domingo, 9 de julho de 2017

Dos invernos que eu não sei salvar

   Eu não errei a rua, era aquela, mas já era outra. Ele não errou a rua, não era para ele, mas era dele. Eu não errei a roupa, eu suava porque andava, mas me protegia do frio quando parada. Ele não errou a roupa, sentia frio, porque era o que tinha para ele.
  Moro numa rua muito inclinada, todos os dias eu subo, vinda de algum lugar. Não há escapatória, de qualquer lugar que eu venha, eu subo, estou fadada a isto: subir. Já nem sei andar, durante muito tempo, em terreno plano, meus pés não se adequam à facilidade, estranham, rejeitam, tropeçam. Se eu quiser ou precisar voltar: eu tenho que subir.
  Então, mais uma vez, eu subia, porque precisava e queria. Mas ele estava lá, obstáculo quase inerte na parte mais íngreme da calçada. Desviei. Porque custa muito subir e não conseguir chegar, mas fui olhando o que eu não pude pisar. Examinando o que estava na calçada agora, mas que antes não estava.  Eu não errei a rua, era aquela, mas era outra.
  Um pequeno monte em cima de um colchão amarelo, com um cobertor colorido, que subia e descia, conforme a respiração de quem estava instalado bem no alto da calçada. Numa das beiradas do cobertor eu vi sua cabeça grisalha, deitada numa sacola com latinhas vazias. Um homem dormia às três da tarde no pior lado da calçada e não se assustava com os pés que passavam a toda hora bem próximos das suas orelhas. O que faço, homem, continuo a subir? Eu, sozinha, olhava para a calçada. Esperei que ele se mexesse, que olhasse para mim, mas ele só dormia, talvez sonhasse, talvez só descansasse da vida, às três da tarde numa sexta-feira. Eu também quis descansar, talvez assistir ao sono dele tenha sido tudo o que eu precisava na sexta às três.

  Mas ele pouco se moveu, mudou de lado uma única vez, quando as latinhas dentro da sacola fizeram muito barulho, e nem abriu os olhos; ninguém mais passou para eu consultar as horas, ter certeza de quem era três e o dia era sete, o mês era julho e com o ano eu não me importava muito. Ninguém mais passou, quando eu precisei. E eu só quis ver os olhos do homem que dormia na calçada, mas ele não acordou a tempo.  Continuei a subida, não queria descer de novo, mas em pouco mais de duas horas eu passaria pelo mesmo lugar. Talvez ele não estivesse mais lá, talvez a calçada muito inclinada o fizesse se sentir mal, talvez alguém oferecesse um lugar mais confortável para ele dormir.Talvez eu só encontrasse o colchão, talvez nunca ninguém tenha estado lá, talvez fosse eu quem sonhasse às três da tarde de sexta-feira.

  Enquanto eu fechava o portão, vi um grupo no mesmo lugar da calçada onde eu assisti o sono de um desconhecido. Tive medo de que tentassem tirá-lo de lá, sem ter um outro lugar para repousar os seus sonhos.
- Um homem que não sonha não tem nada.
Era eu pensando. Ou que ele não estivesse dormindo, quando eu me despedi dos seus olhos fechados. Desci a rua como se não soubesse dele, como se eu nunca o tivesse visto, nem percebido a espuma amarela no início da minha rua. Fingi surpresa e total desconhecimento. Tive medos diferentes para uma mesma pessoa, alguém que eu não pude acordar do sono, inclusive por não saber o que oferecer. O que dar, quando a falta parece imensa? Eu nunca sei.

  Quando eu desci, o homem estava sentado no colchão,  os dois olhos bem abertos, assustados, sem muito entendimento e o grupo ao  redor dele se mobilizava para tirá-lo de lá - meus bons vizinhos. Conheço metade pelo nome e o restante pelos sorrisos matinais.
  Quase cinco da tarde, dezessete graus e  um nevoeiro que ficava cada vez mais denso. Assisti um pouco da comoção,  ligaram para três números diferentes: no primeiro estavam bem calmos, no segundo um pouco mais nervosos e a terceira ligação foi bastante tensa, a vizinha interlocutora chegou a ficar vermelha. Mas ninguém olhava para o homem no colchão, só falavam dele, do seu estado físico, das condições do colchão e do cobertor, mas ninguém falava com ele, ninguém tinha os olhos voltados para ele. Tentavam mais uma ligação e eu já estava atrasada. Olhei para os olhos do homem e ele estava lá, olhando para mim também. Depois de quase três horas e uma subida angustiante eu via os seus olhos. Pensei em ficar, mas eu não tinha um telefone e ninguém, além do homem do colchão, me via ali também.

  Eu subiria a rua certa mais uma vez e nenhum sono me pararia, nenhuma hipótese de sonho desconhecido seguraria as minhas pernas, nenhuma vontade de ver olhos humanos vindos de um colchão na calçada me acompanharia na escalada noturna.
  Fui embora, mas fiquei pensando na solidão pública do homem espremido na espuma, na calçada, rodeado pelos meus vizinhos faladores. Fiquei melancólica a noite toda, mas no inverno todos ficam mais silenciosos e eu me aproveito bastante do clima para me parecer com todos.
  No termômetro, dez graus. No relógio, vinte e três horas e quinze minutos. Os telefonemas certamente tiraram o homem do alto da calçada, eu subiria a rua, com as mãos escondidas de frio e ausência. Eu que não dei nada ao homem da calçada.

  Eu não errei a rua, mas precisei desviar novamente. O homem deitado no colchão amarelo e cobertor estampado, no mesmo lugar. Mas agora, perto dele, uma senhora pequena, fazendo perguntas, esticando o cobertor, ajeitando sacolas ao redor do homem, que respondia baixo, com medo, mas olhando profundamente para ela. Alguns pacotes de biscoitos, garrafas com água e um copo de café que ela segurava para ele se levantar. Eu nunca a tinha visto, mas pela intimidade e preocupação do porteiro, é moradora do prédio que fica em frente a calçada. Subi mais lentamente, tirei as mãos do bolso e vi um homem ser finalmente visto. Ela não ligava para nenhum telefone, enchia o homem de perguntas e ajeitava o lugar em que ele passou a tarde toda. Parecia uma mãe, que organiza o apartamento do filho caçula. Era autoritária, mas muito terna também. Levantou o cobertor do homem assustado, como a mãe que abre a geladeira do filho:
- O senhor não tem meias não? Nesse frio todo sem meias?
O homem balbuciou algumas palavras que eu não conseguia ouvir. A mulher pediu as meias do porteiro:
- Dá para ele suas meias, Elias. Depois arrumo outras.
O homem demorou a entender.
- Como, senhora?
- Suas meias. Rápido, tira aí, que te dou outras lá em cima.
Ele sentou-se no chão e tirou suas meias. A mulher se abaixou e colocou-as nos pés do homem do colchão amarelo. Dois homens grandes, obedecendo aos comandos rigorosos da mulher miúda.

  O homem na rua, no frio de dez graus. Os pés do homem, agora, com meias. Eu quis me desfazer em lágrimas, lavar os pés dele com elas e secá-los com os meu cabelos, numa Madalena sem salvação. Como eu, às três da tarde não pensei em meias, biscoitos, água ou café? Como meia dúzia de moradores se mobilizaram ao telefone e ninguém se abaixou até os pés gelados? Bastava que as meias encontrassem o frio, bastava que eu desse algum tipo de ternura aos olhos que alcançaram os meus. O amor não tem que ser manso, de voz doce ou muito perspicaz; o entendimento de uma pessoa não é o mesmo de uma compra ou reclamação. Ninguém alcança as ausências todas de pessoa alguma, mas enxergar ao menos uma falta e poder cobri-la pode fazer do chão um lugar menos duro para se viver.
  A mulher de sobrancelhas arqueadas e voz ríspida, aqueceu os pés do homem e me descansou da melancolia de uma sexta infeliz. Eu continuei subindo, estou fadada às escaladas que nunca terminam. Em alguns dias, a paisagem é mais bonita e subir parece não cansar tanto; os meus pés parecem gostar.




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