segunda-feira, 25 de junho de 2012

Das nossas covardias

  Sentada na praça mal iluminada, esperando a amiga que virá me encontrar depois da sua aula. Olhando para o nada, nada mesmo, nem o relógio eu consulto, penso nas questões de sempre ou em nada, não sou capaz de me lembrar. E, de repente, sou abordada por uma voz desconhecida: - Oi! Tá esperando alguém? Olho para trás, surpresa, mas não há com o que me preocupar, penso rápido: "a garota parece inofensiva". Ao menos parece...

  Pergunta se pode se sentar, diz que espera uma prima adolescente com a qual saiu, pelo que entendi, para acobertar um encontro da prima. Enquanto a adolescente desfruta da companhia de um "pretendente" (sei lá a quê!) a garota, antes só na praça, ao me ver também sozinha resolveu se aproximar. E, em segundos, a moça se sente à vontade o bastante para me perguntar por quem espero, qual a finalidade do encontro e outras tantas curiosidades simples, mas para mim de certo modo invasivas, já que nunca na vida havia visto a tal garota. Receptiva, mas meio "incomodada" com a rapidez da moça, sou sucinta: - Aguardo uma amiga, que sairá da aula, para conversarmos. E, isto é quase tudo que falo nos próximos minutos de conversa.

  A garota não se intimida com a minha maneira sintética, ela quer conversar e, de alguma maneira, percebo que não falará do tempo (clima), nem dos tempos atuais (época), nem novela, nem das "crianças de hoje em dia", ela não optará pelo "neutro"; logo na sua abordagem eu percebi que ela não era dessas mulheres. Mulheres que não são "dessas mulheres" sempre reconhecem-se. E a garota, como suspeitava, desabafa sobre um imbróglio amoroso do qual acaba de sair, na verdade, ela diz que "acaba de sair", mas parece-me ainda estar no meio do tal "quiprocó", senão, não incomodaria-se tanto com a tal história. 

  A moça desesperada relata-me, com riqueza de detalhes (com os pormenores mesmo!), o desenrolar dos tais fatos, conta-me da imaturidade do antes amado, agora algoz (?), do desejo latente de uma mulher de quase 30 anos, sentir-se segura em um relacionamento, estabelecer laços familiares, ter filhos, etc. Confesso que não consegui acompanhar bem sua narrativa, no seu olhar angustiado concentrava quase toda minha atenção, fora o ineditismo da situação. Ela, inclusive, optou por um caminho que detesto sempre: o de generalizar: "Porque nós mulheres isto, nós mulheres aquilo...". Éramos duas mulheres, na mesma faixa de idade, sentadas na praça mal iluminada de um determinado bairro, de uma cidade, de um estado, de um país, falávamos a mesma língua, enfim, tínhamos uma série de coisas em comum, mas acabava aí nossas semelhanças, eu pensava. Eu não agiria como ela com o tal rapaz, eu nem ao menos me interessaria por alguém como ela me descreveu (e contou nome, rua e até endereço de onde o tal morava), eu não sentaria numa praça e desabafaria com o primeiro estranho solitário que eu visse. Mas, eu fingi entendimento, eu inventei uma compreensão que eu não tinha. Balancei a cabeça, concordando, não protestei com a parte de "nós mulheres", achei que a situação não era própria para uma análise deste tipo. Segui concordando, emprestando ouvidos, olhos e gestos, porque a fala era só dela.

  De repente, os olhos da moça se encharcaram, tanto, tanto, que transbordaram. A maquiagem escorrida pela face, o rímel diluído em água salgada, ela chorava meio Rio Negro e eu não sabia o que fazer. Pensei que moça não era louca em me abordar, pensei que o fizera premeditadamente, pois não desejava que qualquer um que a conhecesse a visse com a face desmanchada, tão vulnerável, tão infeliz. Precisava mesmo compartilhar com um desconhecido, que não se sentiria responsável por ela, nem pela sua dor. Quando pensei na estratégia fria da moça e na maneira como toda aquela situação me desconcertava, tive raiva. Muita raiva. Achei-a insensível, achei que os seus problemas eram mínimos demais, que o seu desabafo era desnecessário, que a sua dor era ridícula. Antes que eu dissesse as piores coisas que eu pensava naquela hora, meu celular tocou, a amiga me esperava do outro lado da avenida. Olhei para moça mais uma vez, disse que precisava ir e desejei "boa sorte", saí com um ar soberbo de alguém que "tem mais o que fazer". Só isto eu fui capaz de fazer...

  E me odiei por isto. Certo que eu não a conhecia, não nutria nenhum afeto por ela e que o seu jeito de generalizar e de dimensionar seus problemas era muito diverso do meu. Mas, só por ter se exposto tanto, ter "confiado" sua dor a mim, ela merecia palavras melhores, um comportamento mais generoso, menos desconfiado e pudico. Ela merecia, no mínimo, a minha mentira: - Sim compreendo, já passei por isto também. E, isto vai passar. Você se casará e terá filhos com um homem muito especial e nunca mais vai chorar com estranhos em qualquer outra praça.

  Eu deveria ter mentido, ter lhe dado esperanças, mas eu saí, praticamente correndo, como se eu fosse incrivelmente maior, melhor e bem resolvida. E, é assim que eu tenho reagido com a dor de desconhecidos, com total covardia. Como no dia em que, sem querer, surpreendi a moça simpática da yoga chorando em um sinal de trânsito, ela constrangida ainda justificou o choro: - Sabe como é, longe de casa e a família com problemas, né? Antes que ela acabasse a frase eu já me preparava para correr, atravessei a rua, cortando os carros e desejando de longe o meu, já tradicinal: Boa sorte.

  Desculpem-me moças desconhecidas, pouco familiares, desculpem-me pela aparente falta de sensibilidade e generosidade, mas se depois de ouvir a dor de cada uma eu resolvesse também me abrir, estaríamos fadadas a uma cumplicidade para a qual nunca estive preparada. Ainda tenho estado muito covarde para assumir problemas alheios e, mais ainda, para compartilhar a pesada carga dos meus, com alguém.  É preciso tempo para tal intimidade...um século talvez, quem sabe?




2 comentários:

Anônimo disse...

gostei desse ein...profundo...foi verídico? hum, essa praça que tanto nos escutou...bel

Amanda M. disse...

Ah a praça...