sexta-feira, 28 de julho de 2017

Como levantar da cama depois de uma noite ruim

  Depois de uma noite de sono ruim não há como voltar ao sonho incompleto, do qual somos acordados, para inventar um final para ele. Não adianta. As noites ruins atropelam os sonhos, interrompem as narrativas e deixam suspensos os finais. Uma noite ruim escreve, burocrática, um bilhete com uma frase ordinária quando esperávamos ao menos um verso da poesia noturna.
  Uma noite ruim decreta a dificuldade de um dia seguinte sem as suas sombras, desafia-nos a tentar ir à vida, cansados ainda, desanimados pelas imagens desordenadas sem final algum. O dia seguinte, todo ele, é a luta pelo esquecimento de uma noite, onde não coube um descanso nosso. É preciso querer amanhecer, de novo, para mais tarde tentar nossa redenção com os sonhos. Uma noite inteira  numa cama alagada de pesadelos ou incendiada pelos pensamentos que não dormem nos faz desejar, com pressa, um raio de sol no piso do quarto.

   Quando a vida finalmente amanhece, eu me levanto respeitosa com o dia que eu esperei, deslizo pelas cobertas, me sento na beirada da cama e, antes de me levantar, o gato sobe no meu colo; ele é o meu primeiro consolo do dia. Sabe que eu não dormi e me livra de ser sozinha na madrugada desabitada dos sonhos. O gato sabe mais dos meus destinos do que eu dos dele. Talvez conheça cada um dos lugares que eu visito em sonhos e cada rosto dos meus medos noturnos. Ninguém melhor que o gato para me salvar da miséria de não descansar. Aliso suas costas macias e faço pequenos círculos no alto da sua cabeça, porque sei que ele gosta, dou a ele menos do que ele me dá, mas ele nunca pede muito, salta do meu colo e me chama para andarmos no apartamento gelado da manhã de sexta. Abandono a noite nos lençóis e me levanto, olho para o espelho, não desvio das olheiras, elas marcam a dificuldade mais recente.

  Para início de jornada, eu desabotoo o pijama com delicadeza e cuidado, porque tudo o que o dia seguinte a uma noite ruim pedirá são as pequenas gentilezas. Para cada botão aberto, faço um pedido, meu aniversário secreto no dia depois da noite que eu não pude me desmanchar pelos sonhos. O gato me olha da porta do quarto, voltou para conferir em que altura da vida eu estou; ele sempre olha para trás, retorna para ver se eu continuo firme no caminho ou se sentei na calçada. Meu segundo consolo do dia: o gato não me abandona. Visto o roupão, vou até a área de serviço, abro a porta e o gato sai porque me viu pegar a toalha de banho, agora ele tem certeza de que eu não me sentei na calçada, vai seguir com sua vida de gato.
  
  Ir para o banho, chorar no chuveiro, soluçar, se por um acaso o impulso de um soluço nascer. Chorar pelo sabonete que escapa das mãos e cai no chão, pelo cabelo molhado, sem querer, na empreitada de recuperá-lo. Chorar por ter que agora lavar o cabelo em água morna, porque a mais quente não funcionou. Chorar porque não sou o gato e ainda não fui para rua. Chorar porque tenho memória, insônia, pesadelos, porque quando mais preciso as luzes não se apagam se eu fecho as cortinas e aperto o interruptor. Chorar para aproveitar a água do banho e as lágrimas se confundirem com a espuma branca; não saber a proporção entre tristeza e higiene; cansaço e jato, água salgada e água morna. Chorar pela espuma tão bonita e porque nunca vi a neve. Afogar a tristeza na água do chuveiro, desligá-lo, esfregar a toalha no cabelo com calma e não ver mais lágrimas durante todo o dia. Somente, se ainda tiver vontade, quando chegar em casa para um segundo banho.

  Aproveitar para secar o cabelo e fazer um penteado bonito. Arrumar a cama, trocar os lençóis e o travesseiro, promessa de uma outra noite possível. Abrir as cortinas da sala e não achar ruim o céu tão cinza, ao menos não é completamente escuro, como esteve no quarto. Ouvir a música que sempre toca no alarme do celular do vizinho e que ele só desliga no final, desconfio que ele saiba que mais alguém, além dele, partilha do seu gosto, no prédio. Nunca ter conversado com alguém que divide a sua primeira música todos os dias, meu terceiro consolo do dia; a música e o pertencimento ao universo de um desconhecido.
- Temos almas musicais gêmeas, vizinho.
  Lembro da professora de matemática, explicando a intersecção de conjuntos, moramos naquele espaço que os nossos conjuntos dividem.

  Tomo o café enquanto a música toca, estou vestida e de meias, queria ficar descalça durante todo o dia, mas a rua pede botas. Lavo a louça, troco a água e coloco comida para o gato, em alguma hora do dia ele voltará para saber se eu ainda não sentei na calçada e também se alimentar, porque é um gato faminto como a dona. Calço os sapatos de guerra, no meu caso, só pelo frio, ajeito a camisa debaixo do casaco, escovo os dentes e ensaio uma continência no espelho, mas não a faço porque acho o gesto, de repente, ridículo, mas acabo levantando o punho; num sinal de resistência para mim mesma. Eu e a outra, do espelho, não decepcionaremos o gato. Abro a porta, desço as escadas, só encontro o zelador que me olha sem susto, como se eu estivesse com boa imagem, mesmo depois de uma noite ruim. Falo sobre o chuveiro, não do choro, porque ainda não somos íntimos e um choro no chuveiro só contamos, em último caso, a quem amamos, mas falo da água quente que faltou pela manhã. Combinamos dele me salvar da friagem da noite de sexta. Se o gato abrir a porta, ele trocará o chuveiro mais tarde, eu vou tomar um banho mais quente e não vou deixar escorrer nenhuma lágrima; meu quarto consolo do dia.

  Deixo as sacolas de lixo no contêiner e saio, finalmente, para o campo de combate. Minhas botas me dão segurança, as olheiras me fazem parecer uma pessoa marcada para resistir. A noite passada ficou para trás, eu  acordei do meu não-sono. Uma noite ruim pode durar horas, dias, até meses, mas em algum momento a manhã clareia e nos leva para fora com a esperança de dias gentis. Entro no ônibus quase vazio, uma passageira elogia meu cabelo e a filha dela me dá uma flor que acabou de roubar de algum jardim. Uma flor esmagada, colorindo de amarelo a minha mão gelada; meu consolo mais bonito no dia em que me levantei da cama depois de uma noite ruim. Que bom que os jardins da cidade ainda têm os muros baixos e flores, escapando pelas grades.



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