Escrevo de uma terra quase devastada. E escrevo porque ainda não sei por onde começar a reconstruí-la, embora saiba que irei fazê-lo antes mesmo de escovar os cabelos outra vez.
Escrevo com a mão que me sobrou desocupada, na última folha de papel que não foi queimada.
Escrevo com a mão que me sobrou desocupada, na última folha de papel que não foi queimada.
Escrevo no caderno guardado na gaveta da escrivaninha — que não fica exposto às visitas, tampouco trancado como um mistério — do qual sinto imensa falta quando não o ocupo, mas que nem sempre posso visitá-lo.
Escrevo com o coração em pedaços, a roupa amassada e os sonhos distantes, perdidos numa paisagem cujo céu é azul escuro e intranquilo.
Escrevo com um sol ameaçando no horizonte, mas ainda incerto entre as nuvens.
Ocupo um país antigo, que agora parece, de novo, desconhecido. Com suas suásticas emuladas, livros queimados e mães sozinhas com bebês que sorriem.
Ocupo quarenta e seis metros quadrados de esperança, com um vaso de flor ao centro e os sapatos no tapete da entrada, preparados para qualquer urgência.
— Urgente!
Sobreviver era inadiável há seis dias; continua sendo, mas com menos gritos.
Lavo um chão com cacos de pisos diversos colados, retalhos de outras construções, restos que nunca habitaram inteiros. Enquanto esfrego, penso na particularidade de cada peça; antigas, coloridas e coladas a uma nova chance de existirem.
Varro a poeira das demolições, afasto o que não pode mais existir; mas o pó escapa às tentativas e se esconde nos cantos, nas frestas escuras, nos vãos, nos lugares onde a vassoura não chega; o passado sempre à espreita, a ameaça só se disfarça.
Dirijo em um tráfego tumultuado e solitário. Todos os outros motoristas obedecem aos sinais, às placas, aos algoritmos nos seus celulares, mas não veem os que atravessam, os que param nas ilhas entre as faixas de pedestres e os que esperam uma chance. Todos rezam para um deus que não é a sua imagem e semelhança, pelo contrário.
Contorno uma avenida barulhenta e incomunicável, não posso acelerar porque estou cercada, tampouco posso parar para respirar um pouco; sigo o fluxo para não atrapalhar quem tem pressa.
Invento uma língua que ainda não se divide e, por isso não faz diferença, se existe. Porque sozinha não ecoa.
Testo um idioma mais delicado, um dicionário mais subjetivo, mas ninguém entende quando eu falo. Então uso as palavras que já existem e imito a comunicação com a qual não tenho muita familiaridade.
Estou náufraga em uma ilha cujo sol me cega, às vezes, e nenhum peixe permanece por muito tempo.
Estou moribunda de uma passagem que só aproxima quando me distraio, mas estou quase sempre muito atenta.
Hasteio uma bandeira vermelha e visto uma camisa verde e amarela para que saibam que não traio meu chão, embora preferisse flutuar, na maior parte do tempo.
Escrevo de um país remotamente em chamas e não sei se saio salva, mas ferida é muito provável. Escrevo com a tinta vermelha da esperança que nesses últimos dias tem sido mais forte do que a poeira varrida da indiferença. Habito uma esperança rubra cujos caminhos são tortuosos, mas persistentes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário