quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Depois de dezembro

  Quando dezembro acabar vamos a uma próxima vida, diferente desta aí, que ficará esgotada nela mesma. Sem arrependimentos, sem tensões, só passado mesmo, uma memória, um antes para vir um depois. Não só porque o ano acabou, mas por resolução mesmo, necessidade de abandonar fotografias que já não representam mais e desejo de outras imagens, palavras, signos que talvez ainda nem existam. Vamos buscar novos ventos e se não vierem novos, corremos  a buscá-los onde estiverem. Sem medo, sem apego aos que não puderem nos acompanhar. Uma nova tripulação, às vezes, revigora. O mesmo barco, os mesmos companheiros, durante muito tempo, fazem o mar também parecer o mesmo. Como se fosse possível já conhecer as ondas que nascem a todo instante.  Mas nada de adeuses muito longos, demasiado sentidos, molhados demais, porque as mãos se soltarão mais fáceis, os olhos deixados para trás não nos seguirão, marcando com nostalgia cada passo. O final da viagem é que vai apontar o começo da outra.

  Aprenderei, finalmente, a nadar e farei a prova de direção, até o final. Não chegarei mais atrasada, nem os quinze ou trinta minutos habituais, porque eles serão abandonados em dezembro. Chegarei sempre adiantada a todos os compromissos, profissionais ou não, sem suor, sem confusões em elevadores, mensagens mal escritas nos táxis que demoram a chegar. Quando dezembro acabar serei eficiente, educada e muito, muito pontual. Nada será feito de última hora, os convites serão respondidos em minutos e a presença estará garantida. Assumido o compromisso levarei a cabo minha palavra.

  Não acumularei leituras obrigatórias, porque descobri um livro novo de poesia ou um romance muito antigo no sebo; não. Não vou me perder, porque quase sempre, mais tarde, as tentativas de reencontro são muito atrapalhadas. Não passarei horas olhando para o trajeto entre a casa e o trabalho, a casa e a faculdade, o  menino do lado e o cachorro, os gatos da casa abandonada e seus passeios noturnos, a mulher do 601 e suas manias - de não pisar nos pisos grafite, só atender ao interfone depois da terceira chamada, não colocar a mão na maçaneta coletiva - nem gastarei meus minutos ouvindo o violão do senhor da frente ou os ensaios do violoncelista ao lado. Meu tempo será melhor aproveitado, colocando em dia os autores, os relatórios, os planos para a vida. Este ano uso a agenda.

  Mudarei o cabelo cultivado nos últimos anos, nunca gostei mesmo dele muito longo, mas de repente, me deu um apego, nem me reconheci. Mudarei corte, cor, talvez mude de cabeleireiro, porque este, de convívio muito estreito, influencia demais minhas escolhas. Não teimarei em seguir os caminhos que eu acho que devo, só por achar, não vou mais ser surda as diversas vozes da experiência, vou cogitar os conselhos muito acertados de quem se acha melhor estabelecido do que eu. Vou exagerar no currículo, vou interpretar nas reuniões e falarei, falarei bem mais. Mesmo que não saiba, mesmo que o silêncio me requisite. Vou disparar frases, parágrafos, monólogos de folha inteira e, estupefatos todos, ninguém há de me contradizer. Não esperarei que contradigam, nem darei chance para a opinião que não seja a minha.

  Acabado dezembro, nada e ninguém mais me surpreenderá, tudo é assim porque é assim mesmo. As pessoas são só de um jeito a vida toda e esse mundo segue como a roda de moinho: a água cai e ela, então, gira, sem mudança nenhuma de sentido. Também serei exatamente essa perfeição: compreensiva, tolerante, pontual e muito, muito acertada nas minhas decisões. Não voltarei atrás, não terei dúvidas, nem vou chorar no meio do corredor quando estiver perdida, mesmo se me perder no escuro. Nem me acabarei em lágrimas, quando alguém chorar na minha frente, mesmo se eu for um pouco responsável pelo sofrimento alheio. Na verdade, me responsabilizarei estritamente por mim, minha dor, meus laços, meus negócios; cada um com a sua conta, só pagarei as minhas dívidas.

  Quando, finalmente, dezembro me abandonar sinalizo com a seta na hora certa, viro à direita (que é bem o lado dos muito corretos) e acerto de vez o alvo. Vitoriosa, determinada, sobrancelhas arqueadas e meio sorriso no rosto. Aliás acabaram as gargalhadas muito espalhafatosas, os copos derrubados nas mesas de bar, as conversas nas filas dos banheiros e os desabafos com desconhecidos. Abandonarei o açúcar, o café e o álcool. Escolherei só as massas integrais e saladas de segunda à segunda. 

  Depois de dezembro, você bem sabe, é hora de virar o jogo, de desfazer laços, ampliar direções e conquistar algo. Por isso, não serei mais o menino que cede o lugar no ônibus e quase derruba a senhora ao lhe dar a mão para ajudá-la a sentar. No desacerto do excesso de afeto e falta de jeito. Nada. Serei meticulosa, raciocínio rápido e com movimentos muito sutis. Farei a conta inversa: muita diplomacia e jeito e menos rompantes de afeto. Dos amores, só aceitarei os plenamente correspondidos. Nada mais de desencontros, desilusões e choro na cama por dois dias e meio. Se for o fim, que seja. Se for o começo, só se for devagar. Acabou pressa, intensidade na partida, faísca saltando dos olhos.

  No final de dezembro, acabo eu. Esta antiga, tão deslocada, desarrumada, sem jeito e atrasada. Escrevo roteiro sem furos, textos melhor acabados, escolho figurinos mais sofisticados e cenários menos inusitados. Mudo a direção, sem olhar para trás, nem para levar recordação.

  Depois de dezembro, pensando agora, acho que só aprendo a nadar; de resto, não vejo lá muita urgência para tantas mudanças. Final de dezembro e eu sigo de cabelos bem compridos, atrasada vinte e cinco minutos, escrevendo uma mensagem muito aflita no celular, me desculpando a quem me espera e dando ordens ao motorista: -  Pela esquerda, moço. Na dúvida, a esquerda é sempre a minha melhor direção.




6 comentários:

Ana disse...

Que sigamos sempre a nossa direção, a que escolhermos. Sempre essa.
Um 2016 fantástico com tudo de maravilhoso.
E que seja doce.
Beijo

Ana disse...

Que sigamos sempre a nossa direção, a que escolhermos. Sempre essa.
Um 2016 fantástico com tudo de maravilhoso.
E que seja doce.
Beijo

Isabel Gomes disse...

Adorei o estilo desse texto! Oh. Vou cobrar então a vinda aqui,hein?(PS: TB viraria à esquerda)

Isabel Gomes disse...

Adorei o estilo desse texto! Oh. Vou cobrar então a vinda aqui,hein?(PS: TB viraria à esquerda)

Amanda M. disse...

Gracias Bel! Irei sim...nem vai precisar insistir muito. Ofereça cerveja e eu chego logo. ;)

Amanda M. disse...

Sim, Ana, sigamos!Um ano maravilhoso para você também! Beijos! ;)