Na urgência dos dias, das coisas que precisam ser impreterivelmente realizadas, tantas outras — também importantes, mas não essenciais — são deixadas para um outro tempo que nem sempre se realiza.
Aprender a bordar, para manter a assinatura nas coisas domésticas, como a avó ou a mãe, ou fazer um curso avançado de Excel, para o trabalho? Escrever uma carta para a amiga distante ou enviar um áudio com atualizações que se perdem, enquanto procura um lugar silencioso para gravar? Explicar o porquê e quando dói ou se afastar quando doer, sem ter que explicar? Fotografar uma cena emocionante e tê-la para sempre ou só guardá-la no fundo da memória, arriscando as nódoas do envelhecimento? Correr para o futuro, demorar no presente ou passar a limpo com letra dourada o passado imenso?
Às vezes é o corpo quem escolhe.
Gradativamente míope, parcialmente desmemoriada, severamente emotiva. Quando não sei escolher onde faltar ou exceder, a anatomia é quem indica. A visão vacila e só enxerga quando já está muito perto e não há mais possibilidade de fuga. As palavras se escondem para dar lugar ao silêncio ou ao som da respiração. Quanto às lágrimas; acostumada a não mantê-las em cárcere.
Silenciosamente desistente, estrondosamente teimosa, irremediavelmente esperançosa. Quando não sei o que devo abandonar, esqueço a porta em que devo bater, perco o horário do último ônibus, assino com a caneta que falha na segunda letra.
Remotamente indecisa, subitamente heroica, francamente humana. Quando não sei o que devo seguir, o barco escolhe a corrente e o leva até o leito, as luzes derrotam o breu e o fim adia o abismo.
Sou uma baleia cinza, cujas memórias distantes se apresentam e as mais próximas se escondem em alguma ilha.
Sou um caracol cuja casa começa a pesar e que o rastro cintilante do corpo mole não leva a lugar algum.
Sou uma monoteísta, adorando uma fábula de beijos doces, fraudulenta e fugidia. Sou um pedaço grande que ninguém consegue guardar, uma pessoa pequena que ninguém sabe onde encontrar.
Sou um caracol cuja casa começa a pesar e que o rastro cintilante do corpo mole não leva a lugar algum.
Sou uma monoteísta, adorando uma fábula de beijos doces, fraudulenta e fugidia. Sou um pedaço grande que ninguém consegue guardar, uma pessoa pequena que ninguém sabe onde encontrar.
Uma girafa cansada, cujo pescoço já não consegue esticar. Um roedor que não quer mais usar os dentes, um tigre-de-bengala manco e dócil. Sou uma abelha operária desobediente e inútil.
Mas, também, um lugar habitado que não desmorona. Uma pedra que não atrapalha o caminho ou o poema. Um orgulho que não reivindica e uma vergonha que não se esconde.
Sou uma politeísta que adora muitas deidades que não abandonam; uma joaninha que decora esquadrias cinzas de janelas urbanas. A milionésima estrela que alguém dará um nome e desaparecerá na próxima visão do telescópio. A primeira voz do vestiário depois da eliminação do time no campeonato. A última versão do trabalho antes do envio. A jornada que não estará em nenhum livro, filme ou álbum, mas que sustentará todas as artes.
Irreversivelmente adulta, lastimavelmente imatura, nostalgicamente feliz. Tudo o que não realizamos, enquanto escolhemos outros caminhos, virá nos encontrar em um aeroporto, sonho, arrependimento ou nas águas turbulentas da baleia branca de memória infinita.

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