sexta-feira, 22 de junho de 2012

E depois de pronto, o que a gente faz?

   Imagino ela sonhando e desejando com toda a sua força que o doce sonho se realizasse. Terá passado dias, meses, uma existência quase inteira, colocando toda sua energia para a sua concretização. E agora que o tem nas mãos me parece tão desiludida, tão longe do sentimento imaginado. Porque os sonhos nunca são uma figura isolada em um quadro, trazem consigo paisagem, personagens secundários e mesmo uma moldura específica; sonhamos com o sonho e, principalmente, com os seus "acessórios". A gente coloca nossas esperanças no sentimento que magicamente virá com o sonho concretizado e em tudo que mudará a partir dele.

  A jovem senhora, bem jovem, só chamo-a de senhora, em função do seu comportamento, que assemelha-se bastante aos das "jovens senhoras" de décadas atrás. Deve ter em torno de 35 anos, é exclusivamente dona de casa desde que a conheço, há uns 7 anos. Desde que me mudei para perto da sua casa, vejo-a se relacionar somente com familiares (mãe, marido e seu filhinho), quando a vejo na rua, nunca me cumprimenta, sempre abaixa a cabeça quando passa perto de qualquer pessoa, dizem os vizinhos mais antigos que a moça sempre foi muito tímida, mas acho-a triste, talvez desiludida. A moça pálida, levanta-se todos os dias antes das seis horas da manhã, para lavar sua varanda, mesmo com a temperatura baixíssima. Vejo-a  sempre dedicadíssima com os afazeres domésticos e quase sempre irritadíssima. Sua voz, só ouço quando ela esbraveja com o filho e faz isso quase o dia todo e por muito pouco. 

  De certo, que crianças dão mesmo bastante trabalho e é normal que percamos a paciência com elas vez ou outra, mas o caso é que me parece muito constante e, na casa, o clima é quase sempre de animosidade, irritabilidade e uma tensão contínua. Imagino a moça anos atrás desejando formar uma família, sonhando em casar-se com então namorado e juntos terem um bebê. E depois que tiveram, o que fazer? Cadê a completude e satisfação desejada? O filho tem uma voz agudíssima, quando não está na escola, fica o dia todo em casa com a mãe e como a mãe quase não sai e também não se relaciona com as crianças da vizinhaça; o garoto e mãe são duas figuras estranhas, parecem-me dois seres desajustados. 

  Talvez, a moça sonhava que a maternidade lhe traria mais desinibição, mais "assunto", que poderia compartilhar com outras mães iguais a ela, talvez ela não esperasse ter um filho (com todos os problemas e requisições que a experiência, implica), mas desejasse somente acalentar a figura terna de um bebezinho fofo. Quem sabe?

  A moça do andar de cima, sonhou muito com a vaga na faculdade, dedicou pelo menos dois anos para a realização do seu desejo e agora sai de casa rumo ao "seu sonho" com total desdém. - Nada salva naquele lugar. Dizia ela ao telefone dia desses.

  A amiga comprou o carro que sonhou desde que nasceu (?). Adora viajar, sair para os lugares mais longínquos, nos horários mais improváveis, o que um meio de transporte próprio pode sempre proporcinar, mas ao perguntá-la sobre o sentimento de realização, ela respondeu: - Não foi como eu sonhei.

  Nunca é. Pois o melhor do sonho, é  o sonho mesmo. Imaginar um sentimento, às vezes, é mais intenso do que sentí-lo, talvez porque nos preparamos tanto para um momento que deveria ser natural.

  Quem muda alguma coisa somos nós, os nossos sonhos não são capazes de sustentar tudo o que esperamos deles. Desilusão é normal sim, mas agradecer só pelo fato de ter atingido algum sonho faz toda a diferença . Esqueça os "acessórios", só por um minuto, e lembre-se de ser feliz com o seu sonho; você e ele, sem expectativas, sem ensaios. Não espere nada além do sonho, porque se não esperar, certamente será surpreendido e não mais desiludido.




3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o texto e achei lindo o vídeo!

“Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace.”
Frida Kahlo (Diários)

Amanda M. disse...

Também adorei Marisa e Julieta. E Frida tem mesmo razão!

Anônimo disse...

nao vi o video...mas to no texto...haha. bel