Os outros têm curiosidades mesquinhas ou, o mais comum, a indiferença, ele não.
Voo ou estaciono sem nunca um flanelinha atestar a minha habilidade espacial, mas ele sabe onde pouso e fica alegre quando eu abro a porta da minha nave.
Desço corredeiras inimagináveis e porque não me afogo, ninguém pergunta pela minha jornada, enquanto ele registra nas suas retinas e depois narra a minha coragem.
Todos os meus números são publicáveis, mas só ele sabe quem eu sou sem nunca ter conhecimento de nenhum deles. Idade, altura, número da casa, dos sapatos, das publicações, dos meses enlouquecida, das marcas nos pulmões, dos gatos, das espadas-de-são-jorge, dos minutos no banho ou em cada rede social; para ele, nada disso importa.
Aos outros, o que interessante é o que podem contar, depois de me fazerem uma pergunta e mal ouvirem a resposta; para ele, o mais importante é o tempo da minha respiração.
Os outros fazem conjecturas sobre a minhas palavras, enquanto ele nunca me leu, nunca me ouviu, mas é a minha comunicação mais cheia de ternura nos últimos anos.
Se eu me ausento, ele me procura, se não me encontra se consola com a certeza de que sempre volto. É essa a nossa relação: sem promessas, sem palavras, sem informações, só certezas. Ele estará lá e eu passarei e vou acenar no tempo certo.
Para ele, não sou nada, não faço nada, não escrevo, não faço planilhas, não oriento calendários, não falo ou lavo as suas roupas, é
um afeto desinteressado, parece. O que me comove sempre, assim como quando eu ainda estava em sala de aula e tinha alunos pequenos. Era afeto, confiança e muitas dúzias de ingenuidade sobre um mundo em que amar era possível sempre, mesmo se não fizessem a lição ou eu não permitisse que guardassem o material dez minutos mais cedo.
Depois de alguns meses sem nos vermos, eu volto. Porque a avenida é refúgio, a primeira geografia desejada, se não tenho que cumprir as oito horas diárias da jornada adulta. O asfalto é uma fantasia de invisibilidade — sustentado pelo boné de aba larga e tênis esportivo — na qual eu me fio fortemente há mais
de uma década. Mesmo tendo indícios, provas até, de que eu continuo bastante reconhecível.
Mas afastada por meses, quase me esqueci de procurá-lo. Já passava alguns metros do lugar onde nos cumprimentávamos diariamente, quando me abaixo para ajeitar a meia, devorada pelo tênis novo, e vejo o homem idoso com meio corpo para fora de uma grade da rampa sinuosa da arquitetura modernista da casa onde ele trabalha.
Da última vez que o vi, ele já parecia muito debilitado, magro e envelhecido, embora alegre de orelha à orelha. E agora mais, o tempo parece engoli-lo aos poucos; um centímetro a cada dia, dois quilos a cada semana. Parece menor, o rosto mais encovado, mas o sorriso persiste.
A arriscada manobra para chamar minha atenção tem efeito, me levanto, viro com o corpo todo para ele e aceno. E só. Não há palavras com desejos de um ano mais feliz, nenhuma pergunta sobre o meu desaparecimento, estado civil atual, se viajei no réveillon ou se estou feliz com alguma justiça recente da nossa história. Nada disso faz parte do que temos. Só me viro e sigo me sentido completamente visível.
A cena do homem, em cima da rampa, com o corpo fragilizado pendurado em uma grade e a mão direita erguida abanando insistentemente se repete na minha lembrança o dia todo; era bizarra e bonita. Era arriscada e pueril. Vê-lo tão disposto a se mostrar para mim, a me olhar nos olhos e manifestar que ainda me vê é um tipo de afeto que ainda me constrange um pouco, como quando os alunos diziam na frente das outras professoras que eu era a preferida, mas também me dá o que custamos muito a ter, a visibilidade por um outro ângulo, o afeto que só uma perspectiva desinteressada pode alcançar.
Aos outros sou visível quando interesso e oculta se desagrado; para ele eu sou a mesma que corre urgente há anos na rua em que ele rega plantas. E é o bastante.

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