Nunca mais os pés roçando o outro par de pés debaixo das cobertas, nunca mais os barulhos noturnos do outro corpo. Tampouco os odores que variavam ao longo do dia e estações do ano — de colônia pós-barba às sete da manhã, do suor no pescoço depois da academia, do hálito de café às quatro da tarde e de sabonete de oliva às vinte horas.
Nunca mais a imprevisibilidade das viagens de férias e dos ritos nos eventos familiares, o ar-condicionado sempre no mínimo, o futebol na TV o domingo inteiro, o tropeço no prato da Costela-de-adão no corredor de entrada. Nunca mais o pano de chão para secar o acidente diário.
Arrasta, de novo, um móvel e o instala no meio apartamento, cheio de lugares a serem ocupados. O sofá não veio, com a mesa de jantar trouxe a metade da quantidade de cadeiras, que compraram separadas, cada uma em um estilo diferente, para comporem o espaço iluminado que tinham (ideia dela). Agora são três cadeiras em um apartamento de fundos, com menos claridade e aluguel viável.
Trouxe a poltrona amarela e uma parte da estante, projetada para a outra sala, mas que retirando os pés e uma prateleira, coube exata no quarto/escritório atual.
Na biblioteca, também tem metade dos livros, mas não conferiu se vieram todos dela ou se tem algum que furtou sem saber. Ainda não tem coragem de revisitar as páginas, para não ver as dedicatórias, para não descobrir o crime involuntário, para não encontrar nas partes grifadas sinais de algum luto prévio. Mas que ele existiu, até a Costela-de-adão foi testemunha, e agora ela olha para ela, mantida ao lado da porta de entrada.
— Nunca mais pés desastrados a abalarão.
Promete.
Ainda há quadros para pendurar e cortinas que precisam ser instaladas, mas sem urgência, porque o sol não entra aqui como invadia lá.
Metade do apartamento tem espaços vazios, metade da vida agora faz algum sentido. Nos próximos meses se dedicará a ocupar os espaços progressivamente, também sem desespero: com outra mesinha de cabeceira, mais cadeiras (pelo menos mais duas), algum novo amigo, um sofá, uma TV maior e aparador para sala, um micro-ondas, um novo idioma, uma máquina de café e outra de waffle, que quase nunca comia, por causa das calorias, mas quando abriu mão da máquina, se arrependeu imediatamente de não tê-la desfrutado por vaidade.
Arruma algumas gavetas e suspeita fortemente de que tenha trazido todos os panos de prato com ela, pensa em embalar alguns deles e mandar entregar na outra metade do apartamento em algum lugar da cidade, mas não tem o endereço e a máquina de waffle está lá agora, merece alguma compensação, que seja os panos de prato.
Poderia ligar ou mandar uma mensagem, avisando sobre os panos de prato, mas faltam palavras para conversar com alguém tão distante e tão íntimo. Do que chamar? Como iniciar uma conversa? Qual o grau de formalidade recomendado em casos assim? Não sabe. Vai dormir e deixar para pensar nisso no dia seguinte, o que pode ser muito tarde para avisar sobre os panos de prato.
Nunca mais os pés macios de hidratante, roçando os pés rústicos embaixo dos lençóis de linho de algodão, cujo o conforto antes da companheira apresentá-lo ao tecido, jamais tinha experimentado. Nunca mais as palavras incompreensíveis durante a parassonia dela. Nunca mais a ponta gelada de um nariz, procurando o cheiro dele.
Nunca mais as cobranças por avisos prévios e viagens planejadas com meses de antecedência, nunca mais ter que explicar os costumes da família e se envergonhar de alguns deles, ao tentar introduzir alguém aos ritos ancestrais.
Nunca mais ter que alterar a temperatura amena do ar-condicionado por outra sufocante, nunca mais um domingo de futebol na TV com uma companhia que reclamasse do futebol na TV e a porcaria de uma planta atravancando o caminho diminuto de um corredor de apartamento.
Agora é o sofá, a TV, três cadeiras sem mesa, metade de uma estante e livros que ainda não conferiu se são todos dele. Finalmente, um apartamento espaçoso e com tudo o que precisa. Um apartamento inteiro só dele. Come um Waffle, porque a sanduicheira ficou com a outra parte. Procura por um pano de prato, depois de lavar a louça, mas não tem nenhum. Amanhã, comprará em algum supermercado ou semáforo do Centro.
Confere os lençóis e estão lá: três conjuntos. Queria ligar e falar sobre os lençóis que são tão bons para ele e sobre ela ter apresentado coisas que ele não conhecia e agora são tão importantes. Mas como ligar? não combinaram nada sobre isso. O que ela acharia de uma ligação dele agora, a essa hora?
O repertório de palavras do início, era desconhecido, mas promissor; à medida que ele a procurava, ela o respondia e parecia mais disponível, interessada e engajada nas respostas para as perguntas dele. Era uma linguagem carregada de curiosidade e interesse. Depois, eram palavras mais lânguidas, que escorregavam molhadas nos ouvidos um do outro, cheias de desejo e paixão.
Mas, numa tarde, depois de mais um esbarrão na Costela-de-adão, e o piso molhado sem pano de chão para secar — desistentes — a língua era ressentida, o idioma era o do desprezo e da solidão. Mais tarde, era raiva, desilusão e depois a burocracia, os seus e os meus. Os cálculos das mesquinharias. Três conjuntos de lençóis e três cadeiras de estilos diferentes para cada um. E, depois de tudo, qual palavra usar?
Depois de duas metades estrangeiras na própria cidade, asiladas da completude sonhada instalarem cortinas nos seus abrigos a quem elas vão contar que a Costela-de-adão sobreviveria a quantos terremotos fossem e o piso frio jamais ficaria marcado, se não o secassem nunca?
Qual a língua da dor que deseja ser reconhecimento para uma metade que ainda ocupa tanto espaço, mesmo depois do caminhão de mudança partir? Era melhor que comprassem uma Espada-de-são-jorge e enviassem mensagens de texto, com o idioma que inventassem de novo.
Os outros têm curiosidades mesquinhas ou, o mais comum, a indiferença, ele não.
Voo ou estaciono sem nunca um flanelinha atestar a minha habilidade espacial, mas ele sabe onde pouso e fica alegre quando eu abro a porta da minha nave.
Desço corredeiras inimagináveis e porque não me afogo, ninguém pergunta pela minha jornada, enquanto ele registra nas suas retinas e depois narra a minha coragem.
Todos os meus números são publicáveis, mas só ele sabe quem eu sou sem nunca ter conhecimento de nenhum deles. Idade, altura, número da casa, dos sapatos, das publicações, dos meses enlouquecida, das marcas nos pulmões, dos gatos, das espadas-de-são-jorge, dos minutos no banho ou em cada rede social; para ele, nada disso importa.
Aos outros, o que interessante é o que podem contar, depois de me fazerem uma pergunta e mal ouvirem a resposta; para ele, o mais importante é o tempo da minha respiração.
Os outros fazem conjecturas sobre a minhas palavras, enquanto ele nunca me leu, nunca me ouviu, mas é a minha comunicação mais cheia de ternura nos últimos anos.
Se eu me ausento, ele me procura, se não me encontra se consola com a certeza de que sempre volto. É essa a nossa relação: sem promessas, sem palavras, sem informações, só certezas. Ele estará lá e eu passarei e vou acenar no tempo certo.
Para ele, não sou nada, não faço nada, não escrevo, não faço planilhas, não oriento calendários, não falo ou lavo as suas roupas, é
um afeto desinteressado, parece. O que me comove sempre, assim como quando eu ainda estava em sala de aula e tinha alunos pequenos. Era afeto, confiança e muitas dúzias de ingenuidade sobre um mundo em que amar era possível sempre, mesmo se não fizessem a lição ou eu não permitisse que guardassem o material dez minutos mais cedo.
Depois de alguns meses sem nos vermos, eu volto. Porque a avenida é refúgio, a primeira geografia desejada, se não tenho que cumprir as oito horas diárias da jornada adulta. O asfalto é uma fantasia de invisibilidade — sustentado pelo boné de aba larga e tênis esportivo — na qual eu me fio fortemente há mais
de uma década. Mesmo tendo indícios, provas até, de que eu continuo bastante reconhecível.
Mas afastada por meses, quase me esqueci de procurá-lo. Já passava alguns metros do lugar onde nos cumprimentávamos diariamente, quando me abaixo para ajeitar a meia, devorada pelo tênis novo, e vejo o homem idoso com meio corpo para fora de uma grade da rampa sinuosa da arquitetura modernista da casa onde ele trabalha.
Da última vez que o vi, ele já parecia muito debilitado, magro e envelhecido, embora alegre de orelha à orelha. E agora mais, o tempo parece engoli-lo aos poucos; um centímetro a cada dia, dois quilos a cada semana. Parece menor, o rosto mais encovado, mas o sorriso persiste.
A arriscada manobra para chamar minha atenção tem efeito, me levanto, viro com o corpo todo para ele e aceno. E só. Não há palavras com desejos de um ano mais feliz, nenhuma pergunta sobre o meu desaparecimento, estado civil atual, se viajei no réveillon ou se estou feliz com alguma justiça recente da nossa história. Nada disso faz parte do que temos. Só me viro e sigo me sentido completamente visível.
A cena do homem, em cima da rampa, com o corpo fragilizado pendurado em uma grade e a mão direita erguida abanando insistentemente se repete na minha lembrança o dia todo; era bizarra e bonita. Era arriscada e pueril. Vê-lo tão disposto a se mostrar para mim, a me olhar nos olhos e manifestar que ainda me vê é um tipo de afeto que ainda me constrange um pouco, como quando os alunos diziam na frente das outras professoras que eu era a preferida, mas também me dá o que custamos muito a ter, a visibilidade por um outro ângulo, o afeto que só uma perspectiva desinteressada pode alcançar.
Aos outros sou visível quando interesso e oculta se desagrado; para ele eu sou a mesma que corre urgente há anos na rua em que ele rega plantas. E é o bastante.
Eu ainda lembro dos vestidos, dos chapéus e, eventualmente, do que ela fazia para sempre ali, cristalizada em um retângulo de algodão com barra alaranjada.
Era um conjunto de sete panos de prato, cada um com um nome do dia da semana bordado em linha azul. Em cada um deles, a silhueta de uma mulher sem rosto, porque estava sempre de costas ou de perfil — já não me lembro bem — , com o chapéu, escondendo a sua face.
Em cada pano, uma cena, um quadro, uma história à qual eu não me cansava de emendar pedaços. A posição da moça no retângulo branco de algodão não mudava, a variação era a estampa do vestido e o que ela fazia em cada dia da semana, evidenciado quase sempre por objetos e paisagem diferentes.
A mulher do pano de prato era uma moça antiga e rural, cercada por uma natureza desenhada por linhas de um verde vivo e um céu sempre azul com o sol amarelo-gema; o seu vestido era longo e rodado. E eu sonhava com o figurino e a vida tranquila da personagem que vivia no cotidiano da cozinha de casa. A moça bordada tinha vestidos com motivos e cores diferentes para cada dia da semana. Dos vestidos eu me lembro bastante, mas o tema de cada dia já não são tão claros depois de algumas dezenas de anos.
Me lembro do quadro de domingo claramente: uma capela ao fundo, o terço e uma bíblia nas mãos da mulher sem rosto. Terça-feira era o dia de alimentar as galinhas e ela tinha um cesto na mão, com galinhas bordadas ao redor do vestido rodado dela e alguns grãos amarelos espalhados na parte inferior do retângulo. Acho que quarta-feira era o dia de colher laranjas e ela aparecia ao lado de uma árvore repleta de frutas redondas de cores vivas. Havia também um dia dedicado ao jardim. Os outros dias, eu me esforço para lembrar e não consigo.
Eu gostava tanto dos panos de prato, das imagens e da moça que, com o tempo, eu passei a temer que eles acabassem. Minha tia é quem os tinha bordado para o enxoval da minha mãe e eu insistia que ela pedisse um conjunto extra para que não ficássemos desassistidas dos bordados bucólicos que preenchiam a minha vida. Minha mãe prometeu que pediria, minha tia nunca mais bordou nada.
Aos poucos, eles foram se desgastando, as linhas nunca se soltaram ou desbotaram, mas o tecido começava a puir. Quando o primeiro deles deu sinais de fim, minha mãe deixou de usá-lo e o guardou limpo e passado para que o desenho pudesse ser reproduzido um dia. Na sequência, segunda-feira e sábado receberam o merecido descanso e com dias da semana a menos, o domingo podia ser usado em uma quinta-feira e o de quinta-feira por três dias seguidos.
Quando eu vi essa confusão de dias e panos temáticos instalada na cozinha da casa, eu compreendi o valor sentimental das coisas. Minha infância, as histórias que eu criei para moça sem rosto e de chapéu, os vestidos e a vida que eu sonhava também ruíam e isto era vida; um pouco melancólica, mas inevitável.
Mais tarde, minha tia de mãos artísticas morreu, sem nunca reproduzir o próprio trabalho, os panos de prato de casa eram comprados prontos, a minha mãe começou a ter dificuldades em distinguir os dias da semana e os detalhes daqueles quadros tão familiares começaram a se apagar também para mim.
A moça do vestido e chapéu, a mulher sem rosto sempre capturada por afazeres domésticos e bucólicos e tudo o que eu atribuí a ela se desgastou sem volta. De vez em quando, tenho saudades da coleção de dias pendurado na tampa do fogão ou cobrindo um bolo em cima da pia. De vez em quando, tenho saudades da minha tia e da precisão da memória da minha mãe. Mas tudo em volta também se desgasta.
Agora os dias da semana na cozinha materna se desfazem como o tecido branco que segurava cada quadro, mas as linhas do contorno da moça ainda resistem. Um pouco frouxas, um tanto desgastadas, mas ainda contam histórias. Um dia, também se apagarão e serão engolidas pela ruína do tecido que as sustentam. Nada que dure infinitamente, nenhuma linha que se eternize. Só a memória de que algum desenho bonito existiu na cozinha de uma casa que talvez eu me lembre de ter sido a minha.
O amor e o esquecimento abriram os armários da casa, o primeiro procurava argumentos para ficar e o segundo, a libertação. O amor colocava roupas e fotos, com delicadeza, em cima da cama para não bagunçar nenhuma lembrança ou embolar uma manga de camisa na perna de alguma calça, enquanto o esquecimento atirava lembranças e objetos pessoais no carpete do quarto.
O amor e o esquecimento abriram gavetas, rastrearam prateleiras; o amor segurava cada coisa com a esperança de resposta e o esquecimento lançava longe o que não importava mais.
O amor e o esquecimento organizaram escavações no quintal, o amor procurava os últimos vestígios de uma civilização, suas rotinas, suas organizações, seus afetos e familiaridades, enquanto o esquecimento só via ossos.
O amor enterrava a pá com cuidado para não corromper as materialidades de outros tempos e desenterrava vidas passadas inteiras; já o esquecimento afundava a pá com a brutalidade dos colonizadores e retirava pedaços e pó.
O amor e o esquecimento lançaram suas embarcações ao mar, o amor procurava resgatar espécies perdidas dos seus cardumes e o esquecimento buscava prender o máximo de corpos náuticos nas suas redes.
O amor enfrentava tempestades, ondas gigantes e dias de náufrago em ilhas distantes; o esquecimento afundava navios, atrasava salvamentos e rompia os tratados de paz. O amor resgatava o que o esquecimento ameaçava.
O amor e o esquecimento se lançaram ao mar, o amor mergulhava nas águas que o esquecimento escureceria. O amor, às vezes, saía vivo e noutras vezes, só o esquecimento é quem se salvava.
O amor e o esquecimento foram ao fórum, o amor defendia e o esquecimento ameaçava. O amor se valia de testemunhas e o esquecimento as calava.
O amor e o esquecimento se confrontavam em frente ao júri, o primeiro comovia o público e o segundo, enxugava as lágrimas sem remorso. O amor insistia na inocência e o esquecimento o acusava de charlatanismo. O amor não prova nada, o esquecimento é o último a falar.
O amor e o esquecimento travavam luta peculiar, o amor vencia, mas o esquecimento não deixava ninguém se lembrar.
O amor e o esquecimento entraram na cozinha; o amor escolheu passar um café e o esquecimento deixou o bolo queimar no forno. O amor cozinhava em banho-maria, enquanto o esquecimento arrancava páginas de receitas familiares, ingredientes da memória e deixava a dona de casa sexagenária desolada por errar de novo no tempero, na textura, no tempo de cozimento.
O amor amassava o pão, cobria com tecido de algodão o leite com iogurte e esperava a fermentação da coalhada; o esquecimento atravessava a mesa, desligava o fogão, abria a torneira e escondia talheres.
O amor e o esquecimento alcançaram a enfermaria, o primeiro amenizava os arrependimentos, fazia curativos, encontrava com gentileza as veias escondidas da paciente que precisava de soro e a encorajava a acreditar na cura; o segundo a fazia gritar de dor por não saber quem era.
O amor e o esquecimento visitaram minha avó, o primeira a fazia sorrir a cada rosto familiar que ela encarava, o segundo a fazia temer a tudo que ela, de repente, passava a desconhecer.
O amor e o esquecimento andavam pelos corredores do hospital, o primeiro chegava antes do turno e saia todos os dias depois que os pacientes dormiam; o segundo chegava a qualquer hora e desorganizava a calmaria que o amor trazia.
O amor e o esquecimento estiveram na
última discussão, o amor falava em tom ameno e tentava ouvir as partes,
sem julgamentos; mas o esquecimento tomava sempre algum partido e
incitava mágoas passadas. O amor recorria às lembranças e o esquecimento
as lançava pela janela.
O
amor e o esquecimento estiveram na reconciliação, o amor chegava
inteiro, sem corrupções, já o esquecimento, fragmentado, interrompia
raciocínios, elegia animosidades. O amor ficou sozinho na sala, o
esquecimento comemorou. Mas o amor não desistiu e nas brechas do esquecimento, é ele quem orienta as mediações.
O amor, discreto, dá a palavra, a escuta, ferve a água do café, mede a temperatura do corpo em recuperação, legitima depoimentos, comanda botes e abotoa o coletes salva-vidas, enquanto o esquecimento escorrega na própria imperícia, se estabaca e volta, mais tarde, colérico e limitado, para ameaçar o amor.
Ela percorre o mundo sobre um cavalo. Ninguém mais o vê. Seus cabelos não voam ao vento — estão curtos, agora — sua voz soa como um alarido feudal, sempre em luta. Ela comunica as novidades do passado, faz previsões do que já aconteceu e, por isso, ninguém a compreende. Quando alguém a ouve pela primeira vez, até tenta entender seu estranho idioma, seus gestos de um outro tempo, sua liberdade expandida pelas ruas, mas logo desistem, naturalizam a sua perturbadora presença incisiva, de gritos, gestos e palavras incomuns. É como se ela fosse a fratura inevitável e inerente à alguma ordem.
Admiro que ela viva em um outro mundo. Que não seja a fantasia de alguém
frustrado que tenta colocar na boca da personagem real algo que ela não
diria ou que soaria mais agradável. Ela não quer agradar a ninguém.
Carrega a mesma mochila todos os dias, não sei o que tem lá, mas
suspeito que sejam itens para alguma sobrevivência: arma branca, cantil, moedas, cartão de crédito, isqueiro, identidade, caneta com um bloco de notas, hidratante labial não. E também as mesmas roupas, calça jeans, camiseta e casaco de moletom, mesmo que o sol de meio-dia seja de verão. Para mim, ela empunha uma arma imaginária e suas roupas são peças de uma armadura.
No entanto, ela parece pacífica nesse mundo, enquanto luta em um outro, o qual evitamos confrontar.
Suas narrativas sinistras, de sequestros, torturas e perseguições a deixam muito ativa e, por isso, seus olhos são de vigília e sobressalto. Para ela, não há descanso possível.
Invejo a sua persistência em andar por esse mundo, ignorando o conforto das companhias, das concordâncias e das gentilezas sociais. Admiro a sua resistência em lutar contra o que ninguém mais sabe, o seu esforço em salvar aquele outro mundo, enquanto atravessa esse aqui.
Já quis ser como ela, ensaiei até a visita em um outro mundo, onde o meus sonhos não fossem pulverizados a cada desencantamento. Embora não tenhamos futuro, ainda estou muito atada a esse chão de seguranças provisórias e compreensões intermitentes.
Sozinhas.
Eu e ela, estamos sozinhas com as nossas vozes e perspectivas de salvação. Sozinhas. Nós duas nos agarramos à crina de um cavalo e tentamos não cair nos solavancos, enquanto empunhamos as nossas armas.
Sós.
Seguimos encurraladas pelas misérias de dois mundos que não nos garantem o mínimo de segurança ou dignidade.
Ela é a profeta de um mundo que existe e tememos, em um mundo que não existe e nos sentimos em casa. É ela quem nos alerta, quem se mantém firme no cavalo invisível e choca com a única revelação provável: não estamos seguras. Nem naquele, tampouco nesse mundo.
Terei aquela arma, em pouco tempo, terei a mesma voz, olhos vigilantes e cabelos curtos grisalhos, só assim para atravessar os mundos que não nos querem vivas.