sábado, 18 de novembro de 2017

Com que linha se costura um útero?


   Ela se mexe, levanta a mão e vou até ela, vou sempre. Se não me chama também não vou, sou só uma resposta para os movimentos de angústia dela e ela também é assim nos meus. Se dou dois passos para trás, ela não me pergunta o porquê, responde e acolhe os meus afastamentos e, também, aproximações urgentes. Seguro a sua mão, está fria e o rosto é mais pálido do que eu estou acostumada a ver; com uma das mãos apertando a minha e a outra segurando o lençol, zonza, me pede água.
- Ainda não pode.
Eu disse.
- Eu sei. Estava te testando.
  Rimos da tonteira dela,  gargalhamos da esperteza dela. E eu vi que agora estava tudo bem. Numa camisola azul de abertura nas costas, de cabelo preso, sem maquiagem, descobertas as sardas no nariz e no queixo e na calmaria química da qual voltava, parecia mais jovem. Sua mão fria na minha, seus olhos amarelos de alegria lenta e, aos poucos, ela voltava de um sono forçado.

  - Tenho medo de cair.
Ela disse, com a voz mais firme do que quando pediu água.
- A cama é alta, mas também é larga. Não tem perigo, não vai cair.
Tentei mantê-la calma. Ela sorriu de olhos fechados e com a voz sonolenta, explicou:
- Não tenho medo da cama, tenho medo de cair...só de cair. Na vida.
 E voltou a dormir.

  Por que ela sempre faz uma revelação muito dura e depois vai embora? Porque depois de uma frase lancinante se muda de país, desliga o telefone, troca de mesa, vai ao banheiro ou se vira para o canto e dorme? Por que ela deixa uma questão profunda e volta para areia, enquanto eu ainda estou no mar? Por que me pede para acender o seu cigarro e pula do carro, enquanto eu procuro o isqueiro? Por que atira a flecha e se embrenha na mata, antes de ver se alcançou o alvo?
Agora já não parece tão vulnerável quanto antes. Tem sede e tem mistério.

  Ela virada para a parede, eu sentada em frente a sua cama.
- Quem caiu mais vezes?
  Pergunto para o sono pálido na cama alta. Eu  não tenho medo de cair. Engraçado. Nunca tive. É um instante involuntário, é fácil, é rápido e só dói quando o corpo encontra o solo, uma dor aguda, que às vezes termina antes do grito sair. Cair é natural, é passivo. É imprevisível, irrefletido, não pede ciência nem fé; é só a entrega ao saber que não há o que fazer. O levantar, sim, é dificultoso. Exige decisão, esforço, impulso determinado ou equilíbrio corajoso.
   Ela abre um pouco os olhos e eu continuo a conversa que a sua condição interrompeu:
- Tenho medo de me levantar.
- Quê? Como?
- Nada. Pode voltar a dormir.
- Eu vou. Vou dormir tudo que eu conseguir.

  - É um cirurgia simples. É como fazer a barra da calça, só que vai ser no meu útero.
Foi assim que ela me explicou ao telefone, quando me pediu para estar com ela.
- Não quero outra pessoa; só você para ir à costureira comigo.
  E riu, fingindo não estar preocupada. Não perguntei muito, embora tivesse algumas questões que gostaria de saber, como: com que linha se costura um útero?
  Seis da tarde e ela não acordou, ainda. Não sei se quer ser mãe, não sei se quer que eu seja a sua, hoje. Olho-a dormir como minha mãe devia fazer quando eu adoecia. Pelo menos, essa é a imagem que tenho: a de ao acordar de uma anestesia, minha mãe estar me olhando, segurando um prato de sopa.

  Queria tomar um sorvete, caminhar, dormir depois do almoço e observar a cidade de dentro do ônibus. Queria nadar, comer doce de laranja cristalizado e segurar o bebê da vizinha, enquanto ela abre o carro e coloca a cadeirinha. Queria ir à farmácia e escolher sabonetes para pele oleosa. Queria lavar o cabelo e ir dormir com ele úmido para deixar a fronha fresca. Queria fazer café, terminar um texto, passar pelo catálogo de filmes, comendo pipoca e  não ter escolhido nenhum, depois de já terminado o último milho. Mas estou faminta, no silêncio de um quarto de hospital, segurando a mão fria de uma mulher com o útero recém costurado que tem medo de cair. Como terá sido a costura no útero dela? O médico me explicou sobre a intervenção, uma cerclagem, as chances de uma futura gravidez, os cuidados nos próximos dias, mas não me disse com que linha ele costurou um útero.
Enquanto ela dormia, eu conversava com a costureira dela e ele tinha mãos muito finas, dedos longos, unhas bem aparadas e a voz calma de um artesão que acabara de remendar uma mulher que talvez queira filhos.

  Temos mais de trinta anos. Começo a desconfiar que talvez eu precise também costurar meu útero. Às vezes eu odeio ser mulher, noutras vezes não sei achar ruim nem quando dói. Às vezes queria estar noutro lugar, às vezes acho perturbador não poder estar aqui.
 Com que linha se costura um útero? Com que linha se costura uma espera que talvez fique para sempre sentada num banco, olhando para a esquina? Com que linha se costura o destino da gente, aguardando o destino do outro que nem sabemos se existe? Que linha eles usam para deixar o útero dela mais seguro e adequado para receber um vida?  Que linha a salvará de uma queda?
  Por precaução, levanto a grade da cama e cochilo na cadeira, enquanto ela dorme com uma linha transpassada dentro dela.
- Levantar é que é o nosso medo. Cair não dura.
 Eu falo, enquanto a preservo de um tombo. Ela já pode beber água se quiser, mas agora que pode, prefere dormir à matar uma sede.








2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Gerais, 23 de novembro de 2017

Falta pouco mais de um mês para o Natal. E é impossível falar de Natal, sem falar do natalício. E Deus escolheu um útero o sacrário da salvação dos homens. Não, não foi este o sentido do seu texto, eu sei. Mas estamos vivendo uma época tão estranha, com valores tão estranhos, que até o Útero está no desejo íntimo de alguns que o querem para si (para chamarem de seu?).

Dia destes homens de bens, convictos da sua pragmática fé no menino que nasceu de um útero livre, que só permitiu ser sacrário diante e mediante explicações questionadas ao Anjo, deduziram que se controlarem os úteros, poderão quem sabe tornarem-se puros, dignos do paraíso (mas não querem perguntar isto aos úteros, afinal não são anjos).

Um abraço, Amanda (dias melhores ainda não virão, mas um dia ...)

Paulo Abreu

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, 24 de novembro deste inacreditável 2017

Caro Paulo,
esses homens de bem (autoproclamados)querem os úteros e tudo mais que sugerir algum poder que não possam ter. Querem os úteros porque odeiam mulheres; querem acabar com os programas sociais, políticas de inclusão, porque odeiam pobres; negligenciam e violentam os direitos civis, porque odeiam os GLBTs, libertários e toda ameaça à ignorância na qual chafurdam... Os homens de bem querem ruir tudo o que não têm e nunca terão.

Sim, Paulo, sigo esperançosa (alguns dias menos)...mas dias melhores devem ser sempre sonhados (e realizados em alguma instância).
Abraços!