sexta-feira, 14 de julho de 2023

Dois cafés para duas artrópodes adultas

    Ela chega quando eu já havia feito o pedido. Parece sondar o ambiente antes de eleger um lugar para ficar. A minha mesa de dois lugares está bem em frente à janela, a mesma há anos; e só por isso eu entrei mais segura do que ela, eu acho.
     Depois de passar por duas ou três mesas, ela escolhe a minha favorita. Não me cumprimenta, não pede licença, mas também não chega abruptamente. Eu já a acompanhava, analisava a sutileza com a qual ela prescrutava o café do Centro, admirava a elegância e discrição da sua procura e acho que nessa dinâmica de contemplação ela também me viu.

    Ela está à minha frente quando o meu pedido chega. Meu café expresso vem acompanhado de um sequilho. Ela não se move, enquanto a garçonete ajeita a xícara, o pequeno copo com água gasosa e o  acepipe de polvilho doce na mesa, eu também continuo estática com medo de afastá-la.
    Instantaneamente uma aliança de silêncio se estabeleceu; gosto da companhia que escolheu o mesmo lugar que eu escolho sempre. Penso se temos outros aspectos de vida em comum.
 
    Se prefere doce ao salgado, se está cansada, se  ainda hesita em desabafar com a analista, se  há pouco descobriu um emaranhado de neuroses e quer desfazer alguns desses nós, se caminha com segurança, mas perde o chão quando se detém, se ela está insatisfeita com o seu reflexo de hoje nas vitrines, se  prefere o expresso sem açúcar e o silêncio, em meio aos confusos e abafados barulhos do café do Centro. Se procura o café no intervalo entre dois compromissos e o sapato incomoda, se quer fugir do vento lá fora e evitar encontros. Se gosta da vida espremida entre outras, sem holofotes, sem explicações de si a quem quer que seja.
    Se pretende traçar algum plano para hoje ou para a próxima década, aqui nesse café, se pegaria um livro na bolsa se não estivesse com o tempo tão apertado, se um lado do rosto sorri mais do que o outro.

    Bebo a água e continuamos mudas. Nada, nesta tarde, é mais interessante do que a presença que se instalou na minha mesa. Logo ela ganha alguma segurança e se aproxima da minha xícara. Não sei como prefere o café, então deixo que ela sinta o aroma da minha bebida e experimente um pouco ou o quanto quiser. Se decidir bebericar, eu não vou reclamar; só não quero que ela empenhe fuga e suma entre as galerias; não sem antes sermos um pouco mais próximas. Não falo íntimas, porque não é, de fato, o meu desejo, prefiro proximidade à intimidade; a primeira me parece mais terna, menos exigente, sem confissões que vão nos constranger num futuro seguinte.
    Desejo que a minha companhia confidencie o que tiver vontade, mas que não me faça refém das suas dúvidas, que me ouça atentamente, mas que não queira indicar caminhos que não sabe se existem para mim. Quero só que esse encontro dure, nos marque até à porta de saída e seja para nós um descanso para os pés com bolhas e para adiamentos que o band-aid não protege. 
   
     Tranquilamente ela sobrevoa o meu café, não a espanto, não a retiro do meu espaço tão particular, ao contrário disso, escolho comungar com ela. Escolho que ela fique, escolho permanecer nesse lugar que ninguém além de nós pode ter agora.
    Peço outro café para não perturbar o mergulho dela. Deixo-a com o pedido que foi antes meu; mas que ao chegar se tornou imediatamente dela. São assim as companhias muito próximas, partilham de bebida, comida e aflições.
    Logo chega o outro café e ela parece satisfeita com o seu; porque não se aproxima da nova xícara posta. Inicio pelo mesmo ritual, agora sem interrupções, primeiro a água, depois o café e, por último, o sequilho de coco.
    Ela delicadamente abandona o seu café e pousa sobre o sequilho que ofereci a ela. Imagino que seja mais atraída pelo doce, mas não sugiro iniciar uma conversa. Podemos partilhar do encontro em silêncio, tomarmos o café na mesma mesa sem comentários superficiais ou aspartames.
 
    Sentamos as duas, um pouco desoladas, procurando a energia que nesses dias tem escapado. Quem nos vê de longe pode achar que tratamos de amenidades, mas não ouvem as confissões que fazemos às quatro da tarde de uma quarta. Não percebem as nossas similaridades, o tempo e o espaço que nos aproxima sem nos afastar completamente do que temos lá fora.
    Ela ainda sobrevoará muitas outras mesas, talvez pare em algumas e, em menor proporção — eu imagino — seja bem recebida por outras fêmeas que se identificam com ela. 
    Invejo o seu ciclo de vida, a sua capacidade de visitar tantos lugares diferentes em um estado quase de invisibilidade, o seu voo liberto e o exoesqueleto que ela abandona quando não cabe mais. Queria eu poder abandonar uma camada de mim a cada vez que crescesse.
 
    Mas ontem, no café, uma mosca me abriu uma nova consciência do que é existir. Nada é mais grandioso do que a comunhão com o que é aparentemente ínfimo. Não é só o diabo que mora nos detalhes; a vida inteira passa por eles. Um descuido com um nó e o fio se perde.  
    Em frente ao meu café, um outro café e atrás dele, uma microexistência colada à minha. Suas patas mínimas levantadas, pedindo a conta. A mosca e o seu café, que foi também meu. 
    A minha absoluta desimportância mergulhada em cafeína, a comunhão entre duas artrópodes adultas no Centro, na tarde de um julho de céu alaranjado. 
 


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