domingo, 1 de maio de 2022

Urgência maior é não se deixar morrer

  Algumas horas com o corpo completamente entregue ao sol intenso, quase sem proteção e sem costume algum; no final do dia a carne treme, a temperatura do corpo sobe e os calafrios são intermitentes. Sem analgésicos, sem mãe que  amparasse, com as mãos frias, a testa ou que trouxesse compressas que aliviassem a sensação de arder em brasa, olha para porta e ninguém vem, tem medo da luz, só quer desaparecer. O corpo no lençol dói, a pele parece prestes a se romper a qualquer instante, os lábios rachados sangram, beber água também dói e não resolve a sede nunca. Não há posição possível de conforto. Não consegue chorar, mas quando fecha os olhos, vê o sol e ainda queima. É madrugada, mas o sol queima. Só quer desaparecer. Não quer morrer. Só quer não estar mais; não sentir mais. 
  
  A noite  é um flagelo solitário e contínuo; nos momentos de maior dor não consegue pensar em um outro lado possível. Parece não existir possibilidade de travessia. Tudo queima deste lado. Tudo dói. Uma noite inteira sem descanso, um sol pungente que não vai embora.
  Depois da febre, muitas bolhas na pele, algumas estouraram durante a noite e a carne vermelha é ainda mais vulnerável, vai doer quando tocar, quando por acaso esbarrar em um tecido, em um outro corpo, no pouso distraído de um mosquito, no algodão com pomada, quando a água do banho escorrer e até quando o vento bater. A noite acabou, mas a pele lembra do sol implacável. Já está do outro lado agora, mas não perde de vista a margem do lado abandonado. Soro, analgésico e pomada para queimaduras. Pouco tempo depois nenhuma cicatriz, mas ainda se lembra do corpo sem posição na cama e um sol flamejante no teto.
 
  Agora um outro corpo é atormentado pela dor. Comichões, ardores, a pele é habitada por hóspedes indesejados. A cadela quase já não late mais; geme, e às vezes se cala no sofrimento, também parece querer se oferecer ao desaparecimento. Não bastasse a doença crônica descoberta há alguns meses e, por isso, as idas frequentes ao veterinário, as agulhas, raios-x, lupas, luzes e mãos devassando o seu copo, agora, os carrapatos comem lentamente a sua pele. 
  Uma adulta e um adolescente se revezam nos cuidados, ao menos ela não está só. Ao olhar para porta, sempre terá alguém.
  A mulher é a mais dramática, chora, faz orações e promete a cura, mesmo que não tenha certeza se é possível ainda. O adolescente parece mais calmo, mas também menos esperançoso; é mais calado e, ultimamente, não é possível reconhecer nenhuma projeção sonora vinda dele. A cadela é parte da família dos dois; talvez a mais estável, a mais leal e acolhedora. Ambos já caíram, já se desestabilizaram emocionalmente, brigaram, deixaram de se falar, gritaram, quebraram objetos da casa, mas sempre tiveram a cadela. 
  O trio resistiu ao abandono paterno, às dívidas, ao desemprego,  à pandemia, agora precisam resistir à invasão de carrapatos. As vozes na casa parecem cada vez mais raras, mas hoje eu soube que amanhã a levarão para um banho químico. Talvez consigam levá-la para o outro lado.

  Em frente ao supermercado, seis vezes por semana, as duas mulheres com as suas malhas justas ao corpo, marcando a magreza, flexionam seus músculos para levantarem tampas pesadas de latas de lixo, buscam no fundo delas algo que possa ainda servir. Colocam nas suas sacolas itens com prazos de validade vencidos, legumes e frutas com cascas apodrecidas, pães e biscoitos com embalagens violadas e partes descartadas pelo frigorífico. 
  Seis vezes por semana, ao final do dia, duas mulheres empilham caixas, vasculham sacos, analisam descartes e recolhem o que levarão. Tudo em silêncio; se comunicam e organizam a divisão do que recolhem apenas por gestos e expressões faciais. 
  Dentro do supermercado, homens e mulheres desfilam pelos corredores de gôndolas iluminadas com os seus carrinhos de compras cheios – talvez não tanto – escolhendo marcas, preços, aromas mais agradáveis, publicidades sedutoras e algo como custo-benefício. Do lado de fora, no escuro, duas mulheres recolhem o que podem, de dentro de lixeiras desproporcionais aos seus tamanhos, e voltam sempre no dia seguinte.
 
   O corpo da cadela é arrasado dia e noite por carrapatos; em carne viva, a cachorra tem alguém que tenta salvá-la da brutalidade de uma comorbidade comum a sua espécie. 
  Os filhos das duas mulheres da porta do supermercado são trucidados pela fome, estômago roncando, mãe sem saber o que fazer com os meninos. Ninguém para salvá-las da violência comum a essa espécie.
  Não é um incômodo como sapato apertado, goteira de ar-condicionado, gases intestinais, nota de cem reais sem troco, mensagem não respondida, erro ortográfico no texto publicado, desabafo de amor por outro amor do seu amor, mas é a vida escapando. A cadela vulnerável tem olhos que acompanham o seu padecimento e tentam aliviá-lo, as mulheres se escondem dos olhares.

  A fome e os carrapatos. Aquelas sem voz, com fome e aquela calada de dor. A cadela late com um fiapo de forças que ainda prende na garganta, olha através da grade da varanda, mas não sei se acha beleza nos raios de luz cor de rosa, reflexos do sol no prédio espelhado na cor magenta ao final da rua. Talvez haja dor demais para achar qualquer coisa bonita.
  Passo ao final do dia em frente ao supermercado e o pôr do sol de outono é de fazer chorar, mas as mulheres estão com meio corpo enfiado nos contêineres de descartados; fome é mais urgente do que céus alaranjados. Há sempre um teto com um sol que perturba e faz duvidar que existe o outro lado. Urgência maior, por enquanto, é desejar desaparecer, mas não morrer.



2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Minas Geraes, 11 maio 2022

Querida Amanda,

Serei breve. Que prosa linda é esta? Você nos convida a navegar num texto em que oferece a ambientação dos personagens e de um mundo (de um mundo? credo, melhor mudar isto aqui ou não?) dentro de outro mundo que contém outro mundo no mesmo espaço físico e temporal.

Emociona a gente!

Um abraço!!

Amanda Machado disse...

Minas Gerais, décimo segundo dia de maio, de 2022

Querido Paulo,

fico contente que tenha gostado da prosa e mais, que também esteja atuante no seu Reino. Está melhor, meu caro amigo? Espero que sim. Obrigada pela generosidade da visita e pela gentileza da mensagem (que é sempre tão familiar, mas ainda surpreende).
Abraços, com os desejos de uma recuperação completa e o mais rápida possível!