São recorrentes os nossos encontros. Ainda que eu não mantenha a regularidade nos horários, meu itinerário é o mesmo há uma década. Às vezes tenho vergonha ao tentar explicar essa repetição. Talvez seja o indício de algum transtorno, que eu não queira assumir a desconhecidos. Se assim for, espero que seja leve e que passe algum dia.
Mas os nossos encontros são recentes, talvez dois ou três anos, desde que reparei nessa reincidência. Ela tem os cabelos bem curtos, estão brancos e são fartos. A roupa é o mesmo estilo, não varia o modelo ou a cor; calça e casaco de um material impermeável e preto, tem sempre uma mochila nas costas e usa tênis. Ela anda, anda, anda. Já a vi em diferentes pontos da cidade e em quase todas as vezes, me obrigo a um desvio. Não completo. Continuo a vê-la, mas de longe; do outro lado.
A primeira vez em que vi, ela xingava a esmo; sozinha ela gritava alguns impropérios para ninguém ou para quem quisesse ouvir. Eu achava que não queria, mas ouvia. E era uma voz forte, uma cólera com a qual eu lidei poucas vezes e, de todas, saí quase sem fôlego.
Ela anda e grita. Ela anda e faz gestos dramáticos aos transeuntes escolhidos ao acaso. Às vezes se abaixa em alguma esquina para amarrar os tênis e pega uma pedra, insinua jogá-la em alguma direção, mas ainda não o fez, ao menos na minha presença. Nada do que ela faz me ofende diretamente, mas a instabilidade de não saber do que ela é capaz me assusta.
Porque tomo esse café com leite morno sem uma colher de açúcar, todas as manhãs. Porque fecho as portas, mas não tranco o medo. É ele o único livre, fora do apartamento e dentro, tantas vezes. Porque como uma banana com granola quinze para as dez e bebo um litro de água antes do meio-dia. Porque dissolvo a raiva no meu café solúvel e só incendeio, próxima de extintores. Porque confiro se desliguei o gás, antes de sair da cozinha, e se paguei o cartão, todo dia seguinte ao pagamento.
Porque troco a areia do gato uma vez por dia e rego as plantas três vezes por semana. Porque incinero memórias ruins e sinto o cheiro delas indefinidamente. Porque faço o mesmo trajeto há anos e justifico como cautela, mas vou a qualquer hora e sob qualquer clima; mesmo sabendo dos assaltos. Porque só avanço no mar, até determinada altura. Porque só voto pela manhã, porque quero ter a mínima segurança de um próximo minuto com alguma certeza. Por isso eu desvio.
Vejo-a de longe, se continuar a andar na mesma velocidade longo a alcanço e até ultrapasso. Mas e se ela me ver? E se ela, de novo, me reconhecer e gritar comigo? E se ela se abaixar para amarrar os tênis, alcançar uma pedra e atirá-la em mim? Não vai atingir, mas como volto no dia seguinte, ainda dona da rua? Que confiança no próximo minuto eu terei amanhã?
Uma avó com a sua neta de cabelos ondulados e vestido de malha florido passam por mim e eu não quero que elas se assustem com a ira da errante de mochila. Torço para que andem mais calmamente e não alcancem o campo de visão da andante; porque às vezes só isso basta para ela exercitar sua fúria. Mas as duas, logo fragilizam os pés e caminham mais lentamente. A mulher está a poucos metros à minha frente e eu começo a pensar em desvios mais eficientes, já que ela, às vezes, se vira para trás.
Parece que ela irá descer a próxima rua, desce um pouco, se vira e desiste, sobe novamente e desce, sobe de novo. Eu não posso contar com as suas descidas. Vou subir a próxima rua e terminar meu percurso. Subo. E se ela subir a próxima rua? Perceberá que eu fugi? Terei no rosto o medo? Ela lerá o medo em mim?
Porque olho para os dois lados antes de atravessar a rua; afivelo o cinto de segurança, antes do carro dar a partida - não serei lançada para fora. Porque cuido da glicemia e recuso os alimentos ricos em sódio. Porque evito escrever em primeira pessoa e não deixo a minha foto pública no aplicativo de mensagens. Porque não gosto de falar o meu nome completo nem de deixar disponível o número do meu telefone, que prefiro atender quando sei quem me liga.
Porque não ofereço poemas nominalmente, deixo-os públicos, como cartas na garrafa ao mar. Covarde, mergulhadora amadora. Porque acredito na santíssima trindade, na ciência e na minha mãe. Porque desligo todas as chaves antes de trocar o chuveiro, mesmo que eu saiba que só a do meio é a do chuveiro.
Subi a rua para não ser vista e ainda posso encontrar com ela nas esquinas das próximas três. E o que eu direi, se ela me perguntar o porquê da fuga? E se perguntar o meu nome completo? Caminho com a suspeita do encontro. Antes tivesse passado por ela e já soubesse o resultado dessa interação. Na primeira esquina ela não está. Posso seguir com confiança, mas só até a próxima. Na segunda ela também não aparece. Vou mais um pouco, quase certa de que da última esquina não escapo ilesa ao encontro.
Mas ela não veio.
Caminho sem o nosso encontro. Evitei seus gritos, não dei ouvidos aos seus xingamentos. Não olhei para os olhos dela, por isso ainda não a vi como igual. Não tive medo da pedra, tampouco dos seus braços arqueados em forma de guerra. Só continuo.
Paro no supermercado e preciso escolher o peixe para essa semana. Olho as escamas aderidas à pele, avalio o cheiro e tento me lembrar das outras dicas.
Os olhos.
Os olhos do peixe devem estar brilhantes.
Em frente à câmara frigorífica avalio se os meus estão. Talvez a cólera não fizesse mal; talvez não devesse tomar meu copo liquefeito de raiva; talvez devesse ter uma mochila e calças impermeáveis. Talvez devesse gritar. E se eu xingasse? Quem eu poupo com o meu equilíbrio aparente? Que tivessem medo.
Tenho andado do outro lado da rua, tenho desviado do que acho demasiado intenso ou agressivo. Mas tenho andado como ela; muito e com muita raiva. Chorei ontem, na chuva, na volta da caminhada, porque me lembrei da recomendação para comprar peixes. Até os olhos do peixe morto devem brilhar. Não trouxe nenhum para casa. Amanhã, se eu encontrá-la, já não desvio mais.

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