terça-feira, 29 de setembro de 2015

Mais um pedaço do banco

  Difícil pensar em determinar como    acontecem os inícios das novas aproximações, sobre as amizades, por
exemplo, podemos lembrar de um início de conversa, de um lugar em que estávamos quando a primeira palavra nos apresentou a voz nunca ouvida, algum acontecimento inusitado ou as impressões primeiras de um desconhecido que se tornou íntimo. Mas o caminho do afeto, o momento crucial da entrega é geografia indeterminada. Acontece enquanto não somos sentinela; acontece por distração consentida. Talvez, muito pela sutileza das situações que entrecruzam distintos destinos. Não há única similaridade que explique, afinidade que se possa alcançar a olho nu, situação limite que engendre todo o sentimento de uma nova relação. Porque não é caminho único, bem delineado, de fácil localização.

  Um aparente começo ruim hoje, amanhã pode ser ótimo, a conversa chata de agora há pouco, noutro tempo ou com outro alguém pode parecer sensata e madura. Não sabemos nunca a razão de um insucesso permanente ou êxito perene. Porque mudamos demais em cada milésimo de segundo que colocamos na conta.
  Foi ela quem sentou primeiro, eu a vi quando chegou,  já recusou pelo menos três companhias desde que se instalou no largo banco. Uma mulher adulta, talvez mãe, tia ou cuidadora a repreende em cada investida que ela ignora, mas não há nada no mundo que a faça ceder. Ela quer o banco comprido da praça só para ela e a boneca loira de cabelo desgrenhado, que carrega como se fosse filha, e não se deixará convencer pelos apelos racionais da mulher. O constrangimento ela deixa todo ele para a sua acompanhante, que se desculpa com quem não é bem recebido pela pequena autoritária. Ela e a boneca se bastam, me parece.

  Mas depois de um tempo de rebeldia e irritabilidade, quando a mulher já parece desistir de incutir qualquer sentimento de generosidade e partilha na ditadora mirim, chega um menino e escolhe o lado menos apropriado, o menor, o do lado oposto ao da boneca. Se senta desajeitado, mal cabendo no espaço e nem olha para ela, senta enquanto termina um copo de água de coco. Não ofereceu à ela, não pediu licença, nem chegou com sorrisos. Sentou-se e só. Tomou um lugar que achou ser dele e pronto. Ela olhou-o, tentou desvendá-lo, mas não levantou a mão para bater no inoportuno, como das outras vezes, abriu a boca, mas não gritou com o invasor, como das outras vezes, ficou entre a boneca loira desgrenhada e um menino suado em silêncio e aceitação surpreendentes.

  Ao poucos, abriu um espaço mínimo, que ele logo ocupou, olhou nos olhos dele e deu mais um centímetro no banco, ele também pousou olhar nela, mas não pareceu agradecer minimamente, ambos pequenos e silenciosos dividiam o banco. Agora o copo de plástico vazio dele ganhava também um lugar no assento, aos poucos o  espaço do menino se dilatava, sem esforço, sem intervenção de adulto, sem caretas ou ameaças. Os espaços se ampliavam com naturalidade, porque ambos estavam dispostos a isso, porque cada um, a seu jeito, cadenciava o movimento de abertura e ocupação; como numa dança sem deliberação, sem combinação antecipada ou coreografia ensaiada, nascia do improviso, da necessidade descoberta agora, de uma música ouvida de última hora.

  E em minutos insignificantes ele havia conquistado o que ela parecia guardar apenas para si há uma infinidade de tempo. Nem desobediente, tirana ou irritadiça, o movimento foi de delicadeza, disponibilidade, espontaneidade  e desprendimento.  Por nada, nem por um gole de água de coco, nem pelo copo de plástico restante, nem a possibilidade de uma partida de  futebol com bola de plástico colorida, por nenhum interesse aparente. Foi porque tinha que ser. Porque dançaram numa mesma cadência ritmada por uma música que nenhum outro ouvido sensível da praça podia detectar.

  Fui embora antes de qualquer aprofundamento da relação que eu assisti começar, levantei-me com os dois pequenos em silêncio e espaços equânimes. Conhecer é isso: é dar um centímetro de banco de cada vez; conhecer é abrir espaços sem luta. A possibilidade do afeto mútuo ou da intimidade se estabelecer é abrir espaço no banco e um outro ocupar sem vangloriar-se, sem necessidade de mesuras demais.

  Hoje não pude ir à praça, fiquei pensando se houve um reencontro. Se havia ainda espaço no banco para aquela amizade. Fiquei pensando que os espaços doados e ocupados não se explicam mesmo. Na beleza que é a geografia do afeto, onde o mapa é um desconhecido que se constrói no silêncio, com luzes apagadas. 



4 comentários:

Paulo Abreu disse...

Ola Amanda - pausando para divagações desconexas. Bem, vamos lá - Estava escrito - Nenhum comentário, cliquei na frase e surgiu Postar um comentário e logo abaixo um Fala que eu te escuto (leio)! Enfim, uma sequência lógica, binária, tangível, de manifestação de sinais não criptografados.

Eu não conheço a Amanda, que com certeza não me conhece, e no entanto venho sempre aqui tomar café (sem açucar, arábica e de preferencia orgânico), por que é um dos meus pontos de fuga, que encontrei na Rede por estas coincidências das quais não me recordo mais como se deram. Acho que vi o nome num blog que lia e achei interessante.

Coincidências? Será? Jung falava das sincronicidades, e é claro que deu com a parede da ciência na sua frente, que não permitiu continuar neste caminho, mas seu amigo Pauli, físico que ajudou a mudar a face do mundo com seu Princípio da Exclusão pegou esta tese e divagou pela física quântica.

O grande problema é que gostamos da vida regida pelas leis de Newton, onde tudo é certinho, da inércia à cinética, tudo se encaixa, tudo se explica, mas não é bem assim.
Aquela coisa de que toda ação corresponde a uma reação, etc e tal tem problemas. Porque os efeitos na natureza se propagam a uma velocidade finita, igual à velocidade da luz (quem descobriu isso, no caso da gravidade, foi Albert Einstein).
Um nome dado a isso é “localidade”. Nenhuma informação pode ser transmitida instantaneamente. Se você telefonar para alguém no Japão, demora pelo menos 1/15 de segundo para a sua voz ser ouvida por ele. Então a reação demora e não necessariamente é contrária, pois com a Física Quântica não há uma única explicação para um experimento físico, mas há duas ou mais. Os cientistas não gostam disso: eles gostariam que houvesse uma única resposta, mas hoje em dia não há. Será que no futuro a gente vai descobrir? Ninguém sabe. Talvez você possa um dia ajudar a humanidade a descobrir esta resposta, ou a desvendar outros mistérios da ciência.

Caramba, tenho que rever o que estou escrevendo aqui. Um momentinho só! Estou divagando demais.

Pronto, já li, e por incrível que pareça, não mudei nada. Vamos continuar onde quero chegar.

Quero chegar na menina com a boneca nas mãos, a mãe com a filha nos braços, criadora e criatura no banco, enfim, uma série de analogias para simbolizar o universo feminino. Ah, Amanda, você encanta!

O que queria aquela menina? afinal o que querem as mulheres? perguntou Freud. Querem ser amadas e desejadas. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher, e daí inventa a sua essência, não sob a nossa óptica masculina, mas sob o seu desejo, e só a mulher tem a capacidade de fazer isto. Nós, filhos de Adão, somos retos, padronizados, torcemos pelo mesmo time, usamos a mesma roupa em várias ocasiões, tomamos a mesma marca de bebida, etc. Daí esta bronca toda. Basta elas se reinventarem que a maré sobe, como subiu no Paraíso. Mas quando há a sincronicidade, hummm .... os céus se movem e as montanhas se deslocam!

Vãoboratrabalhar!

Paulo Abreu disse...

Eu preciso fazer uma ementa ao contexto de como vim parar neste Blog. Minha memória fez-se luz e lembrou-me que o que nos uniu foi a Wislawa Szymborska, quando eu procurava pomas dela na Rede. Este foi o motivo da minha aparição por aqui.

As Três Palavras Mais Estranhas

Wislawa Szymborska
Quando eu pronuncio a palavra Futuro

a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando eu pronuncio a palavra Silêncio,

Eu o destruo.

Quando eu pronuncio a palavra Nada,

Eu faço algo que nenhum não-ser pode reter.

Amanda M. disse...

Haha Paulo...graças a sincronicidade de Jung, vez ou outra o "sem comentários", abaixo de cada postagem, muda de status e posso, finalmente, me libertar daquilo escrito e tomar um café (o meu também sem açúcar por favor!). E, entre uma xícara e outra, uma conversa cheia de nuances e sob perspectivas outras que eu não conheceria se o leitor desconhecido não se apresentasse aqui. Enfim boradormir! ;)

Amanda M. disse...

Que maravilha! Chegou, então, por um belo caminho. Melhor entrada eu desconheço.