sábado, 26 de setembro de 2015

Se mudasse de casa, não saberia chegar mais

  Um gato mia do outro lado da rua e olha para mim, não escuto o grunhido, mas sei da sua voz não porque ouço, porque o som não chegaria até aqui, mas porque vejo sua boca fina se entreabrir; adivinho a voz do gato. Não sei o que significa, se gosta ou não gosta de mim. Só mia e me investiga, parece a espreita de um segredo meu, que desconheço, os olhos do gato veem mais verdades do que eu posso suspeitar. O gato sabe de mim.

  Na varanda ao lado do gato, um homem canta e toca violão, enquanto um senhor que não é seu parente contempla embevecido, são amigos recentes, compactuados pela música. Não há estilo musical, gerações ou diferenças outras que os afastem. Não bebem, não comem, não sorriem, sem ritual ou deuses, bacanais ou sacrifícios os homens se conectam. São quatro da tarde de uma sexta-feira e eles tocam, cantam e se ouvem.  Onde mais caberia tanta paz, senão na minha rua?

  Só o gato me confronta, me persegue, instiga, atira o seu olhar firme no espelho d'água da minha calmaria. O gato me quer desconfortável, acho. Desvio os olhos dele, mas ele me persegue, me incomoda, eu poderia sair da janela agora, deitar na cama, escutar a música da varanda da frente e adormecer, pensando naquilo que se estabeleceu entre entre os homens, no sentimento nascido no portão em frente à minha casa, mas o olhar felino me atrai, me hipnotiza, o gato me quer submissa a ele. Eu o confronto, enquanto vejo a beleza na varanda dos vizinhos. Queria compartilhar do clima delicado, da calmaria ordinária da sexta à tarde, mas o gato me impele para o desafio, para a competição: quem olha mais quem? Quem enxerga além de quem? Ele possivelmente mais do que eu, mas eu não desisto, eu não me entrego. Não saio da janela enquanto o gato não for o primeiro desistente; estabeleço o pacto comigo. Me apequeno muito quando desejo vitória.

  Ficamos os dois insistentes, penetrando um nos olhos do outro, inventando grades, rejeitando a delicadeza  e dissipando o desprendimento que nos oferecem os cavalheiros da casa ao lado; o gato e eu, dois rudes, incivilizados, obedecendo ao único chamado da rivalidade. Se nos entendêssemos como os dois músicos, tentaríamos uma cumplicidade, uma conexão que nos levasse para um instante único, num espaço e tempo que só nos dois conheceríamos, sem saber nunca explicar. Mas e se o gato não sabe da minha voz, se só eu conheço a dele?

  E mesmo com todo o espanto do olhar felino, mesmo com tudo de mais agressivo que ele desperta em mim, eu ainda gosto tanto do gato, quanto de mim mesma. Começo a ouvir a música entre nós agora. Eu não o odeio e talvez ele saiba disso.

  E por isso, quando me perguntam onde moro, sobre o que faço para viver ou das coisas que mais gosto na vida, quase nunca sei dar uma resposta com verdade. Porque se digo que moro na quarta rua transversal à principal, se falo que emito notas, invento processos, que gosto de girassóis e suco de melão, parece muito pouco sobre mim.

  Por isso, o mais certo é que moro na casa invisível, sem portas, nem janelas, com  cortinas vaporosas caídas do teto de sisal. Moro do outro lado do rio, porém desancorada visito a margem alheia, mas posso voltar ou nunca mais ser vista na mesma medida. Sou arredia como coelho ou de trato fácil como um cão doméstico. Para viver, extraio um pouco, a cada dia, a seiva das plantas, dos bichos e dos homens que tocam violão nas varandas, roubo aquilo que de mais precioso eles têm, copio a vida deles e assim, vou construindo a minha em retalhos. Nada é novo por aqui, só os recortes colados é que acabam por parecerem inéditos. Gosto da minha rua, do gato inquisidor da casa da frente, da música que dois homens inventam, sem pretensão nenhuma além dela em si mesma. Por isso, insistente, permaneço.

  Ficarei mais dois minutos parada, depois, largo aqueles dois, fecho a janela. Vou adotar o gato, tirá-lo da rua. Mas e se ele não quiser? Se preferir a casa vazia a mim? Não darei nada ao gato, se ele não quiser, se me olhar de novo eu o confronto, perguntarei o que deseja e serei sua cativa. Desvio, fecho a janela e saio com ar de gato superior. Moro na casa de paredes que construo e que eu mesma faço desabar dia após dia; o gato sabe disso. O gato detém meu segredo primeiro. Ele é meu vigilante onipresente, por isso nos reconciliamos ao final do dia.  A música ainda toca, eu não poderia ir embora daqui.



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