sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A elefanta que queria ser bailarina

  Ao que me parece andamos em insondáveis círculos, rodopios que nunca terminam: relações que se repetem, mesmo quando a pessoa é outra; projetos que voltam as nossas mãos, depois de parecerem perdidos; gente que cruzou a esquina e não se tardou a voltar. A vida em piruetas desconcertantes, nos faz voltar a um mesmo ponto incontáveis vezes. Testa nossa memória, avalia nosso aprendizado com a experiência anterior e, principalmente, anuncia, sem rituais, nossa impossibilidade de fuga de alguns medos. Lembrei disto quando revi, em uma gaveta da casa, o livro em capa verde, de camurça.
  Coloquei-o no colo, delicadamente, como se segurasse uma relíquia valiosa e nas suas páginas amareladas, assisti algumas vidas passarem. Eu tinha dez anos e fazia um projeto de literatura para a escola. A professora escolhia uma redação de cada aluno, para que transformássemos em livro; uma página para cada trecho do texto escolhido e  uma ilustração. A minha produção selecionada tinha o título: "A Elefanta que queria ser bailarina".

  A fábula era simples, pequena: uma elefanta, um sonho impossível, determinação e amizade. Uma elefanta, que acorda um dia, na floresta, determinada a se transformar em uma bailarina profissional, premiada e muito famosa. A estória se desenvolve a partir dessa impossibilidade: uma elefanta que sonha em ser a primeira bailarina de um grupo famoso. Ao longo do processo de realização do sonho, entre treinamentos, ensaios e tentativas frustradas, ela mobiliza toda a floresta para a realização de um projeto que lhe parecia essencial. Em cada página do livrinho, a elefanta se vê frente a impossibilidade da realização de seu sonho: falta-lhe jeito, biotipo, graciosidade e leveza. E nas inúmeras tentativas, a Elefanta é sempre apoiada pelos outros moradores da floresta: a  Girafa, dona de uma postura elegante, tenta ensiná-la a ser mais delicada; o Macaco que tenta ajudá-la com as piruetas. Enfim, os dias, semanas, meses passam e a Elefanta se confronta com a difícil constatação de que seu sonho se torna cada vez mais distante. Os amigos conhecem bem a inabilidade da carismática elefanta para tal empreitada, mas por lealdade, amizade, algum tipo de sentimento incondicional,  resolvem apoiar, de todas as formas possíveis, o sonho alheio. 

  Era uma estória infanto-juvenil, criada por uma criança, mas, em algum plano, parece real, provável e até recorrente. Não, a Elefanta não se torna bailarina, e isso já não era o mais importante para a autora mirim. Na parte final da fábula,  a Elefanta comunica aos exaustos amigos, da sua desistência do sonho e o desejo de realizar um outro novo: ser top model internacional. Enquanto a personagem sonha com o seu futuro promissor, com direito a nuvenzinha de pensamento (ela na capa de revistas), seus amigos correm desesperados, já conscientes dos problemas do novo sonho da Elefanta. Este era o final da minha fábula: um final com possibilidade de continuação, sem  a típica felicidade "para sempre".

  No livro de capa verde, uma Elefanta dourada, ainda brilha em um de tutu rosa, nas suas páginas amarelas além da fábula, uma suspeita: e se já soubéssemos, antes de qualquer racionalidade, o que nos espera mais a frente? É como se o arrepio inexplicável, ao atravessar um corredor, em um dia qualquer, nos indicasse o que somos e ao que viemos. Como se um relâmpago de evidências nos prevenisse do que viria mais a frente. Acabada a fábula, continuo elefanta de sapatilhas de cetim, consciente do drama animal que eu mesma inventei e do qual nunca consegui sair.
  O que eu não sabia e só me dou conta mais de 20 anos depois é que a Elefanta sou eu, o sonho de bailarina impossível talvez seja meu. Meio elefanta, meio bailarina, sigo na dança, mesmo quando tudo pesa. Esse é o meu caminho, esse é o meu número, escolhido ou não, é ele que tenho vivido tantas vezes.




2 comentários:

Anônimo disse...

Nao acho vc uma elefanta... simples assim!!!
PS: eeeeeeeeeeeh, parabens p mim!!! Comentei aqui e nao te liguei...hahahah!!!
Rafa

Amanda M. disse...

Não é que a garota aprendeu?!rs