terça-feira, 11 de julho de 2017

Descansar do asfalto de todos os dias

   Fechar a porta, três voltas com a primeira chave, mais duas com a segunda na fechadura extra. O gás fechado, o fogão não explode. Nenhuma janela aberta. Deitar sem olhar o relógio, o telefone nunca mais será importante, agora. Ninguém que chamar será ouvido. Os nomes que eu sussurrar inconsciente não poderão escutar.
   Deitar sem previsão de ver o sol. Dormir um sono de perder as meias durante a noite e não me dar conta, nunca mais achá-las, não precisar encontrá-las. Dormir de perder dois ou três encontros, dormir enquanto os sóis  passeiam no céu, sem que eu abra a minha janela de susto. Dormir de perder a hora pela manhã, de não saber onde se está, ao acordar. Dormir e ouvir um latido bem longe, o caminhão de lixo, o portão da garagem batendo, o interfone, o choro do bebê do apartamento ao lado - ele também estranhando o mundo - todo som em outra dimensão; em um ouvido fora do sono. Mergulho profundo, sem instrutor nem máscara, sem pressa de voltar, sem ter medo de não reencontrar o caminho feito; sem migalhas de pão na floresta. Deitar antes de alguma coisa e depois de outra e não saber de nenhuma das duas, não precisar saber. E descansar do medo, com a porta fechada, da pressa que eu não consigo acompanhar, dos seus meninos que crescem e se esquecem de mim.

  Fechar as cortinas, evitar a luz de fora. Descansar do seu litro de chá de camomila, dos seus incensos, confundindo o meu olfato, das suas orações numa língua que você desconhece, das suas meditações que eu não quero mais aprender antes de dormir, da essência de lavanda no travesseiro - eu quero o cheiro do mundo. Dormir até encontrar a paz sem culpa, sem roupa branca, sem cartaz de desarmamento. Dormir e não saber nunca de guerra alguma. E ao acordar, me assustar como o fato:
- O quê, o se humano apontando uma arma para outro ser humano? Mas conte-me como isso veio a acontecer.
 Descansar de ter, a todo o tempo, que provar que o meu nome é este, que a minha idade é esta da certidão, que eu não nasci em outro lugar e que eu posso pagar o que não sei se posso pagar, mas eu compro, porque acho que posso.

  Apagar todas as luzes do apartamento. Dormir e esquecer absolutamente todos os foras da vida. Não. Poder me lembrar dos que foram bons. Melhor. Todos acabam sendo. Esquecer do último fora, porque este é o que ainda não coube direito no bolso, aparece um pouco quando ando, os outros não. Descansar de não me interessar pelas facilidades, pelas gentilezas só porque são gentis, pelos cães que abanam o rabo só porque são cães e têm rabos e de não achar que as vozes muito doces nunca gritam, porque são as que mais ensurdecem quando disparam. Descansar de nunca usar o elevador, de andar todos os dias por uma hora e chegar ao mesmo lugar da partida, de esquecer a direção defensiva e seguidas vezes arranhar os carros, de não ir ao oftalmologista, porque não preciso de colírio. 

  Deixar algumas frestas para luz, não o bastante para me despertarem do sono, mas para nutrir as plantas e aquecer o gato. Dormir no quarto dos fundos, na minha cama de apartamento e parecer estar numa rede de varanda, cada balanço um outro vento. Sonhar que estou no mar, atravessando um oceano num navio do qual eu mesma sou comandante - eu não me dou ordens nem me obedeço. Não me entristeço de abandonar o leme nem mergulho no mar por alegria; só navego, livre, vagante, sem  salvar vida alguma. Fechar os olhos manchados de hoje e viver novos  tempos oníricos: dançar descalça uma valsa infinita na proa e segurar a saia do vestido de musseline azul. Descansar do lugar seguro que é o continente e ir sozinha pelo mar; saber chegar na tempestade, no escuro, no frio, segurando a saia do vestido para não molhar a barra.

  Deixar o telefone ligado, mas sem volume; para me encontrarem, mas não falarem comigo. Deitar hoje e não ter que acordar para ir ao supermercado, visitar a mãe depois do almoço, ligar para uma voz que eu não conheço e concordar com aquilo para o qual  eu não tenho alternativa, não ter que saber as respostas. Saber as respostas e guardá-las para mim, se eu quiser.  Descansar da organização do mundo e aproveitar a desordem que é deitar sem hora para levantar. Dormir uma noite, oito horas, três dias ou até não saber chorar mais, não querer, não precisar e acordar com o rosto inchado de ter dormido sem ter que me levantar. Descansar do asfalto e trilhar sonhos difíceis de se deixarem ser pisados.

  Recolher o tapete novo do corredor, escrito bem vindo e dormir. Abraçar cem desconhecidos nos sonhos, como se os conhecesse. Cair de mil abismos, mexer os pés na cama e ouvir de manhã que isso é porque eu crescia durante o sono. Dormir e acordar com mais de um metro e noventa. Eu nem me meço mais, os abismos não aparecem nos meus sonhos há muito. Dormir com todas as luzes apagadas e não ter suspeita nenhuma de uma vida estranha debaixo da cama. Deitar e descansar de ter postura ereta, de não duvidar em voz alta, de não pedir para parar o carro quando a conversa for demasiado chata, de pensar em mentir e escolher não. Descansar das minhas opiniões por algumas horas.

  Dormir sozinha no colchão caro que eu paguei parcelado e sentir o colo quente da pessoa antiga, as suas mãos no meu cabelo, cantarolar em duas vozes sincronizadas a música que eu nunca cheguei a decorar. Dormir aqui e acordar sonolenta, de pijama de flanela estampada, com os pés de um irmão no rosto, na cama de mola em que eu flutuava a cada virada dele. Alguém abre a porta,  me vê fingindo dormir,  assiste um pouco, porque acha bonito o sono leve de alguém que não tem que acordar agora e, depois, fecha a porta, para que nada possa me despertar do sono, que ela acha que eu tenho.
  Dormir para não planejar, não ter que suportar, relevar ou desculpar, para não preparar um jantar que alguém desmarca antes de eu ter tempo de não fazer. Deitar e descansar da semana, do mês, do semestre e dos anos que eu esquecia que dormir também ajudava a sonhar. Descansar do asfalto de todos os dias e caminhar no sonho, com pés trocados, sem cair.



  

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