Acordamos sempre em um outro mundo. Desamarrado os nós, lavados os pratos, guardados os copos e talheres, na manhã seguinte, há outras esperas.
Acordamos no mesmo mundo de xícaras, meias sujas, cabelos cheirosos e vidros de xampu, completados com água, mas também em um outro mundo. Desconhecido, imprevisível, completamente inexplorado.
Dormimos enquanto, eventualmente, somos consolados por um sonho e acordamos subitamente com uma topada do dedo mindinho no pé da cama. Acordamos surpreendidos por uma matéria no telejornal, antes mesmo de tomarmos uma xícara de café.
Acordamos sempre em um mundo que não é aquele ao qual conhecíamos. Os nomes das coisas, pessoas e sentimentos permanecem, mas sempre são nomes de coisas, pessoas e sentimentos que podem soar diferentes num outro dia. A cadeira, Bárbara e angústia mudam conforme as horas avançam. Nos preparamos para um mundo que não é o mesmo quando estivermos prontos.
Dormimos na roupa de cama a qual escolhemos no sábado recente e embora os trezentos fios sejam os mesmos, agora, estão mais desgastados pela noite.
Acordamos sempre em mundo no qual não saberemos se vamos ganhar ou perder, mesmo que haja indícios na noite antes de dormir. Dormimos em mundo de fotos de mulheres em cima de motos, vespas, bicicletas no Cairo, em Paris, em Alter do Chão, sozinhas, livres, sem secadores de cabelos nas bolsas de viagem e acordamos com a polícia anunciando o fim das buscas com uma mãe chorando e centenas de liberdades contidas.
Acordamos sempre em mundo cujos sonhos não cabem nas asas de um avião da Panair, sem tempo para sentir o vento na varanda do apartamento financiado, sem tempo para um almoço que emende com o jantar em um restaurante pequeno do Centro com a amiga que não vemos há meses. Acordamos sempre atrasadas para o dia, para o futuro, para a carreira, para os filhos e para cuidar da saúde dos pais. Acordamos com pressa e medo.
Acordamos sempre em uma outra cidade, diferente daquela que olhamos da janela do ônibus na noite passada, quando saíamos do trabalho. Com menos belezas, lojas que conhecíamos há décadas fechadas e outras novas que se parecem com as de outras cidades que nunca visitamos.
Dormimos enquanto uma cidade inteira se pulveriza.
Acordamos em uma praça que foi concretada e árvores que permanecem isoladas e sem vegetação que as contorne. As cadeiras de aço dos botequins não se espalham mais pelas calçadas, agora são parklets dos cafés e bares chiques que estendem o espaço.
Acordamos sempre na cidade que o hino aprendido na escola não faz mais sentido.
Acordamos sempre em uma outra casa. Sem o barulho do liquidificador, que silenciou por uma manhã ou a vida inteira, sem a TV ligada na previsão do tempo e as vozes familiares nos cômodos aos quais costumávamos varrer e passar pano. Dormimos numa ilha de afetos e companhia e um dia acordamos sozinhas, saudosas do cheiro de biscoito de nata e beijos mornos de bom-dia.
Acordamos sempre em uma casa que se reconstruiu em cima de uma outra devassada pelo tempo, pelos dias difíceis e felizes que não soubemos como guardar além da memória.
Acordamos sempre em outro corpo, menos flexível, menos musculoso e tenro, mas com mais traquejo e relacionamento íntimo com os próprios desejos.
Acordamos sempre em outro país, que não é mais aquele no qual acreditávamos tanto. Mas em um outro do qual desistimos numa noite e insistimos de novo na manhã seguinte. Acordamos em um país cercado por armas e grades, dormimos muitas noites arrepiadas de horror e pena e um dia acordamos, de novo, em um país com promessa de liberdade próspera. Acordamos crédulos de uma comunidade promissora e somos, eventualmente, derrotados por patrícios com os quais não comungamos porque somos diversos.
Acordamos sempre em um outro mundo. Para o qual não fomos preparadas e do qual não podemos escapar sem nos arrepender. Acordamos com a camisola amarrotada em uma casa que precisamos sustentar, com um corpo que é questionado diariamente, em uma cidade que não nos reconhece, em um país que nos enterra sem chorar. Dormimos ameaçadas e acordamos mais cedo para arrumar o cabelo da filha que precisa de nós para sonhar.
Acordamos em um mundo no qual nunca dormimos, mas cantamos, enquanto cozinhamos, lavamos, passamos, construímos, dirigimos, ensinamos, analisamos, escrevemos, pesquisamos e não deixamos de criar.

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