terça-feira, 24 de maio de 2022

Queria saber por onde o cão avança

  Todos os dias ela percorre um itinerário parecido, desce a rua do prédio onde moramos, caminha uns
seis quilômetros pela avenida paralela e volta. Com cabelo preso, um pouco embolado no topo da cabeça, moletom quando está frio; regata básica, se está calor.Todos os dias faz o mesmo caminho, desde que ela e o cão se mudaram para o apartamento debaixo do meu. Um acompanhando o outro; às vezes em passos desencontrados, ela nervosa e ele nunca. Ele forte e grande e ela pequena e teimosa; queda de braço na avenida às seis. O cão sempre quer brincar e ela não, mas cede, se é um dia bom.
  Todos os dias ela enlaça uma coleira azul marinho no pescoço do seu companheiro e seguem, reconhecendo prédios, pessoas e paralelepípedos.
 
  Ela já disse mais de uma vez que só caminha todos os dias, por ele. E disse também, alguma vez em voz alta ao telefone, que volta mais rápido do trabalho para que ele não se sinta sozinho por tanto tempo. Não volta para que ele não tenha fome, não se desidrate, não rasgue o sofá, não desapareça com pés de chinelos e sapatos ou não incomode os vizinhos; ela volta para que a solidão de um cão de apartamento não se instale. Suas saídas, ao final da tarde, diárias, e os seus retornos apressados têm no cão motivo e justificativa maior. Essa é a condição que me emociona; ela sai por e para um cão; ela volta para e pelo cachorro.

   O nome dele eu sei de ouvido; Baltazar. Ela é quem o invoca, às vezes carinhosamente, às vezes com ira. Quando é a raiva que o grita, eu espero pelo nome composto que não vem. O nome dela eu sei de ler nas correspondências que eu encontro na caixa coletiva do prédio. Do que ele a chama, ainda não reconheço de longe, mas ela sim, ela o atende.
  Moram os dois embaixo dos meus pés e acho que nos últimos vinte quatro meses me sustentaram um pouco também. Ela triste e ele nunca; ela cansada e ele cão alegre. O cão ronca, quando tem o sono mais pesado e algumas vezes late, mas em geral, é tão silencioso quanto ela. Que só ouvi chorar bem baixo, que só ouvi brigar com o Baltazar e ninguém mais, antes.  Mas na última noite teve alguém que a fez chorar um pouco mais alto. Ouvi o primeiro soluço, depois que ela se despediu de alguém em alguma ligação. 
  - Depois então nos falamos mais, agora está tarde. Boa noite. Eu também.
  A última frase me prendeu no motivo do choro. Ela também o quê? Ama? Sente saudades? Não aguenta mais? Quer desistir? Precisa ir dormir porque trabalha cedo no dia seguinte? 
  Ouço o choro por algum tempo, depois eu durmo e só acordo com o barulho do chuveiro dela no dia seguinte. Acordei atrasada e sei disso antes de olhar o relógio, porque sempre escuto o chuveiro dela, enquanto tomo café. 

  Afora a minha correria da manhã, a rotina seguiu a mesma. Às seis, enquanto eu subia a rua, eles desciam. Vejo-os sempre muito orgulhosos da companhia que têm. A coleira quase nunca é acionada; segue frouxa e  decorativa. Ele não estranha os transeuntes e raramente avança em direção a outro cão e mais incomum ainda é latir para humanos. Mas hoje o cão me cumprimentou e ela, distraída, só viu quando ele já tinha subido pela minha perna. Ela me pediu desculpas e ele não pareceu se arrepender. Continuaram a descer.
  Numa das mãos dela a coleira, na outra, o celular. Não digitava, só lia, não passava os dedos na tela, então era algo estático, sem mudança de parágrafo, página ou plano. O cão a guiava pela via, enquanto ela seguia lendo uma mensagem. Concentrada; de cenho franzido, preocupada ou imersa na resolução de um enigma. O que ela tinha na tela, que não a deixava se mover em sintonia com a sua dupla como das outras vezes? Que idioma a assaltava no horário exato da sua caminhada? Tentava traduzir ou pensava numa síntese que elucidasse uma teoria muito complexa?  Quais as peças ela buscava encaixar, enquanto o cão a levava em segurança pela rua?
 
   Talvez o remetente fosse quem a fez chorar ontem. Talvez o choro provocasse uma pergunta, cuja resposta ela lia agora. Ou, ainda, ela leu antes, tentou uma explicação ao telefone e chorou depois. Agora repetia a tentativa do entendimento.
   O cão é corpulento e agitado, ele balança a coleira ao caminhar e ela continua atenta a um outro lugar, arrastada pelo único que a assistiu a chorar ontem. 
  No celular, o texto é estático e não muda, mas ela procura nuances. Dezenas de leituras de um mesmo parágrafo. Ela está só na sala. É uma conversa que passou e ela não compreendeu ainda. Por sorte, tem um cão que a desvia dos transeuntes, dos buracos na calçada e da solidão que é mais dela do que dele. Por azar, ele não pode se juntar a ela na leitura do ininteligível. O cão late para o que não entende e rejeita a aproximação. Ela é atraída pelo incompreensível.

  Ontem, quando ela chorou, talvez tenha sido porque já sabia o que continha na mensagem. Não há o que ser entendido para além do que já sabe, é inteligente, fez três períodos de língua portuguesa na faculdade, não usa óculos algum; aos quarenta, tem os olhos melhores do que muita gente aos vinte e dois. 
  Leu os russos, os modernistas ingleses, ainda sabe os elementos da tabela periódica, alfabetizou crianças e adultos; sabe se comunicar em outros dois idiomas. Não há nada ali que não tenha compreendido, a confusão sempre foi dela mesma. Dúvida voluntária.

  O cão sacode a coleira com mais força, ela desvia o olhar do celular, antes, desliga a tela; o latido do cão é mais audível agora. A comunicação do cão é muito mais terna. Larga a mensagem e vai se dedicar a amar a quem também a ama; de maneira confusa, mas inescapável. 
  O mistério é humano; a resolução é um labrador de coleira azul marinho que sobe nas pernas de desconhecidos, quando a sua guia não está olhando. O opaco é do humano, o translúcido é um cão que atende quando é chamado e não faz ninguém chorar antes de dormir. 
  O humano é mágoa, o cão é um esquecimento sem fim. Queria saber por onde o cão avança na desmemória; queria não ler nada mais de uma vez, antes de dormir. Farejo no cão a felicidade de não ser seduzido pelo mistério. O idioma do cão é a clareza. O humano é uma sucessão de equívocos que desperdiça choros e tempos.  


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