terça-feira, 25 de julho de 2017

Eu ontem vi alguém que não era você

  Eu ontem vi você na rua. E era diferente, era outro ou eu era? Descendo aquela rua íngreme perto da catedral, sabe? Era você, não era? Não parecia, embora eu soubesse que era; numa mesma cidade um outro você não era possível, por isso era, definitivamente, você. Era você e não parecia ou eu não conseguia olhar do mesmo lugar de antes?
  Eu ontem vi você com livros na mão, livros que eu nunca tinha visto antes, que eu nunca voltarei a ver.  Que não vi de perto, mas pelas cores na lombada não era meus, seus ou nossos. Eram livros de uma biblioteca ou novos, recém comprados, que chegaram para você, na sua nova porta. Descia aquela rua, aquela onde os carros descem descontroladamente, se o motorista não puxar o freio de mão com certeza.

  Eu ontem vi você, passando a mão no cabelo que era seu, descendo a rua e acenando para alguém que eu não olhei, porque já não me interessa a sua perspectiva do mundo. E o seu cabelo ainda era escuro, despenteado, mas eu não lembro mais o quanto eles eram macios ou ásperos, se o fios eram finos ou grossos ou, ainda, misturados. Eu vi você passar a mão no cabelo, que não consigo mais lembrar o último corte que eu acompanhei.
  Eu vi você suspirando quando passou pela árvore com as flores abertas, coloridas de lilás quase roxas, naquela rua, onde  tinha aquela escola de direção que eu desisti de frequentar as aulas, porque tive medo de ter que sair com o carro daquela altura e esquecer o freio, se o semáforo mudasse de cor, de repente. Eu sei que esse suspiro não tem lembrança nenhuma dessa história, mas outros talvez tiveram.

  Eu ontem vi você, abrindo a porta de um carro, fazendo um gesto corriqueiro, mas que, agora, eu não reconhecia familiaridade. Você não parecia alguém a quem eu tivesse visto muitas vezes de tão perto, humano que reconhecesse o cheiro; sabe quando a gente esquece dos cheiros das coisas? Sabe que gostava, que era bom, que era a mistura de um perfume com a pele, mas não sabe dizer cheiro exatamente de quê. E não é pelo tempo ou memória ruim. Meu avô morreu há vinte anos e eu ainda sei o cheiro dele, e era aquele avô que eu via raramente. A memória seletiva dos olfatos parece ter descartado justamente o seu cheiro. Não fui eu quem mandou, quem decretou proibição,  ela esqueceu-se sozinha, autônoma, cheia de si.

  Eu ontem vi você na rua de calça jeans e um moletom que eu não sei mais em que loja você comprou. Vi você ajeitar o capuz e não derrubar nenhum livro, vi o quanto você é metódico e não me lembrei de nenhum episódio que confirmasse a sua destreza, agora, naquela rua. Nem de como você organizava a louça antes de lavar, começava pelos talheres ou pelos pratos? Ensaboava tudo e depois enxaguava ou terminava uma peça por vez? Enxugava a pia ou a deixava molhada? Eu não sei, não tenho lembrança disso também.
  Eu ontem vi você sorrindo no alto da rua, aquela da catedral, sabe? Sem ser a principal, mas a outra. Eu o vi e não achei nada demais, meu coração não se sentiu ameaçado, não fiquei rubra de vergonha, não tremi, nem tentei me esconder. Acho até que fiquei com a postura mais firme, mais altiva. Como se a coluna dissesse:
- Ei, aqui ninguém tem medo!

  Eu ontem vi você se sentando no banco de um carro que eu não sei a placa e abrindo o vidro com tanta informalidade e precisão, que eu soube que o carro é muito mais próximo de você do que eu e os livros, com os seus trechos marcados, que ficaram na minha estante. Eu vi você sorrindo e conversando com um motorista que eu não vi o rosto, não busquei impressão alguma, porque nenhuma curiosidade chegou até onde eu estava, vendo-o; desconfiando que alguma parte não era sua mesmo.
  Eu vi quando o carro do lado buzinou, um grito te buscou e outro grito, esse saído de você, respondeu alguma coisa. Não identifiquei o que era, porque o tom da sua voz me surpreendeu.
- Mas, então, era essa a sua voz? Que estranho, que desconhecida, que voz impossível para aquela pessoa que eu conheci, mas muito adequada a essa na rua íngreme.

  Eu ontem vi você gargalhando, depois de um grito, e não quis rir junto, nenhuma força do centro do meu corpo, nenhum músculo do meu abdome me convocou a sorrir. Ao contrário, fiquei indiferente, como quem vê um saco preto de lixo, de conteúdo ignorado, ser içado por um caminhão da empresa de coleta urbana. Nada. Nada.
  Eu vi você ontem na rua e não parei de subir, não desviei do caminho, não mudei de calçada, nem tirei os óculos da bolsa para conferir e ter certeza se era mesmo você. Só andei, calma, surpresa de ver alguém antigo, como um novo; um íntimo, como um qualquer. Um ontem, como uma peça no museu de trens; quase nada me dizia respeito, quase nada era uma história para mim. Passei indiferente, sabendo que era você e ao mesmo tempo não era. Você não saiu do carro, eu não desisti do caminho.  

  Eu ontem vi você, acho. Era você, na rua íngreme da catedral? Era. Não tinha como ser outro igual na mesma cidade. Eu só não me lembrava mais dos títulos de livros,  do cheiro, da textura do cabelo, do jeito, da voz, mas era. E não era.
  O que faz uma pessoa tão íntima ir embora para sempre? O que faz as partes que conhecíamos dela a abandonarem e deixarem, no seu lugar, uma pessoa comum, banal, que sabemos que é a mesma, mas que temos a certeza de não ser mais? Que mãos arrancam os vestígios de raízes, que racionalidade ilumina os nossos olhos e não nos confunde de amor mais? Que espírito é esse que inverte um mundo, que até ontem, era tão bem construído, com estratégias tão articuladas e definidas e nos leva a morar num novo, que parece demasiado remoto?
  Eu ontem vi alguém que não era você, na rua da catedral, segurando livros, suspirando, entrando num carro, abrindo um vidro, gritando, gargalhando e, depois, desaparecendo na esquina para sempre. Que narrativa banal, que personagem indefinido é este com quem eu cruzei ontem e não me atropelou de ternura e lembrança? Só essa vagueza de sentimento, essa definição de que as coisas mudam sem nem nos darmos conta de como eram antes. Só sabemos da mudança, quando passamos as páginas de uma revista, num consultório médico e nos deparamos com duas fotos lado a lado: antes e depois.
- Que susto. Que estranho. A mesma pessoa é também outra.



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