdo - como se viver já não o fosse. Que são os únicos merecedores, são também os injustiçados, os que sempre pagam o pato, porque, eles dizem, confiaram em quem não deviam e deram mais do que receberam; eles que anotam na agenda cada segundo de tempo que acharam dedicar ao próximo.

  Aqueles que se dizem pacifistas, mas provocam até o outro estourar a bomba que trazem consigo, para depois lamentarem: - São uns descontrolados esses outros.
  Eles que não se deixar convencer por bons argumentos, que nem sequer ouvem a voz que não é deles, que balançam a cabeça e parecem interessados, mas que, no fundo, já agarraram sua própria verdade. Eles que não atravessam a rua sem um motivo definido, que não demoram na frente dos cardápios, que na fila para um pedido ficam impacientes com a dúvida alheia. Eles que não choram por uma foto rasgada, não se culpam por terem chegado depois da hora e perdido os olhos brilhantes de alguém, no segundo que faltaram. Que não pedem perdão pelas escolhas erradas, que não se arrependem nunca do caminho escolhido, que nem se demoraram numa encruzilhada. E dizem sempre,  que não gostariam de estar em outro lugar senão este; que nem ao menos, imaginam outros lugares e vidas.

  Eles que não despertam do lado errado da cama, que não rejeitam as refeições depois de uma notícia ruim na TV, que não atropelam palavras, que não matam suas vontades, mas alimentam-nas cada vez mais, para quem sabe um dia satisfazê-las. Eles que não rompem definitivamente e, depois de segundos, voltam atrás, já curados do ressentimento. Eles que não gaguejam na apresentação, que não se enrubescem depois de um elogio ou esquecimento, eles que não suam ou choram de gratidão.

  Eles que não trocam os nomes, não esquecem as datas, que marcam de verde cada compromisso cumprido. Que  não perdem nos ônibus os fones de ouvido; nas mesas dos consultórios, não esquecem os óculos; que nas salas de cinema, os celulares não tocam. Eles que não parecem perdidos, que não pedem informações aos desconhecidos, nem molham a barra da calça nas poças d'água em dias de chuva. Eles que se cercam de certezas, que desprezam os indecisos, que só conhecem o caminho feito a cabo, sem paradas antes do final, curvas inesperadas ou a desistência assumida.

  Eles que não conhecem o sentido do renascimento, porque têm medo da morte; que estão sempre na direção para evitarem os atropelamentos pelas incertezas, que dirigem seus carros sem pararem no amarelo dos semáforos, que não sucumbem aos artistas do asfalto e passam por eles sem nunca olhá-los pelos vidros escuros.

   Eles que não desmoronam e que, por isso, são os mais tristes; que não conhecem a vida que desmancha por entre os dedos e, mais tarde, se refaz como escultura na areia, ganhando forma, para, sem saber quando, voltar a cair. Eles que não desmoronam, cimentaram os olhares dos outros e os próprios, pavimentaram os terrenos movediços do qual a vida se alimenta  e sofrem muito por não saberem que depois que uma onda nos desmancha na areia, é possível que no próximo dia de sol algum par de mãos nos levante como um castelo fabuloso. Eles que não desmoronam, não conhecem a felicidade de se dissolverem e depois voltarem sólidos, líquidos ou um ar sem direção. Eles que evitam o que não conhecem, não poderão experimentar outros estados.



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Quando não é tombo, mas queda

   Depois de uma primeira trilha, foram aprendendo que mais do que chegar ao topo, o que se conquistava
na subida era a preciosidade que só eles teriam acesso, não como um grupo que assiste a um mesmo pôr do sol, mas como um indivíduo cuja perspectiva da despedida de um dia é singular e intransferível . Então, escolhiam a montanha, descobriam os melhores meios de chegarem ao sopé dela, buscavam outras informações básicas, marcavam no calendário os dias possíveis para o propósito, economizavam na bagagem e seguiam com um risco projetado.

  Subiam, no começo, contemplando a paisagem deixada para trás, porque não tinham urgência, porque olhar para um passado, àquela altura não era fraqueza, vulnerabilidade ou um tempo desperdiçado. Mas era, sobretudo, seguir sempre em frente, sem os rastros de melancolia, para outros instantes, compreendendo a grande beleza que ficava por trás de seus ombros e ainda assim não desejar fixar acampamento ou mesmo desistir do cume, por uma paz provisória dos inícios. Porque o melhor caminho do ir é mesmo este: saber que o que ficou era deslumbrante, mas, ainda assim, desejar a busca.

  Depois, chegava aquele tempo do cansaço ir abreviando os olhares. As pernas começavam a ter menos certezas e por isso se locomoviam menos seguras e mais lentas, como se não soubessem se desejavam seguir ou permanecer, elas ganhavam vozes e aprendiam a lamentar por cada músculo, exigido ao extremo. A respiração, às vezes faltava, o coração acelerava  mais do que as batidas já conhecidas e os pés, adormecidos pela pressão, tinham muitas bolhas. Os passos começavam a vacilar, os tropeços aconteciam do nada - não havia a necessidade de obstáculo exterior algum, os passos encontravam no próprio corpo o empecilho para o equilíbrio.

   Exatamente a esta altura, a viagem se complicava e a dureza de avançar era, finalmente, reconhecida. Era então, preciso não olhar mais para trás, por medo de fracassar, de não querer abandonar o cômodo, o visto, o profundamente integrado e  ir em direção ao desconhecimento máximo do alto. O chão e os pés tornavam-se os lugares menos dolorosos aos olhos. Só quem olhou os próprios pés devastados, por muito tempo, sabe que a autocomiseração é quase inevitável. Então aí, é que homem está prestes a fracassar, porque tem pena de si, num ponto alto do caminho, o que se torna quase imperdoável em qualquer batalha.

   E nesta luta de tempo, memória, músculos, força e também delicadeza, chegam a cair. Não é um tombo; não é simples e rápido. Os tombos são passageiros, tomba aqui e logo vai se abanar da poeira sobre a roupa, ajeitar a bagagem nas costas novamente e seguir sem muitas feridas. Tudo dura um instante muito breve.

   Com o cair, não. Cair demora, cair se estende até a terra se entranhar nas roupas, atravessá-la e ir ao encontro da pele, do ferimento. Cair é longo, os companheiros de trilha até assistem, mas nada podem fazer; o viandante chega a prever a queda, mas não pode evitá-la. Afinal, o cair é também uma fração da trilha.

  Mas quem caiu sabe que, mais tarde, uma hora ou outra, em algum momento, terá a recompensa da chegada à pedra máxima.  As quedas precisam ser superadas, numa trilha. Dura até a resolução, o entendimento do sentido da luta ou os músculos se sentirem mais aliviados; cair, por vezes, é uma gentileza do destino com o viajante extenuado. A queda que mostra a paisagem, que resgata a memória e abastece de desejo ao explorador iniciado. A partir da queda, refazem itinerários e estratégias; repensam as rotas, reescrevem  os planos de chegada e rememoram as paisagens ultrapassadas. O cair é ao mesmo tempo físico, porque chegamos ao solo vermelho, duro e limitante e, também, interior, cair em si mesmo, nos próprios abismos ignorados da  alma percorrida .

  Ao final da trilha, do alto da montanha, a queda vencida não é mais lembrada, mas ainda assim, ela está lá: na poeira, nas feridas, no corpo maltratado, na rota refeita. As quedas duram muito e nos acompanham mesmo quando estamos de pé; as quedas  nunca acabam. E, mesmo depois de levantarmos continuamos, para sempre, caindo. Mas, enquanto caímos: - Olha e vê, daqui de cima tudo é tão bonito!




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A cor vermelha dos pés

  Às vezes você caminha muito rápido, sem nem saber para onde. Ainda assim, não diminui o passo, porque acha que independe saber o destino, na esperança cega de que seja ele a lhe reconhecer. Como se houvesse um chamado, ouvisse uma voz e, esquizofrênica, você segue, obedece, não por submissão, mas por parecer a única alternativa; como se outras vozes nunca mais a buscassem, por isso se agarra a esta. Anda rápido, tanto, que nem vê a paisagem, esquece as esquinas, supera os obstáculos, mas nem ao menos comemora, afastando pequenos prazeres, evitando convivências muito aprofundadas, porque despedir-se custa tanto. Dorme e nem sonha, cansada, só planeja a rota para o dia seguinte, como se um lugar a esperasse. E esse sim valesse cada ferida de um pé adormecido pela obstinação. Não há chuva forte o bastante, que desabe a resolução de não desistir, não há sol abrasador, que queime mais que o desespero de um destino que a reconheça, nem escassez de água ou comida, que alimente a sua vulnerabilidade, tudo o que não quer é estar sujeita ao que não seja a voz.

   Só o vento, quando é muito forte, que a faz ver a estrada de outro jeito, faz pensar se o caminho deve ser seguido assim mesmo, tão firme, tão na marra, ser esse domador que nunca se conforma em ser vencido pelo cavalo cheio de liberdade. Porque o vento é o único a abafar a voz de fora e a guardar algum silêncio, o vento é o único que engana os caminhos, faz o desvio da rota, obriga-nos a buscar um refúgio, a  fechar as janelas e espremer os olhos, como precaução para mantermos as pupilas livres dos arranhões; por isso é que na ventania nos acostumamos a ver o mundo por frestas, nunca inteiro. E o caminho, assim, parece outro, os detalhes se ampliam, o mundo em volta precisa ser visto e colado, feito um quebra-cabeças: uma peça de cada vez, até entendermos ele inteiro de novo. Só uma tempestade de vento e areia relativiza a decisão.

  Na pausa forçada, a voz é, finalmente, questionada: - E se não existir um destino? E se ele existir e não me reconhecer? Se na precisão da corrida eu o perdi de vista, se passei por ele e não ouvi o seu chamado? Se a voz que eu persigo não for mesmo a certa? Será que eu a invento? Por que é que já nem sinto os meus pés?

  E, agora, parada no silêncio, no abrigo de janelas fechadas, salva, brevemente, da voz que obedece, olha para os pés. Tira o sapato e só então é capaz de perceber o sofrimento que obriga à própria existência. As feridas  ignoradas que ainda sangram, as cicatrizadas, das quais nem se lembrava mais. Os pés que resignados seguem a dona, os pés que não pedem descanso, que não se negam à caminhada forçada, que não a abandonam na jornada desesperada, os pés que nunca a deixam desamparada, que calados seguem a obstinação que desconhecem. Vê-los frágeis devolvem-na a dimensão da luta na qual se instalou, ver as bolhas rosadas, a carne viva nos calcanhares devolve-lhe a noção de vulnerabilidade e da loucura que talvez seja essa caminhada obstinada demais.

  Tirar os sapatos foi seu renascimento, doeu e como doeu estar descalça e sensível, de novo, no meio do nada! Mas é que, às vezes, o parto não acontece natural, ele precisa ser feito a fórceps, porque ser sugada por um ferro gelado é sorte maior do que morrer no desconforto acostumado. Agora já não caminhará mais com tanta pressa, não perseguirá uma voz ou ideia de destino que a reconheça. Vai cuidar dos pés imersos em água salgada e vai, aos poucos, abrir as janelas, depois da tempestade de vento. E será grata, quem sabe,  às feridas, aos sapatos abandonados e ao vento que lhe devolveu a paz dos passos sem pressa. A cor vermelha dos pés trouxe-a de volta a um caminho de paz e entrega relaxada, mesmo sem destino.

  A gente nunca sabe aonde uma escolha nos levará ou onde nos deixará. Nem se ela nos prende a ela ou nós é que nos aprisionamos ao seu fardo.




sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Moça com o brinco de flamingo

  Mergulhada nas minhas próprias ondulações, jogando pedra atrás de pedra, provocando e assistindo a minha agitação, depois de cada duro pensamento jogado na calmaria. Absorvida em planos urgentes de uma confissão que é adiada por interrupções inesperadas, falta de ouvintes ou ocasião apropriada: a frustração diária de não poder partilhar uma descoberta, um segredo, um desabafo, seja lá o que essas pedras são. Como a fuga irrealizada na infância, infinitamente interrompida. Nunca chega o dia dela e os planos, aos poucos, perdem o sentido. Não fui a andarilha que a criança sonhou; ela odiava a ideia de, um dia, ser cativa.

  Absorvida por cada perturbação nas águas; entregue às pequenas ondas, nem via cada pessoa que se postava ao meu lado no ônibus, não enxergava para além das minhas margens. Sem bancos vagos, conformada em fazer o trajeto em pé, ignorava o que não era meu, o que não fazia parte do meu lago sacudido. Mas, então, uma ave rosa me salvou do que não era paz, roubou as pedras da minha mão e me trouxe para ela: a moça com o brinco de flamingo. Falava alto, a dona do flamingo, e sorria, gargalhava muito e dizia palavrões tão docemente, que ninguém, penso, se ofenderia muito.

  A ave  rosa presa na orelha, era um assombro, um desafio, uma beleza que delicadamente me afastou de mim e me tomou para a alegria inesperada de um final de tarde, de uma quinta-feira. Um flamingo balançando sobre os ombros de uma moça, se enroscando nos cachos dela, brincando de se esconder do meu deslumbre. Não queria saber de que era feito o flamingo, quanto valia como mercadoria, se a moça  tinha-o comprado na cidade ou não, só queria mesmo vê-lo nela, ambos tão sintonizados, harmônicos, filhos únicos um do outro. O flamingo era o distintivo dela, imprimia a sua identidade infinitamente particular,  sustentava sua individualidade, enquanto ela exibia a elegância de um flamingo.  

  A moça do brinco de ave colorida, era tão absolutamente única, tão ela, tão reconhecível, que eu a invejei. Passei a pensar o lugar em que havia perdido o meu flamingo e agradeci por não ter me sentado ao seu lado. Porque se sentasse, possivelmente falaria do brinco e ela olharia com desdém para mulher de preto e branco ao seu lado. Colocaria uma das mãos no brinco e o protegeria do meu olhar comum. E eu argumentaria, defenderia a minha figura banal: -  Mas moça, eu era tão ousada, tão certa da minha individualidade, nem mais bonita ou jovem, mas mais brilhante, compreende a diferença? No espelho, eu reluzia e agora sou esse borrão cinza, sem forma nenhuma ou na mesma forma que as outras. Eu tenho um segredo e não encontro a quem contar. Eu tinha uma personalidade, que acho que desaparece um pouco a cada dia.  Mas moça, eu não desejo bolsas, nem sapatos caros, tampouco vestidos de estilistas famosos, queria um brinco que me fizesse tão plena e luminosa quanto você.

  Ao descer, coloquei as mãos nas minhas orelhas com ornamentos que eu nunca gostei, mas coloquei na falta de outros melhores, por pressa, preguiça ou desleixo voluntário e prometi jamais usar de novo brincos que não dissessem quem eu sou ou, ao menos, quem eu gostaria de ser. Como alguém  pode sair de casa, como se não buscasse alguma felicidade pelas ruas? Como alguém pode entrar num ônibus e se parecer com tantos outros? Como alguém pode não ser uma luz? A moça dos brincos de flamingo tão perturbadora quanto a moça das pérolas de Vermeer atravessou minha noite vazia e me fez desejar ser reluzente de novo, um dia. Antes de dormir eu quis chorar pelo flamingo que eu perdi e que tantas outras nunca terão, por não saberem dele. Adiei minhas súplicas, como as fugas e desisti, por hora, de um ouvinte disposto, quero o meu flamingo e nada mais; ele me basta e eu a ele.



sábado, 10 de outubro de 2015

Desconhecemos o que já habita

  Amassa os dedos da mão e estala, por vezes um de cada vez, outras, todos de uma mão juntos, ecoando pelo ambiente um barulho nervoso, espécie de cartilagem sendo comprimida, esmagada. Se não são os dedos sacrificados são os pulmões, sorvendo a fumaça calmante da nicotina, que afasta companhias, mas habita a solidão que é estar a espera de qualquer coisa. Álcool e comida também distraem os vazios, os medos e  desconfianças de ausência; talvez chegue daqui a dois minutos, talvez mais, mas pode ser que também não venha nunca. Enquanto não acontece, mais um dedo, um trago, um gole, um pedaço que conforte.

  Esperar ser ou ter é se humilhar diante de um cruel e imperioso destino. É passar de um estado de  suspensão para, no máximo, de acomodamento. Esperar e não ter é uma queda da qual se levanta mais forte e experiente; esperar e ter, exatamente aquilo que se esperava, é se decepcionar com a limitação da realidade. Melhor então é não esperar ou na impossibilidade da distração, valorizar as chegadas inesperadas, mas providenciais.

  Frequentemente o que nos dão sem pedirmos é melhor do que aquilo que esperávamos. Porque vem sem expectativas e por isso, já nasce leve, gaiato, regalo despretensioso. A direção fora da estrada é caminho mais livre de placas, avisos, sinalização. Pare, olhe, contemple.

 Quando esquecer, vai ser. Pode apostar. Porque nada é mais favorável ao destino do que a distração, a falta de preparo, de jeito. É no imprevisto que encontramos a novidade, o caminho possível, que sempre esteve ali, mas nunca antevisto.  Na espontaneidade que os sentimentos afloram, na ausência de obediência aos planos, que a vida que não escolhemos, mas que cabe bem melhor ao que somos, existe.

  Se espera o leite ferver, vai sempre demorar mais. A correspondência muito aguardada é que atrasa a vinda do carteiro. Os olhos insistentes num só lado, perdem uma infinidade de acontecimentos bonitos, porque o essencial passa bem longe dos planos. Caminhos sinuosos, estradas em curvas, mudança de rotas e imprevisibilidade de destinos; nada escapa ao descontrole da vida que corre às margens do esperado.

  Aperta os dedos com mais força, dá uma tragada profunda no cigarro, busca o copo e vira o conteúdo na garganta sedenta de um resposta que teima em não chegar; mais um pedaço, um prato, uma colherada que sossegue o coração que sonha em alcançar um final, que na certa não existe. O fim é areia do deserto, que o vento muda a cada impressão de chegada. - Mais a frente, vai! Corre mais um pouco, agora pra lá, vai! Não chega nunca, mas continua perdido entre areias, buscando algo que sempre escapará.

  Esquecer não é aprendizado barato, nem conselho que se possa dar e, principalmente, seguir. Mas aproveitar o deserto, mesmo que nunca se apanhe a areia sonhada é possível. Contemplar uma duna, se entregar a ventania e agarrar, trazida por ela, aquilo que não se esperava, mas faz todo sentido agora que se tem nas mãos.

  Enquanto esperava apertando os dedos, olhou pela janela e viu uma paisagem imensa, que serenou a intranquilidade da chegada protelada. "Pode não vir. Pode não ser. E o céu é tão bonito". Libertou os dedos e esqueceu, ao menos por alguns minutos, daquilo que esperava ser ou ter. Largou o copo, o cigarro, o prato e se surpreendeu com o que já se instalava ao seu redor. Ilhado por uma infinidade de tesouros recém-descobertos talvez tivesse muito mais do que pudesse sonhar. No desamparo da espera, não tinha reparado no oásis no meio do deserto no qual vivia há tanto tempo.





domingo, 20 de setembro de 2015

Entre brejo e nascente

  Ser constante e ao mesmo tempo intermitente; frequentar o superficial, mas também saber escorrer aos subsolos mais sedentos. Recolher-se às paragens, quando seguir solicitar mais forças do que as guardadas, recuperar-se em açudes calmos, até os ânimos voltarem e permitirem o correr solto pelos caminhos intranquilos, perigosos, trajetórias livres de previsibilidade. Passear pelas zonas temperadas ou tropicais, mas não permitir qualquer vínculo que aprisione.

  Ser água e ultrapassar obstáculos sem alarde, quando possível. Ser água e levar embora o que não tem mais serventia, senão atrapalhar o semear de um futuro. Apagar labaredas ensandecidas. Transportar objetos, pessoas, seres que precisam ganhar novos espaços; ser condutora, propulsora, ponte de encontros entre dois separados que se necessitam e terminado o trabalho, seguir sem retorno. Empurrar, arrastar ou segurar, quando o tempo ainda não for para saída.

  Transpor barreiras, ora delicadamente, gota por gota; ora impetuosa: destruir, romper e conquistar por força desumana. Nunca voltar atrás; ter seu tempo em cada lugar, sem repetição ou segundo olhar. Esvaziar-se completamente na prosperidade e aprender a ser completa quando estiver cercada de miséria . Não esbarrar sem propósito, ser obstinada e, num mesmo tempo, inútil. Ser só água. Sem para, onde, quanto, quando e como. Água.

  Integrar-se  aos sentimentos,  afogar mágoas, arrefecer iras, espalhar partículas que se querem muito agregadas e que por isso, barram os desejos de circulação, transportar sinais até  sucumbir aos olhos em forma de líquido marítimo. Ser água e cair como dádiva nas relações ressecadas pelo descuido do tempo, exposição ao calor intenso, esquecimento sob sol implacável.

  Ser água e jamais permanecer muito tempo numa mesma forma; mas ultrapassar estados. Congelar-se sob temperaturas muito baixas e passar ao tempo de ser  sólido, duro, experimentar o toque, o exercício da submissão ao que tem mais força; deixar os dedos experimentarem o gélido. Ser fluida e passar pelos caminhos de jeito suave, líquida, aplacar todas as sedes. Aprender a ser leve quando o ar for abrasador e evaporar-se, não ser mais visível, mas ainda assim estar plena, ser água ainda.

  Frequentar os brejos cinzentos, enlamear-se, viver com e pelo barro e, assim,  alimentar outra espécie viva. Ultrapassar os caminhos escuros, abandonar o brejo, o odor fétido e seguir rumo à purificação, deixar rastros de elementos, de composição, de outras fontes e buscar o começo de tudo - mesmo sabendo que o início é sempre outro e nunca aquele de onde veio - voltar a ser nascente.

  Fluida, dura, leve, implacável, suave, arrasadora ou delicada. Ser múltipla e uma só.  Aprender a continuar depois de cada curva, não morrer nunca, mas transformar-se noutros estados, quando não houver jeito de continuação. Seguir ao fim e ultrapassá-lo,  para ser início e correr de novo outros riscos que nunca terminam. Ser água e aceitar o destino da passagem.




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Fadada às asas

  Vê-se que pensa em algo, enquanto olha para fora. Talvez não saia porque chove, talvez pense que não há o que fazer agora na rua molhada ou até, para sempre, mesmo quando a rua estiver já seca não virá. Ela é uma senhora com alguma dificuldade de locomoção e divide a casa com uma irmã. De início, confundia as duas, porque estavam sempre juntas, moravam na mesma casa e se pareciam bastante. Mas, hoje, reconheço-as, percebo as diferenças sutis que demarcam suas identidades e pela mulher que vive a espreita na janela sinto uma afinidade profunda e singular; mesmo que a cada dia mais, seu contato com o mundo fique restrito às janelas de grades cinzas.

  Os olhos pretos brilhantes sorriem mais que os lábios, que parecem se alegrar com atraso, mas nada de sorrisos rasgados e muito aparentes; alegria discreta e muito juvenil, ainda, felicidade de descoberta. Encontrava-a, ela sempre junto da irmã, muitas vezes pela rua, ambas ativas, ela sempre na frente, cuidadosa com a mulher que parecia mais frágil. Depois, passei a ver a sua irmã sozinha nas idas à padaria, ao supermercado ou à loteria. Enquanto ela permanecia no jardim da casa ou na calçada, tomando sol, com uma bengala caída ao lado. Mas nos últimos encontros, vejo-a de espectadora da vida tediosa desta rua. Os olhos ainda brilham, mas a descoberta parece não ser mais uma missão, envelheceu dez anos, minha vizinha, nas últimas semanas.

  Penso se terá perdido a mobilidade, antes do encanto pelas novidades possíveis ou se foi o contrário, que aconteceu com ela: primeiro os olhos se aquietaram com o mundo e só depois,  as pernas é que cismaram com o sossego. Ambos me parecem demasiado melancólicos, mas o segundo, me desinquieta bem mais.  Porque não acho que é escolha nossa a paz ou o desassossego, penso que nascemos mais para um ou para outro. No caso dela, a placidez é forçada, a mansidão é condição fabricada, nos olhos pretos vejo mais luta em permanecer do que entrega em continuar a ser o que sempre foi.

  Porque liberdade, acho, não é opção que caiba sim ou não, é condição que segue desgovernada numa  ladeira inclinada. Quando nos damos conta do desvario, saltamos numa corrida sem planejamento, sem cálculo antecipado, em busca de uma possibilidade de salvamento, na luta desesperada de retomarmos o seu controle, que na verdade, nunca esteve sob tutela nossa. Mas corremos, corremos muito, como um menino atrás da bola que já é perdida na partida, sem esperança, sem possibilidade alguma de recuperação, numa peleja redentora em si; sem, ao menos, um toque de despedida na bola que segue infinita pela ladeira.

  Então, mesmo que as janelas se mantenham abertas, sucessivas vezes há a recusa em  olhar para fora. Ou porque parece confortável estar dentro ou porque acende a desconfiança de que talvez não seja nosso o que está depois do batente das vidraças. Então, talvez fosse melhor  fechar os olhos e se confortar com o que está a mão ou não querer o que não sabe se pode, deve ou ainda é possível de conquista. Isto é a dor de destinos livres que se fazem cativos; por escolha.

  Mas, há coisas, como a fatalidade de ser livre, que nos escapam ao impedimento ou direção. Não porque perdemos o seu domínio, de repente, mas porque nunca o tivemos mesmo seguro nas mãos. A alma desses olhos pretos, cerceados pelas grades cinzas, é livre, é curiosa, desassossegada, barulhenta e viva; eu sei. E parece lutar muito para obedecer às pernas, que não acompanham a mobilidade do seu espírito desgarrado. 

  Talvez ela não saia, porque tem chovido muito nestes últimos dias ou talvez saia mais do que eu possa ver e siga respeitando as viagens que a sua alma engendra. Um pássaro fora da gaiola só não voa se não quiser. E isto também faz parte da sua condição, escolher o voo. Porque as asas sempre estarão lá. Este é o fardo de um pássaro livre: saber que tem  asas. 



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Um bom dia para o esquecimento

 Andava longe ainda, os braços soltos pelo corpo, as pernas relaxadas de direção, os olhos sem uma perspectiva definida, olhava para cima quase sempre, isto é certo, os maxilares pareciam livres de tensão,  os lábios, que nunca tinha visto antes, vinham sinuosos e traziam a possibilidade de um sorriso. Os passos eram largos, com os sapatos muito firmes sobre o chão parecia pisar em cada certeza, nas dele, nas dos outros  e na daqueles que se prendem a uma mesma ideia durante muito tempo. Eram pés seguros de outra coisa que não certeza e, mesmo, que parecesse sem rumo não se curvava aos riscos de um trajeto repleto de possibilidades. Estar perdido é muito mais um estado de sentimento do que geografia; é ter mapa na mão, endereço e desenho do trajeto, GPS atualizado e bússola, mas tantas vezes, não saber se chegar é mesmo um desejo, se chegar é o fim esperado. Perder-se é duvidar de que o lugar determinado, na partida, é o certo agora. 

  Ele passava entre tantos outros da cidade, num tipo físico bastante comum, sem marcas, sem tatuagens aparentes, era todo marrom, mas  sem nunca parecer igual; ele era único no rumo que parecia desconhecer. Desviava de ambulantes, abria passagem para os mais inseguros e os seus passos ganhavam, a cada centímetro ultrapassado, uma parte a mais do meu coração. Eu que nunca sento na primeira fileira, para também observar o público, para assistir outros olhos atentos, ficava grata por poder observá-lo, eu que tenho dificuldade de foco e uma atenção cambiante, sentia-me privilegiada por acompanhar passos de sutileza, abastados de vida ordinária. Perdi-me ao encontrá-lo, esqueci das horas, da aposta no escuro, da saia roxo batata que ninguém nunca usou, da coragem desencontrada, do abrigo partido, do tempo que fazia, do suéter caído sobre o braço, da conta perdida no fundo da bolsa, cujo prazo de vencimento é inadiável. Esqueci do meu nome, do que fiz da vida, dos armários desarrumados, das escolas das quais nunca gostei, das ressacas de vinho ruim, dos horários na agenda que nunca trago comigo, do aniversário do amigo de longe, do livro que precisava comprar, do que precisava devolver, daquele que nunca li e minto que li, das estratégias criadas no final de semana para uma vida mais abundante de atenção. Esqueci que não me perderia hoje e me perdi no centro da cidade, acompanhando um homem sem rumo, que não estava perdido.

  Ele passa e esbarra no meu ombro, me pede desculpas e segue o seu descaminho-sina, parte levando uma fração de mim,  que rejeitava,  agora aceito e mais, sou grata. Um homem assim que nunca vi antes e que me fez esquecer do que não é urgente. Um homem cuja certeza não é o caminho, mas a esperança. Uma alma que não se enterra em certezas e linhas retas.

  Seguiu sua jornada  e num esforço desumano, levantou uma trouxa de lixo, instalado por um colega, minutos antes, no final da avenida e içou até o caminhão, depois flexionou os joelhos e numa impulsão única, já estava ladeado por outros homens no caminhão de lixo. O homem que recolhe o descartado é o homem mais bonito desta tarde. Ainda percorrerá meia cidade e não se encontrará naquilo que carrega, nem nos caminhos que é obrigado a circular, mas vai se ter consigo é no jeito que caminha. Um moço leve de alma  e abarrotado de liberdade de olhar. Vai correr atrás do caminhão algumas vezes, vai deixar o saco preto do descarte se abrir, outras tantas, vai sentir o odor rejeitado, vai embalar o que ninguém mais quer, mas vai ver além. E de olhar para ele, de vê-lo tão incompleto, mas não perdido, minha vida se acalmou nela mesma, meu instante tornou-se pleno. Passaria a vida a vê-lo, se pudesse, se nossas vidas de repente se instalassem uma de frente para a outra, se eu continuasse a permanecer nele.

  O trem perdido já não assusta a paz. A pomba branca repousa calma no coração agora. No caminho que assisto, encontro sossego e esquecimento em frente ao caminhão de lixo. Esquecer é um jeito de aprender, se não novos caminhos, um jeito novo de passar por eles. Sobe o caminhão na ladeira íngreme da cidade e me deixa na rua, abandonada de certeza, mas repleta de compreensão. Na quinta-feira, no meio de um dia caótico de afazeres, um desconhecido me lembrou que esquecer também é restaurador. 



terça-feira, 21 de julho de 2015

No que não se espera

  Ele se afasta da caixa de papelão, mas não muito, fica no lugar onde acha que um arremesso será capaz de alcançá-la. Não tem mais de seis anos e tem uma concentração extraordinária, não se distrai com os sucessivos conselhos de alguém que insiste que ele chegue mais a frente, mas contraria, se afasta mais, o que deixa o seu interlocutor irritado, bufando e derrotado. Com uma bola barata de supermercado, muito maior que as mãos dele, ele aperta os olhos, e por isso franze sutilmente o cenho delicado, dobra os joelhos, suspira e arremessa a bola como um profissional. Inicia suas tentativas cerca de dez ou doze passos da caixa. A primeira bola investida fica pelo caminho, não chega nem perto, um motivo a mais para que seu conselheiro volte a insistir que ele se aproxime. O menino abre mão somente de dois passos e se aproxima, joga a bola com  mais força, mas ela voa torta e passa novamente longe da sua cesta inventada. A cada erro, e são muitos pela tarde, ele insiste mais e parece mais concentrado.  

  Insiste  nos trejeitos imitados de algum atleta que assistiu na TV, insiste nas estratégias que ele mesmo criou para colocar em prática o seu plano de acertar a bola na caixa,  insiste em ignorar o homem que vez ou outra se levanta e tenta tirar dele a bola, mas ele grita, ameaça uma cena e o homem se enrubesce, com as outras crianças e seus pais que testemunham a obstinação do pequeno atleta, e volta a se sentar. Depois uma dezena de tentativas frustradas, de uma dúzia de torcedores conquistados, o obstinado abandona a bola,  ignora a cesta e corre para o balanço. Não teve sequer um acerto, mas não se importou mais, foi buscar alegria noutra coisa, sem o peso da necessidade do acerto. Planejamos muito, passamos muito tempo articulando caminhos que ou não chegam a se concretizar ou são muito diferentes quando acontecem. Insistimos demais em trajetórias que simplesmente não nos pertencem, se não para sempre, ao menos, por agora. Traçamos, com uma racionalidade muito ingênua e crédula em si, trajetos para objetos e histórias que são ampliadas demais para caberem num só plano. Olhamos demasiado para o outro lado de uma margem, quando tantas vezes é nesta mesma que está o que buscamos. Perdemos o tempo dos encontros que temos, subestimamos o valor das relações que estabelecemos - curtas, longas, passageiras ou contínuas - em troca de uma ideia de caminho, de unidade, de alegria única.  O desencontro entre aquilo que planejamos e aquilo que realmente nos encontra é onde a vida pode e deve acontecer.  

  Porque a vida, de fato, acontece naquilo que não é planejado. Os planos, as listas feitas a cada final de ano, os sonhos desenhados no papel e as expectativas  nutridas a colheradas nos sustentam, ajudam a nos mantermos mais dispostos a cada manhã, mas é o inesperado que nos leva a algum lugar. Não até aquele que desejamos no início, mas até o lugar que a nossa infinidade de passos involuntários foi capaz de alcançar. O que tantas vezes parece fracasso, desobediência do destino aos nossos planos é mais uma possibilidade nova de conhecermos a felicidade fora da lista, é mais um regalo do universo e um ensinamento poderoso de humildade, generosidade e aceitação plena das surpresas que não caberiam nos nossos planos da partida.

  O menino no balanço não tem o compromisso do acerto, do arremesso final, tampouco de um fruto colhido pela insistência. No balanço, ele deixa os cachinhos castanhos ao vento, encontra uma companhia tão sorridente quanto ele no balanço ao lado e na brincadeira nova reencontra a alegria da antiga. Ele há de se cansar do balanço e partir para outra felicidade daqui a alguns minutos, vai se encantar com um cachorro, uma folha caída no chão ou com qualquer outro tesouro disponível na praça. O certo é que se da caixa de papelão ele queria distância, da felicidade ele se mantém muito próximo. 

  O homem que o acompanha, esquece um pouco da obrigação de observá-lo, segura a bola, aponta para a caixa e acerta a cesta; ele, ainda, estica os braços e comemora sozinho e com muita discrição o que planejou, pensando ser para o garoto, mas que sempre pertenceu a si. No que não se espera é onde certamente nos encontramos com quem somos e nem sabemos. Dois homens e suas escolhas na praça, numa tarde de segunda, só reforçam que nem tempo, planos, maturidade ou decisão são capazes de nos levar até a outra margem, se o que nos pertence vive deste mesmo lado ou noutro rio distante. Tantas vezes é melhor soltar o corpo e deixarmos que a mão da provisoriedade nos oriente ou, pelo menos, nos embale. Feito isto, é aproveitar a viagem e nos mantermos atentos aos encontros.



sábado, 27 de junho de 2015

Alguém para soltar as mãos

   Não ganhariam um olhar mais demorado meu se não fosse pela possibilidade de admiração tardia, não saberia de suas existências se eles não arrebatassem o meu olhar com a gentileza simples de gestos desinteressados, afetuosos e recíprocos. Mesmo quando é tarde sem sol e as nebulosas escondem a luminosidade num dia frio, ainda assim é possível contemplar estados de alma que nos aquecem, nos fazem ver para além do dia ruim e difícil, o que nos pode ser sempre acessível, bastasse que abríssemos os olhos.

   Não sei quando ele chegou exatamente, não tinha reparado; estamos cercados a todo tempo por gente de quem não nos damos conta, por quem não nos interessamos especialmente, gente que acaba por fazer parte do cenário, como se já estivessem ali desde sempre. Vemos a fachada nova da loja ou prédio, mas não percebemos os rostos das pessoas, suas faces contentes ou tristonhas, os medos que carregam nas costas curvadas, os sonhos que trazem nos olhos brilhantes ou as esperanças que apertam nas mãos, junto das sacolas de supermercado. Enxergamos o semáforo com defeito, o buraco no asfalto, o carro que ultrapassou a faixa de pedestre, mas não somos capazes de perscrutar um rosto novo por dia. Nos incomodamos com os flanelinhas que juram que fazem a segurança do nosso automóvel, mas não nos sentimos profundamente gratos quando alguém nos ajuda a encontrar um endereço, o "obrigado" é automatizado, sem nenhuma troca de olhar.

  Mas um homem quebrou o ciclo de cegueira, quando se postou na porta do ônibus lotado, deixando  cada passageiro encontrar o seu lugar, para só então ele assumir um lugar para si. Bastou o gesto trivial, mas incomum, pelos meios que tenho frequentado, ao menos, para que eu o visse pela primeira vez e para que meus olhos insistissem em acompanhá-lo por todo o trajeto. Mas já na próxima parada o objeto da minha contemplação me inspira ainda mais, quando desce até a porta e ajuda uma senhora  pequenina, cujas tranças mais cinzas que o clima, grudadas no alto da cabeça, são atrapalhadas pela falta de jeito do homem gentil, mas ela não se incomoda, esquece a falta de perícia e é grata pela disponibilidade de ajuda. Sentam juntos, lado a lado, no primeiro banco do ônibus, os dois únicos disponíveis. E, então começam uma conversa sobre o tempo cinzento, falam de frio e gripes, ela compartilha uma receita caseira para tosse "limão capeta - aquele bem alaranjado, sabe qual é? - com mel e própolis", falam do aumento dos preços de alimentos e remédios, das comidas típicas de festas junina, de flores, dores nas juntas. As amizades começam assim: leves, descontraídas em lugares improváveis, entre pessoas que, até então, nada partilharam, mas se olharam nos olhos e resolveram estender assunto, ofertar afeto, ocupar as carências do outro, sem pedir troco algum.

  De repente, a senhora percebe que seu ponto de chegada se aproxima e, só então, ela constata também, que ela e o homem gentil ainda se davam as mãos, constrangida pela entrega ela pede desculpas pela inconveniência, diz que é coisa de "gente velha", com "cabeça esquecida" e pela terceira vez, em uma só viagem de ônibus, ele me salva de um dia frio e difícil e me faz gostar ainda mais dele e acreditar nos homens dos ônibus. Diz que foi ele quem permaneceu com sua mão na dela, que macias e calorosas aqueceram a dele. Verdadeiramente grata pelas gentilezas e em retribuição à amizade nascida e manifestada numa curta viagem de ônibus, antes de descer ela agradece: - Obrigada pelas mãos, rapaz. Obrigada pela conversa boa. 

  Ele é grande, os olhos dela dizem isto a ele, mas é humilde também e volta ao seu assento,  depois de ajudá-la descer, esfregando suas mãos uma na outra, lamentando pela falta que a companhia inesperada lhe fará o resto da viagem. Na gentileza dele vejo a possibilidade de aprendizado ilimitada, quanto menos nos protegemos dos olhares do outro, maiores são os espaços e a entrega para o que vem de fora. Que ele tenha sempre alguém de quem soltar as mãos; melhor é suspirar pela falta do que se teve do que sentir saudades do que nem se sabe por onde anda. Na amizade deles eu também me senti mais aquecida e, finalmente, assisti a um céu mais iluminado. Alguém para soltar as mãos é mais um desejo anotado no bloquinho trazido na bolsa.



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Tempo de revoada

  Há o tempo de chegar, de aos poucos conhecer o lugar, ir assentando as penas devagar, ganhar espaços, alongar o que no corpo está retesado, relaxar os músculos tensos pelo receio e só, então, seguir em um mergulho mais fundo, se apropriar. Até que, finalmente, o lugar estranho, antes inóspito passa a fazer parte de nós, sem data conhecida, sem marca específica mas, lentamente acomodado; o lugar, num dia qualquer no calendário, passa a ser nosso. Mais, o lugar e nós confundidos, entrelaçados: a porta de entrada é também um coração aberto. 

  Os copos baratos e as mãos vazias, as rachaduras da parede que ninguém mais vê ou as feridas que nunca cicatrizaram, a tinta escondida debaixo de três ou quatro demãos de outras cores de tintas e os sentimentos guardados pelas inacessíveis chaves, o armário embutido com a porta defeituosa desde que foi instalado e ninguém consertou ou os adiamentos constantes pelas prioridades eleitas, a campainha aguda que não assusta mais e a coragem adquirida, os vizinhos ora hospitaleiros, ora inimigos mortais e a impermanência dos sentimentos, as panelas sem tampa ou os casos insolúveis, as visitas sem anúncio e as surpresas diárias, o chão encerado com capricho ou a alma requisitada para o gesto, tudo aquilo que um dia nos rodeou passa a ser também aquilo que somos. 

  Nós e o lugar em um inesperado dueto: dois para cá, dois para lá. Depois de aceitar a contradança não há possibilidade de fuga mais. E mesmo nos dias em que a dança não pareça tão fluida e que os corpos se lancem distantes, sem a sincronia necessária para a dupla de dançarinos, o par insiste em seguir com a coreografia. Não  abandonam música, palco, nem deixam a plateia de olhos vazios. O compromisso é maior que o cansaço, o cumprimento da promessa é nó que une gente e espaço; vida e lugar.

  Na falta de comida, clima favorável ou, mesmo, quando chega a hora  de preparar a prole para a continuação da existência, os bandos sentem o chamado da natureza, é esse o instante de abandonar a conquista mais dura e também terna, abrir mão de cada canto conhecido e trazido na alma e deixar o par seguir a dança sozinho. Chega um tempo em que a revoada é essencial para a manutenção da vida, da nossa, dos nossos descendentes e a desse desconhecido, que embora não saibamos determinar quem ou o que é, a ele também estamos submetidos por um compromisso.

  Se aves maduras quase nunca têm dificuldade em se encontrar com o lugar antigo, porque  sabem muito bem para onde voltar, reconhecem os caminhos da viagem, têm asas que compreendem o tempo da partida e fazem do hábito o chamado para a volta. As mais jovens costumam se perder, pela falta de treino, pela pressa do acerto, pelo lamento da despedida; a imaturidade não está preparada para o desapego ou para último voo algum, a imaturidade só conhece este agora. Embora errante, sem direção ou saudoso do que deixou, um pássaro paciente, amante do seu lugar, ainda que jovem, jamais errará o seu destino. Porque reconhece que o lugar onde um dia se instalou, agora já está instalado em si.

  Eu disse adeus a ela, disse que sabia bem da sua capacidade de voar e repeti para mim que eu também posso  me despedir, porque há tempo de chegadas e tempo de adeuses. Que ela saiba sempre ganhar novos espaços, mesmo que este que assiste a sua despedida jamais se desprenda do que ela se tornou a partir dele. Somos pássaros e o compromisso da revoada nos convoca ao nosso destino: manter a vida a custos dolorosos, por vezes, mas essencial e sublime. Olho para ela e vejo seus olhos de águia corajosos, eles também me convidam ao destemor. Partimos, ambas, para outros lugares e instantes, assim a vida nunca há de cessar, ao menos, dentro de nós. É na revoada que conhecemos nossa capacidade de sermos gratos às asas as quais deveremos para sempre honrar.



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Do que já sabia, mesmo antes de saber

  Véspera de feriado, a avenida de manhã parece menor, mais vazia e bem menos urgente, que nos outros dias da semana; um homem lava a calçada, joga água gelada com um balde azul e esfrega obstinado com uma vassoura velha parte do passeio público, passo na beirada da rua, hoje, sem risco aparente de atropelamento, um menino passeia com seu cão, que cheira a minha perna, estou de calça, mas imagino seu focinho gelado tocando a minha pele, a respiração urgente dele e a sua expiração morna; ele não late eu não me afasto, mas não estreitamos relações, preciso continuar no caminho oposto ao dele. Do outro lado da avenida, uma mulher apressada, puxa a filha pequena e a coloca no colo, ela parece reclamar, mas a mãe tem pressa; não consigo escutar, mas imagino sua voz reclamando pela autonomia desejada. Mais a frente, perto da escola tradicional, um grupo de adolescentes gargalha enquanto caminha, ouvem música, deixam algo cair, gritam alguma coisa que só eles entendem e, depois, sorriem mais, um garoto para para amarrar o tênis e logo corre para acompanhar os seus, enquanto passam por mim, parecem mudar a rota dos ventos; eles têm o poder da revolução e nem sabem.

  Na escola, algumas crianças em fila, se organizam num passeio pelo pátio. Todas as escolas do mundo, todos os pátios e todas as crianças de escolas pelo mundo, se parecem sob determinadas perspectivas. O grupo de adolescentes mudou o clima da cidade, agora é um quase frio e, por isso, o vento me lembra uma outra época. Começo pela voz antiga, que eu ainda lembro.
 
  Ela pede que façam uma fila, antes, dá algumas instruções, fala sobre a atividade que farão, antecipa algumas questões práticas: precisam fazer silêncio ao passar pelos corredores, os passos devem ser lentos e as pisadas suaves, sem atropelos, para não chamaram a atenção do resto da escola, devem deixar as mochilas na sala, não precisam levar lápis ou papel e a fila só pode ser desfeita quando chegarem ao pátio do primeiro andar. Não é difícil manter a ordem, se a recompensa é a liberdade, especialmente quando se é criança, sem perspectiva muito próxima de abandonar as quatro imperiosas paredes.

  O grupo chega ao primeiro piso, seguem até a quadra de esportes descoberta e a professora organiza uma roda no centro do espaço cimentado. Enquanto todos estão sentados ela inicia a atividade. Primeiro, é necessário silêncio, depois precisam ouvir bem cada recomendação, sem anotações, sem reflexões ou debates coletivos, a  compreensão, ela sugere, será individual e interna, sem avaliação ou nota. Pede que fechem os olhos e depois, que sintam o sol de maio. Fala do calor dele na pele, da sutileza da sua energia esquentando cada roupa e, mais nada, se cala. São crianças de nove ou dez anos e ninguém se move, só sentem como lagartos espichados ao sol, a energia do astro. Ele começa sutil, depois vai se tornando forte e mais forte e por mais que tenha estado sempre ali, agora, parece ser mais essencial que nunca. O sol é pela primeira vez aprendido sem palavras ou imagens; sentir é a matéria do dia, ninguém disse que isso também poderia ser aprendido na escola. Depois de alguns minutos, uma aula talvez, seguem para a sala, ainda mais silenciosos do que vieram, sem resistência, sem luta. São cerca de trinta crianças satisfeitas com uma atividade muito prosaica.

  No outro dia, a professora não voltou. Sabia da partida há tempo, mas preferiu ignorar a despedida, porque talvez soubesse ou, ao menos, gostaria muito, que nunca se desprendesse definitivamente daquelas outras vidas com as quais compartilhava muitas horas nos últimos meses. Algumas crianças choram quando descobriram a mudança. Eu chorei; de pena, de saudade antecipada, de abandono sentido, mas principalmente pelas lições que ela não nos deixaria mais. 

  Subo a avenida e o vento fino, pontiagudo, me lembra ela, eu sinto, só sinto e ela nunca mais foi embora de mim. No entendimento das pequenas coisas é que a narrativa do mundo se constrói. Acho que as nossas relações são processos que complicamos demais, quando as escolhas possíveis são sempre muito simples. Ela foi a primeira a dizer que o sentir era demasiado importante, ela foi a primeira que valorizou o que nós sempre podemos e somos, mas que invariavelmente não é requisitado em avaliação nenhuma. Sentir, ela ensinou, é o nível mais sofisticado de sabedoria. 

  O vento que me acompanha até em casa é também um entendimento meu, nada é mais importante do que aquilo que trazemos dentro de nós e que não podemos comunicar, mesmo que tentemos muito. O que se passa com cada um de nós, só nós podemos suspeitar, ninguém nunca poderá alcançar. O sol do pátio, o vento da avenida, os focinhos caninos passam por muitos, mas são só meus enquanto eu souber senti-los - só este é um egoísmo perdoável.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

E la nave va

  Dos olhos escuros não sentirei quase falta, nem dos cabelos castanhos, que variam quimicamente de cor, tampouco da tatuagem que quase nunca vejo, das anotações talvez sinta um pouco mais a falta, porque não estou para atenção todos os dias; mas o que, de fato, sentirei mais a ausência é do seu silêncio. Silêncio partilhado, compreendido, silêncio mais alto do que as vozes desordenadas que tentam invadir nossa ilha. A empatia não requisitou mais de cinco minutos; meu silêncio encontrou o dela  - e a vida fica mais fácil nos encontros.

  E depois, nunca precisou de promessa, de elogios, de delicadezas ensaiadas, bastava a companhia do silêncio, a certeza de alguém me ouvir quando a voz não pudesse ou se recusasse a sair. Ela ali do lado e a certeza do entendimento, náufragas de uma mesma ilha; residentes voluntárias de estrofes menores, de cantos de livros, de notas desapercebidas nos murais. Compartilhávamos o que não tínhamos, dávamos uma à outra só as faltas e acho que por isso saímos mais abastadas: cheias de nadas somados. 

  Dei a ela minha ausência de irmãos mais novos. Reconheço egoísmo infantil na falta declarada, tinha horror em pensar na possibilidade de ser única em casa, acho que adivinhando meu desespero, mandaram-me por último. Mas de quem cuidar? A quem servir de modelo, dar conselhos ou consolar as quedas, cuidando das feridas e esbravejando para a mãe não nos recolher da rua?  Sou órfã de irmãos mais novos. Por isso, nos últimos tempos, a tomei como irmã caçula. E por causa do silêncio, é claro, e um pouco pela similaridade de relação que estabeleci noutros tempos com outra ausente de continente, outra apartada. 

  Agora, a irmã eleita, decide-se pela subida no navio, ancorado, sempre a espreita na ilha. Há sete anos a outra caçula, a quem eu ofertava cuidados e despejava conselhos inúteis, subiu, sem despedidas, sem cerimônias, sem possibilidade de retorno. E de partidas assim nunca nos esquecemos. Ficamos a beira da praia, lamentando, vertendo  água salobra que nunca se converte em mar ou noutra utilidade.

  Acostumada às partidas, mas completamente inábil com a solidão de não ser útil. Padeço de uma maternidade com muitos filhos ocultos, perdidos pelo mundo. Respondo pela miséria de desejar ser necessária. Sou sempre a última a sair de casa, para conferir se a porta será mesmo fechada.

   Minha amiga recente traçará o próprio caminho e nada é mais bonito do que alguém sozinho inventar cada um dos seus passos. Meus olhos maternos se enchem de lágrimas e mais ainda de orgulho. A despedida teve aviso, preparo e acenos delicados. A esta viagem logo me afeiçoo. Está feito o embarque, daqui de baixo, desejo sorte e silêncios ultramarinos.




quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Não quero o osso, bastava a galinha viva

 E foi ruim? - Não. Mas é que bom também não tem sido. 
 - Há quanto tempo?
- Nem sei mais quando foi  última vez que foi bom. Acho que a espera pelo bom, fez parecer que não era ruim. Entende? Promessa, de repente, vira a própria coisa. A espera pelo bom, acaba por enganar; e, por achar que a coisa já está logo ali, quase apontando na esquina, a gente já se alegra. Não porque estivesse contente de verdade, mas em um ensaio para a felicidade. Acho que é algo assim.

- Mas quem te prometeu?
- Então, aí que está: ninguém fez promessa alguma, mas nem por isso deixei de esperar algo. A gente espera, sabe? O ser que mais cria expectativas no reino animal, vegetal ou mineral é o homem. Bicho-esperançoso, desde a raiz. Porque cachorro até espera pelo osso, se ele vê um homem comer a galinha, se sente cheiro de galinha, vê as penas da galinha, mas ele não espera o osso só porque um homem passa e acaricia sua cabeça. Gente não. Gente, às vezes, nem sabe o que é galinha e mesmo assim espera o osso, sem nem saber que ele existe. E se a gente recebe um afago então, daí  é que espera mesmo! Rodeia o homem, cheira o homem, late para o homem até ele falar de algum osso.

  Então é isso, eu esperava por uma recompensa, eu sei que a viagem é que deveria me importar e blábláblá, mas, às vezes cansa ser andarilho e tudo o que se quer é chegar em algum lugar verdadeiramente bonito. E que tenha paz, cheiro bom, acolhimento e que esse lugar possa te consolar de tantas noites mal dormidas, chuvas surpresas, raios que passaram por um fio do seu corpo, das portas na cara, dos sucessivos copos d'água negados. Alguma compensação, entende? E a gente espera, espera, vai trabalhando, juntando cacos, peças soltas, revirando lixos atrás da única peça perdida e quando a encontra, completa a figura e...subitamente, tiram-na da sua frente e colocam outra incompleta de novo e nunca acaba, acho.

  O dia foi desses, levantaram a minha figura completa, recém-terminada, laboriosamente reconstruída e já trouxeram outra, sem cerimônia de despedida daquela e apresentação desta. E o que eu faço com isto agora?  Meu ânimo está desgastado, minhas mãos menos delicadas...e por isso, acho, as pessoas um dia largam tudo. Abandonam empregos, famílias, casas e a vida de repetidas figuras incompletas e se mandam. Juro. Vão todas atrás da expectativa que nunca virou a esquina, do ônibus que não veio, da ligação que não receberam, da carta que não chegou, do homem que nunca bateu ao portão, de algo, sabe? De algo que, finalmente, legitime esse exercício que embora não prometa gabarito, a gente aguarda por uma singela resposta; um aceno de cabeça bastava, um sorrisinho ou um olhar de decepção também já seriam caminhos. Mas, tudo é neutro, tudo pode ser, tudo é "volte amanhã". Nenhum aceno. E a gente procurando pelo osso, sem nem saber de galinha nenhuma.

- E foi tudo "não- ruim" assim, hoje?

- Quase...teve o céu de noite, o vento sacudindo o tempo parado, a lua embaçada em um branco-fosco, os pelos do braço arrepiados de frio, despreparados para a mudança do clima, um par de sapatos errados que só a dona percebeu e olhando a esquina, eu esperava que a chuva a cruzasse ou um homem ou uma galinha ou osso. Se eu ainda visse só uma galinha, eu me apegava a ideia de um dia ter um osso. Espera, acho que alguma coisa vai virar a esquina agora...só mais um pouco de espera. Não custa nada, não é? Depois de tanto tempo, mais cinco ou dez minutos não farão diferença mesmo. Cansada, senta. Amanhã tem mais. As esquinas estão por toda a parte e o bicho-esperançoso segue rondando o osso de uma galinha que nem sabe se existe para ele.





domingo, 10 de agosto de 2014

E depois da quarta nuvem ela choveu

  Os passos não contados são aqueles que nos levam mais longe. É enquanto pensamos o caminho que ele nasce, quando começamos uma caminhada, ela já existiu,  lá atrás, nos planos, na escolha da direção. E não importa muito, para a trajetória, o que acontece entre cada passo, o inesperado, a falta de fôlego, as curvas não planejadas, os outros peregrinos com os quais cruzamos, é mesmo na escolha que mora um caminho inteiro; impossível de ser mapeado. Embora as escolhas não tenham que ser definitivas, elas irremediavelmente nos definem; dizem quem somos, falam mais de nós do que as palavras, as muitas vozes que saem de nós, do que parecemos ou cremos ser. E, é bem antes de qualquer outra coisa que nós já somos isso que somos. Não existimos a partir de coisa alguma, as coisas todas é que existem a partir de nós; só o nosso olhar é que faz qualquer coisa nascer ou morrer.

  Conferiu as unhas esmaltadas para a ocasião, o brilho do cabelo, a maquiagem leve e repensou se a roupa era mesmo adequada, quanto maior o cálculo, maior a vontade do acerto, menor a intimidade, acho. E seguiu a placa do reencontro, evento tantas vezes adiado; alguns adiamentos poderiam ser infinitos para ela, agora. A vontade era não ir, desde o início pensou em ficar em casa, negar os passos ou fazê-los noutra direção, mas seguiu pela curva da memória e apostou na placa. Foi então. 

  A sala arrumada, hospitaleira, os sorrisos antigos, as mesmas outras estórias, o cotidiano não compartilhado sendo resumido, fatiado, servido em bandeja decorada para degustação; a fome, assim, nunca saciada. Logo, o cabelo menos brilhante, o desconforto da roupa planejada e a maquiagem sutilmente encoberta pela palidez cada vez mais aparente. Da janela olhou a primeira nuvem cinzenta e desejou chuva. Um aguaceiro que afogasse toda superficialidade da ocasião.

  A escolha antiga, diária, feita antes de cada passo, determinou o desencontro da tarde. As mesmas outras pessoas, passando, se esbarrando por uma trajetória que não é a mesma, pelo contrário, são díspares, difíceis de explicação; escolha individual tantas vezes não respeitada. Enxergar a sua riqueza como única possível é a maior miséria do mundo. Olhou de novo para o céu e a segunda nuvem mais cinza passava sem um pingo de salvação. Talvez morresse de sede, no deserto do não-entendimento.

  Cansada da tarde, da placa que preferia ter ignorado, pálida de susto, por não ter as respostas que desejariam ouvir, por ser só mais um clichê policial do "nada a declarar", pensou que os melhores passos já tinham sido escolhidos lá longe. Satisfeita. Conferiu mais uma vez o céu, como quem tem um compromisso urgente e olha para os ponteiros do relógio no punho; viu uma terceira nuvem negra, tão seca quanto as outras, tão inútil, para ela, quanto as passadas.

  Detestando a comida, rejeitado mais uma taça de um álcool incapaz de adormecer sua dor, viu a quarta nuvem se aproximando e não esperou mais, irrompeu em chuva, enxurrada represada, mas sem drama, sem lágrimas; só uma chuva de resolução. Levantou-se de seu próprio desconforto, desapertou o cinto, despediu-se do afeto antigo e mentiu gentilmente que voltaria. 

  Um escolha antiga, redentora, lembrava-a de que era feita a sua peregrinação: é frio, é chuva, sol e arco-íris; é fome e prazer do sabor novo; é choro e risada de soluço; é desistência e tantas vezes mais, teimosia. Olhou para o passo próximo e por isso é que ele existiu, o caminho esta feito há tempos. Poderia ter chovido na primeira nuvem, mas só depois de quatro tentativas é que tomou coragem; medo também é chão que precisa ser pisado. Ela mesma é quem molha seu próprio destino e não outro.



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Do outro lado também tem um mundo

   Era surpreendente olhar nos olhos castanhos dele e pela primeira vez vê-lo inteiro. Era desconcertante ter tantas palavras a serem ditas e ouvir melhores ditas por ele; admito: as certezas dele têm mais paixão que as minhas, ao menos, à esta altura. O compromisso do chamado era meu, a iniciativa deveria partir de mim e mesmo que eu quisesse e tenha resistido, não me neguei a fazê-lo, fui até lá e me dobrei ao compromisso. Há coisas que fazemos por gosto e outras tantas por justiça. Não há merecimento a ser julgado; justiça é dívida paga na hora, sem escolha de credor.

  Ele falava com a desenvoltura que eu nunca teria, um pouco por escolha e outro tanto por falta de vocação, calo muito mais do que deveria, foi ele quem me disse. Mas, mais do que qualquer palavra bem dita por ele e as não faladas por mim, eram os olhos que se reconheciam e buscavam entendimento, eram as mãos que, vez ou outra, falavam antes das vozes de dentro ganharem espaços. Discordamos e, ainda, cada um de nós tentou a última cartada da persuasão: quem ganha um embate, palavra apaixonada ou silêncio convicto?

  Olhar para alguém de outro modo, ver neste outro um mundo diferente daquele que lhe atribuímos, mas completamente respeitável, amável e passível de alguma admiração é a justiça que eu andava por negar. Quando ele me ensinou o que eu há muito negava por aprender, quando ele enfático, mas igualmente doce, corrigiu-me, não me abati, não tentei recurso algum além da admissão. Olhei uma última vez nos olhos marrons de alguém a quem eu  me recusava a conhecer e vi pela primeira vez um mundo dentro dele. Arrependi-me do esquecimento, da incompreensão e intolerância com alguém que carrega tanto quanto qualquer outro, alguém que também traz maravilhas dentro de si.

  Vi-o ainda descer pelas escadas brancas, sua nuca mal raspada virar à esquerda, seus pés grandes, desajeitados nos sapatos pesados, que só ele usa, seguir rumo ao que ele tem de mais caro, que é o próprio mundo ou, o que me pareceu bem possível, o mundo de outras pessoas, que como eu, o negam. As pessoas são muito além do que aparentam ser; disto sempre soube, mas, frequentemente, me engano. Grata pela conversa, pelas intervenções certeiras e necessárias, pela voz doce e pelo mundo apresentado, ainda sorri sozinha e comemorei por não ter vencido embate algum. A vitória dele me fez crescer, as palavras melhores dele me fizeram, ao menos neste dia, um pouco mais humana. Fui ofertar algo que eu achava que era justo a alguém e eu é que saio com uma dívida paga. Nem sempre a humildade é calada, nem sempre a soberba é faladora. E eu disposta sempre a aprender, aprendo nos lugares mais improváveis, tenho as lições ensinadas pelas pessoas menos imaginadas.

  O dia do perdão chegou, não selamos com um abraço ou coisa parecida, mas com respeito e clareza; do outro lado da ponte, uma cidade; do outro lado da fronteira, um país; do outro lado da ilha, um continente; noutra margem de mim, uma pessoa. Possivelmente, ele não falará menos, eu não falarei mais, mas eu vi um outro mundo, enquanto olhava uns olhos escuros. Não há viagem mais valiosa do que esta.