quarta-feira, 2 de março de 2022

Eu faço cartazes "não obstrua o corredor", enquanto você conhece o mundo


  Enquanto faço cartazes "Não obstrua o corredor", você ganha o mundo. Com a caneta hidrocor azul quase seca, as duas últimas letras precisam ser reforçadas, eu desencorajo transeuntes hesitantes. O corredor não é para quem fica. 
  O som da ponta da caneta no papel sensibiliza os meus dentes, passo a língua neles e continuo a frase. 
  - Não vai ter exclamação!
 A tinta acabará antes. Economizo para um ponto final. 
  "Não obstrua o corredor" em letras garrafais, eu escrevo sem querer, enquanto você ganha um novo continente. Eu procuro a ponta da fita adesiva para afixar o cartaz, do qual não gosto e você negocia o aluguel de um camelo em algum país africano.
 Na TV, uma propaganda de agência turística diz: "quem viaja se torna melhor", me lembro disso, enquanto escrevo "obstrua". Eu preciso lidar com os corredores, baby. Eu não me tornarei melhor ainda.

  Enquanto eu pago a terceira parcela - das doze - da TV, a qual eu não assisto, você filma um tuaregue com turbante azul, tocando um instrumento de sopro, ao qual eu chamaria de flauta e você me corrigiria sutilmente. Mas essa sutileza não disfarçaria a  ignorância de quem precisa controlar o fluxo dos corredores. 
  Numa pandemia, meço com fita métrica da caixa de costura de uma colega, a distância entre as cadeiras para uma reunião de emergência. Enquanto você aprende a dobrar paraquedas, a domar leões, a se camuflar nas savanas. Seu pai deve ter orgulho de você agora, enquanto o meu tenta consertar a porta do armário da minha cozinha.
 
  Enquanto eu desenho setas tortas com giz no chão do corredor para que leiam os cartazes recém-escritos, você aprende algum idioma inusitado de um grupo mongol. Eu tento acertar a folha de papel A4 na parede, enquanto você ajusta a lente da sua câmera fotográfica. Mas fui eu quem comprou aquele livro do Sebastião Salgado que você pediu emprestado e nunca devolveu. 
  Eu digito o cardápio da semana e você experimenta a exótica cozinha da Tanzânia. Mas jura que sente falta da comida daqui, quando manda mensagens pedindo meu endereço para os postais. 
 - É o mesmo de dez anos atrás.
  Eu odeio o presidente e você diz que o mundo é maior do que isso. Eu choro a cada eleição perdida e você repreende a minha limitação geopolítica. Eu reclamo por um reajuste de salário, enquanto você mergulha entre destroços do Titanic.

  Eu atualizo listas repletas de nomes com consoantes dobradas, enquanto você bebe licor de anis em Lisboa e compõe uma sonata em dó maior.
  Enquanto eu faço cartazes "não obstrua o corredor",  você cria um novo itinerário, inventa outras metas e dribla  rotinas.
  Eu escrevo para que passem e não permaneçam; eu escrevo para que ninguém fique no caminho; eu escrevo para que nos deixem seguir sem tantos obstáculos e você não pode me ajudar com isso agora, porque tem uma caverna para explorar, antes da maré chegar até ela. Temos nossos minutos contados. Eu quero ir para casa depois do trabalho e você quer ir para mais longe de casa, se sobreviver.
 
  Eu compro analgésicos na farmácia e me lembro que você comprava uma mistura para chá com pó da asa de morcego e pétalas desidratadas de alguma flor rara, em algum país do oriente.
  - Isso curou minha enxaqueca. 
    Pudera, morcego e flores raras. Eu estou farta da indústria farmacêutica, mas a minha dor de cabeça se torna prioridade.
Enquanto descongelo um filé de Merluza, você acompanha uma fragata em Creta e dá comida aos pelicanos gregos. Eu almoço. Eu penso em soluções mais efetivas que os cartazes para os corredores.  Você não sabe do meu prato ou dos corredores que eu preciso administrar. 
 
  Enquanto eu assisto a um tutorial sobre hortas verticais, você sobrevoa plantações de papoulas no Afeganistão. Eu só quero ter, na varanda do apartamento, manjericão, salsa e hortelã para um chá qualquer dia. E do seu avião, o que você quer alcançar? Ao menos as papoulas parecem bonitas de tão longe?
  Eu durmo depois das onze e meia e acordo, pensando em alguma frase para outro cartaz, mas antes vou precisar de uma nova caneta.

  Enquanto eu abro a minha caixa de e-mails, você conspira  uma revolução. Eu encho um vidro com água potável, coloco a máscara, higienizo as mãos e, completamente sozinha, suplico com caneta hidrocor azul: não obstrua o corredor. Mas por esse corredor você nunca passa.

 


 


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