É um baile, desses em que uma pessoa espera, durante muito tempo, alguém que tire-a para dançar — ou tempo suficiente para achar que talvez não houvesse dança aquela noite — mesmo que não soubesse quem viria exatamente. Ou, ainda, ninguém espera ou toma a iniciativa sozinho, só se aproximam, cruzam os olhares, sintonizam os passos de longe e vão para o meio do salão. Sem trocarem palavras — porque não é preciso — e começam a dança. Bailarinos acostumados, contam um, dois, três, quatro; há um tempo de respiração entre os números e ambos conhecem. Não escolhem pessoas, são atraídos pela dança um do outro. Entrar no passo do desconhecido, encaixar a mão na cintura — ou ficar à vontade com um outro corpo que rompe o limite estabelecido fora do salão — reconhecer a textura dos dedos — inclusive a dos próprios, quando encostam em outros — aprender a respiração bem próxima ao ouvido, sentir o ar quente da expiração no pescoço e enxergar pela primeira vez os cabelinhos curtos na nuca, aprender os detalhes e não perder o ritmo — um, dois, três, quatro. Só depois a música.
O aprendizado é o instante, somado com outras danças anteriores; muitas outras, que não frequentam propriamente esta, mas estão lá, sem que o par atual possa enxergá-las. Entre a dupla, dezenas de outros bailarinos com seus suspiros, cheiros, texturas e passos errados. A dança é a impossibilidade de reprodução idêntica, mas também a indissociabilidade da memória. A entrega é completa para o instante. Sem esperar pelo fim, sem medo de fim. É certo que ele virá, mas durante a dança os tempos de começos e términos são irrelevantes. A dança ocupa tudo, é o muro intransponível para qualquer outro pensamento. Não há outros dançarinos, não há quedas anteriores, passos desencontrados, famílias, empregos, pensões, seguros, filhos, presidentes de merda, meias furadas, ex-namorados perseguidores, lua nova, remédio para reumatismo, cortes de cabelo atrasados, cicatrizes de cesáreas, cirurgias cardíacas ou nos joelhos. Nada. Vai acabar e eles sabem, mas o pensamento do fim não pode chegar até que, de fato, termine.
Vai acabar. Em sete minutos esse encontro se pulveriza e frequentará outras danças, com outros bailarinos, noutros salões, com outras músicas. Vai acabar.
Vai acabar, mas os dançarinos não se ocupam com o fim, só seguem o destino da dança. Vai acabar e a intimidade de um corpo que se torna complementar a outro ignora o fim.
Entre o momento depois da espera e a mão na cintura: o alívio da chegada.
– Vai ter dança.
Entre o momento depois da mão na cintura até o último acorde e passo: nada para ser lembrado depois. É um enredo cuja memória não é acessada livremente; é incorporada. Acaba.
Depois do último passo, são dois dançarinos separados, de novo, que se cumprimentam, retomam os seus lugares — de espera ou de iniciativa — e não se lamentam por muito tempo pelo fim.
Os corações não se partem, os rancores não se instalam, não há acusações trocadas sobre quem se adiantou ou atrasou; os bailarinos entendem a individualidade dos pós-pares. Vai acabar e ninguém chora. Acabou e ninguém pediu uma segunda chance. Uma nova rodada é até possível, mas é outra, não continuação desta que acabou.
E então, de novo, alguém espera, alguém se aproxima e começam uma dança. A mão, a cintura, as texturas, as respirações, as nucas, os ombros, o muro implacável contra os pensamentos, a intimidade em sete minutos. Vai acabar.
É um apartamento, desses em que as pessoas decidem a cor do sofá e a posição em que ele deve ficar na sala, talvez encostado em alguma parede que o sol possa tocar dos joelhos até os pés de quem se sentar — é importante no inverno dessa cidade — um casal, que não tem a proteção da dança, divide o apartamento, o sofá e o sol. Vai acabar.
O casal não é como o par de bailarinos, precisam se comunicar verbalmente, estabelecer quem espera e quem toma a iniciativa, todos os dias. A mão na cintura é menos natural que a dos desconhecidos no salão. O tempo nunca é simples: um, dois, três...espera, de novo, um dois, errei, não respirei entre o um e o dois... mais uma vez... Vai acabar e ainda não conseguiram chegar ao final de uma coreografia.
Os dançarinos param para atender o interfone, falam sobre o sol no sofá — que pode queimá-lo antes que possam comprar outro — um mãe está doente, outra nunca esteve saudável, há alguma conta atrasada, algum salário com mais descontos, erram o passo.
– Vamos dormir! Amanhã acordo cedo.
Vai acabar.
Retomam a dança no dia seguinte. O sofá já está noutra parede, o telefone toca, desligam a música, um espera, enquanto o outro atende.
– Vai acabar!
Não há muros ou músicas que protegem os instantes agora. O vazamento, o pai ausente, a conta, o filho, a escola, o computador, o lixo, o presidente e os outros pares. Dançam melhor que nós? São mais felizes do que nós? Onde fica o sofá no apartamento deles?
– Vamos dormir.
Acorda mais cedo e silenciosa, porque tem medo que ele acorde, enquanto é sono há estabilidade. Vai fazer o café em silêncio, por isso não usa a chaleira ou o micro-ondas; nenhum apito. Que durma o quanto possa, que só acorde quando esteja preparada para dizer adeus, de banho tomado e batom.
Porque vai acabar, chama para dormir e não dança, porque vai acabar tem sono, mas evita dormir. Porque vai acabar, olha tudo pela última vez, sem saber se é a última, mas a suspeita é diária até que o fim se estabeleça.
Na sala, desprotegidos:
– Vai acabar!
É mais alto do que a música.
No salão, alguém espera, enquanto alguém avança. A mão na cintura, o pé em frente ao outro pé. Um, dois,três, quatro. Sabem que vai acabar, mas, por enquanto, só par.

Nenhum comentário:
Postar um comentário