domingo, 10 de abril de 2022

Que estar à deriva não seja como alguém que desistiu

  Que seja língua e não somente sutis sinais; mesmo que em idioma diferente do meu. Porque depois de conhecidos a gramática, o vocabulário, as figuras de linguagem, o sim e o não estarão lá postos, sem tantas dúvidas. Que seja o gesto comunicado, não atrás de cortinas, máscaras ou impressões ambíguas; que a hesitação não seja abismo. Que seja fala e escuta; que seja ver e deixar-se ser visto.  
  Que a voz não seja demasiado alta ou confusa como um sussurro; que a ideia encontre sempre a palavra, mesmo que demore, mesmo que tenha que esperar pela certa. Passageira à espera do trem, que a estação não seja definitiva. Que a palavra chegue no último comboio e a ideia ainda esteja lá, sem desistência, sem desesperar.
 
  Que não se lembre dos enredos de todos os livros, que confunda Casmurro com Os Maias, que Quixote seja um companheiro de noites boemias, que Capitu seja Lucíola, mas que a emoção de todos os livros, as músicas, as pinturas e dos filmes vez ou outra o transporte para aquela existência - cada vez mais longínqua. Que não saiba desta falta, que não possa ter consciência deste outro se afastando a cada dia.
 
  Que mesmo quando se esqueça de se alimentar, tenha ainda muitos outros apetites. Que escape a receita, os ingredientes da sua caponata favorita e o nome do vinho predileto, mas que haja alguma embriaguez e fastio alegre antes do sono. Que a sua música favorita ainda o faça sorrir, mesmo que não saiba de onde vem, que instrumentos são ou sobre o que diz a letra. Que seja uma invasão de contentamento e familiaridade inesperada.
  Que a dificuldade de se relacionar socialmente, de se lembrar das regras básicas, do autocuidado e higiene pessoal nunca seja apontando como indignidade, que tenha alguém que não negligencie as suas limitações. Que tenha alguém que o lembre de se lembrar de qualquer mínimo que seja.
 
  Que não chore com a imagem do espelho, que mesmo que não se reconheça, não subestime o cabelo ralo, os sulcos na pele, a falta de rigidez muscular; que ainda tenha muito bom humor. Que ria de si, do reflexo que ri, da sua própria confusão, desse indivíduo que o abandona um pouco mais a cada dia. Que não tenha rancor deste que o esquece neste outro lado. Que saiba se despedir e vir ao encontro diário destes muitos que sucedem o outro.
  Que não tenha medo, que o seu cérebro o ajude a se lembrar da coragem; que as sinapses permitam o desassombro.  
 
  Que ainda possa escrever pequenos lembretes domésticos, como comprar tomates e alvejante de roupas, abotoar a camisa e trocar a toalha de banho ao final do dia. Que ainda escreva que foi caminhar e trará pão ao voltar; que o destinatário do bilhete, mesmo impaciente e preocupado pela saída, saiba comemorar a sua volta. Que ao assinar os bilhetes, deseje um bom-dia e escreva abraços.
  Que tenha repertório suficiente para  esquecer uma palavra a cada dia e ainda ter sinônimos guardados. E que possa mudar a mensagem, se o vocábulo não chegar; e que assim também mude a sua agenda, itinerário ou planos. Único autor reconhecido da sua existência.
 
  Que não se esqueça de acompanhar o cão; que a coleira que acha que controla, o leve cada vez mais para perto de si. Que o cão o proteja dos carros e motos, das irregularidades do piso, das desconfianças dos repletos de repertório linguístico, mas desprovidos de sensibilidade. Que o cão saiba sempre quem é o seu dono, mesmo que o seu dono não saiba quem é. 
  Que o terror do esquecimento só visite quem assiste ao homem e o seu cão. Que ambos estejam para sempre protegidos na desmemória.
 Que o latido do cão o desperte de letargia e do desamparo, que é estar à deriva. Que estar à deriva nunca seja desistir nem esperar. Mas estado temporário de quem chegou a muitos lugares e partiu de tantos outros. 

   Que não me esqueça, mesmo quando não souber mais quem eu sou. Que não saiba o meu nome, sobre o que falamos no último segundo, sobre o quanto a sua vida está atada à minha, mas que mesmo que ninguém saiba, ele tenha alguma faísca de memória para não me esquecer. 
  Que o seu andar claudicante com a bengala, que o seu cachorro tão idoso quanto ele não desapareçam, quando não puderem mais vir  à rua. Que ele saiba que alguém o amou infinitamente. Que ele não se esqueça que mesmo o que se apaga não acaba. 
  Que não seja hereditário esse apagamento, porque gostaria de nos levar mais além, mas se for, que eu tenha o mesmo humor para desaparecer e nascer noutro dia.



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