terça-feira, 15 de março de 2022

Vendo casa com toda a vida dentro e vaga na garagem

   De novo a calça legging, de novo o cabelo comprido e brilhante - às vezes solto, às vezes em um rabo de cavalo baixo, sem nunca mostrar as orelhas - tênis leves, uma sacola numa das mãos e a coleira, que orienta o cão delicadamente, na outra. De novo os passos fortes e lentos, sincronizados com os do cão idoso - sua companhia mais fiel. De novo um rosto que ostenta a jovialidade, embora já tenha rugas bastante aparentes. De novo o sorriso e o meio cumprimento com um final sussurrado, quase perdido.   
  Não esperava encontrá-la por aqui de novo, ao menos não em tão pouco tempo. Mas ela veio acostumada, passou sob a minha janela, sorriu e agora está sentada na calçada em frente à antiga casa. Há meses ela não aparecia por aqui, por isso não acompanhou a transformação da casa que era dela em outra.

  Os pórticos de madeira maciça e escura foram substituídos por estruturas metálicas foscas e claras. O antigo telhado colonial, agora é metade de vidro transparente e outra de concreto liso, com um acabamento de cimento queimado, seguro por linhas retas, sisudas e talvez mais elegantes. O jardim deu lugar a mais uma vaga para algum automóvel e quase nada do que eu conheci, por mais de uma década, permaneceu.
  Sentada do outro lado da rua, a poucos metros da minha janela, não consigo identificar se há alguma comoção visível na ex-dona da casa, que silenciosa e sem grandes gestos, só olha para o que existiu. Só ela e o cão em uma segunda-feira, sob o sol, enfrentando uma casa que em nada lembra a que foi dela.

   Quando cheguei ao apartamento, talvez no primeiro dia mesmo - ainda com a corretora de cabelos vermelhos da imobiliária, tentando abrir o portão e eu desgostando do nome do edifício, nós possivelmente nos cumprimentamos. Quando eu levei a mudança e subi com algumas dezenas de livros que ainda não li, também devemos ter nos cumprimentado e, depois, quando levei as plantas que comprei; quando apareci com novas companhias, que depois desapareceram; quando eu me formei e depois me formei de novo, quando eu me demiti, uma, duas, três até ela não saber mais a minha profissão ao certo. E quando cortei o cabelo e depois deixei crescer para cortá-lo de novo e quando só o deixei crescer, quando pintei e no dia seguinte pintei de outra cor - arrependida; quando eu mudei muito e quando não mudei nada. Quando eu subi a rua chorando e ela se solidarizou através de um meneio discreto de cabeça. Quando falávamos do clima, do tempo, da gasolina. Ela estava lá. Tão acolhedora e antiga quanto a madeira e as telhas coloniais.

   Agora ela está, de novo, na nossa rua. Sem máscaras, eu e ela. Eu porque estou dentro do apartamento e ela, por causa da permissão municipal. Sem diálogos em português, porque estou silenciosa há dias e ela está com o cão somente. Sem mudanças expressivas no cabelo, ela há uns vinte anos e eu há pouco mais de dois. Sem medos por coisa iminente, porque tranquei a porta e voltei da analista há pouco e ela está com o cão e é só três da tarde. Sem idealizações, porque ainda é segunda-feira e porque estamos exaustas de esperar ou prometer o que não podemos cumprir. 
  Ela é a vizinha que construiu a casa - imagino que de maneira muito ativa, porque é como ela se comporta na vida, ao menos na nossa rua:
- Essa coluna não deve ser aí, vai atrapalhar para sair com o carro.
- Menos cimento, porque eu quero um jardim mais largo mesmo, ao redor da casa toda.
- Esse basculante está muito baixo, pode levantar uns setenta centímetros. 

  Além da casa, os filhos dela que também eram um pouco dessa rua. Dois. Não sei quando o pai deles morreu, mas quando conheci a família já era um trio e pareceu funcionar muito bem assim. Ela aguava o jardim, saía religiosamente duas vezes ao dia com o cão para passear, atendia aos prestadores de serviços no portão com muita gentileza, mas rigorosidade também. Discutia com um filho ao telefone, enquanto passava as mãos no cabelo do outro e às vezes invertia. Elogiava o do telefone, enquanto era mais dura com aquele que estava a olhá-la.
  Talvez enquanto empregasse esforços para fazer esse microcosmo, que era a sua casa, sobreviver. Regando as rosas ou distraindo o cão;  ligando para um filho ou medindo a temperatura do outro; varrendo a calçada ou acreditando em um próximo governo,  um filho tenha a alertado que não havia quem voltasse mais. 

  E ela não cortou o cabelo, não se desfez das leggins, não se casou de novo, tampouco acho que queira. Não matou as rosas, não libertou o cão. Não operou as orelhas de abano, não se matriculou no Crossfit. Não gritou com o atendente da telefônica, não se afogou na piscina. Não arranhou o carro, não jogou um prato na parede. Ela não chorou em público, não passou a se vestir de preto, não disse aos filhos que voltassem. Mas vendeu a casa com a madeira, as telhas, as rosas, as risadas dos filhos, a angústia de ser só e sustentar duas colunas imprevisíveis, sem saber se a base era suficientemente reforçada.
  Abandonou o jardim com pedras brancas e polidas, ao redor de cada muda. Desistiu da luta contra os líquens na parede, os cupins nas portas, as aranhas no porão. Ultrapassou o portal de madeira e não olhou para trás, como a mulher de Ló. Por isso não é estátua de sal.

   Agora ela está na calçada, em frente ao lugar da casa, que abriga outra casa e não parece se lamentar por nada. Talvez um pouco pelo jardim. O mesmo cabelo - farto, brilhante - o corpo cujo contorno não se altera há vinte anos, o sorriso adolescente entre linhas profundas. A rotina do cão, da caminhada, do supermercado e das conversas com outros vizinhos.  
  A mulher de cabelos compridos, se senta em frente a uma vida inteira e não ameaça chorar. Não sei se é o sol, se é a segunda-feira, se ela vem também do analista, mas olha para a casa sem se abalar. Talvez ouça uma risada que parece vir da antiga cozinha, o barulho de rodinhas de um carro de plástico, atravessando a varanda ou talvez veja vultos pequenos correndo em volta da piscina. Ou o cão mais jovem ou o seu próprio reflexo com menos história.

   Hoje ela olhava para uma casa que não é mais dela, uma casa cuja aparência já é outra e não pareceu triste pelo que não permaneceu. Com o cabelo solto e vestindo uma calça legging, olhou a casa, como alguém cujo o mundo é maior que um só lugar. Ela olhou como o cachorro olha para o quintal: é um bom lugar, mas se libertar dele também é.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Geraes, 21 de março 2022

Prezada Amanda,
Protagonista atemporal das coisas da alma humana

Primeiramente peço desculpas por ter desaparecido. Foi um ciclo astral de atropelos e tropeços ora naturais, ora espirituais, juntos ou separados. Mas o fato é que estou voltando ao mundo.

Li sua crônica com os olhos atentos - o que Amanda quer nos dizer? Você trás hoje, com muita delicadeza, o nosso confronto desconfortável e inevitável com o passado. Isso daria uma análise profunda, mas a forma como escreveu é cândida e explicita - "O passado é um bom lugar, mas se libertar (da dor) dele também é...

Um abraço!! Como sempre ler Amanda vale a pena!

Paulo Abreu

Amanda Machado disse...

Minas Urgente, 21 de março de 2022 (pós-pandemia, será?)

Querido Paulo,
faz muita falta aqui. Sabe bem que é a minha prosa mais constante e interlocutor das coisas, inclusive das não escritas. Não há nada para pedir desculpas. Sua ausência foi sentida, mas previamente compreendida. Espero que esteja bem, com boa saúde e rodeado dos seus afetos.

Não suma, se puder. Volte sempre ao lugar onde a sua chegada é muito comemorada.
Abraços,
Uma excelente semana e beijos nas meninas
Amanda