segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Às vezes só nos dão o que não queremos

  É o começo de um domingo. Três vezes eles tocaram o interfone e ninguém respondeu; eu acordei quando o carro ainda estacionava na rua. Fazem um barulho alegre; de chegada, expectativa indomesticável de saudade. São um casal de cerca de cinquenta anos e uma menina de uns doze. Só os vi, depois da terceira tentativa de comunicação com o apartamento 302, quando fiz uma aparição sorrateira na janela da frente, porque queria dar rosto às vozes radiantes. 
  São três visitas, para ela que não é muito procurada, afora as entregas de comida, da farmácia e as de produtos made in China.
 
    A parede ao lado também pulsa, há vida antes de eu me levantar, sempre há. Se eu resolvesse continuar deitada, saberia que o tempo não estava em pausa, mais pelo apartamento do que pelo relógio de parede da minha cozinha. 
    Ela sempre acorda mais cedo do que eu, mesmo nos dias em que viajo e saio com o dia ainda nascendo. Ela é anterior a mim, às minhas lutas e preguiça. 
   
    São os tilintares dos talheres, a água da torneira aberta, represando no tanque, os passos lentos e arrastados dos chinelos de borracha sobre o piso de cerâmica da cozinha ou mais abafados no piso de madeira da sala e do quarto, os latidos do companheiro que não estão, mas ainda parecem estar, são as respirações mais profundas dela, os choros com soluços que eu ouvi por meses, o luto que ronda o corredor em frente à sua porta, a colher, raspando o fundo de um tabuleiro de alumínio para bolo, as risadas da TV e as notificações do celular — a do Mercado Livre me incomoda profundamente — que dizem que ela ainda está e vive.
 
    Essas paredes de tijolo sobre tijolo nos fazem ser íntimas, mesmo que não troquemos poucas palavras por  muitos dias; temos a segurança de uma solidão de mulheres velhas que escutam uma a vida da outra. O tijolo sobre tijolo das construções da classe da qual fazemos parte, nos mantém permanentemente próximas, caso contrário, o concreto nos apagaria.
    Mais duas tentativas das visitas, e ela se mantém silenciosa para o lado de fora; não atende, ignora. Mais alguns minutos, e o meu interfone é acionado pela primeira vez no dia. 
    Atendo com a voz de quem ainda não falou nada, de quem nem café tomou ainda. E do outro lado, a simpática visita:
 
    — Bom dia! Desculpa se te acordei, estou tentando falar com a minha cunhada, ela mora no 302. Viemos de surpresa, você sabe me dizer se ela, por acaso, saiu?
    Eu sei que não saiu, talvez tenha ido à padaria, antes de eu acordar, mas está em casa agora. Sua respiração atravessa a minha parede, e agora, com essa comunicação iniciada pelas suas visitas, parece mais ofegante, ela está imóvel no meio da sua sala agora — eu apostaria. Sei que eles também sabem que a mulher não saiu sem avisá-los. Desde que a conheço, seus passos não avançam muito além dos quarteirões do bairro. Um AVC se impôs na sua rotina e depois de muitas sessões de fisioterapia, o arrastar da perna direita é nítido e, segundo ela, bastante doloroso, quando se esforça demais. Saía mais quando tinha o cão e ele necessitava de passeios. Mas agora, mais só e mais velha, sua mobilidade só é intensa no apartamento.
 
    E eu digo o quê para a visitas? Que ela está e não os atende porque não quer? Que ela está e talvez queria ter seu domingo completamente para si? Que ela está e que sempre preferiu a companhia canina do que do que a do irmão, da cunhada e da menina? Ou simplesmente que ela está e que perdeu a audição e vontade de vê-los?
    — Bom dia! Sem problemas...eu escutei alguém abrindo o portão mais cedo, mas não sei dizer se foi ela quem saiu. 
    Tentei a diplomacia.
    — Se não for muito incômodo, você poderia bater na porta do apartamento dela? Talvez o interfone de lá esteja com defeito...é que ficamos preocupados, você sabe.
    — Claro!
    Agora o problema é meu. Ela está e não atendeu à família. Não irá me atender. Vou chamá-la e também serei ignorada. Vou de pijama e, se tiver sorte, não encontrarei ninguém pelos corredores. 
    Quando eu levantava o braço para bater na campainha, a porta se abre. Me assustei e fiquei envergonhada de estar de pijama e não ter lavado o rosto.
    — Eu não vou atendê-los. Diga para não insistirem e voltarem outro dia. 
    Sorrio amarelo e pergunto:
    — Mas porquê você mesma não faz isso?
    — Você viu como eles são simpáticos? Não consigo falar "não" para aquela mulher. 
    Disse e sorriu. Há meses, eu não a via sorrir. Fechou a porta e me deixou do lado de fora com uma missão que eu não queria para um domingo. Tive raiva, mas entendi. 
 
    Voltei ao meu apartamento, tirei o interfone do gancho e não cheguei à janela. Liguei o monitor da TV para assistir, pelas câmeras, a família instalada na calçada, em frente ao prédio, por alguns minutos. Não sei dizer "não" às visitas, tampouco à vizinha do 302. Mas escutei seu contentamento quando eles, finalmente, desistiram do contato.
 
    Às vezes só nos dão o que não queremos: visita no lugar da solidão; a salvação na alegria morna, quando só queríamos ser arrastadas pela tristeza; o contato humano, quando ainda ressentimos pela falta do amor canino. É dar um automóvel, quando o que desejamos era uma companhia para andar infinitamente pelo desconhecido. Nos oferecem papel e um anel, quando tudo o que desejamos é partilha e lealdade. Compram uma máquina de café, só porque reclamamos que nunca fizeram o nosso desjejum e trouxeram até à cama. Adotou um gato de rabo grosso, porque eu disse que eu tinha saudade de ser família — ainda minha melhor herança desse tempo.
    O domingo foi gelado e sem visita para nós. Não dissemos "não", mas também não aceitamos o "sim" sem resistência. 

 

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