domingo, 5 de abril de 2026

Eu que nunca ouvi humanos

 Levanto mais tarde do que de costume, mas mais cedo do que planejava, pego o celular e escolho uma música sem álbum definido para que, depois, o próprio tocador me surpreenda.
  Todos os dias eu escuto música, todos os dias pela manhã eu cantarolo, enquanto arrumo a cama e preparo o café. Meus dias começam e muitas vezes terminam com música. 
  Minutos depois, pronta para sair, enquanto fechava a porta de casa, encontro a vizinha do apartamento ao lado que graceja:
    — Acordou alegre hoje!
  Ela vê a dúvida no meu rosto e complementa:
   — Ouvi você cantando.
 
  Eu sempre canto, mas só hoje ela ouviu. 
  Sorrio, desejo um bom-dia, pergunto sobre o novo vaso de flor que ela colocou na sua varanda e seguimos em uma conversa lenta que só uma manhã de sábado pode me proporcionar.
 
  Continuo no meu itinerário planejado, mas não deixo de pensar nas músicas de todos os dias, que ela não ouviu ou não se apercebeu antes. São anos de uma rotina da qual eu mesma não tinha constatado a longevidade. Talvez ela também tenha sido capturada para os outros sons da rua: o cantar do galo a qualquer hora do dia, das maritacas na mata ao lado, dos latidos muito familiares dos cães da vizinhança e até o da calopsita do novo morador do térreo. São muitos sons com os quais tenho concorrido. São muitos outros timbres, mais potentes e desinibidos que o meu. Mas estou lá, a minha voz também é uma paisagem sonora da rua.
 
   Enquanto caminho ouço um álbum conhecido, já salvo nos favoritos. O fone vai somente em uma das orelhas, é preciso deixar um ouvido livre para as buzinas, pneus, barulhos do trânsito em geral e, eventualmente, para ouvir o cumprimento de algum conhecido. Já que não enxergo mais de longe, preciso mais da audição.
  Todos os dias alguma música habita as minhas experiências, mesmo que seja só a lembrança de alguma canção ou letra.
 Aumento a velocidade significativamente, porque já estou quase na metade do trajeto e na parte plana do percurso. E, então, a música do meu fone é sufocada por outra.
  
  De uma massa amorfa de entulhos, restos e descartes semiaproveitados, rodeada por dois cães de rua, uma voz se levanta. É potente, grave e não vacila. A voz que emerge do amontoado de despejos tem tanta certeza que me faz hesitar. Suavizo os passos, desacelero, porque preciso ouvir mais daquela voz. 
  É uma música popular, a qual logo reconheço, embora há muito não a ouvisse. E a voz canta a letra sem errar, toda a nitidez em cada palavra, alta, potente e absoluta. 
  Ninguém mais para, a rua é movimentada e os transeuntes seguem os seus caminhos sem nenhuma surpresa com a voz. Me aproximo mais um pouco e vejo a mulher deitada, rodeada pelos dois cães e por objetos descartados e, agora, recuperados por ela, expostos no degrau de uma loja fechada onde ela se abriga.
 
  Ela também sempre canta, já reconheço a sua voz, mas ainda me surpreende a familiaridade dela com os tons e as letras. Já a ouvi conversar com os cães, xingar moradores do bairro e até justificar sua negativa em ir para abrigos com as assistentes sociais. E é muito diferente. A voz que canta é demasiado exata, mas também emocionante. 
  Ela está deitada em uma calçada, sem nenhum espaço de preservação da sua delicada intimidade, sem a segurança de portas e paredes, sem nenhuma certeza de alimento ou repouso e ainda canta. Os cães ao seu lado estão dóceis e ninguém a interrompe, me surpreende uma beleza dessas a essa hora e ninguém, aparentemente, que a contemple. Talvez de algum dos apartamentos do prédio, alguém comente que ela está feliz, porque canta.
 
  Passo por ela, dobro a esquina e ainda escuto a sua voz. Nada a ver com alegria, embora ela possa estar sim feliz. Nada a ver com segurança, tampouco com alguma certeza de conforto. Mas, certamente, há uma relação da música com a sobrevivência da mulher. 
  Qualquer um que não ouça a sua voz enquanto canta, enxergará a sua vulnerabilidade e limitações cotidianas. Qualquer um verá seus pés sujos descobertos, a garrafa de cachaça, no que substitui uma mesa de cabeceira, e a companhia de dois cães de rua. Escutarão os latidos, os gritos dela com qualquer um que a aborde de maneira mais invasiva, mas não ouvirá suas canções. Sentirá o cheiro do álcool e daquilo que o seu corpo elimina. Sua presença será sempre uma massa amorfa de rejeição e despojo — de tudo aquilo que não serve mais. 
  Mas bastava ela cantar para que quem não a vê,  enxergasse outra presença; tão humana quanto à mãe que cantava enquanto lavava roupa, tão próxima quanto à irmã que desafinava enquanto arrumava a mochila para escola, tão afetuosa quanto à avó que cantava para a neta quando ela estivesse doente e com medo de dormir no escuro. Nem alegria nem tristeza, sobrevivência.

 


 

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